PALESTRAS SOBRE O CAMINHO DO OCULTISMO – VOL.

Um Comentário sobre "Luz no Caminho"

ANNIE BESANT, D.L.

E

Rt. Rev.

C. W. LEADBEATER

1947. THE THEOSOPHICAL PUBLISHING HOUSE

Adyar, Madras, Índia

Primeira Edição, 1926
Segunda Edição, 1930
Terceira Edição,

PREFÁCIO

Este livro é apenas um registro de palestras proferidas pelo Sr. C. W. Leadbeater — agora Bispo Leadbeater — e por mim sobre três livros famosos — livros pequenos em tamanho, mas grandes em conteúdo.

Ambos esperamos que sejam úteis aos aspirantes, e mesmo àqueles que já ultrapassaram esse estágio, pois os palestrantes eram mais velhos que os ouvintes e tinham mais experiência na vida do discipulado.

As palestras não foram dadas em um único lugar; conversamos com nossos amigos em diferentes épocas e lugares, principalmente em Adyar, Londres e Sydney.

Uma vasta quantidade de anotações foi feita pelos ouvintes.

Todas as que estavam disponíveis foram coletadas e organizadas.

Em seguida, foram condensadas e as repetições foram eliminadas.

Infelizmente, verificou-se que havia muito poucas anotações sobre A Voz do Silêncio, Fragmento I, por isso utilizamos anotações feitas em uma aula ministrada por nosso bom colega, Sr. Ernest Wood, em Sydney, e incorporamos essas anotações às palestras do Bispo Leadbeater nessa seção.

Nenhuma anotação de minhas próprias palestras sobre este livro estava disponível; embora eu tenha falado muito sobre ele, essas palestras não são recuperáveis.

Nenhuma dessas palestras foi publicada antes, exceto alguns dos discursos do Bispo Leadbeater a estudantes selecionados sobre Aos Pés do Mestre.

Um livro intitulado Palestras sobre "Aos Pés do Mestre" foi publicado há alguns anos, contendo relatos imperfeitos de algumas dessas palestras dele.

Esse livro não será reimpresso; o material essencial nele contido encontra lugar aqui, cuidadosamente condensado e editado.

Que este livro ajude alguns de nossos irmãos mais jovens a compreender mais desses ensinamentos inestimáveis.

Quanto mais forem estudados e vividos, mais se encontrará neles.

Annie Besant

SUMÁRIO

Prefácio

Luz no Caminho: Parte I

1. Introdução
2. As Quatro Declarações Preliminares
3. A Primeira Regra
4. Regras 2 a 5
5. Regras 5 a 9
6. Regras 9 a 13
7. Regras 13 a 17
8. Regras 17 a 20
9. Regra 21
10. A Nota sobre a Regra 21
11. Regra 21 (continuação)

Luz no Caminho: Parte II

1. O Comentário Preliminar
2. Regras 1 a 5
3. Regras 5 a 9
4. Regras 9 a 14
5. Regra 14
6. Regras 14 a 18

PARTE I

LUZ NO CAMINHO

CAPÍTULO I

INTRODUÇÃO

1.   A.B. — *Luz no Caminho* é um de vários tratados ocultos diferentes que estão sob os cuidados dos grandes Mestres e são utilizados na instrução de discípulos.

É uma parte do *Livro dos Preceitos de Ouro*, que contém muitos tratados escritos em diferentes eras do mundo, mas que têm uma característica em comum: contêm verdade oculta e, portanto, precisam ser estudados de maneira diferente dos livros comuns.

A compreensão desses tratados depende da capacidade do leitor, e quando qualquer um deles é publicado ao mundo, apenas visões distorcidas de seu ensinamento serão obtidas, se for tomado literalmente.

2.   Definitivamente destinado a acelerar a evolução daqueles que estão no Caminho, este livro apresenta ideais que as pessoas do mundo raramente estão preparadas para aceitar.

Somente na medida em que um homem é capaz e disposto a viver o ensinamento, ele será capaz de compreendê-lo. Se não o praticar, permanecerá para ele um livro selado.

Qualquer esforço para vivê-lo lançará luz sobre ele; mas se o leitor não fizer esforço algum, não apenas ganhará muito pouco, mas se voltará contra o livro e dirá que ele é inútil.

3.   Este tratado divide-se naturalmente em certas seções.

Foi dado ao mundo ocidental pelo Mestre Hilarião, um dos grandes Mestres pertencentes à Loja Branca — um Mestre que desempenhou grande papel nos movimentos gnóstico e neoplatônico, uma das grandes personalidades que fizeram tentativas para manter o cristianismo vivo.

Suas encarnações ocorreram muito na Grécia e em Roma, e Ele tem especial interesse em guiar a evolução do mundo ocidental.

Ele obteve o livro como o temos, sem as notas, do Mestre Veneziano, um dos Mestres superiores a quem H.P.B. se referia como Chohans.

4.   Quinze das breves regras que você encontra na primeira parte deste livro, e quinze na segunda parte, são extremamente antigas e foram escritas no mais arcaico sânscrito.

A essas frases curtas, usadas como base para a instrução do discípulo, o Chohan acrescentou outras sentenças, que agora fazem parte do livro e devem ser sempre lidas em conjunto com elas, para fornecer ideias complementares sem as quais o leitor poderia ser desviado.

Todas as regras em ambas as partes do livro, exceto os trinta aforismos breves, foram escritas pelo Chohan que o entregou ao Mestre Hilarião.

A tabela seguinte mostra as quinze regras curtas da Parte I tal como existiam no manuscrito extremamente antigo; o número no início de cada uma é o original, mas o número no final é o que aparece no livro moderno.

I   II   III

Elimina a ambição.

Elimina o desejo de vida.

Elimina o desejo de conforto.

IV   V   VI

Elimina todo senso de separatividade.

Elimina o desejo de sensação.

Elimina a fome de crescimento.

VII   VIII   IX

Deseja apenas aquilo que está dentro de ti.

Deseja apenas aquilo que está além de ti.

Deseja apenas aquilo que é inatingível.

X   XI   XII

Deseja o poder ardentemente.

Deseja a paz fervorosamente.

Deseja posses acima de tudo.

XIII   XIV   XV

Busca o caminho.

Busca o caminho retirando-te para dentro.

Busca o caminho avançando corajosamente para fora.

5.   Notar-se-á pela tabela acima (que cobre apenas a Parte I do livro) que as regras 4, 8, 12, 16, 20 e 21 estão ausentes da lista.

Isso porque elas não pertencem à parte mais antiga do livro.

Essas regras e os comentários preliminares e conclusivos são a porção acrescentada pelo Ser Superior que o deu ao Mestre.

Além disso, há notas que foram escritas pelo próprio Mestre Hilarião.

O livro, como originalmente publicado em 1885, continha estas três porções: os aforismos do manuscrito antigo, os acréscimos do Chohan e as notas do Mestre Hilarião.

Tudo isso foi escrito por Mabel Collins, que atuou como o instrumento físico, como a pena que o escreveu. O Mestre foi Ele próprio o tradutor do livro, e Ele o imprimiu no cérebro dela.

Foi a mão Dele que segurou a pena.

Então, posteriormente, apareceram em Lucifer sob o título de "Comentários" alguns artigos que foram escritos por Mabel Collins sob a influência do Mestre, e que são extremamente valiosos, dignos de leitura e estudo.

6.   Agora, tomando o próprio livro, encontramos primeiro a seguinte declaração:

7.   Estas regras são escritas para todos os discípulos: Atenta para elas.

8.   Uma distinção é feita aqui entre o mundo e os discípulos; este não é um livro destinado ao mundo em geral.

A palavra discípulo deve ser considerada em dois sentidos — o não iniciado e o iniciado.

Ao ler o livro cuidadosamente, podemos traçar as duas linhas distintas de ensinamento revestidas nas mesmas palavras; cada frase contém um duplo significado, um destinado aos mais e o outro aos menos adiantados.

Tentaremos traçá-las quando chegarmos às declarações preliminares.

A segunda parte do tratado parece ter sido destinada inteiramente ao discípulo iniciado, mas essa dualidade percorre toda a primeira parte.

9. Muitas pessoas que ainda não se aproximaram do discipulado compreendem totalmente mal essas regras e, com frequência, as criticam por apresentarem um ideal que é severo e carente de simpatia.

Isso ocorre constantemente quando um ideal é apresentado que é elevado demais para o leitor.

Nenhuma pessoa é ajudada por um ideal, por mais nobre que seja em si mesmo, que para ela não seja atraente; é uma lição prática para lidar com os seres humanos que devemos apresentar-lhes apenas os ideais que possam atraí-los.

Com todos os livros desse tipo, aquilo que um homem extrai deles é o que ele lhes traz; sua compreensão depende de seu próprio poder de responder aos pensamentos que eles contêm.

Mesmo as coisas materiais existem para nós apenas se tivermos desenvolvido os órgãos que podem responder a elas; portanto, no tempo presente, há centenas de vibrações atuando sobre nós às quais somos incapazes de prestar atenção.

Sir William Crookes certa vez ilustrou isso muito bem quando tentava mostrar quão circunscrito era nosso conhecimento da eletricidade e quão grande, portanto, era a possibilidade de progresso na ciência elétrica.

Ele disse que faria uma enorme diferença para nós, de fato revolucionaria nossas ideias, se tivéssemos órgãos que respondessem às vibrações elétricas em vez de olhos sensíveis às vibrações da luz.

No ar seco, não teríamos consciência de nada, pois ele não conduz eletricidade.

Uma casa feita de vidro seria opaca, mas uma casa comum seria transparente.

Um fio de prata pareceria um buraco ou túnel no ar.

O que conhecemos do mundo depende, portanto, de nossa resposta às suas vibrações.

Da mesma forma, se não podemos responder a uma verdade, ela não é verdade para nós. Assim, ao lidar com livros escritos por ocultistas, só podemos captar seu pensamento na proporção de nosso próprio avanço espiritual.

Qualquer parte de seu pensamento que seja sutil ou elevada demais simplesmente passa por nós como se não estivesse ali.

10. Muito mais pode ser extraído deste livro pela meditação do que pela mera leitura; seu maior valor é que ele dá direções à nossa meditação.

Escolha uma única frase e então medite sobre ela; detenha o funcionamento da mente inferior e desperte a consciência interior que entra em contato direto com o pensamento.

Pode-se, assim, afastar-se das imagens da mente concreta para uma percepção direta da verdade.

A meditação, portanto, capacita a pessoa a obter no cérebro uma grande quantidade do conhecimento direto da verdade que o ego adquiriu em seus próprios mundos.

Ainda assim, um homem que medita, mas também não lê nem ouve um mestre, embora certamente progrida no plano espiritual, o fará apenas lentamente.

Se tivesse a vantagem adicional de ler ou ouvir, avançaria muito mais rapidamente.

A palestra ou o estudo podem sintonizar o cérebro do estudante para que ele obtenha mais conhecimento por meio da meditação.

Mas para um homem que apenas ouve ou lê, e não medita, dificilmente qualquer avanço é possível, e o progresso é excessivamente lento.

Ambos devem ser combinados; muita meditação e um pouco de audição ou leitura levarão um homem muito longe, de fato.

11. C.W.L. — Na página de rosto da primeira edição de *Luz no Caminho*, publicada em 1885, a obra é descrita como: "Um tratado escrito para uso pessoal daqueles que são ignorantes da Sabedoria Oriental e que desejam adentrar sua influência." Mas o próprio livro começa com a declaração de que estas regras são escritas para todos os discípulos.

Esta última descrição é certamente a mais precisa, como a história do livro demonstrará.

12. Tal como o temos atualmente, foi ditado pelo Mestre Hilarião através de Mabel Collins — uma senhora bem conhecida nos círculos teosóficos, que em certa época colaborou com Madame Blavatsky na edição de *Lucifer*.

O Mestre Hilarião, por sua vez, o recebera de Seu próprio Instrutor, o Grande Ser que entre os estudantes teosóficos é às vezes chamado de o Veneziano.

Mas mesmo Ele foi o autor de apenas uma parte dele. Ele passou por três fases; registremo-las em ordem.

13. É um livro pequeno mesmo agora, mas a primeira forma em que o vimos é ainda menor.

É um manuscrito em folhas de palmeira, antigo além de toda computação; tão antigo que mesmo antes da época de Cristo os homens já haviam esquecido sua data e o nome de seu escritor, e consideravam sua origem perdida nas brumas da antiguidade pré-histórica.

Consiste em dez folhas, e em cada folha estão escritas apenas três linhas, pois num manuscrito em folhas de palmeira as linhas correm ao longo da página, não transversalmente como conosco. Cada linha é completa em si mesma — um aforismo curto — e a língua em que estão escritas é uma forma arcaica de sânscrito.

14. O Mestre Veneziano traduziu estes aforismos do sânscrito para o grego, para uso de Seus discípulos alexandrinos, dos quais o Mestre Hilarião era um, em Sua encarnação como Jâmblico.

Não apenas traduziu os aforismos, mas acrescentou-lhes certas explicações, que faremos bem em tomar juntamente com o original.

Por exemplo, se olharmos para os três primeiros aforismos, veremos que o parágrafo marcado com 4, que os segue, é claramente destinado a ser um comentário sobre eles; portanto, devemos lê-lo assim: "Mate a ambição; mas trabalhe como trabalham os ambiciosos.

Mate o desejo de vida; mas respeite a vida como fazem aqueles que a desejam. Mate o desejo de conforto; mas seja feliz como são aqueles que vivem para a felicidade."

15. Da mesma forma, as regras 5, 6 e 7 formam um grupo, seguidas por 8, que é um comentário do Chohan — e assim por diante, até o final do livro.

Esses grupos de três não são colocados assim por mera coincidência, mas intencionalmente.

Se os examinarmos, descobriremos que há um certo vínculo entre os três em cada caso.

Por exemplo, as três regras agrupadas acima apontam para a pureza de coração e a firmeza de espírito.

Pode-se dizer que indicam o que o homem deve fazer consigo mesmo, qual é o seu dever para consigo mesmo na preparação para o trabalho.

16. O segundo conjunto de três aforismos (números 5 a 8) afirma que devemos matar todo senso de separatividade, desejo de sensação e fome de crescimento.

Eles indicam o dever do homem para com aqueles ao seu redor, socialmente.

Ele deve perceber que é um com os outros.

Deve estar disposto a renunciar aos prazeres egoístas e separados.

Deve matar o desejo de crescimento pessoal e trabalhar pelo crescimento do todo.

17. No próximo conjunto de três (números 9 a 12), somos informados sobre o que desejar — aquilo que está dentro de nós, aquilo que está além de nós e aquilo que é inatingível.

Estes são claramente o dever do homem para com seu Eu Superior.

Seguem-se então os aforismos (13 a 16) sobre o desejo de poder, paz e posses.

Esses são todos desejos que nos preparam para o trabalho do Sendero.

O próximo grupo de regras (17 a 20) diz ao aspirante como buscar o caminho.

18. As regras agora numeradas 4, 8, 12, etc., são explicações e ampliações do Mestre Veneziano.

Elas, juntamente com os aforismos originais, formaram o livro como foi publicado pela primeira vez em 1885, pois o Mestre Hilarião o traduziu do grego para o inglês e o deu nessa forma.

Quase imediatamente após ser impresso.

Ele acrescentou a ela uma série de notas valiosíssimas de Sua autoria.

Naquela primeira edição, essas notas foram impressas em páginas separadas, cujos versos eram gomados, para que pudessem ser fixados no início e no final do pequeno livro que acabara de sair da prensa.

Nas edições subsequentes, essas notas foram inseridas em seus devidos lugares.

19. O belo pequeno ensaio sobre Karma que aparece ao final do livro é também da pena do Mestre Veneziano, e foi incluído na obra desde a primeira edição.

20. O manuscrito sânscrito arcaico que serviu de base para *Light on the Path* foi também traduzido para o egípcio; e muitas das explicações do Mestre Veneziano têm mais o tom do ensinamento egípcio do que do indiano.

Portanto, o estudante que puder penetrar, em certa medida, no espírito daquela antiga civilização encontrará grande auxílio para a compreensão deste livro.

As condições que nos cercavam no antigo Egito eram radicalmente diferentes das dos dias atuais.

É quase impossível fazer as pessoas compreendê-las hoje; contudo, se pudéssemos retornar à atitude mental daqueles tempos antigos, perceberíamos muita coisa que, receio, agora nos escapa.

Temos o hábito de pensar demais no intelecto dos dias atuais e gostamos de nos vangloriar do avanço que alcançamos sobre as antigas civilizações.

Indubitavelmente, há certos pontos em que avançamos além delas, mas há outras questões em que estamos longe de atingir o seu nível.

A comparação é, no entanto, talvez um tanto injusta, pois a nossa é ainda uma civilização muito jovem.

Se recuarmos trezentos anos na história da Europa, e especialmente na história da Inglaterra, encontraremos um estado de coisas que parece deveras incivilizado.

Quando comparamos esses trezentos anos, incluindo os cento e cinquenta anos de desenvolvimento científico que desempenharam papel tão grande em nossa história civilizada, com os quatro mil anos durante os quais a civilização egípcia floresceu praticamente inalterada, vemos de imediato que a nossa é uma realização muito pequena.

Qualquer civilização que tenha durado tanto quanto quatro mil anos teve oportunidade de experimentar toda sorte de tentativas e obter resultados que ainda não alcançamos; portanto, não é justo comparar-nos, no nosso início, com qualquer uma das grandes civilizações no seu auge.

21. A nossa quinta sub-raça está longe de ter atingido o seu ponto mais alto ou a sua maior glória, e esse ponto, quando alcançado, representará um avanço definitivo sobre todas as outras civilizações, especialmente em certos aspectos.

Ela terá as suas próprias características, e algumas delas poderão parecer-nos menos agradáveis do que as das civilizações anteriores, mas, no conjunto, será um avanço, porque as raças sucessivas são como a maré quando as ondas vêm chegando. Cada uma entra e recua, e a seguinte entra um pouco mais adiante.

Todas têm a sua ascensão e o seu clímax, e o seu declínio.

Para nós, a maré ainda está subindo, de modo que ainda não temos, em certos aspectos, a ordem estabelecida que eles tinham em algumas das civilizações mais antigas.

Estamos, infelizmente, ainda muito longe da realização do altruísmo — do sentimento de que a comunidade como um todo é a coisa principal a ser considerada, e não o indivíduo.

Isso foi alcançado em algumas das civilizações mais antigas a um ponto que nos pareceria hoje uma espécie de Utopia, mas, por outro lado, estamos crescendo na posse de poderes que aqueles povos antigos não possuíam.

Houve um breve período na história inicial de Roma em que "ninguém era pelo partido e todos eram pelo Estado", como disse Macaulay. Pitágoras, falando ao povo de Taormina, disse-lhes que o Estado era mais do que pai e mãe, mais até do que esposa e filho, e que todo homem deveria estar sempre pronto a renunciar aos seus próprios pensamentos, sentimentos e desejos em prol da unidade — pela *res publica*, a origem de "república", o bem comum ou bem-estar do todo, ao qual cada um deveria estar disposto a sacrificar os seus interesses pessoais.

Na Inglaterra, também, nos dias da Rainha Elizabeth, houve um período de tão verdadeiro sentimento e atividade patriótica.

22. Não quero dizer que no antigo Egito ou na antiga Grécia, ou em qualquer outro lugar do mundo, todas as pessoas fossem altruístas.

De modo algum, mas todas as pessoas educadas tinham uma visão muito mais ampla, uma visão muito mais comunitária da vida do que nós. Pensavam muito mais no Estado e muito menos no seu bem-estar ou progresso individual.

Nós também alcançaremos isso, e quando o fizermos, deveremos realizá-lo mais plenamente do que qualquer uma das raças antigas, e também trazer a ele algum desenvolvimento que as raças mais velhas não tiveram.

23. Se, então, pudéssemos voltar àquela antiga perspectiva egípcia, compreenderíamos muito melhor *Luz no Caminho*.

O estudante fará bem em procurar produzir em si mesmo essa atitude em seu estudo, para que isso o ajude a colocar-se no lugar daqueles que o estudaram nos tempos mais antigos.

24. É fácil para alguns de nós que passaram pelo treinamento que nos permite lembrar de nossas vidas passadas.

Lembro-me da minha própria última encarnação na Grécia, onde participei dos Mistérios de Elêusis, e de outra vida muito mais antiga em que os grandes Mistérios do Egito, dos quais ainda restam alguns vestígios na Maçonaria, tiveram grande importância, e isso me permite extrair mais proveito de livros como este do que eu poderia sem tal memória.

Mesmo impressões do passado, dando uma sensação de atmosfera, são uma grande ajuda.

Egípcio ou indiano, não há gema mais preciosa em nossa literatura teosófica — nenhum livro que melhor recompense o estudo mais cuidadoso e detalhado.

25. Como já foi explicado, *Luz no Caminho* foi o primeiro de três tratados que ocupam uma posição única em nossa literatura teosófica, pois dão instruções daqueles que trilharam a Senda para aqueles que desejam trilhá-la. Lembro-me de que o falecido Swami T. Subba Row certa vez nos disse que seus preceitos tinham várias camadas de significado — que poderiam ser retomados repetidamente como instruções para diferentes estágios.

Primeiro, são úteis para os aspirantes — aqueles que trilham a senda probatória.

Depois, começam novamente em um nível mais elevado para aquele que entrou na Senda propriamente dita através do portal da primeira das grandes Iniciações.

E ainda uma vez mais, quando o Adeptado é alcançado, diz-se que, mais uma vez, em algum sentido ainda mais elevado, esses mesmos preceitos podem ser tomados como instruções para aquele que avança em direção a realizações ainda maiores.

Dessa maneira, para o homem que pode compreendê-lo em todo o seu significado místico, este manual nos leva mais longe do que qualquer outro.

Esses livros, que são escritos definitivamente para o aceleramento da evolução daqueles que estão na Senda, apresentam ideais que os homens no mundo geralmente não estão preparados para aceitar.

Mesmo entre os estudantes pode haver alguns que se admirem da forma como o ensinamento é dado.

A única maneira de compreendê-lo é tomá-lo como certo e tentar vivê-lo. Em *Aos Pés do Mestre*, diz-se que não basta afirmar que é poético e belo; um homem que deseja ter sucesso deve fazer exatamente o que o Mestre diz, prestando atenção a cada palavra e aproveitando cada sugestão.

Isso é igualmente verdadeiro para este livro.

O homem que não tenta viver de acordo com o ensinamento constantemente se deparará com pontos nele que o incomodarão — com os quais se verá em total desacordo; mas se ele tentar vivê-lo, o sentido em que deve ser tomado acabará por se revelar a ele.

Qualquer esforço honesto para realmente viver o ensinamento sempre lança luz sobre ele, e essa é a única maneira pela qual essa pérola inestimável pode ser apreciada.

26. Em tais livros há muito mais significado do que as palavras reais transmitem.

Portanto, em grande medida, cada homem obtém deles o que traz para eles — ele traz o poder de assimilar uma certa parte de sua mensagem e obtém apenas essa parte.

Meramente ler esses livros, mesmo estudá-los, não é, portanto, suficiente; é necessário também meditar sobre eles.

Se alguém toma as passagens que soam um pouco difíceis — as afirmações enigmáticas, místicas, paradoxais — e pensa e medita sobre elas, obtém muito mais delas, embora muitas vezes dificilmente possa expressá-lo.

27. Tento expressar o que me ocorre com relação a esses diferentes pontos, o que eles significaram para mim, mas estou consciente o tempo todo de que não estou de forma alguma transmitindo plenamente meu significado.

Sei que, muitas vezes, não consigo expressar toda a ideia que está em minha mente; quando a coloco em palavras, soa bastante banal, e ainda assim posso ver por mim mesmo uma vasta quantidade de significado superior.

Vejo isso talvez com meu corpo mental.

O mesmo se aplica em cada nível.

Além do que podemos realizar com o corpo mental, há ainda mais que só pode ser realizado com o corpo causal e através da intuição. O que quer que expressemos, sempre haverá algo mais profundo ainda brotando e florescendo dentro de nós. Que o homem é apenas uma expressão do Eterno, e que nada que esteja fora do Eterno pode nos ajudar, é verdade, e é a verdade sobre a qual os três escritores deste livro insistem constantemente.

CAPÍTULO — AS QUATRO DECLARAÇÕES PRELIMINARES

28. Antes que os olhos possam ver, eles devem ser incapazes de lágrimas.

29. A.B. — Esta é a primeira de quatro declarações que descrevem as quatro qualificações preliminares ao Caminho propriamente dito.

Elas descrevem a visão verdadeira, a audição verdadeira, a fala verdadeira e a posição verdadeira na presença do Mestre, isto é, a verdadeira capacidade de servir à humanidade sob Sua direção.

30. Esta e as três declarações seguintes destinam-se a duas classes de discípulos.

Na primeira classe estão aqueles que se encontram no caminho probatório e, portanto, estão sendo ensinados a se livrar de tudo aquilo a que nos referimos como personalidade; estas instruções preliminares destinam-se a mostrar-lhes que devem começar por eliminar o eu inferior.

Na segunda classe estão aqueles que já são iniciados.

Algo mais lhes é exigido.

Eles devem livrar-se de sua individualidade, o ego reencarnante, para que, ao final do Caminho, sua vida esteja inteiramente sob a direção da Mônada.

Veremos, portanto, que cada uma dessas quatro afirmações pode ser tomada como afetando a personalidade ou a individualidade, e de acordo com a posição do estudante que tenta viver seus ensinamentos será o ponto de vista a partir do qual ele as compreenderá.

31. Vale a pena notar e lembrar que estas afirmações podem ser tomadas de dois pontos de vista bastante diferentes, também de outra maneira.

Estes ensinamentos provêm dos Mestres da Loja Branca, mas exatamente as mesmas afirmações são feitas por aqueles que seguem a magia negra do lado sombrio da vida, a quem às vezes chamamos de Irmãos da Sombra ou das Trevas.

Há duas maneiras pelas quais os olhos podem se tornar incapazes de lágrimas, e de acordo com seu motivo será o caminho ao longo do qual o aspirante seguirá. Uma maneira é a do homem que aspira a tornar-se um discípulo do lado sombrio; ele tomará esta afirmação como ensinamento de completa indiferença ao prazer e à dor, por meio do endurecimento do coração e da evitação de toda simpatia.

Qualquer um que tente se tornar incapaz de lágrimas matando todo sentimento estará caminhando para o caminho sombrio.

O homem no outro caminho torna-se incapaz de lágrimas apenas no que diz respeito às suas próprias dores pessoais.

Sua própria natureza inferior não o comove, mas ele está plenamente desperto para os sentimentos dos outros.

Somente por sua própria conta e risco pode um homem tornar-se indiferente aos sofrimentos alheios.

32. Podemos contrastar os dois caminhos em uma tabela:

Caminho Sombrio

Caminho Branco

1. Exclui todo sentimento de dor.

Aumenta o poder do sentimento até que ele responda a cada vibração dos outros.

2. Ergue um muro ao redor de si, para excluir todas as dores.

Derruba todo muro ou barreira que separa e impede de sentir as dores dos outros.

3. Fundamentalmente contrai a vida.

Expande a vida, ao tentar verter-se na vida dos outros.

4. Conduz à morte, à destruição e ao avichi.

Conduz à vida, à imortalidade e ao nirvana.

33. A diferença fundamental entre os dois caminhos é que o primeiro tende constantemente para a separatividade e termina em uma condição de isolamento absoluto, enquanto o segundo visa constantemente à união e termina em um estado de perfeita unidade.

34. O aspirante no caminho branco deve eliminar gradualmente tudo em si mesmo que possa receber do mundo exterior qualquer coisa que ele sinta como dor que o afete, qualquer coisa que o abale através de sua personalidade, qualquer tristeza ou problema de qualquer tipo que atue sobre ele como concernente ao seu eu pessoal.

Ele deve alcançar um ponto em que seja incapaz de sentir tristezas por seu próprio interesse separado.

Na verdade, ele deve visar a tornar seu corpo kâmico inteiramente um veículo do Eu Superior, sem vida independente própria.

Ele não deve ter nem atrações nem repulsões, nem desejos nem anseios, nem esperanças nem medos — tudo isso deve ser eliminado.

Isso não deve transmitir a ideia equivocada de que o corpo deve ser destruído; mas ele deve cessar de responder por conta própria às impressões do mundo exterior.

Somente a vida separada deve ser eliminada, mas o corpo deve ser mantido para uso no serviço à humanidade.

35. Essa mudança que o discípulo deve fazer em seu próprio caráter é claramente mostrada na constituição do corpo.

No discípulo comum, ele está constantemente mudando suas cores; mas quando é purificado e toda a vida separada é expurgada, ele permanece um veículo incolor e radiante, afetado apenas pelas reflexões que vêm da vida interior; então ele não tem cor própria, mas apenas aquela que é lançada sobre ele pelo Eu Superior; ele se assemelha à aparência da lua sobre a água — uma radiância perolada, na qual há certo jogo que dificilmente pode ser chamado de cor.

Essa mudança ocorre muito gradualmente no corpo astral do discípulo enquanto ele trabalha na difícil tarefa de tornar-se responsivo a todas as tristezas de seus semelhantes, mas cada vez mais indiferente a tudo o que o afeta a si mesmo.

Seria muito fácil para ele eliminar todo sentimento, mas tornar-se cada vez mais sensível aos sentimentos dos outros e, ao mesmo tempo, não permitir que sentimentos pessoais entrem, é a tarefa muito mais difícil colocada diante do aspirante.

Conforme ele prossegue com o trabalho, no entanto, descobrirá que suas emoções egoístas desaparecem silenciosamente à medida que se convertem em emoções altruístas.

36. O discípulo pode testar a qualidade e a genuinidade de sua simpatia observando se ele a sente ou não quando o sofrimento dos outros não é imposto à sua atenção.

Se você vê uma pessoa sofrendo, ou se depara com um caso de mau tratamento flagrante, sem dúvida sente dor, mas sente a mesma dor quando a pessoa não está diante de seus olhos? Nossa simpatia é uma coisa excessivamente pobre se é despertada apenas pela visão do sofrimento.

Envie uma pessoa a uma grande cidade como Londres, e ela pode ser terrivelmente afetada pelo sofrimento que vê ao seu redor; mas afaste-a de tudo isso e ela logo esquecerá as misérias que testemunhou e se tornará perfeitamente feliz.

O discípulo tem de aprender a viver como se todo aquele sofrimento estivesse presente diante dele o tempo todo; aliviá-lo deve ser o motivo de seu trabalho.

37. Ninguém alcançou o estágio em que responde ao grande grito de dor, mencionado em A Voz do Silêncio? 1 ( 1 Ante., p. 424.) a menos que seu motivo na vida seja ajudar a humanidade, esteja o sofrimento diante de seus olhos ou não, pois esse é o verdadeiro poder-motriz de um discípulo.

A melhor maneira de livrar-se da personalidade, de tornar-se indiferente às próprias alegrias e tristezas pessoais, de tornar-se incapaz de lágrimas, é deixar a mente pensar na dor do mundo e nas maneiras de ajudá-lo; isso faz com que o eu pessoal seja visto em seu verdadeiro lugar ao lado do eu maior da grande humanidade órfã.

38. Quando o discípulo passa pela Iniciação e começa a desenvolver a consciência búdica, essa incapacidade para lágrimas assume um novo caráter.

Ele então começa a compreender a palavra evolução, a perceber que no homem ela significa o desdobramento da tríade superior; então ele começa a ver o uso e o objeto reais de todo o sofrimento e dor.

Ele gradualmente se torna incapaz de lágrimas porque compreende o valor do sofrimento para aqueles que o estão vivenciando, porque vê que quando a dor chega a um homem, ela o faz como uma necessidade absoluta para o desenvolvimento superior de sua alma.

É verdade que, teoricamente, o homem poderia ter evitado esse sofrimento se tivesse agido com sabedoria no passado, pois ele é o resultado do seu carma passado quando não é produzido por suas loucuras presentes; mas o aspecto prático da questão é que o homem foi tolo, elegeu aprender por meio desse tipo de experiência em vez de pela sabedoria, porque nem sempre escolheu seguir o melhor que conhecia, e agora está sofrendo, e a dor está lhe trazendo sabedoria para o futuro e, assim, promovendo a sua evolução.

39. Percebendo isso, o discípulo alcança uma condição em que pode ser descrito como repleto da mais perfeita simpatia, porém sem arrependimento.

O senso de arrependimento surge apenas quando a consciência não é iluminada pela vida búdica.

Quando a consciência búdica é sentida, a simpatia do discípulo aumenta enormemente, mas o seu arrependimento desaparece, e à medida que ele se eleva, essa visão mais ampla o torna incapaz de lágrimas, porque diante do mais amargo sofrimento ao qual ele está aprendendo a responder e a sentir em si mesmo, ele sente também o seu objetivo e o seu fim.

Ele pode compartilhar plenamente do sofrimento, mas sem o menor desejo de que ele seja diferente do que é. A ausência de qualquer desejo de se livrar do sofrimento antes que ele tenha cumprido a sua obra só pode existir quando a consciência possui iluminação búdica.

Essa é a condição que foi descrita como o estado crístico.

A lei é boa e a vontade do Supremo é perfeita, e o sofrimento opera para um fim perfeito; portanto, o discípulo está repleto de contentamento e satisfação; ele sente o sofrimento, mas de pesar e tristeza não sente nada.

40. Quando o discípulo alcança esse estágio, a sua consciência tornou-se parte da vida do mundo.

Se ele pensa em si mesmo como "eu", é como parte daquele "Eu" no qual todos os outros "eus" também existem.

Agora não há para ele nada que esteja fora ou separado de si mesmo; ele se identifica com a grande vida una, em qualquer estágio em que ela esteja, sempre que ela necessitar de ajuda.

Ele perde inteiramente o senso, tão comum no mundo, de que algumas pessoas estão de fora; ele está em todas e com todas.

41. Essa realização da união faz uma enorme diferença na ajuda que o homem é capaz de dar ao mundo.

Quando ele está ajudando qualquer pessoa, sente os problemas dela como seus, não como as dificuldades de um outro, separado de si mesmo.

Ele os vê exatamente como essa pessoa os vê; portanto, em vez de auxiliá-lo de fora, está ajudando-o de dentro.

Há um mundo de diferença entre a ajuda dada por alguém de fora e aquela que é dada de dentro; a primeira é um auxílio temporário e adventício, mas a ajuda interna acrescenta poder à vida do homem.

42. O discípulo só pode alcançar esse estado porque cultivou a simpatia, aprendeu a identificar-se com as alegrias e as dores dos outros, tornou sua própria vida uma vida comum a todos.

Sem isso, essa perda da separatividade seria inatingível.

A única incapacidade de lágrimas que ele precisa conhecer é aquela que o torna indiferente às coisas que tocam o eu pessoal, mas o deixa intensamente sensível a tudo o que afeta as outras almas ao seu redor.

43. C.W.L. — Nosso Presidente explicou, com relação às quatro primeiras afirmações deste livro, começando por "Antes que os olhos possam ver, eles devem ser incapazes de lágrimas", que elas podem ser interpretadas de uma maneira bastante equivocada, sendo então tão aceitáveis para o mago negro quanto para nós.

Ele as entenderia como significando que deve eliminar todo sentimento, construir-se como uma casca e excluir de si as dores e os problemas do mundo. Isso é exatamente o oposto do ensinamento dado ao pupilo no caminho branco, a quem se ensina a aumentar seu poder de sentir até alcançar perfeita simpatia com os sofrimentos de seus semelhantes.

44. Ouvimos falar bastante sobre os magos negros, mas imagino que poucas pessoas saibam muito sobre eles.

Conheci muitos espécimes desse gênero e, portanto, posso afirmar que sei algo sobre sua natureza e seus métodos.

Alguns deles são pessoas muito interessantes, mas de modo algum conhecidos desejáveis.

Há muitos tipos diferentes que são classificados sob o título geral de mago negro.

Por exemplo, os negros na África do Sul e nas Índias Ocidentais, e provavelmente os aborígenes da Austrália, praticam bastante da pequena magia negra.

É algo muito pobre; até eles mesmos admitem que não funciona em pessoas brancas.

Ouviu-se falar de certos casos em que eles conseguiram tornar pessoas brancas extremamente desconfortáveis, mas deve-se acrescentar que isso foi possível pelo tipo de vida que essas pessoas levavam.

Tal magia depende, para seu sucesso, em grande parte do medo das pessoas sobre as quais os encantamentos são lançados; ainda assim, é algo bem real em sua maneira fraca.

Essas pessoas primitivas possuem certas drogas, sabem como hipnotizar e têm poder sobre alguns espíritos terrestres de baixa categoria e entidades semelhantes.

Elas conseguem causar doenças a um homem, ou em sua família, ou entre seus rebanhos e manadas, ou devastar seus jardins e campos para que não produzam colheitas; embora, neste último caso, não desdenhem, às vezes, de auxiliar sua magia com salitre também.

45. Há outro grupo de pessoas, um pouco mais dignas, que buscam o poder oculto para seus próprios fins.

Aprenderam uma certa quantidade de ocultismo — às vezes bastante considerável — mas usam seu poder de forma egoísta.

Frequentemente conseguem obter dinheiro e posição por tais meios, e manter-se nessa posição até morrerem.

Após a morte, às vezes tentam continuar na mesma linha geral, mas isso encontra sucesso medíocre, e seus planos fracassam; tudo, mais cedo ou mais tarde, lhes falha, e eles caem de volta em uma condição de considerável miséria.

(¹ Ante, p. 501.) Uma vida como essa significa um passo definitivo para trás para o ego.

46. Ainda outro tipo mais avançado de mago negro não deseja nada para si mesmo.

Ele não procura obter dinheiro, poder, influência ou qualquer coisa desse tipo, e isso imediatamente o torna muito mais poderoso.

Ele leva uma vida pura e autodisciplinada, assim como alguns de nosso próprio povo poderiam fazer, mas estabeleceu diante de si a meta da separatividade.

Ele quer manter-se vivo em planos superiores, livre da absorção no Logos; ele olha com horror para aquilo que, para nós, é a maior felicidade.

Ele deseja manter sua própria posição exatamente como está e, além disso, afirma que pode fazê-lo, que a vontade humana é forte o suficiente para resistir à vontade cósmica até certo ponto.

Já conheci homens assim, e nossa Presidente, que está sempre tentando salvar até as almas mais improváveis, propôs-se uma ou duas vezes a converter pessoas que se colocaram nessa condição, de modo a trazê-las ao nosso modo de pensar — embora sem muito sucesso, receio.

Ela às vezes lhes diz: "Vocês sabem qual será o fim. Vocês conhecem suficientemente as leis da natureza e são inteligentes o bastante para ver aonde seu caminho está levando.

É bem certo que, no final, vocês terão de entrar em colapso."

Quando este manvantara terminar, quando esta cadeia planetária estiver concluída, você será absorvido, queira ou não, no Logos em níveis superiores, e qual será então a sua condição?"

47. "Vocês não sabem realmente disso", respondem eles, "mas admitimos que parece ser o que acontecerá. Mas dizemos francamente que não nos importamos. Estamos bem satisfeitos com nossa posição atual; somos capazes de manter nossa individualidade contra qualquer esforço para nos atrair ao Logos por muito tempo, até mesmo até o fim do manvantara. Se poderemos mantê-la depois disso, não sabemos, e não nos importamos. Se poderemos ou não, teremos tido o nosso dia."

48. Essa é uma posição discutível, e o homem que a adota pode não ser exatamente um bom homem, mas não precisa ser um mau homem, no sentido comum da palavra. Ele certamente tem uma grande dose de orgulho satânico em sua composição, mas não é necessariamente rancoroso nem de mente maligna em relação a outras pessoas. Ainda assim, ele é absolutamente sem escrúpulos. Qualquer um que por acaso cruzasse seu caminho, ele afastaria com muito menos consideração do que daríamos a um mosquito. Mas para um homem que não se interpusesse em seu caminho, ele poderia ser um amigo bastante leal, e não há necessariamente nenhum mal ativo em sua composição. Ele não é de modo algum um monstro do mal, mas é um homem que traçou uma linha própria para si e a segue ao custo de tudo aquilo que, para nós, significa progresso. Isso é tudo o que temos o direito de dizer contra ele. Estamos confiantes de que ele terminará em grande desastre; ele não está tão certo disso e, em qualquer caso, está disposto a enfrentá-lo.

49. Como regra, essas pessoas bastam a si mesmas e desconfiam e desprezam todos os outros. Isso é sempre característico de qualquer um que esteja na senda escura; ele está certo e todos os outros estão errados. Ele olha de cima para baixo para todos os outros. As pessoas às vezes falam sobre uma irmandade negra. Não existe tal coisa. Não poderia haver qualquer verdadeira irmandade entre eles, mas ocasionalmente eles se unem diante de um perigo iminente ou quando algo ameaça qualquer um de seus planos. Na melhor das hipóteses, é uma aliança muito frouxa, formidável apenas por causa do tremendo poder que alguns deles possuem. Acontece, de vez em quando, que o trabalho que alguns de nossos Mestres estão fazendo para a evolução do mundo cruza seus caminhos, e então eles se tornam inimigos formidáveis.

Eles não podem tocar em nossos Mestres — creio que isso deve ser muito irritante para eles — mas às vezes apanham um de Seus discípulos, e assim causam-lhes um pouco de aborrecimento ou alguma decepção, se pudermos supor que um Mestre sentiria decepção.

50. A razão de todas as advertências que nos são dadas para nos acautelarmos com essas pessoas é que as encontraremos tentando, às vezes, desencaminhar-nos. Madame Blavatsky, que sabia muito a respeito delas e tinha por elas um respeito saudável, deu antes a impressão de que eram demônios tentadores que exultam no mal pelo mal.

Isso seria verdade apenas quanto àqueles de nível inferior; os mais poderosos entre eles considerariam algo bastante indigno exultar em qualquer coisa; mas seus planos, que são sempre inteiramente egoístas, podem às vezes envolver grande dano a certas pessoas.

Eles são tão calmos, tão senhores de si e tão impassíveis quanto qualquer discípulo do Mestre; na verdade, são ainda mais, porque eliminaram intencionalmente todo sentimento.

Não feririam um homem meramente por causar dano, mas, como disse antes, na busca de algum objetivo próprio que a existência dele interfira, não hesitariam em varrê-lo do seu caminho.

Aqueles cujo trabalho é ajudar as pessoas astralmente às vezes se deparam com suas vítimas, e nesse caso o homem que tenta ajudar atrai sobre si também a oposição determinada do mago negro.

51. Voltemos ao nosso tema principal.

É muito difícil aprender a responder aos sentimentos e, no entanto, não permitir que a própria personalidade se manifeste de qualquer forma — estar em perfeita sintonia com os sentimentos dos outros e, ainda assim, não ter nenhum nosso.

Muitas pessoas ficam muito perturbadas ao ver o sofrimento dos outros, mas, se não veem efetivamente esse sofrimento, esquecem-no. Muitas das pessoas mais ricas de uma cidade como Londres, por exemplo, quando levadas a ver a terrível miséria nos bairros pobres, ficam muito comovidas e imediatamente fazem tudo o que podem para aliviar os casos particulares que veem; no entanto, essas mesmas pessoas vão caçar, pescar e se divertir, e esquecem completamente que existe qualquer miséria.

Nesse caso, a tristeza é apenas em parte pelo sofrimento do outro; é em grande parte meramente a dor pessoal de ter esse sofrimento intrometido em sua percepção.

Esse tipo de compaixão é algo pobre — não é compaixão real de forma alguma.

52. Quando percebemos plenamente o sofrimento da humanidade, gradualmente perdemos de vista o nosso próprio.

Esquecemos que temos sofrimentos pessoais porque vemos que os sofrimentos da humanidade são tão grandes, e percebemos que aquilo que nos cabe em nossa sorte é, afinal, apenas a nossa parte do fardo geral.

Um homem que consegue atingir esse estado de espírito já transcendeu em grande medida a sua personalidade.

Ele ainda se entristece pela humanidade, mas não mais por si mesmo; tornou-se incapaz de lágrimas no que diz respeito às suas próprias alegrias e tristezas pessoais.

53. Não é tarefa fácil considerar com exatidão os sofrimentos dos outros.

O Presidente e eu, há alguns anos, investigamos a questão da influência da dor sobre diferentes pessoas que passavam pelo que, do ponto de vista externo, seria considerado o mesmo sofrimento físico.

Descobrimos que, num caso extremo, uma pessoa sofria talvez mil vezes mais do que outra, e que, na vida comum, uma pessoa poderia com frequência sentir dor cem vezes mais do que outra.

Se uma pessoa mostra sinais de sofrimento e outra não, não se deve supor que esta última seja necessariamente mais corajosa ou mais filosófica.

Pode não ser o caso.

Investigamos a questão da quantidade de sofrimento que era infligida a diferentes pessoas pelas ignomínias da vida prisional; para algumas pessoas elas significavam praticamente nada, para outras o mais intenso sofrimento mental e emocional.

Portanto, é inútil dizer: "Eu não sinto tal coisa, e portanto outras pessoas também não deveriam senti-la." Não se sabe em que grau ou em que proporção os outros estão sentindo.

Tenho constatado que muitas coisas que não importam em nada para mim podem, no entanto, causar dor séria a outros; ao passo que tem sido exatamente o contrário no que diz respeito a outras coisas, como sons desagradáveis, por exemplo, que muitas vezes causam sofrimento agudo àqueles que estão desenvolvendo seus sentidos mais sutis.

Vi nosso Presidente em condição de agonia positiva quando uma grande carroça de munição passou com estrondo pela casa onde estávamos hospedados na Avenue Road, em Londres.

Isso não significa, é claro, que ela perdesse o controle dos nervos.

Ela explicou muitas vezes que, enquanto o discípulo deve aumentar sua sensitividade, ele também deve controlar seu sistema nervoso, de modo a suportar sem vacilar qualquer dor ou perturbação que possa lhe sobrevir.

1 Ante, pp. 172, 181.

54. Antes que o ouvido possa ouvir, ele deve ter perdido sua sensitividade.

55. A.B. — O discípulo deve tornar-se inteiramente indiferente às opiniões dos outros sobre si mesmo, no que diz respeito aos seus próprios sentimentos.

Se pensarem e falarem bem dele, não deve se exaltar; se mal, não deve se abater.

Contudo, ao mesmo tempo, não deve ser indiferente às opiniões alheias, na medida em que afetam aqueles que as sustentam.

Não deve, portanto, ser descuidado quanto às impressões que causa nos outros, pois se os repele por sua conduta, perde o poder de ajudá-los.

56. O discípulo, no curso de seu progresso, desenvolve seus poderes psíquicos e, assim, torna-se consciente do que os outros pensam a seu respeito; vive então em um mundo no qual pode ouvir tudo o que é dito sobre ele e ver toda crítica na mente de outrem.

Ele alcança esse ponto quando se eleva acima de toda crítica e não é afetado pelas opiniões dos outros.

Algumas pessoas estão muito ansiosas por desenvolver a clarividência antes de atingirem esse estágio, mas se percebessem esse fato, a consciência astral que tanto desejam perderia sua atração.

57. C.W.L. — Não se deve pensar que a pessoa desenvolvida que ouve comentários desairosos a seu respeito e lhes é profundamente indiferente se arma deliberadamente contra o sentimento de irritação e diz: "Isso é tudo muito terrível, mas recuso-me a me importar; não darei atenção a isso." Ela passa, sem dúvida, por um estágio assim, mas muito em breve alcança um estado em que absoluta e totalmente não se importa, quando isso é como o gorjeio dos pássaros, ou como as cigarras assobiando nas árvores — podem ser um incômodo, mas nada mais.

Ela não escolhe uma cigarra específica para ouvir apenas o seu tom, nem isola o pensamento ou a palavra de qualquer pessoa que esteja dizendo algo tolo.

58. Todos devemos tentar alcançar esse estágio.

Constantemente o apresentamos às pessoas, pois é a atitude de nossos Mestres, para cujo "mundo" estamos tentando ir. Eles podem muito propriamente pensar: "Como podemos esperar alcançar a atitude desses Grandes Seres?" Naturalmente, ninguém pode fazê-lo imediatamente, mas devemos almejá-la e tentar chegar o mais perto possível dela, e uma das maneiras de fazer isso — um método realmente bastante fácil — é simplesmente não se importar nem um pouco com o que os outros dizem.

59. Quando tivermos alcançado essa atitude, o próximo passo é pensar no mau karma que essas pessoas estão criando ao pensar ou falar erroneamente sobre nós. Podemos então lamentar por elas, e por essa razão é bom que nos esforcemos para não dar mais motivo do que podemos evitar para comentários tolos e depreciativos — não porque nos importem, mas porque criam mau karma para as pessoas que se entregam a eles.

60. Antes que a voz possa falar na presença dos Mestres, ela deve ter perdido o poder de ferir.

61. A.B. — O discípulo deve perder tudo em si mesmo que possa causar dor a outro.

Nos estágios iniciais, ele tem de aprender a eliminar de sua fala tudo o que possa causar dor — não apenas críticas severas ou linguagem pouco amável, mas toda forma de palavra que fira outro ao implicar menosprezo ou ao chamar atenção para uma falha em seu caráter.

É verdade que algumas pessoas estão em uma posição em que é seu dever, às vezes, apontar a falha de outro; mas é uma visão equivocada pensar que se justifica infligir dor ao fazê-lo. Quando a falha é apontada de maneira perfeitamente amigável, o elemento de ferir não está presente.

Sempre que a fala fere, isso se deve a alguma imperfeição no cumprimento do dever; o pretenso auxiliador não conseguiu identificar-se com a pessoa a quem se dirige; ele está dando conselhos apenas de fora e, portanto, isso dói.

Se ele tivesse se unificado com a outra pessoa e tentado ajudar ao mesmo tempo sentindo como ela sente, teria despertado a emoção da outra pessoa de maneira simpática; através da consciência de sua simpatia, o outro teria seu lado mais nobre e mais amplo despertado, e então o conselho não teria ferido.

Se é seu dever criticar outro e você percebe que isso o fere, examine a si mesmo para encontrar a imperfeição que causou a ferida.

Se devemos perder o poder de ferir, a individualidade separada deve ir; quando nos sentimos como uma só vida, torna-se impossível infligir sofrimento a qualquer coisa, pois ela é parte de nós mesmos.

O caminho para alcançar esse ponto de evolução é começar purificando gradualmente a fala, tomando primeiro as falhas mais salientes.

62. C.W.L. — Qualquer um que deseje aproximar-se do Mestre já deve ter abandonado o desejo de ferir outros por sua fala.

Mas ainda existe a possibilidade de ferir involuntária e inconscientemente, devido à falta de sensibilidade.

À medida que avançamos e elevamos nossa consciência a um nível mais alto, compreenderemos cada vez mais como as coisas afetam os outros.

Aqueles que praticam meditação há muitos anos notarão que se tornaram mais sensíveis, fizeram certo progresso em direção à unidade e, portanto, compreendem as pessoas ao seu redor um pouco melhor do que aqueles que não fizeram tal esforço.

Ouvimos alguém fazer o que consideramos um comentário infeliz, com toda a boa fé e sem perceber que há algo errado nisso e que feriu alguém.

Nós, que aguçamos nossos sentidos um pouco por meio do pensamento, do estudo e do esforço para viver a vida superior, sentimos instintivamente como a terceira pessoa receberá tal comentário.

Podemos ver que é infeliz e desejamos que tivesse sido dito de outra forma.

63. Um Mestre não poderia de forma alguma dizer algo que ferisse outro.

Ele poderia achar necessário dar algo na natureza de uma repreensão; mas Ele conseguiria apresentá-la de tal maneira que o homem não fosse ferido por Suas palavras.

Às vezes, um discípulo considera seu dever agir com severidade e é tentado, por seu próprio sentimento de compaixão, a evitar a tarefa.

Mas se o Eu Superior afirma seu domínio, ele, se for absolutamente necessário, falará com severidade, mas também com calma e discernimento, e sem indignação.

64. Antes que a alma possa estar na presença dos Mestres, seus pés devem ser lavados no sangue do coração.

65. A.B. — Esta frase carrega por trás de si uma tradição oculta muito longa, que foi dada ao mundo de muitas maneiras.

Ela tem a ver com o ensinamento do sacrifício, que ainda aparece em diferentes religiões sob várias formas, embora geralmente tenham perdido seu verdadeiro significado.

A expressão usada aqui está conectada com o que às vezes é chamado de sacrifício de sangue e a aliança de sangue, dos quais os vestígios mais estranhos são encontrados entre as tribos descendentes de raças muito antigas.

66. Ao examinar vidas passadas, deparamo-nos com um incidente que pode ser contado para ilustrar a ideia por trás do sacrifício de sangue e da aliança.

Há muito tempo, Aquele que agora é o Mestre Morya foi um grande rei; ele tinha um filho único, que era H.P.B., que quando menino foi colocado sob os cuidados do capitão da guarda, que era o Coronel Olcott.

Um dia, quando o jovem estava a sós com o capitão, alguns conspiradores que haviam tramado matá-lo irromperam e o teriam assassinado, mas o capitão lançou-se entre eles e salvou o rapaz ao custo da própria vida.

O jovem ficou apenas atordoado, mas o capitão jazia sobre ele, moribundo, e quando o sangue jorrou de sua ferida mortal, ele o tocou com o dedo e o colocou aos pés do rei.

O rei perguntou: "O que posso fazer por ti, que deste a vida por mim e por meu filho?" O capitão moribundo respondeu: "Concede que teu filho e eu possamos servir-te em outras vidas para sempre." Então o monarca disse: "Pelo sangue que foi derramado por mim e pelos meus, o vínculo entre nós jamais será rompido." Com o passar do tempo, o rei tornou-se um Mestre, e o vínculo entre eles permaneceu e amadureceu naquela relação entre Mestre e discípulo, e permanecerá para sempre inquebrantável.

Ao sacrificar a vida do corpo, o capitão criou um laço que lhe conferiu a verdadeira vida que o discípulo obtém do Mestre.

67. Menciono a história porque ela ilustra uma grande verdade; exatamente na proporção em que somos fortes o bastante para sacrificar aquilo que para nós é a vida, para derramar o sangue vital do inferior aos pés do superior, é que a vida é realmente ganha, não perdida.

Toda a evolução da jovem humanidade é feita pelo sacrifício voluntário da vida inferior à superior; quando esse sacrifício é completamente realizado, descobre-se que a vida, em vez de ser perdida, é tornada imortal.

O sinal externo do sacrifício ajudou as pessoas a compreender o princípio mais prontamente e chamou a atenção para a verdade fundamental de que é somente quando a vida inferior é sacrificada à superior que ela encontra sua verdadeira realização na evolução.

Nessa verdade se basearam originalmente os sacrifícios encontrados em muitas religiões; é assim que se estabelece realmente o que se chama de vínculo de sangue.

A vida inferior é sacrificada pela vida superior, e a superior aceita a inferior e a eleva por meio do vínculo que jamais se rompe.

68. O discípulo deve lavar seus pés no sangue do coração.

Ele deve fazer uma oferenda completa de tudo o que ama e valoriza, daquilo que lhe parece ser a própria vida; mas ele perde isso apenas para encontrar sua vida superior.

Não é geralmente um derramamento real de sangue que se exige, embora isso às vezes se torne necessário; é simbolicamente o derramamento de sangue sempre, no que concerne ao pupilo naquele momento, porque ele sente a perda.

Ele literalmente sacrifica o que para ele equivale à vida, e parece que a está abandonando completamente, sem qualquer possibilidade futura de recuperá-la. A grande prova da completude do sacrifício do discípulo é feita para descobrir se a alma é forte o bastante para lançar-se voluntariamente no nada, para extrair completamente o sangue do coração, sem qualquer esperança de recompensa.

Se o discípulo não for forte o bastante para fazer isso, ele não está pronto para permanecer na presença do Mestre.

Mas se ele puder lançar fora completamente tudo o que conhece como sua vida, então todo o testemunho do passado e a verdade da lei declaram que ele encontrará essa vida novamente em uma vida mais forte e mais elevada do que aquela que foi deposta.

É somente quando esse sacrifício é feito que o discípulo se encontra na vida superior, permanecendo na presença dos Mestres.

Então, o grau de sua força é a extensão de seu poder de fazer o sacrifício sem senti-lo.

69.   C.W.L. — O significado desta sentença é que o homem que deseja permanecer na presença dos Mestres deve ter sacrificado o eu inferior ao eu superior.

Os pés da alma, a personalidade na Terra, devem ser lavados no sangue do coração das emoções antes que a vida superior possa ser alcançada.

70.   Essa é uma lei geral da vida.

A criança pequena sente grande prazer em brincar com seus brinquedos; logo ela cresce para a meninice, e os brinquedos inferiores foram superados e postos de lado, a fim de que proficiência possa ser adquirida nos tipos superiores de esportes.

Quando o jovem vai para a faculdade, muitas vezes ele talvez abra mão de um jogo ao ar livre, que preferiria muito, para trabalhar em seus livros.

Em outras ocasiões, ele deixará de lado algo que gostaria muito de ler, para se esforçar em verbos gregos ou outros estudos aparentemente desinteressantes e não muito úteis.

Se ele entra em treinamento para uma corrida ou para remo, ele tem de sacrificar o prazer de bons jantares e viver de maneira frugal e rígida até que a corrida termine.

71.   No caminho oculto, muitos prazeres ligados ao mundo exterior são vistos como uma perda de tempo.

Pode haver casos em que é um esforço real separar-se deles, quando há um chamado da vida superior, e o aspirante responde a esse chamado a um certo custo para a natureza inferior.

Então ele deve lançar de lado o inferior para ter o superior; mas mais tarde a atração do inferior terá desaparecido inteiramente.

Quando um homem uma vez compreende plenamente o superior, o inferior simplesmente deixa de existir para ele, mas em muitos casos ele tem de lançar de lado o inferior antes de realmente entrar na glória, na alegria e na beleza da vida espiritual.

72. Conheci muitos cujas oportunidades eram boas, mas que recuaram justamente nesse ponto e fracassaram porque não estavam prontos para abandonar tudo o que haviam desfrutado anteriormente, e aparentemente nada receber em troca. Às vezes um homem tem medo de soltar uma coisa até poder agarrar a outra, e assim se apega firmemente ao inferior; mas isso não o satisfaz, porque ele vislumbrou o superior.

Abandonar tudo ao chamado do Mestre — pergunta-se se alguém seria capaz de fazê-lo; sempre se pensou e se esperou que sim, mas quando chega o momento, você pode fazê-lo plena e alegremente? Muitos trabalharam por anos e anos e se perguntam por que não alcançam, por que não estão entre aqueles que o Mestre pode atrair para bem perto de Si.

A razão é sempre a mesma; é a personalidade, sob alguma forma, que os retém.

Esse abandono de tudo não é algo a ser feito com constantes recaídas — abandonar num dia, e agarrar e tentar manter no seguinte — nem deve ser feito com orgulho, com a pose: "Eu abandonei tudo." Essa é uma atitude totalmente errada; deve ser feito como algo natural e alegre.

A pessoa que vai ter sucesso sentirá que não há outra coisa a fazer senão realizar a grande renúncia quando o momento chegar.

CAPÍTULO A PRIMEIRA REGRA

73. Elimina.

...

74. A.B. — A expressão "elimina" aparece no início das seis primeiras regras curtas.

É importante não a compreender mal. Há duas maneiras de livrar-se ou eliminar um pensamento mau, um hábito mau ou um ato mau.

Consideremos primeiro o pensamento, porque quando este é removido, os outros dois seguem muito facilmente.

Suponha que um pensamento mau venha à mente de um homem.

Ele descobre que esse pensamento tende a se repetir.

Então sua primeira inclinação é geralmente lutar contra ele, lançar sua energia contra ele e expulsá-lo violentamente, assim como lidaria com um inimigo físico.

Ele quer tirá-lo da mente, então o pega pelos ombros e o atira para fora.

75. Esse não é o melhor caminho.

Ele ignora a grande lei que opera em toda a natureza, de que ação e reação são iguais e opostas.

Pegue uma bola e atire-a contra uma parede; ela quicará de volta e o atingirá, suavemente se você a atirou com suavidade, mas com grande força se a lançou violentamente.

O mesmo princípio é verdadeiro em toda parte.

Suponha que você expulse um pensamento da mente com violência; haverá uma reação decidida.

O recuo lhe dará uma sensação definida de exaustão, e o pensamento poderá voltar a você com força aumentada.

A força que você empregou tomou então forma como pensamento e retornou a você novamente, e você tem de repetir a luta.

Dessa maneira, um homem pode, em alguns casos, lutar por semanas e meses e até anos, e ainda assim não ficar nada melhor com isso. Ainda assim, com o tempo é possível matar o pensamento maligno por esse meio, embora com ele você também mate uma grande quantidade de sua própria força e energia, de seu poder de pensamento, de modo que certa dureza e falta de responsividade em alguma área do corpo mental serão o resultado da luta.

76. O outro modo de eliminá-lo é substituir o mau pensamento por um bom pensamento de natureza exatamente oposta.

Primeiro você estuda deliberadamente o assunto e decide qual é o oposto, a antítese exata, do pensamento maligno.

Você formula o novo pensamento calmamente em sua mente e, então, no exato momento em que o pensamento maligno vem à sua mente, você o substitui pelo pensamento bom oposto.

Assim, ao orgulho você poderia substituir a bondade, à raiva a afeição, ao medo a admiração, e aos baixos desejos materiais pensamentos de pureza, dignidade, honra e coisas semelhantes; ou você poderia se demorar com pensamento devocional na imagem mental do Mestre como possuindo a boa qualidade, e esquecer-se de si mesmo ao pensar Nele.

77. A mente humana não consegue se concentrar em duas coisas separadas ao mesmo tempo; assim, quando você dá sua atenção ao bom pensamento, o resultado é que o pensamento maligno é expulso sem que você dirija qualquer força contra ele. Desse modo, nenhuma energia mental é desperdiçada, nenhuma vitalidade é perdida.

O bom pensamento logo ganha força, e a mente se torna impermeável aos ataques do mau pensamento e irresponsiva à sua espécie; assim, você praticamente matou o mal intensificando e vitalizando o bem oposto.

É como se sugássemos a vida do mau pensamento e o deixássemos como mera casca.

Os maus pensamentos são mais eficazmente mortos por tal desvitalização.

78. Temos, portanto, dois modos de eliminação; o primeiro na linha da morte, o último na do crescimento.

Um é o plano que é principalmente usado por aqueles que estão começando a trilhar o caminho da mão esquerda, que estão se voltando contra o caminho da Vontade divina.

O outro é o da evolução em conformidade com o Plano divino.

Somos livres para escolher qual destas duas grandes estradas seguiremos.

Todas as coisas do mundo estão em evolução, movendo-se em um ou outro destes caminhos.

79. Aquelas partes do mundo nas quais Ishvara está desenvolvendo Sua Imagem têm um certo livre-arbítrio, que consiste em poderem trabalhar com a Vontade divina ou afastando-se dela como indivíduos separados.

Aqueles que trabalham com Ele, em última análise, trilham o caminho da mão direita, mas aqueles que deliberadamente escolhem o eu separado estão se preparando para trilhar o caminho da mão esquerda.

De modo geral: tudo o que leva ao isolamento tende a direcionar o homem para a esquerda, e tudo o que tende à unidade, para a direita.

As pessoas do caminho da mão esquerda eliminam a simpatia, o afeto e o amor, porque descobrem que essas qualidades trazem miséria e também obstruem o caminho para a obtenção de poder.

O processo de eliminação é, portanto, geralmente adotado por aqueles que desejam obter poder e as outras coisas que consideram desejáveis nesta vida, para o firme estabelecimento e o gozo do eu separado, indiferentes ao bem do todo, inteiramente voltados para o seu próprio progresso e ganho individual.

Eles eliminarão violentamente todo aquele lado de sua própria natureza cuja resposta seria um obstáculo no caminho do poder.

Eles eliminarão também o afeto, porque ele é uma via de dor, e é muito mais fácil tornar-se indiferente eliminando o afeto do que tornando-se cada vez mais sensível.

80. Mas o caminho que nos foi ensinado é o da união, a senda na qual o discípulo se torna responsivo a cada grito de dor, como foi tão enfaticamente ensinado em A Voz do Silêncio.

(¹ Ante, Vol. II, pp. 137-45) O discípulo deve intensificar sua vida, não minimizá-la; deve submeter-se à lei, não lutar contra ela. Então, naturalmente, a lei estará com ele.

Seu método é algo como aquela arte de luta que é ensinada no Japão, na qual a conquista é obtida cedendo ao antagonista; o homem constantemente cede ao seu oponente, mas no momento crítico ele se volta de tal maneira que a força do seu antagonista age contra ele mesmo.

Esta é a natureza do yoga do caminho da mão direita; sobre ele diz Shri Krishna na Gita: "Nisto não há perda de esforço, nem há transgressão." 2   2 Op. cit., 11, 40.

81.   C.W.L. — Muitas pessoas, quando lhes é dito para matar um desejo, começam a fazer o que se pode descrever como um ataque violento contra ele. Querem matar certa qualidade maligna, então se colocam fortemente, quase com raiva, contra essa qualidade.

Um resultado disso é que se agitam todas as forças existentes, internas e externas, que tendem na direção oposta, para a mais violenta oposição possível, e a consequência é uma luta séria.

Se um homem é suficientemente determinado, sairá vencedor no final, mas em muitos casos desperdiçará grande quantidade de sua própria força, energia e poder de pensamento, deixando-se muito exausto e esgotado.

82.   Posso testemunhar que o método da substituição funciona muito melhor, pois experimentei ambos.

É uma espécie de ju-jitsu moral pelo qual você emprega a força do poder hostil para ajudá-lo.

Você não ataca tanto o inimigo, mas concentra toda a sua atenção na virtude oposta.

Se, por exemplo, um homem é inclinado a se aborrecer e se perturbar facilmente, não deve lutar duramente contra isso, mas sim pensar constantemente na calma, na paz e na filosofia.

Em breve esse pensamento se estabelecerá pelo hábito, e ele descobrirá que a velha preocupação e a falta de calma desapareceram sem que ele fizesse uma luta desesperada.

Se ele se cerca de pensamentos-formas como "Não seja irritadiço", e assim por diante, eles ainda são da cor da irritabilidade e reagem indesejavelmente sobre ele.

Mas se ele pensa fortemente: "Seja calmo, seja gentil, seja pacífico", ele estabelece vibrações apropriadas e produtoras de paz e harmonia.

Não queremos colocar um vício para lutar contra outro vício, mas queremos ignorar todas essas coisas e desenvolver a virtude oposta; ao fazer isso, o efeito será igualmente bom e o alcançaremos com muito menos trabalho.

83.   Dizemos: "Matem o desejo", mas não: "Matem a emoção." 1 As emoções superiores devem ser sempre encorajadas, e quanto mais fortes forem, melhor.

Especialmente isso é verdadeiro quanto ao amor e à devoção, que se deve cultivar deliberadamente.

Quando um homem sente uma grande onda de emoção como essas, sua aura se expande: seu corpo astral torna-se talvez dez vezes maior que seu tamanho normal no caso de uma pessoa comum, e muito mais do que isso quando o homem realmente sabe como usar seus veículos superiores.

Quando o grande paroxismo de sentimento termina, a aura se contrai novamente, mas não exatamente ao que era antes; tendo sido muito esticada, permanece ao menos um pouco maior do que antes.

O primeiro efeito da expansão é uma rarefação do corpo astral, mas ele muito rapidamente atrai mais matéria astral para preencher o espaço maior, de modo a restaurá-lo aproximadamente à sua densidade normal.

84. 1 Ver também anteriormente.

Vol. II, pp. 139-40.

85. O corpo astral é definitivamente necessário para que, por meio dele, se possa simpatizar com as pessoas, e também por sua função como refletor do corpo búdico.

No caso de uma pessoa desenvolvida, não há cor em seu corpo astral exceto o que é espelhado dos planos superiores; ele apenas reflete e mostra os mais delicados matizes de cor.

2 Anteriormente, Vol. III, Cap. sobre As Quatro Declarações Preliminares.

86. Há três maneiras pelas quais o eu superior está conectado à personalidade.

(3 Anteriormente, Vol. II, p. 333.) A mente superior é refletida na inferior.

O buddhi ou intuição é refletido um estágio abaixo da mente, no corpo astral.

Há também a possibilidade de conexão entre atma e o cérebro físico.

O último é o mais difícil de entender; mostra um tremendo poder de vontade, que se move sem consideração dos meios pelos quais seu objetivo deve ser alcançado.

É o método do primeiro raio, ao qual a Dra. Besant pertence.

Ela tem esse grande poder de decidir que algo deve ser feito, sem parar para considerar os métodos a serem empregados até depois.

Não conhecemos os limites da vontade humana.

Foi dito que a fé pode remover montanhas e lançá-las ao mar.

Não sei se haveria algum propósito particular a ser servido ao fazer isso, se puder ser feito, mas certamente vi resultados maravilhosos realizados pela vontade humana e não sei onde os limites desse poder estão estabelecidos.

Coisas incríveis são feitas, mais especialmente nos planos superiores, pela mera ação da vontade.

Quando tive que estudar a materialização, por exemplo, de acordo com meu caminho de progresso, tive que aprender exatamente como ela deveria ser feita — um processo complicado que envolvia um bom conhecimento dos diferentes materiais a serem reunidos e como poderiam ser melhor arranjados.

Mas conheci uma pessoa, que nada sabia a respeito, que avançou diretamente pela força tremenda da vontade e produziu o mesmo resultado, sem reunir todas as coisas complicadas que eram necessárias, e sem saber minimamente como isso era feito.

Tal vontade é um dos poderes divinos latentes em todos nós, mas em muito poucos ela vem à superfície e produz tal resultado sem um longo curso de treinamento cuidadoso.

87. Penso que, para a maioria das pessoas, o mais fácil dos três modos de fazer conexão com o Eu Superior é reunir as mentes superior e inferior, passando do pensamento concreto ao abstrato, ou da análise à síntese.

Mas vi casos em que uma pessoa foi capaz de alcançar a consciência búdica sem perturbar de modo algum as relações entre os corpos mental e causal.

Quando isso pode ser feito, ouvi de alta autoridade que essa unificação dos corpos búdico e astral é o mais curto de todos os caminhos para a meta, mas a capacidade de fazê-lo é adquirida apenas como resultado de muito sofrimento em vidas anteriores.

Aqueles para quem essa é a linha elevam-se pela intensidade de seu amor e devoção ao veículo búdico e efetuam uma junção ali, antes de terem desenvolvido a mente inferior a um nível em que ela possa trabalhar em conjunto com a mente superior, e antes de terem desenvolvido o próprio corpo causal.

É claro que esses dois corpos devem ser desenvolvidos, não podem ser negligenciados; o aspirante trabalhará sobre a mente inferior a partir do corpo astral, desenvolvendo-a e aprendendo tudo o que precisa ser aprendido, por causa de seu amor e devoção.

O pupilo ama seu Mestre tão intensamente que, por amor a Ele, aprenderá o que for necessário e desenvolverá assim todo o intelecto que for preciso.

Ele também atua sobre o corpo causal a partir de cima, e verte nele a concepção búdica, forçando-o a expressá-la tanto quanto possa fazê-lo à sua própria maneira.

88. Mate a ambição.

89. A.B. — Voltamo-nos agora para a primeira regra, tratando da ambição em particular.

O homem não desenvolvido é fortemente dominado pelas atrações dos sentidos; ele deseja luxo físico e prazer corporal.

Ele não sente ambição, que é o desejo de poder, até que a mente esteja altamente desenvolvida e o poder intelectual tenha se tornado forte.

A nota do intelecto é o "eu". Ela faz o homem sentir-se separado, e isso invariavelmente o leva a desejar exercer poder, porque esse desejo é a autoafirmação da alma individual.

Ele se sente superior a tudo ao seu redor, e isso se manifesta como um desejo de autoridade física.

Disso surge a tentação de buscar e agarrar o poder social e político.

Na esfera política e social, a ambição é a grande força motriz; pois o homem que, por seu intelecto, conquistou influência sobre seus semelhantes, destaca-se como seu líder, e essa é uma posição que é incenso nas narinas do homem orgulhoso e superior.

90. Então o homem começa a desprezar o poder externo sobre os corpos dos homens, e surge em sua mente a percepção de uma forma mais sutil de poder, que ele agora procura obter.

Ele não quer mais estabelecer leis com autoridade física; ele tem o anseio mais sutil de dominar e governar as mentes dos homens.

Essa é a ambição intelectual — a ambição de ser um líder de pensamento.

Não é uma ambição que moveria alguém que não tivesse um intelecto amplamente desenvolvido.

91. Ainda mais tarde, quando esse desejo foi superado, a ambição reaparece em uma forma ainda mais sutil, quando o homem passa para a vida espiritual.

Ele pensa no progresso espiritual como algo feito por si mesmo e para seu próprio bem, porque quer crescer, compreender e progredir; a velha ambição ainda o está segurando de fato, e é mais perigosa porque é mais elevada e mais sutil.

É por isso que, na nota a este aforismo, o Mestre faz a notável declaração de que o artista puro, que trabalha por amor à sua obra, às vezes está mais firmemente plantado no caminho certo do que o ocultista que imagina ter removido seu interesse do eu, mas que na realidade apenas ampliou os limites da experiência e do desejo, e transferiu seu interesse para coisas que dizem respeito ao seu maior período de vida.

O ocultista não está mais confinado às ambições de sua presente encarnação, mas sua ambição pode não estar morta.

Ele não se importa mais em ser um legislador ou governante da humanidade, nem mesmo um árbitro nos pensamentos dos homens; mas deseja ser elevado no mundo espiritual.

Ele percebe que vai viver vida após vida, e sua ambição se estende a todo o período dessa vida maior.

Ele ainda anseia por ser o primeiro, por ser separado, por ser o que os outros não são.

Contudo, isso também deve ser superado.

92. Quando se fala àqueles que desejam fazer parte da vida universal, a primeira coisa que se deve dizer-lhes é matar aquilo que gera a separatividade.

Não haveria, porém, ganho algum em colocar tal ideal diante do homem comum.

Ele não pode saltar de uma vez da vida mundana para uma vida espiritual em que esteja em plena atividade, mas, ainda assim, sem fazer nada relacionado ao eu pessoal ou individual.

Se você disser a um homem comum do mundo que mate a ambição, e se ele o fizer, o efeito não será desejável, pois ele cairá na letargia e não fará nada.

93. Suponhamos que um homem esteja mais adiantado que isso, esteja no caminho probatório; como deveria ele ler esta regra sobre a ambição? Da maneira mais sábia, aplicando a palavra "matar" à forma inferior de ambição; na verdade, ele deveria entendê-la como "transmutar".

Ele deveria livrar-se da ambição pelas coisas do mundo, mas colocar diante de si algo mais elevado pelo qual possa ser ambicioso.

Isso seria o desejo de conhecimento e crescimento espiritual.

Nesta fase, um homem não se livra totalmente da ambição; ele entra em um estado intermediário e fará grande progresso se colocar diante de si, como meta, a obtenção do conhecimento espiritual e o objetivo de encontrar o Mestre e, em última instância, tornar-se ele próprio um Mestre.

Realmente, todas essas são ambições, mas o ajudarão a sacudir muitos dos grilhões inferiores que envolvem sua personalidade.

94. Essa qualidade de ambição que o discípulo tem de matar teve sua utilidade em sua evolução anterior.

Foi um meio para tornar firme e estável a individualidade do homem.

Nos estágios iniciais, ele cresceu por seu isolamento.

Era então necessário, para a evolução dos corpos físico e mental, que houvesse competição e luta; todas aquelas etapas de combate e luta foram necessárias para construir o indivíduo, para torná-lo forte, de modo que pudesse manter seu próprio centro.

Ele precisava ter um lugar defendido da agressão externa, no qual pudesse desenvolver sua força.

Ele também precisava de tal posição mundana como a ambição busca, assim como, ao construir uma casa, você precisa de andaimes.

A ambição teve muitos usos nos estágios iniciais — para erguer as paredes e torná-las mais densas, para fortalecer a vontade e para ajudar a elevar o homem passo a passo.

Um homem em quem a ambição predomina também elimina os desejos sexuais e outros desejos inferiores, porque estes o impedem em seu crescimento intelectual e em sua busca por poder, e assim ele domina suas paixões inferiores.

No estágio inicial, o homem necessita, portanto, da ambição como meio de crescimento.

95. Não diríeis ao homem do mundo: "Elimina a ambição", porque a ambição o estimula e desenvolve suas faculdades.

Mas quando, como discípulo, o homem deve crescer para a vida espiritual, ele precisa livrar-se dos muros que construiu ao seu redor nos estágios anteriores.

Assim como, depois que uma casa é construída, o andaime deve ser retirado, da mesma forma a parte posterior da evolução do homem consiste em tornar os muros translúcidos, para que toda a vida possa passar através deles.

Portanto, estas regras são para discípulos, não para os homens do mundo.

96. C.W.L. — A ambição no homem não desenvolvido manifesta-se como o desejo, digamos, de obter riqueza para que possa satisfazer sua ânsia por luxo físico e prazer corporal.

Mais tarde, quando ele desenvolve o intelecto, torna-se ambicioso por poder.

Mesmo quando um homem transcendeu a ambição por poder e pelos prêmios deste mundo, e está trabalhando desinteressadamente em benefício da humanidade, ainda permanece muitas vezes a ambição de ver o resultado de seu trabalho.

97. Muitas pessoas dedicam seu tempo de boa vontade e com toda seriedade a realizar boas obras, mas gostam que os outros saibam disso e digam que pessoas boas e úteis elas são.

Isso também é ambição; certamente suave em comparação com outros tipos, mas ainda assim é pessoal, e tudo o que é pessoal se coloca no caminho do discípulo.

O eu inferior deve ser eliminado por completo.

É difícil fazê-lo porque as raízes são muito profundas, e quando são arrancadas, o homem fica sangrando, sentindo como se todo o coração tivesse saído dele.

98. Quando nos livramos do desejo de ver o resultado de nosso trabalho, ainda temos o desejo de reconhecimento em uma forma mais elevada.

Ainda, talvez, somos ambiciosos por amor; queremos ser populares.

É bom e proveitoso para um homem ser popular, atrair o amor de seus semelhantes, porque esse próprio fato é um poder adicional em suas mãos.

Isso lhe permite fazer mais do que poderia de outra forma; também o envolve em uma atmosfera agradável que torna todos os tipos de trabalho mais fáceis.

Mas desejar isso no sentido de ser ambicioso por isso é também uma coisa que devemos evitar.

Podemos legitimamente nos alegrar se o amor vier ao nosso encontro; isso é bom e correto — é bom karma; mas, se não vier, não devemos ser ambiciosos por ele. Não podemos nos apoderar de uma pessoa e dizer: "Você deve me amar, você deve me apreciar." Se os sentimentos dela fluírem nessa direção, ela o fará; se não, não poderá, e fingir seria pior do que tudo.

99. Temos de nos elevar acima de todos esses estágios de ambição que ainda se encontram no mundo comum.

Devemos dar pela alegria de dar, seja trabalho, ou substância, ou amor ou devoção; seja o que for, devemos dar livre e sinceramente, e nunca pensar em qualquer retorno; esse é o único amor real, não o tipo de amor que está sempre a perguntar: "Quanto fulano me ama?" A atitude real deveria ser: "O que posso fazer para me derramar aos pés daquele que amo? De que serviço posso ser? O que posso fazer por ele?" Esse é o único sentimento digno de um título tão grandioso.

Tudo isso sabemos muito bem, mas precisamos colocá-lo em prática.

Parece ser difícil, às vezes, fazer isso, porque ainda resta um resquício do eu inferior a ser removido.

100. Para o homem comum — talvez até para aquele que se aproxima do Caminho — creio que seria talvez bom qualificar esta regra até certo ponto, e dizer: "Matai as ambições inferiores." Não é aconselhável apresentar ao homem que está apenas começando um padrão de conduta que ele só pode esperar alcançar após muitos anos de esforço.

Se um homem tem ambições mundanas, não se pode esperar que ele as abandone todas de uma vez e não tenha nada para preencher seu lugar; isso seria quase impossível para ele, e é até duvidoso se uma mudança tão repentina seria boa para ele.

Ele deve primeiro transmutar suas ambições.

Que ele, se quiser, a princípio deseje conhecimento ardentemente, deseje avançar no ocultismo e progredir na abnegação; que ele deseje aproximar-se do Mestre, ser escolhido como pupilo.

101. A maioria de nós tem desejos desse tipo, mas os chamamos de aspirações; a mudança de nome parece denotar uma mudança total em nossa atitude, mas, é claro, eles ainda são desejos.

Alcançaremos um estágio em que até esses desejos desaparecerão, porque estaremos absolutamente certos de que o progresso depende apenas de nossos próprios esforços; então não desejaremos mais nada.

O Mestre disse uma vez: "Não desejeis uma coisa; o desejo é Vontade fraca!"¹ (¹ Vol. I, Parte V, Cap. 1: Libertação, Nirvana e Moksha.)

) Não pense em alguma qualidade que queira desenvolver: "Eu gostaria de tê-la", mas diga: "Eu a terei", e vá desenvolvê-la. Essa é a única linha que um homem pode seguir, porque essas coisas estão absolutamente em suas próprias mãos, para fazer ou não, conforme ele escolher.

102. É um caso de transmutação no início.

O desejo de crescimento espiritual é algo que aqueles que se aproximam do Caminho não deveriam mais encorajar em si mesmos, mas há esse estágio intermediário em que é muito natural.

Nós, que somos estudantes, deveríamos estar chegando a um estágio em que tomamos nosso crescimento espiritual como certo, e fixamos todas as nossas energias em tentar ajudar os outros.

No início, o homem realmente precisa de um motivo pessoal; então ele gradualmente passa a esquecer-se de si mesmo e a fazer seu progresso por amor ao Mestre, por amor a agradá-Lo, e eventualmente aprende que ele é simplesmente um canal para as grandes forças divinas, e que deve ser um bom canal e não ter nenhuma ansiedade quanto ao resultado.

Sua única preocupação então é que nada de sua parte impeça que ele seja uma expressão do Divino — tão perfeita expressão quanto lhe seja possível.

Ele não se preocupa nem um pouco com isso; não deseja que sua força seja usada nesta ou naquela direção; ele é simplesmente uma ferramenta nas mãos de Deus, para ser usado como, quando e onde Deus quiser.

103. É claro, só podemos alcançar essa atitude por graus; mas devemos colocá-la diante de nós como o estado de espírito ao qual devemos visar.

Devemos começar por esquecer-nos de nós mesmos, por extirpar rigorosamente o eu.

E se não estivermos obtendo o progresso que pensamos ser devido a nós após tantos anos de pensamento e estudo, ou e se as pessoas a quem ajudamos não forem gratas por serem ajudadas — geralmente não são — tudo isso não importa.

(1 Vol. I, Parte III, Cap. 2: O Único Bom Desejo.) Esqueçamo-nos de nós mesmos e façamos o trabalho, e sejamos inteiramente indiferentes a qualquer retorno.

O Karma cuidará disso; não precisamos temer.

As grandes leis do universo não serão alteradas para fazer injustiça a qualquer um de nós, podemos ter certeza.

Elas funcionarão com equilíbrio igual; justamente funcionam, mesmo que seja depois de muitos dias.

Esqueça-se de si mesmo; essa é a primeira e a última palavra de conselho no Caminho oculto — não há outro caminho.

Por mais difícil que pareça, tem que ser feito, e tem que ser feito perfeitamente.

104. Chegamos agora à primeira nota do Mestre Hilarion, que está anexada à primeira regra.

Vou tomá-la parte por parte.

Ela começa:

105. A ambição é a primeira maldição; o grande tentador do homem que se eleva acima de seus semelhantes.

É a forma mais simples de buscar recompensa.

106. Essa é uma maneira um tanto curiosa de colocá-la, mas é obviamente verdadeira.

A primeira tentação que vem a um homem que sabe que está se elevando um pouco acima dos demais, de alguma forma, é pensar em si mesmo como um grande homem, e isso o leva a resolver que se elevará ainda mais, para que possa desfrutar ainda mais do prazer de seu orgulho.

107. Homens de inteligência e poder são continuamente desviados de suas possibilidades superiores por ela.

108. Quão verdadeiro isso é, ninguém pode saber a menos que seja clarividente.

Aqueles que são pupilos dos Mestres, suponho, têm necessariamente o hábito de considerar todas as pessoas que encontram mais ou menos do ponto de vista de seu possível discipulado.

Vê-se um homem que é, em alguns aspectos, obviamente um bom homem; o primeiro pensamento que vem à mente sobre ele é: "Quão perto está ele do ponto em que pode se tornar um pupilo do Mestre?" Para nós, essa é a maior recompensa, a mais preciosa forma de avanço que pode chegar a qualquer homem, que ele alcance o estágio em que vale a pena ser tomado em mãos por um desses Grandes Seres, para que sua evolução futura possa ser assegurada.

A realização é, depois disso, meramente uma questão de tempo e, naturalmente, de perseverança e muito trabalho árduo.

109. Embora seja bem verdade que, para todo ser humano, o progresso seja meramente uma questão de tempo, para muitos seres humanos é claramente uma questão de tanto tempo que eles podem ser tomados em bloco, por assim dizer, tratados em massa; mas no momento em que um homem se aproxima do estágio em que concebivelmente um Mestre poderia tomá-lo em mãos, ele também se torna um objeto de interesse muito aguçado para os pupilos do Mestre, e o desejo deles é sempre tentar ajudá-lo até o ponto em que o contato definitivo possa se tornar possível.

Deve-se sempre lembrar que é meramente uma questão dos méritos do homem no assunto; não há favoritismo de qualquer espécie.

No momento em que vale a pena para o Mestre despender tanta energia quanto seria necessária para ensinar aquele homem, Ele o fará, mas só vale a pena quando Ele puder realizar mais trabalho através do homem do que Ele próprio poderia fazer com a mesma energia dedicada a outro trabalho.

110. Encontramos um grande número de pessoas que parecem não estar longe desse ponto.

Elas são tão boas de uma forma ou de outra, e algumas são tão esperançosas em todos os aspectos, que nos parece que certamente com um pouco mais da direção correta de suas energias estariam aptas para o discipulado — e então ficamos decepcionados ao descobrir que tudo isso dá em nada e elas passam a vida de maneira comum.

Especialmente tenho notado isso com rapazes e moças, entre os quais sempre foi meu destino ter que procurar casos promissores.

Há muitos jovens que estão bem próximos do ponto em que, se suas energias fossem apenas direcionadas para o caminho certo, eles se tornariam ótimos candidatos para tal progresso, e ainda assim não conseguem aproveitar a oportunidade.

Eles são atraídos para a competição da vida escolar comum e são arrastados para um mundo de pensamento inferior.

Não é pensamento mau, não quero dizer isso — embora isso possa acontecer às vezes — mas eles são arrastados para uma espécie de redemoinho de pensamento relativamente mundano.

A meta colocada diante deles é geralmente a do sucesso em algum aspecto material — tornar-se grandes engenheiros ou grandes advogados, ou ter êxito à frente de alguma casa comercial.

111. Não apenas uma carreira mundana é esperada deles por seus pais, mas a tendência geral da opinião pública também os influencia nessa direção, e é muito difícil escapar do efeito da opinião pública.

Ela nos pressiona o tempo todo em todas as direções, e assim acontece que esses jovens, que parecem tão próximos de estar prontos para a coisa superior, raramente a alcançam. Em vez disso, assumem uma carreira muito estimável e útil, mas simplesmente não é aquela coisa superior.

Acompanhei alguns casos que me pareciam especialmente promissores, e descobri que a mesma coisa às vezes ocorreu com egos por várias encarnações.

Por uma dúzia ou vinte encarnações, eles estiveram muito próximos de estar prontos, a uma distância mensurável de dar esse grande passo, mas cada vez se desviaram dele, e praticamente sempre foi a ambição mundana que os afastou de suas possibilidades superiores.

1 Vol. I, Parte II, Cap. 3: Certo e Errado.

112. Quando o Mestre Hilarion diz que homens de inteligência e poder são continuamente desviados de suas possibilidades superiores pela ambição, penso que Ele devia ter em mente casos muito semelhantes aos que acabei de descrever, porque aqueles a quem as possibilidades superiores se apresentam devem necessariamente ser homens de inteligência e poder, não meros homens comuns.

Ele não diz que a ambição arruína suas vidas, mas apenas que existem possibilidades superiores para eles, das quais ela os desvia.

Certamente não é ruim para um rapaz que ele deseje ser um grande engenheiro, um grande advogado ou um grande médico.

Todas essas são belas profissões, mas há outras coisas que são ainda mais úteis, e se ele pudesse ver e escolher a linha mais útil, certamente seria melhor para ele.

Não podemos dizer que o trabalho mundano seja ruim, mas apenas que há um trabalho melhor.

Quando se diz trabalho melhor, não se está depreciando nenhuma dessas profissões nem seu valor para o mundo; quer-se dizer que a maioria dos homens bem-educados, com capacidade comum, poderia assumir esses deveres e obter mais ou menos sucesso neles, ao passo que apenas aqueles que têm uma história por trás de si, do ponto de vista oculto, podem trilhar com êxito o caminho estreito e difícil do treinamento oculto.

Aqueles que o seguem podem fazer mais bem até do que o homem que alcança alta distinção em qualquer uma dessas outras linhas; portanto, quando há uma criança que deseja segui-lo, que obviamente seria capaz de fazê-lo, ninguém deveria ficar em seu caminho.

113. No entanto, é um professor necessário.

Seus resultados se transformam em pó e cinzas na boca; como a morte e o afastamento, mostram ao homem, por fim, que trabalhar para si é trabalhar para a decepção.

114. O homem que alcança aquilo que tão longa e ardentemente desejou, muitas vezes descobre mais tarde que não é bem o que esperava que fosse. Homens que maquinam para obter poder e alta posição descobrem que o poder é, em grande medida, ilusório, que é cerceado em todas as direções, como no caso de Lord Beaconsfield, que mencionei antes.

É possível que ele tivesse feito mais bem dedicando toda a sua energia à busca e à difusão do ocultismo.

Suas obras não são muito lidas hoje em dia, mas seu conhecimento oculto transparece através delas, como, por exemplo, em seu maravilhoso conto de Alroyd.

1 Vol. II, p. 292.

115. Porém, embora esta primeira regra pareça tão simples e fácil, não a deixe passar apressadamente. Pois esses vícios do homem comum passam por uma transformação sutil e reaparecem com aspecto modificado no coração do discípulo.

116. Para o discípulo há tentações especiais, dificuldades especiais.

O homem comum é orgulhoso, talvez, de certas coisas que pode fazer. O aluno do Mestre sabe muito bem que não deve se orgulhar de qualquer avanço que lhe venha.

Na verdade, conhecendo os Mestres, ele não pode facilmente ser orgulhoso, pois todo senso de orgulho se desvanece de qualquer homem que realmente Os conheça.

Ele pode ser capaz de fazer muitas coisas que outros não podem, mas ainda assim está constantemente, pela necessidade do caso, na presença de um ou de muitos que podem fazer infinitamente mais do que ele.

E assim o orgulho, para fazer-lhes justiça, não é frequentemente encontrado nos discípulos dos Mestres.

Contudo, tudo isso é muito sutil.

O discípulo, se não for cuidadoso, descobrirá que se orgulha de não ser orgulhoso; orgulhoso por descobrir quão humilde é, apesar das coisas maravilhosas que pode fazer, pensar e dizer.

Ou pode tentar abrir caminho para a frente entre aqueles que servem ao Mestre, porque em seu orgulho pensa que pode fazer o trabalho melhor e que sua presença no topo é essencial.

Mas Madame Blavatsky disse em seus *Primeiros Passos no Ocultismo*: "Ninguém pode pensar: 'Sou melhor ou mais agradável ao Mestre do que meus companheiros discípulos' e permanecer um discípulo do Mestre." E o Dr. Besant disse uma vez: "Uma das primeiras regras para um ocultista é ser o mais discreto possível, de modo que sua personalidade atraia a menor atenção possível."

117. Aqueles que são estudantes de ocultismo, mas ainda não discípulos, podem mais facilmente cair no erro do orgulho.

É uma grande dificuldade para aqueles que desenvolvem poderes psíquicos.

Eles descobrem que podem ver muito mais do que outros; tanto lhes é aberto que é desconhecido para outros, que começam a se sentir superiores aos seus semelhantes, e muitas vezes isso leva a resultados bastante desastrosos.

Quando encontramos psíquicos que demonstram grande orgulho, creio que podemos geralmente considerar que eles ainda não são pessoas treinadas, que embora estejam desenvolvendo as faculdades superiores, ainda não entraram em contato com o Mestre, pois a ausência de orgulho é um sinal seguro de quem está aprendendo sua lição adequadamente.

118. É fácil dizer: "Não serei ambicioso"; não é tão fácil dizer: "Quando o Mestre ler meu coração, Ele o encontrará completamente puro."

119. Isso é uma coisa bem diferente.

Podemos facilmente persuadir a nós mesmos de que não somos ambiciosos, de que nunca somos egoístas, nunca irritáveis.

Podemos persuadir a nós mesmos de muitas coisas, mas o Mestre vê com o olho que tudo vê, que discerne os fatos e não o verniz e o glamour que lançamos sobre eles quando olhamos para nós mesmos.

120. O artista puro que trabalha por amor à sua obra está, às vezes, mais firmemente plantado no caminho certo do que o Ocultista que imagina ter removido seu interesse do eu, mas que, na realidade, apenas ampliou os limites da experiência e do desejo, e transferiu seu interesse para as coisas que dizem respeito ao seu período mais amplo de vida.

121. Pessoas cínicas poderiam observar que o verdadeiro artista, nesse sentido, é desconhecido, mas não é assim. Tive muito contato com círculos artísticos tanto na Inglaterra quanto na França, e embora haja muito ciúme e falta de apreciação generosa entre os artistas em geral, ainda assim certamente conheci mais de um artista que realmente vivia e trabalhava por amor à sua arte e não por ganho.

Porque trabalhava assim, muitas vezes ele jogava fora muitas oportunidades óbvias de avanço mundano, pensando que aproveitá-las envolveria deslealdade à sua arte.

Um homem que está disposto a fazer isso por causa de sua arte já fez algum progresso no caminho de se livrar do eu inferior.

Pode haver uma forma mais elevada de ambição egoísta por trás disso, mas pelo menos ele já percorreu um longo caminho na erradicação do mero eu inferior quando perdeu a ambição por riqueza mundana e sucesso.

122. Há um estágio em que o ocultista conquistou completamente todos os desejos ligados à personalidade, elevou-se acima de todas as ambições comuns dos homens, mas ainda tem ambição por sua individualidade ou ego separado, e está pensando geralmente em seu progresso, em vez do bem que pode fazer aos outros.

Assim, pode muito bem ser que um artista que sacrificasse inteiramente o pensamento de si mesmo, mesmo que nada soubesse sobre ocultismo, pudesse ter seus pés mais firmemente plantados no caminho certo do que tal ocultista.

123. O mesmo princípio se aplica às outras duas regras aparentemente simples.

Detenha-se nelas, e não se deixe enganar facilmente pelo seu próprio coração.

124. O Mestre aqui se refere às Regras 2 e 3, que trataremos no próximo capítulo.

Estas nos dizem para eliminar o desejo de vida e de conforto.

Ele nos adverte a sermos cautelosos com relação a todos os três, pois a mente é extraordinariamente, até mesmo diabolicamente, hábil em criar desculpas para nós, em encontrar todo tipo de razões para fazermos o que queremos. Podemos não nos considerar particularmente espertos ou intelectuais, mas se olharmos para trás, para as desculpas que inventamos para fazer coisas que queríamos, geralmente temos de admitir que demonstramos uma capacidade surpreendente nesse sentido.

125. Pois agora, no limiar, um erro pode ser corrigido.

Mas se o levar consigo, ele crescerá e dará frutos, ou então você deverá sofrer amargamente em sua destruição.

126. C.W.L. — Este é o fim da longa nota do Mestre Hilarion à Regra 1. Quanto mais um homem avança no caminho do desenvolvimento oculto, mais profundamente ele enterrará qualquer falha que ainda não tenha sido erradicada.

Suponhamos que seja o egoísmo, a maior e mais comum de todas as falhas, porque está na raiz de tantas outras.

Ele pode ter se livrado de todas as suas evidências externas e pode se imaginar inteiramente livre dela, e ainda assim a falha em si pode permanecer não conquistada.

Quanto mais ele avança no Caminho, mais profundamente ela será ocultada.

Enquanto isso, ele está gradualmente elevando a força das vibrações de seus veículos, de modo que todas as suas qualidades, sejam más ou boas, devem ser grandemente intensificadas.

Se há uma qualidade maligna cuja existência pode estar bastante oculta, tanto do próprio homem quanto de seus amigos, ela se tornará cada vez mais forte e, inevitavelmente, em algum momento deverá romper e se manifestar.

Então, justamente por ter feito considerável progresso, ela produzirá um desastre muito mais sério do que teria ocorrido em um estágio anterior, e ele certamente sofrerá bastante em sua destruição.

127. A.B. — O homem no caminho deve fazer seu trabalho minuciosamente.

No limiar, os erros podem ser facilmente corrigidos.

Mas, a menos que o discípulo se livre inteiramente do desejo de poder enquanto está nos estágios iniciais de seu aprendizado espiritual, ele se tornará cada vez mais forte.

Se ele não o eliminar onde está enraizado nos planos físico, astral e mental, mas permitir que ele se enraíze no plano espiritual do ego, ele achará muito difícil erradicá-lo.

A ambição assim estabelecida no corpo causal é carregada de vida em vida.

Os corpos físico, astral e mental morrem, e ele recebe outros novos, mas o corpo causal não morre até o fim do kalpa; portanto, que o pupilo se acautele de permitir que a ambição espiritual toque o corpo causal e nele construa elementos de separatividade que cada vez mais envolvam a vida.

128. Trabalhe como trabalham aqueles que são ambiciosos.

129. A.B. — Retirei esta frase de seu lugar no livro, onde ocorre no início da Regra 4, e a trouxe para consideração aqui, onde se aplica especialmente.

É o comentário do Chohan sobre a Regra 1. Em cada caso, tomaremos a regra e depois o comentário que o Chohan deu em explicação dela. Coloque-os juntos, e você obterá o sentido.

Assim, você lê: “1. Elimine a ambição, mas trabalhe como trabalham os ambiciosos. 2. Elimine o desejo de vida, mas respeite a vida como aqueles que a desejam. 3. Elimine o desejo de conforto, mas seja feliz como aqueles que vivem para a felicidade.”

130. O desejo de poder, vida e felicidade forma a força motriz do mundo.

Esses são os prêmios que Ishvara apresenta diante de todos os seres, e o resultado é que a evolução prossegue. Todas as lutas que um homem empreende por essas coisas desenvolvem suas qualidades e o fazem evoluir.

Suponha que tudo isso seja subitamente removido — um homem perde toda a ambição, todo o desejo de vida e de felicidade.

Isso representa um estágio pelo qual os homens passam antes que o anseio pela vida espiritual desperte plenamente neles.

É chamado de vairagya, e é o resultado da saciedade.

(Vol. I, Parte I, Cap. 7: As Quatro Qualificações. Parte III, Cap. 1: A Remoção do Desejo. Vol. II, pp. 56, 264-5, 314, 324.) O homem desfrutou do poder e descobriu que ele não traz felicidade; ele trabalhou por ele e o alcançou, mas descobriu que o efeito disso sobre o ego interior é apenas decepção.

Não é o que ele esperava, e não traz satisfação.

Tome o caso, por exemplo, do falecido Imperador da Rússia, que esteve no ápice do poder humano, estava completamente cansado dele e sinceramente desejava estar livre dele. Não é incomum na história que um homem que detém poder absoluto tenha um acesso de vairagya e abdique de sua posição.

131. O resultado disso é um colapso, uma diminuição de todos os motivos que o haviam animado até aquele ponto.

Então o homem se abate e diz: “Por que deveria eu me esforçar mais? Não quero poder; por que então deveria eu trabalhar? Não quero vida; por que então deveria eu continuar a viver? Não quero conforto; ele não me dá satisfação; por que então deveria eu fazer qualquer coisa para obtê-lo?”

132. A questão para nós é: Como pode tal homem ser estimulado a uma atividade renovada, de modo que possa continuar a crescer e completar sua evolução; como pode ele ser despertado de seu estado de colapso? Somente atraindo para a atividade a vida divina nele, que vive dando, não tomando.

Ele está agora no ponto crítico de sua carreira.

Se ele ainda se apegar ao eu separado, suas vidas futuras serão cheias de fastio e desgosto.

É possível despertar nele o desejo da verdadeira vida, que consiste em derramar-se em serviço, e não em recolher-se na ociosidade egoísta?

133. Em seu estado atual, o homem é uma criatura inútil no mundo, inútil para si mesmo e para todos os demais.

Antes de alcançar essa condição, ele era uma força que ajudava a evolução geral do mundo, porque era afetado por aquelas coisas que atraem os homens normais e os capacitam a evoluir.

Nessa condição de completo colapso e inutilidade, na qual ele foi mergulhado pela perda dos motivos inferiores comuns, chega um apelo especial — um apelo que o encontra nos três pontos onde ele havia perdido seu motivo.

134. É ao homem nessa condição que vem o comando: “Trabalha como trabalham os ambiciosos.” Isso se une ao primeiro ensinamento: “Mata o desejo de ambição”, que, tomado isoladamente, levaria à letargia.

O eu separado sendo morto, o homem agora não tem motivo para o trabalho, então o clamor vem: “Trabalha como trabalham os ambiciosos.” Então vem o segundo comando: “Respeita a vida como fazem aqueles que a desejam”, e o terceiro: “Sê feliz como aqueles que vivem para a felicidade.” Esses são os três novos comandos que devem iniciar a nova vida, os três novos motivos que substituem os três antigos.

O homem jaz ali como morto.

A vida da forma está morta.

Agora ele tem de despertar a vida da consciência; isso será feito por esses três apelos.

Ele tem de começar a trabalhar novamente, mas agora deve ser o homem espiritual que vive e trabalha, enquanto a personalidade age como uma máquina.

Ele tem de viver mais do que nunca viveu antes, embora os desejos de vida, felicidade e poder tenham sido todos extintos.

Esta é a resposta à sua pergunta: “Por que deveria eu trabalhar?”

135. Se um homem não encontra a resposta, permanecerá na condição morta e não crescerá mais.

É o ponto conhecido pelos estudantes de mecânica como ponto morto, o ponto de equilíbrio, no qual não há força que o impulsione adiante; as forças superiores contrabalançaram as inferiores e destruíram seu antigo egoísmo e ambição, mas ainda não são suficientemente fortes nele para enviá-lo adiante, cheio de energia e propósito em sua causa.

Esse equilíbrio não é o objetivo da evolução.

Que novos motivos podem ser apresentados ao homem para despertá-lo desse estado e torná-lo ativo? Há apenas um que pode agitar a alma interiormente — sua identificação com a vida de Ishvara no mundo, e agir como parte dessa vida, em vez de com o desejo pelo fruto da ação.

136. Não há melhor comentário sobre esta sentença do que aquele que encontrareis no terceiro discurso do Bhagavad-Gita, onde são dadas razões pelas quais um homem deve trabalhar depois de ter perdido os motivos comuns, o desejo pelos frutos da ação:

137. Mas o homem que se alegra no Self, com o Self está satisfeito, e está contente no Self, para ele verdadeiramente não há nada a fazer;

138. Para ele não há interesse nas coisas feitas neste mundo, nem nas coisas não feitas, nem depende qualquer objeto seu de algum ser.

139. Portanto, sem apego, realiza constantemente a ação que é dever, pois, realizando a ação sem apego, o homem verdadeiramente alcança o Supremo.

140. Janaka e outros de fato alcançaram a perfeição pela ação; então, tendo em vista também o bem-estar do mundo, deves realizar a ação.

1 Op. cit., iii, 17-20.

141. O que aqui é descrito é um estágio ainda mais elevado do que o do homem de quem agora estamos pensando.

Temos considerado apenas o começo desse Caminho que conduz a essa plena realização do Self.

Mas o motivo que aqui é dado aplica-se a ele; ele realizou o vazio do não-self, e está em posição de responder ao apelo do único Self.

Ele está preparado para trabalhar com o motivo do benefício para o mundo.

Tal homem pode agora pensar em tentar obter conhecimento espiritual, não para que ele próprio se torne sábio e grande, mas porque isso ajudará o mundo; ele está gradualmente fazendo disso seu objetivo — algo fora de seu próprio eu individual.

142. Finalmente, ele abandonará também esse motivo de desejo elevado, e apenas desejará ser um instrumento do superior, e fazer aquilo que Ishvara deseja.

Então ele aprenderá que não deve sequer desejar conhecimento espiritual, nem mesmo tornar-se um Mestre, mas simplesmente tornar-se um instrumento para a Vida superior.

Assim, sendo ativo como aqueles que são ambiciosos, mas com o motivo de ser um canal para a Vida superior, o homem se livrará dos últimos vestígios de ambição.

Sua energia agora está fundida na Vontade do Logos; isso se torna o motivo de seu trabalho.

143. Nos versículos da Gita citados acima, Shri Krishna explica como um homem deve trabalhar para alcançar o Supremo, para realizar a presença e o poder do Divino.

Então Ele prossegue mostrando que tal realização e percepção conduzem a uma atividade mais plena do que qualquer outra jamais conhecida.

Ele explica que é o trabalho ativo de Ishvara que sustenta tudo:

144. Não há nada nos três mundos, ó Partha, que deva ser feito por Mim, nem nada não alcançado que possa ser alcançado; ainda assim, Eu me envolvo na ação.

145. Pois se Eu não me envolvesse sempre em ação incansável, os homens ao redor seguiriam Meu caminho, ó filho de Pritha.

146. Estes mundos cairiam em ruína, se Eu não realizasse a ação.

1 Ibid., iii, 22-24.

147. Ele trabalha para o bem-estar do mundo, para a rotação da roda do universo, e o único motivo de Sua atividade é que o mundo possa crescer e se desenvolver até que o ciclo esteja completo.

148. Shri Krishna então prossegue mostrando as razões pelas quais um homem deve trabalhar — para o benefício e a manutenção do mundo e da humanidade.

Não mais se identificando com as formas separadas, ele deve se identificar com a Vida una que está conduzindo vidas separadas a fim de levá-las à perfeição.

Assim, identificando-se com a Vida una, ele deve trabalhar inteiramente para o bem-estar e a manutenção de seus semelhantes e de todo o mundo — para que tudo o que se move e o que não se move possa alcançar seu fim designado, possa tornar-se aquilo que está no pensamento de Ishvara, embora na vida manifesta ainda não tenham alcançado esse ponto.

Todo o universo de Ishvara existe perfeito em Seu pensamento, e gradualmente, em muitos estágios, Ele trabalha esse pensamento na matéria.

Aqueles que percebem isso como parte de Sua vida devem trabalhar como Ele trabalha para a manifestação completa desse pensamento, isto é, para girar a roda da vida até que a rotação esteja completa.

149. Não se segue necessariamente que o homem que possui esse motivo verdadeiro e espiritual acredite em Deus ou pense Nele.

Mas, em todo caso, ele sente e responde à Vida divina no mundo, e a serve com devoção absoluta.

Tal, por exemplo, foi o caso do meu velho amigo Charles Bradlaugh, que não acreditava em Deus como era compreendido em sua época, mas, no entanto, estava sempre pronto a enfrentar sofrimento e perigo, a deitar o próprio corpo na vala se assim pudesse ser útil como uma ponte sobre a qual outros pudessem caminhar para uma vida superior.

150. Contudo, aqueles que sentiram assim a Vontade de Ishvara, de modo que ela se tornou o seu motivo na vida, não devem perturbar as mentes de outros que ainda não são capazes de sentir isso e agem a partir do desejo.

Shri Krishna prossegue dizendo:

151. Assim como os ignorantes agem por apego à ação, ó Bharata, assim também o sábio deve agir sem apego, desejando o bem-estar do mundo.

152. Que nenhum homem sábio perturbe a mente dos ignorantes apegados à ação; mas, agindo em harmonia Comigo, torne toda ação atraente.

1 Ibid., iii, 25-26.

153. O homem espiritual deve lançar-se no trabalho do mundo e dar o exemplo, porque o padrão que é estabelecido pelo sábio será seguido por outros.

Um homem que é respeitado pela massa do povo estabelece um padrão pelo qual a atividade será conduzida pelos demais; se ele se tornar indiferente à ação, eles também cairão na indiferença.

Embora a sua indiferença possa provir de um motivo superior, eles não o sabem, e é algo bastante natural que eles confundam o seu motivo.

Neles, a indiferença brotaria de tamas, e isso impediria a sua evolução posterior.

154. Um homem poderia dizer: "Não quero resultados aqui ou no swarga.

Por que então deveria eu ajudar outras pessoas no caminho que conduz a esses prazeres; por que deveria eu torná-las ativas nessas linhas que considero inúteis, para que alcancem o que é sem valor? Por que deveria eu lançar a minha atividade a favor de dar aquilo que é indesejável?" A resposta é perfeitamente clara.

Esses frutos da ação são absolutamente necessários para a massa do povo.

A menos que desejem esses prazeres do mundo, esses confortos e ambições, essas coisas que os movem à ação, a sua evolução será interrompida.

Se não quiserem o gozo aqui, então o swarga pode ser o seu motivo.

De alguma forma, eles devem ser encorajados a mover-se, crescer, evoluir.

Se você os convencer de que essas coisas são inúteis, eles não evoluirão.

155. É portanto importante para a evolução da humanidade que se dê o exemplo de um trabalho feito de maneira completa e perfeitamente bem-feita.

Ele nunca é feito perfeitamente bem enquanto somos homens trabalhando a partir do desejo.

Embora nesse caso o homem possa mostrar um exemplo admirável de energia e perseverança, haverá a mancha do egoísmo em seu trabalho, o que tornará seu exemplo imperfeito.

Ele pode trabalhar com grande precisão, mas está trabalhando para si mesmo.

Ele não está realmente fazendo o seu melhor, porque não está pensando inteiramente no trabalho, mas parcialmente em um resultado para si.

156. O Senhor trabalha perfeitamente para que o mundo prossiga. Devemos, então, trabalhar no mesmo espírito.

Devemos trabalhar melhor do que o melhor homem mundano, porque nosso motivo é o de serviço a Deus e ao homem, e não o nosso próprio ganho.

Trabalharemos pela causa da humanidade.

Não sairemos correndo em busca de atividade pelo simples prazer de estar ativos.

Muitos homens trabalham assim pelo prazer da ação, porque, a menos que estejam ocupados, não se sentem vivos, mas entediados.

Essa condição está muito distante daquela do homem que está contente no Eu Superior.

Ele nunca se entedia, nunca procura uma válvula de escape na atividade.

157. Ele trabalha porque é seu dever, e não tem desejo de atividade quando não há dever.

Assim, ele realiza a inação na ação.

No quarto discurso do Gita, Shri Krishna comenta sobre a ação, a ação errada e a inação:

158. "O que é ação? O que é inação?" Até os sábios estão perplexos quanto a isso.

Portanto, eu te declararei a ação, conhecendo a qual serás liberto do mal.

159. É necessário discernir a ação, discernir a ação ilícita e discernir a inação; misterioso é o caminho da ação.

160. Aquele que vê a inação na ação e a ação na inação, esse é sábio entre os homens, é harmonioso mesmo enquanto realiza toda ação.

¹ Ibid., iv, 16-18.

161. Até os sábios ficam confusos, diz-se, quanto aos limites de cada uma dessas coisas.

A ação correta é o dever, aquilo em que o homem está expressando a vida de Ishvara em seu próprio lugar.

Nisso ele deve ser um canal ou agência, trabalhando com o conhecimento, a precisão e a completude que o homem não ambicioso demonstra.

Se você pegar o trabalho dele e colocá-lo ao lado do trabalho do homem ambicioso, verá que é igualmente bem feito, ou até melhor, porque é feito com absoluta entrega de si e perfeito equilíbrio.

162. Se você encontrar um homem que não está trabalhando dessa maneira, tendo perdido o desejo pelo fruto da ação, mas que está fazendo menos do que deveria, trabalhando com menos energia, menos interesse e menos pontualidade porque não tem mais motivos pessoais, então você vê alguém que não aprendeu o dever da ação antes de se entregar à inação.

Foi-me dito a respeito de certas pessoas: “Esses homens estão começando a inação antes de terem realizado a ação — pelo reconhecimento intelectual da inutilidade do fruto da ação, antes de terem alcançado o ponto em que poderiam trabalhar desinteressadamente. Eles não são nem bons homens do mundo, pois pararam de fazer isso, nem são homens espirituais que lançam sua energia na evolução da humanidade.”

163. Há duas vidas que um homem pode viver quando alcançou a condição em que o fruto da ação não o afeta. Ele pode se retirar para a selva para viver em reclusão, ou pode estar ocupado em meio aos assuntos dos homens. (1 Vol. I, Parte V, Cap. 2: Amor na Vida Diária. Cap. 6: Serviço.) Se ele for suficientemente evoluído para trabalhar energeticamente no plano mental ou espiritual, essa vida de inação física pode ser a melhor; esse homem está ajudando o mundo muito mais do que poderia em meio à agitação do mundo. No entanto, tal homem frequentemente será enviado de volta por seu Mestre para viver sua última vida no mundo. Ele então viverá uma vida intocada pela ação, mostrará no mundo o exemplo da verdadeira ação, levará uma vida de perfeita atividade com toda a energia que o homem mais ambicioso pode demonstrar.

164. Quando um homem vive a vida espiritual no mundo, geralmente não é possível saber por meios externos se ele é movido por desejo ou por dever. Mas há um teste que nunca falha, pelo qual se pode sempre julgar o próprio motivo. Como você é afetado quando o fruto da ação está diante de você? Se o menor elemento de ambição entra no trabalho de um homem, ele mostrará decepção se falhar ou euforia se tiver sucesso. Se não há sofrimento para ele em seu fracasso, nenhum elemento de personalidade entrou em seu trabalho; pois se ele tem trabalhado porque Ishvara trabalha, para o bem-estar da humanidade, ele saberá que seu fracasso não é o fracasso de Ishvara, mas que o fracasso faz parte do Seu Plano. Do ponto de vista de Ishvara, o fracasso é impossível, e frequentemente na vida humana o fracasso é tão necessário para o sucesso final quanto o sucesso é necessário para o sucesso final.

Seu povo pode ser enviado às vezes para representar o papel do fracasso, a fim de se tornar mais forte, para perceber que onde há fracasso também há sucesso.

165. Se um homem está realmente trabalhando como parte de Sua Vida, isso será demonstrado por sua perfeita contentamento, quer ele tenha sucesso ou fracasse.

Se esse contentamento é perfeito, sem sombra de insatisfação, ele tem trabalhado absolutamente para a manutenção da humanidade; então o trabalho não o aprisiona, e ele resolveu o problema da inação em meio à ação.

Ele aprendeu o uso dos veículos e das gunas, sem identificar-se com eles.

Em casos comuns, as gunas operam o homem, mas o homem no Caminho opera as gunas.

A maioria dos homens é levada pelas energias da natureza; eles trabalham conforme essas energias estão ativas.

Mas o homem no Caminho toma essas energias como instrumentos de trabalho e, permanecendo por trás delas, utiliza-as.

O homem ambicioso é impelido pelas gunas quando pensa que está trabalhando, mas aquele que as transcendeu está direcionando-as ao longo da estrada da evolução traçada por Ishvara, e não se identifica com elas.

Assim está ensinado no Gita:

166. Tendo abandonado o apego ao fruto da ação, sempre contente, em nenhum lugar buscando refúgio, ele não está fazendo nada, embora realize ações.

167. Nada esperando, com mente e eu controlados, tendo abandonado toda cobiça, realizando a ação somente pelo corpo, ele não comete pecado.

168. Contente com tudo o que obtém sem esforço, livre dos pares de opostos, sem inveja, equilibrado no sucesso e no fracasso, embora aja, não está aprisionado.

169. Daquele com apego morto, harmonioso, com seus pensamentos estabelecidos na sabedoria, suas obras sacrifícios, toda ação se dissolve.

1 Op. cit., iv, 20-23.

170. Assim, o homem que se encontra no ponto de equilíbrio, de indiferença, deve descobrir algum meio de aumentar as influências superiores dentro de si mesmo, para que estas o impulsionem para esta vida de ação espiritual.

Ele deve usar a meditação; deve tentar utilizar qualquer emoção que possua; deve deliberadamente aproveitar toda oportunidade de serviço.

Ele deve mover-se mesmo sem o desejo de mover-se, e até mesmo contra o desejo de não se mover.

Ele deve mover-se.

Se ele puder encontrar alguém por quem tenha reverência, cujo exemplo o inspire à atividade, isso será uma grande ajuda para superar essa fase de transição, onde, de outra forma, ele poderia cair fora da evolução por algum tempo.

Se o desejo de agradar a alguém que ele admira surgir em sua mente, ele pode usar isso para impelir-se adiante até estar em condições de sentir a força impulsora da Vida de Ishvara, e assim usar a emoção para transportá-lo para além e para fora de seu estado de colapso.

171. C.W.L. — Tendo posto de lado a ambição por si mesmo, diz-se então ao homem que trabalhe como trabalham aqueles que são ambiciosos.

Geralmente há três estágios pelos quais os homens passam.

Há, em primeiro lugar, o trabalho pelo resultado mundano.

Depois vem o estágio em que o homem começa a trabalhar, ainda por um resultado, mas por um resultado celestial.

Isso nos é muito apresentado pelas diferentes igrejas.

Devemos renunciar a este mundo para viver para sempre no céu; ficaremos mais próximos do trono de Deus, e assim por diante. A maioria das pessoas passa por esses dois estágios de trabalhar primeiro pelo resultado mundano e depois pelo resultado celestial.

Alguns deles melhoram um pouco essa segunda ideia, porque trabalham para agradar à sua Divindade.

Muitos cristãos, por exemplo, trabalham por amor a Jesus, e isso é admirável porque é altruísta; é um estágio mais elevado do que trabalhar por um resultado pessoal, ainda que seja celestial.

172. Há ainda um estágio mais elevado, o de fazer o trabalho pelo próprio trabalho, mas a maioria das pessoas ainda não o compreende.

Muitos artistas o fazem; há artistas que trabalham pela arte, seja qual for a sua linha. Como disse um grande poeta: "Apenas canto porque devo." Ele queria dizer que precisava expressar aquilo que vinha através dele como uma mensagem ao mundo.

Outro, sentindo a mesma coisa, disse que valorizava seus poemas não porque fossem seus, mas porque não eram.

Assim, há alguns que trabalham pela arte — não por si mesmos ou por sua própria fama, não para agradar a outras pessoas, nem mesmo para agradar a Deus como essa ideia seria comumente entendida, mas porque sentem a mensagem vindo através deles e precisam transmiti-la. Esse é um estágio elevado a se ter alcançado.

173. Então há o estágio mais elevado de todos, quando um homem trabalha porque é parte da Divindade e, como parte Dele, deseja o cumprimento do Plano divino.

As pessoas às vezes se iludem e pensam que estão trabalhando por isso quando ainda têm um considerável sabor das ideias inferiores ao seu redor.

Podemos sempre nos testar quanto a isso — melhor, talvez, quando acontece de falharmos, o que ocorre às vezes a todos nós. Como nosso grande Presidente tem frequentemente explicado, se estamos realmente trabalhando de forma definida e consciente como parte da Divindade, como parte do todo, não ficamos nem um pouco perturbados por qualquer fracasso que nos sobrevenha, porque sabemos que Deus não pode falhar.

Se por um tempo certa atividade parece ser um fracasso, isso está no plano e, portanto, é uma coisa necessária, e por isso não é realmente um fracasso.

Nada pode ser um fracasso do ponto de vista Dele, então não ficamos nem um pouco aflitos.

A única questão seria se foi culpa nossa; mas se fizemos o nosso melhor e a coisa ainda é um fracasso, sabemos que está tudo bem.

174. Tais considerações, no entanto, não devem nos tornar negligentes ou indiferentes ao tempo.

Faz parte do nosso trabalho converter outros da doutrina da inércia para o caminho do serviço, e mesmo um único ganho desse tipo significa que alguma vantagem distinta foi alcançada para o mundo.

O que é, é o melhor, certamente, mas somente quando fizemos o nosso melhor.

Se há alguém que deixou de fazer o seu melhor em sua parte desse trabalho, então o que é não é o melhor, porque poderia ter sido melhor.

É somente quando fizemos absolutamente tudo que temos o direito de nos refugiar nisso.

"Bem, fiz tudo o que pude.

Se, apesar de tudo, não obtiver sucesso, curvo-me a um poder superior ao meu." Tenho muita certeza de que o que foi feito não se perdeu, afinal, e o que quer que aconteça a todas essas pessoas no fim é realmente o que é melhor para elas.

175. Pode ser apenas uma ilusão, mas é uma muito poderosa — aquela visão filosófica elevada de que não importa se você obtém algo agora ou daqui a um milhão de anos.

Sinto que isso importa para mim; portanto, penso que deve importar para outras pessoas, e se pudéssemos fazê-las aproveitar a oportunidade mais precoce de avançar, estaríamos fazendo algo muito grande por elas.

Que diferença isso faz, a longo prazo, para o Logos em quem tudo isto se move, não posso dizer, mas é muito provável que seja Seu desejo que evoluamos, e se Ele deseja que isso seja feito, então também deve desejar que seja feito o mais cedo possível. Estamos claramente cumprindo Sua vontade se tentamos avançar pelo Caminho que conduz à plena unidade com Ele, e se ajudamos outros nesse Caminho, então não posso ver que seja indiferente se as pessoas entram na corrente neste período de mundo, ou neste período de cadeia, ou esperam até o próximo.

Farei tudo o que puder para ajudar as pessoas a entrarem nela neste.

176. Talvez outro teste seja se estamos dispostos a realizar qualquer trabalho que seja o trabalho Dele — se estamos dispostos a ajudar igualmente a altos e baixos.

Para Ele não há nem alto nem baixo na questão do progresso, embora alguma parte de Seu esquema possa estar em um ponto mais alto e outra parte em um ponto mais baixo desse progresso.

É muito parecido com o girar de uma roda; alguma parte dela se aproxima do topo enquanto gira, mas toda ela, igualmente, move-se conforme a roda gira.

Nosso trabalho é ajudar o todo a avançar, a empurrar qualquer parte da roda.

A vida em todos os níveis é a vida divina; está mais desdobrada em alguns estágios do que em outros — mais desdobrada no humano do que no animal, no animal do que no vegetal, no vegetal do que no mineral — mas a vida é a vida divina em toda parte, e se estamos ajudando a avançar qualquer parte disso, estamos ajudando o plano divino.

Aquilo que é mais alto ou mais baixo é a forma na qual a vida é lançada; a forma permite maior ou menor desdobramento, mas a vida é uma só vida.

Isso certamente deve fazer parte do ponto de vista Dele, que é muito diferente da nossa perspectiva — a ideia de que toda vida é, na realidade, a mesma; não há alto nem baixo desse ponto de vista, porque o todo se move junto.

Isso não altera o fato de que pode haver alguns nos quais a vida está mais desdobrada, que são capazes de dar maior assistência, e outros que podem ser capazes apenas de um grau inferior de assistência; o ponto é que aqueles que descobrem que o que podem fazer melhor seria comumente chamado de trabalho inferior não devem ficar nem um pouco desanimados, porque também estão empurrando a mesma roda — estão ajudando o desdobramento da mesma vida divina.

CAPÍTULO REGRAS 2 A

177. 2. Mata o desejo de vida.

178. Respeita a vida como aqueles que a desejam.

179. A.B. — Já consideramos até certo ponto este aforismo e o próximo.

Os mesmos princípios gerais que se aplicam à eliminação da ambição, e ainda assim ao trabalhar como aqueles que são ambiciosos, aplicam-se também a estes dois aforismos.

O discípulo deve livrar-se do desejo pela vida pessoal — tudo o que energiza o eu pessoal e responde à gratificação do seu desejo pessoal.

Ele não deve mais se regozijar no mero prazer de expandir a sua própria vida, absorvendo cada vez mais as coisas exteriores.

180. Em todo o mundo, vêem-se homens em busca ansiosa de uma vida mais plena; eles a agarram com muitas variedades de cobiça, lutando e batalhando por mais e mais de tudo o que apela às suas imaginações ardentes e incultas, causando assim grandes quantidades de problemas pessoais e sociais.

Mas o discípulo deve livrar-se desse desejo de aumentar e expandir a sua própria vida individual e separada.

Ele deve entrar na Vida superior, e ter apenas o desejo de estar onde quer que no universo seja necessário, a qualquer momento, como uma expressão da vida una.

Há muitas coisas a fazer neste universo.

Quando todo desejo por vida individual separada for transcendido, e todas as preferências pessoais tiverem desaparecido, a necessidade do momento guia a escolha do homem espiritual.

Onde quer que a ajuda seja necessária, é o lugar de trabalho para tal alma liberta; ele só se importa em ser um instrumento, onde quer que o instrumento seja necessário.

A sua vida é para ele apenas útil e valiosa na medida em que é parte da Vida Universal.

181. O homem que perdeu o seu desejo de vida chega a um ponto de perigo — ele pode considerar a vida como sem valor para todos, porque as coisas que ela oferece são sem valor para ele.

Ele pode assumir uma atitude de desprezo para com o mundo e os seus semelhantes.

Ele pode olhar de cima para eles e desprezá-los; como pessoas tolas, pode falar deles com desdém, e considerar os seus motivos mesquinhos.

Essa atitude para com eles é muito natural, mas está cheia de perigo, e é fundamentalmente maligna.

Mostra que ele não realizou o Self, embora possa ter realizado o não-self como tal.

Se ele olha de cima para qualquer vida, por mais subdesenvolvida que seja, esquece que essa manifestação é uma parte de Ishvara, e para ele, portanto, a mensagem é necessária e urgente: "Respeita a vida — como aqueles que a desejam."

182. Se ele pergunta por que deveria olhar para ela com respeito, a resposta é: porque ela é divina.

É um estágio em que Ishvara está trabalhando, um estágio que para Ishvara é tão importante quanto o estágio superior em que Ele agora se encontra. Quando falamos de alto e baixo, falamos do ponto de vista da evolução e do tempo — a sucessão de mudanças que constitui o tempo.

Não é assim que Ishvara considera o Seu mundo; para Ele não há nada grande nem pequeno, odioso nem querido.

Tudo está num estágio de um caminho pelo qual todos viajam para a mesma meta; o humilde é tão necessário para o esquema da evolução quanto a forma que normalmente chamamos de superior.

Assim, o discípulo não deve cair no erro de desprezar e ignorar qualquer vida, por estar ela no que chamamos de estágio inferior de evolução.

Cada coisa em seu lugar é certa e boa.

O reconhecimento dessa verdade fundamental significa que o homem deve amar seus semelhantes, deve aprender a cuidar deles como parte da Vida Universal em evolução.

183. Concedido que um homem em estágio inferior seja tolo, sensual, indolente, extremamente desagradável; sua falta de atração reside na forma, não na Vida.

Somos cegados pela forma.

Porque o nosso olhar de desdém para com outro, o nosso desviar dele, é um sinal da nossa superioridade, segue-se um sentimento de superioridade, que gera o desprezo.

Mas a verdade é que a única coisa em que somos superiores é na evolução da forma.

A essência é a mesma; suas possibilidades são iguais às nossas, e, visto do centro, ele é como nós.

O homem que está no Caminho procura ver as coisas tanto do centro quanto da circunferência.

Ele deve, portanto, respeitar a Vida e perceber que a Vida de Ishvara é a única Vida; a forma é aquilo em que Ishvara escolhe manifestar-se por um certo tempo, e, se é boa o bastante para Ishvara, é bastante boa para nós.

184. No universo deve haver forma em todos os estágios de crescimento.

Ninguém é superior ou inferior; todos são iguais.

Há diferença quando nós mesmos estamos em processo de evolução; mas não há diferença quando a superamos. Quando renunciamos ao interesse nela e descartamos toda questão de formas e frutos, então podemos respeitar a Vida em todas as suas manifestações.

O homem parcialmente evoluído, preso às formas, está disposto a ajudar aqueles que estão relativamente próximos de si e que podem retribuir seu esforço.

Ele não se inclinará a ajudar aqueles que estão em níveis baixos.

Mas o homem que ajuda do ponto de vista de Ishvara ajuda a todos.

Seu dever é ajudá-los onde quer que estejam.

Sua atividade deve ser a atividade de Ishvara.

Ele ajuda aqueles que cruzam seu caminho, sejam eles elevados ou humildes, e respeita a Vida em cada um deles, e ajuda onde a ajuda é necessária.

Ele não se deixa confundir pelo fato de que a totalidade da Vida não está presente no homem.

Ele sabe que a obra de Ishvara é conduzida para que essa vida possa ser trazida à tona, e ele trabalha para desdobrá-la em manifestação.

Ele não se deixa desviar pensando que estar no Eu é tudo.

Ele trabalha pela manifestação, respeitando e amando a Vida.

E assim ele evita completamente o perigo do desprezo, que de outra forma impediria o desdobramento da Vida em si mesmo ao produzir um muro de separatividade.

185. Há nisso uma imensa diferença entre a maneira como a Vida é encarada por um homem comum e por aquele que vive no Eterno.

Este último vê a Vida em suas plenas possibilidades, possibilidades essas que para ele estão à vista agora, mesmo que não desenvolvidas; pois ele vive no Eterno, e quando a Vida é contemplada desse ponto de vista, ela é vista na beleza de seu cumprimento.

Abaixo desse estado, nós a vemos apenas em um estágio particular, no tempo e não na Eternidade, e portanto não a respeitamos como deveríamos. Mas a alma liberta que vive na Eternidade a vê como ela é, e embora contemple o estágio em um tempo particular no qual ela chegou, não pode sentir repulsa, porque sabe que esse estágio é perfeitamente normal.

186. O resultado prático disso é que quanto mais elevado é o homem, mais tolerante ele é com toda a Vida, e maior é sua compaixão por todos, aproximando-se da compaixão do próprio Logos.

À medida que um homem destrói em si mesmo o desejo de Vida, isto é, o desejo do eu separado, e ainda assim respeita a Vida como aqueles que a desejam, ele começa a adquirir esse senso de Eternidade que lhe permite respeitar a vida em qualquer maneira que ela se manifeste.

Para ele, então, qualquer desprezo por aqueles que estão abaixo dele torna-se impossível; ele reconhece cada um em seu lugar como uma expressão da Vida Perfeita.

187. C.W.L. — Aqui, como no caso da regra anterior, podemos tomar o ensinamento em dois níveis diferentes.

Sem dúvida, o iniciante tem que eliminar o desejo por um tipo de vida exterior em vez de outro, tal como interferiria com o trabalho a ser realizado.

Um homem que se torna aluno do Mestre deve estar absolutamente disposto a fazer o que quer que seja colocado em seu caminho, a ir para cá ou para lá, a deixar isto ou aquilo, e não ter nenhum sentimento a respeito disso. Se ele pensa: "Estou fazendo este tipo de trabalho e o estou fazendo bem, e quero continuar fazendo-o", ele pode se prejudicar porque está se tornando presunçoso.

Suponhamos que ele seja afastado do trabalho que sente que pode fazer e seja colocado em algo que lhe é novo; ele deve aceitá-lo com perfeita alegria.

A mudança pode ser feita porque este outro trabalho é mais necessário, ou porque, já que ele aprendeu a fazer aquela coisa, deve agora aprender a fazer outra coisa.

188. Bem fora do treinamento especial do aluno, frequentemente descobrimos que as forças evolutivas agem dessa maneira.

Todo homem gosta de fazer o que sente que pode fazer bem, mas as forças evolutivas querem desenvolver o homem integralmente, e muitas vezes o afastam do que ele pode fazer e o colocam em algo que ele ainda não pode fazer bem, porque querem que ele desenvolva algum novo poder.

Se a princípio ele não consegue fazê-lo, deve trabalhar nisso até conseguir.

Essa é a maneira como a evolução em geral funciona, e a mesma coisa se aplica ao treinamento dos alunos do Mestre.

Se eles podem fazer algo bem, podem ser mantidos nisso por algum tempo, mas então, de repente, podem ser enviados por outra linha, e devem estar igualmente dispostos a fazer também esse outro trabalho.

Assim, certamente, o desejo por um tipo de vida física mais do que por outro terá de ser eliminado.

189. No nível superior, o mesmo é verdade com relação à vida do ego.

O discípulo sabe, se olhar para trás em encarnações passadas, que seu ego veio ao longo de certas linhas, mas ele desenvolveu certas qualidades e pode, do ponto de vista da individualidade, fazer bem ao longo dessas linhas. Ele pode ser subitamente afastado delas. A individualidade, o ego, deve aceitar aquilo que lhe vem no curso de seu treinamento, e também aí devemos estar livres de qualquer sentimento de que este trabalho ou este caminho é melhor do que aquele. Isso nos é trazido à consciência quando encontramos pessoas de outros raios ou tipos.

Sentimos que o nosso raio e tipo é o melhor.

Em teoria, admitiríamos que os outros devem ser tão bons quanto o nosso, mas poucos de nós conseguem sentir uma simpatia verdadeiramente sincera por eles.

Assim, por exemplo, alguém que tenha trabalhado em linhas filosóficas ou científicas pode achar um tanto difícil voltar suas atividades para o serviço artístico ou cerimonial.

É difícil girar nossas simpatias e deixá-las fluir livremente por outra linha, mas isso é uma das coisas que devemos aprender a fazer, se necessário.

190. Assim que um homem sente a unidade, ele alcança a visão imparcial das coisas.

Todas as linhas de trabalho são, então, na prática, as mesmas para ele — não que ele possa assumir todas com igual facilidade, mas ele vê que todas conduzem ao mesmo ponto.

O homem não desenvolvido nunca compreende isso.

Sempre pensa que o homem que adota o ponto de vista superior é frio, duro e insensível; isso ocorre porque o homem inferior está pensando em si mesmo e querendo todo tipo de satisfações pessoais, enquanto o outro homem pensa apenas no trabalho a ser realizado e dedica toda a sua energia a ele.

Quando o Plano de trabalho do Logos desponta no horizonte de um homem, ele vê isso com exclusão de tudo o mais, e lança suas energias nessa direção, e tenta fazer o que for melhor para esse trabalho, mesmo no que diz respeito ao menor detalhe da vida cotidiana.

191. Ele atrela sua carroça a uma estrela.

Ele coloca diante de si ideais muito elevados e muito distantes do entendimento comum, e é inevitável que as pessoas que ainda veem as coisas do ponto de vista pessoal o compreendam mal.

Se ele sofre por causa desse mal-entendido, ainda há um pouco de toque pessoal nisso; ele ainda quer ser compreendido, mas até isso ele deve abandonar. Ele deve renunciar à esperança de que seus esforços sejam apreciados, e perceber que não importa se são apreciados ou não.

O que importa é que o trabalho seja feito.

Se as pessoas não nos derem crédito pelo nosso trabalho, não importa; que ele seja feito da forma mais perfeita possível.

Teremos a apreciação do Mestre — disso podemos estar certos — mas nem isso deve ser nossa razão para fazê-lo. Nossa razão para fazê-lo é que é a obra de Deus, e, como somos um com Ele, o que Ele quer é a nossa vontade; o que Ele gostaria que fosse feito é o nosso mais alto prazer e privilégio tentar realizar.

192. Quando percebemos que toda Vida é Vida divina, naturalmente respeitaremos todas as suas manifestações. Nós, que vemos parcialmente, nem sempre respeitamos a vida em todas as suas formas e em todas as suas manifestações.

Vemos que muitas delas seriam eminentemente indesejáveis para nós e, portanto, há uma tendência a encarar essas manifestações particulares com desprezo.

Isso é sempre um erro.

Vemos muita coisa ao nosso redor que, do nosso ponto de vista, está indo muito mal, e muitas vezes realmente está indo mal.

Todas as expressões de egoísmo, ganância e desejo descontrolado que vemos no mundo são certamente erradas, no sentido de que seria muito melhor se fossem diferentes.

Não é de modo algum um erro pensarmos assim, porque é um fato; mas quando nos permitimos sentir desprezo pelas pessoas que estão nesse estágio, vamos além do que temos o direito de ir. Seu estado de desenvolvimento explica essas manifestações, e elas são muitas vezes as únicas expressões possíveis para elas naquele estágio, e é através delas que aprenderão.

193. Quando vemos um homem demonstrando egoísmo, ganância e falta de autocontrole, dizemos: "Que pena!" No entanto, é uma pena apenas no mesmo sentido em que poderíamos dizer que é uma pena que uma criancinha de quatro anos não tenha crescido para ser um homem.

Se nos permitimos ser descontrolados, ou demonstrar ganância e egoísmo, poderíamos sentir uma espécie de desprezo por nós mesmos, porque sabemos melhor, mas seria errado sentir isso por qualquer outro homem.

Se parece que ele deveria estar se saindo melhor, provavelmente não aproveitou suas oportunidades; então deveríamos sentir pena dele e tentar ajudá-lo, quando pudermos, a ver o lado melhor, as possibilidades mais elevadas, mas é o maior erro afastarmo-nos dele, embora nem sempre possamos deixar de sentir repugnância pelas coisas que ele faz.

Por exemplo, se um homem fica bêbado, é porque está naquele estágio.

Ele é uma alma mais jovem, portanto é possível para ele ceder à tentação desse tipo em vez de resistir a ela, como deveria fazer. Em muitos casos, ele tentou, talvez, mas até agora falhou.

Tudo o que pudermos fazer para ajudá-lo deve estar total e inteiramente à sua disposição, mas não devemos sentir repugnância por ele.

É a antiga ideia cristã; podemos odiar o pecado, mas devemos ter pena do pecador, caso contrário estaremos fazendo pior do que ele, porque estamos perdendo o senso de fraternidade e destruindo nosso poder de ajudar.

194. A Vida una está por trás de tudo, e devemos respeitá-la mesmo nas manifestações de que não gostamos e que sentimos ser indesejáveis.

Nunca devemos esquecer que ela é divina.

É difícil lembrar que, às vezes, quando as coisas feitas são tão pouco divinas; no entanto, devemos tentar.

É a antiga ideia da Vida oculta, que nos foi ensinada nos mistérios egípcios há milhares de anos.

A Vida oculta estava em cada homem, e por mais profundamente que estivesse enterrada e por menos que se manifestasse, devíamos sempre lembrar que ela estava ali, mesmo quando não podíamos vê-la. A luz oculta em nós não podia brilhar e evocar a luz oculta em outro imediatamente, mas se fôssemos suficientemente pacientes e suficientemente enérgicos, deveríamos provocar uma resposta, em algum momento e de alguma forma.

Nos dias de hoje, expressamos o ensinamento em termos um tanto diferentes, mas é igualmente verdadeiro agora como então.

195. O homem que vive no Eterno vê o que será tanto quanto o que agora é, e quando olha para uma manifestação da Vida que é eminentemente indesejável, diz: "Sim, no presente, do ponto de vista do tempo, é isso que vejo que ela é — uma manifestação baixa e indigna; mas a Vida divina nela um dia florescerá." Muitas pessoas não pensam quão ilusória é a coisa do presente. Mal pensamos nela e ela já passou.

Dizemos: "Tal e tal coisa existe no presente", e enquanto pronunciamos as palavras, aquele momento presente já se tornou passado.

Na realidade, não existe tal tempo como o presente; é uma espécie de fio de navalha entre o passado e o futuro; é meramente um termo que usamos por conveniência — a coisa em si está mudando a cada segundo do tempo.

Devemos ler o futuro no presente e ver o que será. Se pudéssemos apenas sair destes corpos e destes cérebros por alguns momentos para uma vida totalmente superior e olhar para baixo, compreenderíamos exatamente esta questão.

Veríamos que, ao pensar nesse futuro, o tornamos mais facilmente alcançável para o presente.

Se olharmos para um homem que está definitivamente pecando e pensarmos em seu pecado, envolvemos esse pecado mais estreitamente em torno dele; mas se olharmos para ele e pensarmos no futuro, quando ele tiver se elevado acima disso, abrimos o caminho para esse futuro para ele e o aproximamos de seu alcance.

1 Ante.

Vol. I, Parte V, Cap.

3: Fofoca.

196. 3. Mata o desejo de conforto.

197. Sê feliz como aqueles que vivem para a felicidade.

198. A.B. — Nos estágios iniciais do crescimento, o homem empreende todos os esforços de cérebro e corpo para obter os meios que o tornarão confortável; o desejo de conforto forma o motivo da maioria da humanidade.

É um estímulo muito útil para trazer à tona certas qualidades do homem.

Ensina-lhe que ele deve controlar seu corpo, que deve dominar sua natureza inferior, e que também tem de desenvolver seus corpos, para que estes sirvam aos seus propósitos, de desfrutar conforto neles.

199. O desejo por conforto desaparece gradualmente à medida que as coisas que atraem o homem se elevam cada vez mais na escala.

Um homem pode livrar-se dos desejos por conforto e prazer físico lançando seu interesse na vida mental, por exemplo.

No início haverá uma sensação de esforço, um certo sentimento de dor e perda; mas o homem prefere os prazeres mentais aos físicos porque sabe que aqueles durarão mais.

Então, à medida que pratica a autonegação, ele descobre que o sentimento de perda torna-se cada vez menor à medida que as alegrias do intelecto o atraem cada vez mais, até que os desejos inferiores não o atraem de modo algum.

200. No início há autonegação deliberada em cada estágio, e então vem a perda do poder de atração no objeto físico do desejo.

Mais tarde, a mesma mudança ocorrerá com relação às alegrias do intelecto.

Quando o homem está olhando para a vida espiritual, sua grande atração pelas coisas intelectuais diminuirá gradualmente, e ele será cada vez menos atraído pelo gozo da poderosa força intelectual; ele negará a si mesmo as alegrias do intelecto e se regozijará nas do espírito; ele se retirará do intelecto e fixará sua consciência no nível espiritual.

201. A destruição do desejo por conforto também traz seu perigo.

Este é o terceiro grande perigo.

O primeiro foi a inatividade, o segundo foi o desprezo, e o terceiro é a tendência a não ser feliz, mas a não ser nem feliz nem infeliz, nem uma coisa nem outra.

202. Como se tornará o homem feliz? A resposta é: percebendo que o Self é bem-aventurança.

Está dito nos Brahma Sutras que Brahman é Bem-aventurança, Brahman é Ananda.

O homem tem agora de perceber isso.

Ele não é mais movido pelo prazer nem pela dor.

Eles cessaram de atraí-lo; eles vieram do contato entre formas, mas ele alcançou o equilíbrio.

Ele está, portanto, propenso a afundar na condição de não ser nem feliz nem infeliz.

Mas ele deve aprender a ser feliz como aqueles que vivem para a felicidade.

203. É a bem-aventurança do Si mesmo, essa profunda e duradoura bem-aventurança, o senso de contentamento e alegria, que é uma parte essencial da vida espiritual, e a parte mais difícil dessa vida de se realizar na consciência.

É um fato muito marcante sobre os grandes Místicos e Salvadores da humanidade que o lado do sofrimento se mostrou muito presente em suas vidas.

Jesus foi um homem de dores.

Gautama, o Buda, deixou seus esplêndidos palácios e jardins e amigos amorosos para buscar a cura para o sofrimento do mundo.

O mesmo é verdade quando observamos as vidas de todos os grandes líderes da humanidade.

O sofrimento os tocou profundamente.

Mas eles não foram vencidos pelo sofrimento.

Naqueles homens havia uma alegria duradoura, e o sofrimento é profundamente exagerado pelo homem que os observa de fora.

Enquanto a dor paira sobre eles, enquanto ansiedade, hostilidades, problemas, preocupações e aflições chovem sobre eles de todas as direções, naturalmente são julgados pelos homens como sendo sofredores.

Mas isso não se segue.

Eles não estão preocupados, hostilizados ou angustiados por essas coisas, por mais que possam atendê-las, e possam fazer o que for necessário em prol do mundo.

Por baixo de tudo isso está o coração de paz.

Portanto, vocês sempre os encontram dizendo: "Minha paz permanece."

204. O discípulo sente o sofrimento do mundo.

Disso ele não pode escapar; isso lançará uma sombra sobre ele — uma sombra inevitável.

Todo o sofrimento do mundo tem de encontrar eco nele.

Ele sente o sofrimento e continua a sentir compaixão pelos ignorantes e pelos que sofrem, por sua rebelião e revolta.

No estágio que estamos considerando, há perigo para ele — que ele possa deixar de sentir pelos outros; então, exatamente na proporção em que deixa de sentir, ele perde sua utilidade.

Os Grandes Seres sentem uma compaixão impotente por aqueles sob o domínio do carma; compaixão por causa de Sua própria incapacidade de ajudá-los, pois há lugares onde Eles não podem ajudar, onde os homens devem passar por suas experiências por si mesmos.

Apesar do conhecimento de que assim deve ser, e apesar de Seu contentamento absoluto com a Lei, Eles permanecem à parte observando-a operar; ainda assim, há essa dor e simpatia — compaixão, que contém em si um certo elemento de sofrimento.

205. Isso permanecerá sempre como algo de uma sombra.

Ao perder o poder de simpatizar, um homem perderia o poder de ajudar.

Assim como sua vida flui para os ignorantes, ele sente o prazer e a dor dos ignorantes, e ele alivia seus problemas sentindo-os ele mesmo.

206. Com tudo isso pressionando-o, é sempre necessário que o discípulo seja lembrado de que o Self é bem-aventurança.

Ele deve manter o coração alegre, deve cultivar deliberadamente em si mesmo o espírito de contentamento e felicidade.

Uma maneira de fazer isso é praticar a meditação sobre a bem-aventurança divina — bem-aventurança profunda, intensa, não igualada por nada pertencente a esta terra, porque é a própria essência e natureza do Self.

O homem pode desenvolver esse aspecto apenas pelo cultivo deliberado da alegria e do contentamento, e por olhar para o mundo e reconhecer que o mal é avidya, não-sabedoria.

Em meio às tristezas, ele deve ser feliz; deve ensinar a si mesmo que a dor está no veículo, enquanto a vida é sempre alegria.

207. C.W.L. — Esta regra não significa que as pessoas não possam estar confortáveis, embora muitos a tenham interpretado nesse sentido.

Yogis, eremitas e monges interpretaram declarações semelhantes em outras escrituras dessa maneira, mas isso é absolutamente errado e tolo.

Alguns monges na Idade Média usavam cilícios; e alguns yogis indianos sentam-se sobre espinhos e dormem no clima mais quente no meio de um círculo de fogo, tudo com o objetivo de se tornarem desconfortáveis.

Isso é o resultado de escolher um texto e levá-lo ao extremo.

Está particularmente declarado no Bhagavad-Gita que aqueles que torturam o corpo torturam o Divino que habita nesse corpo, e seu caminho não é o caminho do progresso.

(1 Op. cit., xvii., 6.) Portanto, esta regra não significa que não possamos estar confortáveis, mas simplesmente que nunca devemos permitir que nosso desejo de conforto se interponha no caminho de qualquer trabalho que tenhamos que fazer. Se fazer o que deve ser feito nos causar grande desconforto, não devemos por causa disso deixar de fazê-lo.

208. Tornarmo-nos desnecessariamente desconfortáveis apenas coloca dificuldades em nosso caminho.

As pessoas falam muito sobre a virtude do sofrimento e a extensão em que o progresso é feito através dele; mas se olharmos para os fatos frios, descobriremos que o progresso é feito depois que o sofrimento passou.

Não é o sofrimento em si que causa o progresso, mas em muitos casos ele desperta o homem para condições que, de outra forma, ele não teria notado suficientemente.

Às vezes, elimina dele qualidades que tornavam o progresso difícil, mas é somente após o sofrimento terminar que o progresso é feito, porque somente então ele está em um estado de espírito adequado para atender às coisas superiores.

209. Não devemos pensar que há qualquer virtude em nos tornarmos desconfortáveis.

Pelo contrário, quando o corpo físico está confortável, somos muito mais capazes de pensar em coisas superiores.

No entanto, conheci pessoas que insistiriam em fazê-lo. Por exemplo, na Índia, onde a meditação é mais bem compreendida, acontece que o costume é sentar-se com as pernas cruzadas.

Conheci dezenas de pessoas brancas que se cansariam e até se causariam dor ao tentar seguir o costume indiano na meditação, sem compreender que isso é meramente um detalhe externo, e que o indiano adota essa posição apenas porque está acostumado a ela desde a infância.

É extremamente inútil que pessoas não acostumadas a isso se forcem a uma posição que para elas é desconfortável.

A instrução de Patanjali é adotar uma postura "fácil e agradável".

210. Há dois objetivos com relação à posição do corpo durante a meditação.

Primeiro, ela deve ser confortável, para que se possa facilmente esquecê-la, pois é isso que se deseja fazer. Em segundo lugar, deve ser tal que, se durante a meditação deixarmos o corpo — o que pode acontecer a qualquer momento — ele não se machuque.

Em tal caso, o efeito sobre o corpo será como se tivéssemos desmaiado.

O indiano que está sentado no chão simplesmente cai para trás, e nenhum dano é causado.

Quando meditamos, faremos bem, portanto, em nos sentar em algum tipo de poltrona, para que não caiamos dela, caso o corpo perca a consciência.

A posição reclinada não é boa se aumentar a tendência ao sono.

211. Há alegrias das emoções e do intelecto, e muitas pessoas que desprezariam a ideia de que seu conforto físico lhes importasse minimamente são, no entanto, extremamente infelizes quando não estão emocionalmente confortáveis, ou seja, quando imaginam que não estão recebendo a resposta que merecem às suas emoções.

Muitas pessoas são dolorosamente sentimentais e esperam que o resto do mundo seja igualmente assim, e ficam muito magoadas porque não é.

Elas derramam o que chamam de afeto, mas isso muitas vezes é tingido de egoísmo.

Criam todo tipo de perturbação, e até fazem coisas que prejudicam aqueles que professam amar, tudo em nome do que chamam de retorno de seu afeto.

Elas não compreendem que existem diferentes tipos de afeto, e que pode ser absolutamente impossível para a pessoa em questão retribuí-lo da sua maneira particular.

Essa dificuldade vem da insistência do desejo por conforto emocional, que nunca deveria ser permitido interferir em nosso próprio progresso ou no daqueles que amamos.

212. Da mesma forma, existe o conforto intelectual.

As pessoas querem que os outros pensem exatamente como elas, para que possam descansar mentalmente contentes, sem perturbação.

Constantemente nos deparamos com essa dificuldade.

Haverá algum jovem promissor profundamente interessado em Teosofia, por exemplo, que queira se juntar à Sociedade, mas seus pais se opõem vigorosamente a ele.

Eles não se sentiriam intelectualmente confortáveis se pensassem que seu filho ou sua filha estivessem adotando uma linha que eles não pudessem compartilhar.

Eles têm certeza de que estão certos e de que não pode haver sabedoria real fora dos limites de suas próprias opiniões particulares.

Portanto, se um filho ou uma filha pensa diferente deles, eles ficam bastante indignados, sem perceber que o fato de um ego ter nascido em sua família não significa necessariamente que ele seja do mesmo temperamento que eles.

213. Cada ego tem seu próprio caminho, seu próprio poder de apreciar a verdade; ele deve recebê-la ao longo de sua própria linha.

Para outros tentarem forçá-lo a tomá-la ao longo da linha deles, que não é a dele, é um erro; o Self interior inteiro se revolta contra isso. O resultado, em centenas de casos, quando crianças foram pressionadas intelectualmente, é que elas se afastam completamente das crenças de seus pais.

Repetidamente, por exemplo, o filho de um clérigo acaba como ateu, porque o pai e a mãe tentaram imprudentemente forçá-lo a pensar ao longo de suas linhas.

Esse dano é feito apenas porque eles próprios querem estar intelectualmente confortáveis.

O discípulo deve estar sempre atento para que seu desejo de estar emocional ou intelectualmente confortável não o faça interferir nos direitos de outras pessoas, e para que não o deixe ficar no caminho do dever ou da ajuda que ele possa dar.

214. É essencial que sejamos felizes, como o Chohan diz aqui, embora certamente não vivamos para a felicidade.

Acho que muitos esquecem o dever da felicidade.

Eles não a consideram um dever, embora enfaticamente o seja.

É uma parte necessária do progresso.

A pessoa que está sempre lamentosa e deprimida sobre o que está acontecendo não está fazendo progresso algum, e é bom que ela entenda isso.

Como já disse antes, é necessário que nos tornemos cada vez mais sensíveis, porque, a menos que nos coloquemos nessa condição, não podemos responder no momento ao mais leve sinal do Mestre.

É inegavelmente difícil ser muito sensível e, ao mesmo tempo, radiantemente feliz, e, no entanto, é isso que devemos ser. Há muito que exige a mais profunda simpatia, e é difícil sentir simpatia por aqueles que sofrem sem também sentir tristeza; contudo, como expliquei, o Mestre simpatiza muito mais do que nós podemos, mas certamente não sente a tristeza como tristeza.

215. Ante, Vol.

II, p. 329.

216. Poderia haver muito menos sofrimento e muito menos tristeza se as pessoas a quem agora chegam a tristeza e o sofrimento tivessem vivido de maneira bem diferente em outras vidas, talvez há milhares de anos, mas considerando que viveram como viveram, o que agora está acontecendo é o melhor que pode acontecer para o seu progresso.

Não podemos deixar de lamentar que não seja melhor, mas a nossa tristeza não é pelo que está ocorrendo agora, mas pelos acontecimentos anteriores que tornaram isso necessário.

Possivelmente isso soa um pouco frio, mas quando compreendemos como o resultado é inteiramente parte da causa, podemos ver que o que está acontecendo agora é, na verdade, parte das causas que as próprias pessoas colocaram em movimento há muito tempo, e não poderia ser diferente enquanto a lei divina de causa e efeito estiver em operação.

217. Todo esse sofrimento só pode ser alterado agora pela introdução de novas forças.

Às vezes podemos aliviar a tristeza e o sofrimento até certo ponto.

Sempre que fazemos isso, não é de modo algum que ab-rogamos o funcionamento da lei, não é de forma alguma que tudo não flua em harmonia com essa lei, mas que introduzimos uma nova força que também se enquadra na operação da lei e mitiga muito daquilo que, de outra forma, teria sido o efeito do que veio antes.

Mas, embora às vezes possamos aliviar e ajudar, é, como expliquei antes, bastante difícil para muitos de nós alcançar sempre a atitude de ser perfeitamente solidários e, ao mesmo tempo, reconhecer a necessidade do sofrimento, embora possamos fazê-lo muito bem em certas coisas.

Suponhamos que algum amigo que amamos muito tenha de passar por uma operação cirúrgica.

Naturalmente, lamentamos que assim seja, mas não nos ocorre dizer que não deveria ser assim, porque reconhecemos que a operação tem por objetivo fazer o bem, e confiamos que seu resultado será uma melhora em sua saúde.

Portanto, por mais pesarosos e ansiosos que estejamos, consideramos isso uma necessidade infeliz, lamentável.

Toda dor e sofrimento não são nada além disso — operações para remover crescimentos perigosos.

218. Grande parte do sofrimento do mundo pode ser evitada, porque muito dele não provém do passado, mas é resultado da tolice presente dos homens.

Eles interpretam as coisas de maneira equivocada.

Por exemplo, com frequência nos permitimos ser magoados, ofendidos ou preocupados.

Isso não é karma do passado.

Em muitos casos, sete oitavos dos problemas que sobrevêm às pessoas não vêm de fora; devem-se inteiramente ao modo como elas encaram suas experiências.

O karma que nos chega de fora é apenas uma pequena porção, mas nós o ampliamos enormemente; essa é a nossa falta presente, e pode ser remediada.

1 Ante., Vol. I, Parte I, Cap. 1: O Caminho Oculto e os Interesses do Mundo; Parte IV, Cap. 1: Controle da Mente; Cap. 4: Alegria; Vol. II, pp. 141, 218, 244.

219. A maioria das pessoas que vivem em busca da felicidade procura alcançá-la de várias maneiras: cercando-se das pessoas com quem se sentem felizes, indo aonde esperam encontrar prazer, e assim por diante. Isso o discípulo não deve fazer, porque ele deveria estar na posição de ser perfeitamente feliz em si mesmo, sem referência a condições exteriores particulares.

Isso é difícil para nós, porque, através de muitas vidas, fomos em grande parte joguetes das circunstâncias.

Se observarmos as pessoas, veremos que a maioria delas ainda se encontra nessa condição.

A maioria das pessoas no mundo faz muito pouco esforço para mudar as condições em que se encontra.

Se se sentem deprimidas ou facilmente ofendidas e, portanto, infelizes, deveriam pôr-se a trabalhar para mudar essas condições.

Em vez disso, queixam-se daqueles que as ofendem e dizem que é absolutamente impossível conviver com tais pessoas.

No entanto, esses outros são provavelmente pessoas muito parecidas com o resto do mundo.

Nossa felicidade depende de como essas pessoas são recebidas, de nossa atitude diante da atitude delas.

Se nosso estudo do ocultismo tiver produzido algum fruto, diremos: "Não me importo com a posição que eles assumem; isso é problema deles, não meu; meu dever é cuidar para não me ofender nem me preocupar, para preservar um estado de paz, não importa o que essas outras pessoas façam ou pensem."

220. Alguém pode dizer que é muito difícil fazer isso, se outras pessoas são agressivas ou insultuosas.

Mas não é óbvio que o efeito produzido pela atitude insultuosa e agressiva depende da maneira como é recebida? Se nos permitimos ser afetados por ela, uma grande perturbação se instala. De nosso lado, demonstramos algo da mesma natureza, e para o observador pareceria que parte dessa agressão é justificada.

Mas se permanecemos perfeitamente calmos, o homem que nos insulta coloca-se em erro, e o observador externo pode ver que não estamos em erro.

Naturalmente, não deveríamos permanecer calmos para parecer estar com a razão, mas deveríamos adotar uma atitude filosófica, porque não sentimos essas tentativas de nos atacar ou de interferir conosco; e assim podemos ser felizes.

221. Isso parece uma espécie de felicidade negativa, evitar a dor ou o sofrimento.

Podemos fazer muito mais do que isso; nós que tentamos viver de acordo com os preceitos do ocultismo — estudantes da vida interior — devemos estar realizando algo do trabalho do mundo.

Certamente ninguém pode ver o Plano do Logos, e o trabalho que deve ser feito para executar esse Plano, sem tentar fazer o máximo que puder por ele, e o fato de estar engajado nesse trabalho mantém o homem ocupado e feliz.

Não deveríamos ter tempo para a depressão, nem tempo para nos preocupar com todas essas coisas exteriores.

Se estamos o tempo todo ocupados em derramar bons pensamentos, em enviar fortes desejos, fortes correntes de boa vontade a todos ao nosso redor, estamos plenamente ocupados e somos felizes no próprio trabalho.

222. É triste ver a maneira como as pessoas ao nosso redor falam constantemente em fazer coisas "para passar o tempo". Elas fazem isto ou aquilo por causa de ter algo para fazer. É ao mesmo tempo ridículo e lastimável, porque o mundo está cheio de oportunidades para praticar boas e nobres ações, e essas pessoas nem sequer procuram as oportunidades.

Elas estão apenas tentando, de algum modo, divertir-se, para conseguir atravessar o tempo — uma atitude das mais extraordinárias.

223. O estudante de ocultismo descobre que não consegue tempo suficiente para fazer tudo o que gostaria. Todos aqueles que estão realmente dispostos a trabalhar são sobrecarregados de trabalho; há sempre mais a ser feito do que eles podem possivelmente realizar. A Dra. Besant trabalha incansavelmente desde o início da manhã até altas horas da noite, sem descanso, e o trabalho dela é algo muito diferente da ideia que o homem comum tem de trabalho.

Alguns homens que estão nos negócios certamente estão ocupados o tempo todo, mas a ideia que a maioria das pessoas tem de trabalho é fazer um pouco e descansar, e então retomar o assunto e dedicar mais um pouco de tempo a ele. Eles chamariam isso de atenção muito próxima ao trabalho.

Não é assim que ela trabalha.

Mesmo enquanto ouve alguma história que lhe está sendo contada, ela continua escrevendo e ainda assim sabe cada palavra do que lhe está sendo dito, e está perfeitamente pronta, ao final da história, para oferecer ajuda ou conselho.

Ela não perde um único momento.

Ela está sempre preparada, se por acaso estiver esperando em uma estação de trem, para tirar uma pequena caixa de despacho e começar a escrever artigos ou cartas imediatamente.

Não é dado a todos — e pense na idade que o seu corpo já alcançou — fazer isso, especialmente porque grande parte do trabalho é de caráter muito profundo e exige decisão rápida em muitas direções diferentes.

Pessoas que são pagas pelo trabalho não o fazem dessa maneira.

É precisamente porque tudo o que ela faz é feito por amor a ele que ela consegue fazer tanto.

Certamente ela é feliz em seu trabalho, sempre pronta a receber as pessoas com um sorriso amigável, e é assim uma grande inspiração para todos aqueles que entram em contato com ela.

Faríamos bem em seguir os seus passos tanto quanto pudermos, lembrando sempre do dever da felicidade.

Se não estamos felizes, então não estamos fazendo o suficiente; é uma prova segura de que estamos perdendo tempo.

Deveríamos nos pôr a trabalhar e fazer algo, e imediatamente a infelicidade desaparecerá, porque não haverá tempo para ela. O interesse no trabalho é tão intenso e a quantidade a ser feita é tão grande, que nos encontraremos pensando nisso, e não teremos tempo para pensar em qualquer coisa que se assemelhe à infelicidade.

224. Busca no coração a fonte do mal e expurga-a. Ela vive frutífera no coração do devotado discípulo, assim como no coração do homem de desejo.

Somente os fortes podem eliminá-la.

Os fracos devem esperar pelo seu crescimento, sua frutificação, sua morte.

E é uma planta que vive e cresce através dos tempos.

Ela floresce quando o homem acumulou sobre si inúmeras existências.

Aquele que entrar no caminho do poder deve arrancar esta coisa do seu coração.

E então o coração sangrará, e toda a vida do homem parecerá completamente dissolvida.

Esta provação deve ser suportada; pode vir no primeiro degrau da escada perigosa que conduz ao caminho da vida: pode não vir senão no último.

Mas, ó discípulo, lembra-te de que ela tem de ser suportada, e fixa as energias da tua alma na tarefa.

Não vivas nem no presente nem no futuro, mas no Eterno.

Esta erva gigante não pode florescer ali: esta mancha sobre a existência é apagada pela própria atmosfera do pensamento eterno.

225. C.W.L. — Este é o restante da Regra 4, o comentário do Chohan sobre as três primeiras regras.

A erva gigante é a heresia da separatividade — a ideia do eu separado — que é verdadeiramente a fonte do mal.

Somos dirigidos a matá-la por etapas.

Somos instruídos primeiro a unificar o eu inferior e o eu superior, isto é, a fundir a personalidade na individualidade.

Para a maioria de nós, o eu pessoal ainda está tão próximo que tende a obscurecer as coisas superiores.

Temos de abrir caminho através disso e gradualmente transcendê-lo, para nos livrarmos inteiramente de todo egoísmo.

Então temos de começar sobre a individualidade.

226. Agora, a individualidade, o ego, é uma coisa muito maravilhosa — complexa, extremamente bela e maravilhosamente adaptada ao seu ambiente, um ser glorioso de fato; contudo, eventualmente devemos perceber que mesmo isso é apenas um instrumento que criamos pelo trabalho de muitas eras em prol do progresso da Mônada.

Porque tivemos de desenvolver a ideia do eu separado nos estágios iniciais do nosso progresso, a erva gigante; ou a sua semente, está no coração de todos.

Isso tem de ser eliminado em um momento ou outro, contudo apenas os fortes podem arrancá-lo de si mesmos no início do seu desenvolvimento.

Os fracos devem esperar e deixá-la continuar crescendo enquanto desenvolvem força suficiente para matá-la.

Isso é lamentável para eles, porque quanto mais tempo ela é permitida persistir, mais intimamente se entrelaça com a natureza do homem.

Aqueles que podem reunir a coragem para arrancá-la agora farão um progresso rápido e muito mais seguro.

227. Por mais terrível que seja a luta para nos livrarmos desse eu separado a qualquer momento, será milhares de vezes mais difícil se a deixarmos para as etapas posteriores do nosso progresso.

Até que seja finalmente destruído, estaremos sujeitos a todos os tipos de dificuldades e perigos dos quais só podemos escapar livrando-nos dele aqui e agora.

Obviamente, portanto, é melhor eliminá-lo desde o início.

227. Todos os sistemas de ensino ocultista concordam em aconselhar os estudantes a tentarem, desde o princípio, livrar-se dessa ilusão.

A dificuldade no caminho, além do hábito de nos pensarmos como separados, é que essa ideia tem sido a fonte de toda a nossa força no passado.

Quando o ego foi primeiramente formado como indivíduo, ele era decididamente fraco.

Ele havia sido, até então, parte de uma alma grupal, e a ideia de identidade separada não era forte nele.

Ela teve de ser intensificada através da vida selvagem.

A força do homem cresceu gradualmente a partir do sentimento: "Eu sou eu". Nos primeiros dias, seria: "Eu sou um grande lutador e um corredor veloz; sou um poderoso carrasco; posso liderar exércitos; posso guiar homens; posso fazê-los fazer o que eu quiser." Mais tarde, expressar-se-ia em um nível mais elevado como: "Eu tenho um intelecto poderoso; posso confiar em mim mesmo; tenho orgulho de mim mesmo; sou um grande homem; posso pensar mais fortemente do que outros homens e, portanto, tenho poder sobre suas mentes, e posso influenciá-los a fazer isto ou aquilo." É através do senso de separatividade que aprendemos a ser autossuficientes.

228. Mais tarde, chega um estágio em que a autossuficiência significa confiança no Eu Superior.

O homem não confia mais nem na habilidade de sua mão, na rapidez de seu pé e na força de seus músculos, nem em seus poderes intelectuais, mas passa a perceber que há uma força do espírito que é muito maior do que todas essas manifestações externas, e quando esse estágio é alcançado, ele logo começa a ver que a força de seu espírito é a força do infinito que está por trás dele, porque é uma com o próprio Deus.

Assim, nossa autossuficiência finalmente se torna confiança Nele — no poderoso Poder por trás.

Nós somos Ele, e ao confiar em Deus estamos confiando em nós mesmos, porque cada um de nós é uma centelha do Divino, e a Divindade está em nós. Só precisamos perceber isso e desdobrá-lo, e então o eu no qual confiamos torna-se o grande Eu que é o Todo.

229. Essa ideia do eu separado está enraizada em nós e faz parte do próprio ego, que é a única coisa permanente em nós, até onde sabemos.

Ainda temos que aprender que existe a Mônada; ela parecerá o verdadeiro Eu quando tivermos deixado de lado a individualidade.

Contudo, quando esse momento chegar, veremos muito mais claramente do que agora que essas Mônadas são apenas centelhas da Chama Eterna.

Sabemos disso agora teoricamente, e a verdadeira realização disso virá para todos no devido tempo; já veio para alguns.

Expliquei antes que, quando a consciência está focada na parte mais elevada do corpo causal, é possível olhar para cima, ao longo da linha que une a Mônada e o ego.

Olhando por essa linha até a Mônada, da qual sabemos tão pouco, e além dela, podemos ver e conhecer com uma definição e certeza que nenhuma palavra pode expressar aqui embaixo, que tudo o que pensamos ser o Eu e pertencer a nós não é nós, mas Ele; que, se tivéssemos algum intelecto, alguma devoção ou afeto, não era de modo algum nós, mas era o intelecto, a devoção, o amor que é Deus, que se manifestava através de nós.¹ (¹ Ante, Vol. I, Parte II, Cap. 2: A Vida dos Corpos.) Quando um homem tem essa experiência, ele nunca mais pode ser exatamente o mesmo; ele não pode descer novamente da mesma maneira ao ponto de vista pessoal, porque sabe com a certeza que convence.

Alguma experiência como essa é necessária para neutralizar o resultado do desenvolvimento do eu separado, que atualmente é um grande problema e nos causa muita tristeza e sofrimento, obscurecendo nossa visão da Vida.

Estamos nesta posição curiosa: nosso autodesenvolvimento se deve à ideia de separatividade até certo ponto, e é somente quando alcançamos esse ponto que ela se torna um mal, e temos que nos livrar dela. A humanidade agora alcançou um estágio em que deveria estar realizando isso.

É por isso que o dever do desapego nos é impresso tão fortemente por todo ensinamento oculto e religioso elevado.

A humanidade como um todo precisa disso.

Ainda está no estágio egoísta, tentando agarrar isto e aquilo para si.

Toda a nossa força deve ser voltada contra essa tendência.

230. Ao mesmo tempo, devemos tentar ser muito tolerantes quanto a isso. Frequentemente nos sentimos impacientes com o egoísmo desenfreado e brutal encontrado em toda parte, mas isso é inútil.

Essas pessoas infelizes estão apenas levando adiante agora o que foi necessário para seu desenvolvimento há milhares de anos.

Devemos ajudá-los, se possível; devemos ser sempre gentis e tolerantes, mas muito firmes quanto à necessidade de nos livrarmos desse ponto de vista.

Alguns de nós acham útil tentar perceber o progresso da humanidade como um todo e fazer da prática de pensar em nós mesmos como parte dela. Procuramos agir segundo o conselho dado por um de nossos Mestres, que certa vez o expressou assim: "Se você conseguir dar algum passo, se conseguir fazer um avanço definido, não deve pensar: 'Eu fiz isso, estou realmente progredindo'. A melhor maneira de colocar é: 'Alegro-me de que isso tenha acontecido, porque a humanidade, através de mim, está exatamente essa quantidade mais próxima de encontrar a si mesma — essa quantidade mais próxima da meta final que Deus pretende que ela alcance; a humanidade, através de mim, deu este passo, e o fato de tê-lo dado significa um pequeníssimo avanço para cada outra unidade.'" Pode-se assim pensar em toda a humanidade, como um homem pensa em toda a sua família, como uma unidade, do bebê ao velho avô, e assim considerar o bem-estar de todos.

231. Dizem-nos que não devemos viver nem no presente nem no futuro, mas no Eterno.

Aquele que vive no Eterno é o Logos, a Divindade.

Ele, vivendo no Eterno, vê o futuro bem como o presente, vê o cumprimento de todas essas coisas.

Se pudéssemos elevar-nos até Seu ponto de vista, seríamos capazes de viver no Eterno como Ele o faz.

Isso não é algo que possamos alcançar hoje ou amanhã.

Devemos abrir caminho lutando em direção a isso. Uma divina insatisfação é uma necessidade para o nosso progresso rumo a isso. Nunca devemos estar satisfeitos com a condição que alcançamos; isso significaria imediatamente estagnação.

Devemos sempre almejar fazer cada vez melhor, e vivendo no futuro aprenderemos como fazer isso.

232. Ao mesmo tempo, enquanto estamos sempre avançando, sempre nos esforçando para cima, é um erro permitirmo-nos sentir descontentes ou preocupados com relação aos acontecimentos transitórios, à condição temporária de nós mesmos e dos outros.

É mais sábio e melhor projetarmo-nos no futuro e viver nele. Devemos dizer: "Neste momento sou tal e tal pessoa, com certas falhas e deficiências.

Vou transcender essas falhas e deficiências.

Deixe-me olhar para o tempo em que elas não existirão mais." É uma grande coisa viver para o amanhã e não para o ontem.

O mundo em geral vive para os séculos que ficaram para trás e se apega a velhos preconceitos.

Devemos olhar para o futuro e viver para ele.

233. Mantenha seu pensamento esperançosamente no futuro, não com pesar no passado.

O presente é, em grande parte, uma ilusão; portanto, não estamos realmente insatisfeitos com o que estamos fazendo, mas com o que acabamos de fazer.

Se quisermos progredir, devemos manter os olhos à nossa frente. Olhar para trás não é o caminho para o progresso.

Se esse procedimento fosse mantido no plano físico, não iríamos longe sem sofrer um acidente, e o mesmo se aplica também a esses reinos superiores.

Quanto mais pensamos nisso, mais claro se torna que, nos três aforismos que acabamos de examinar, a saber, "mata o desejo de ambição, mata o desejo de vida e mata o desejo de conforto", tudo o que move o homem comum ao esforço foi absolutamente eliminado.

234. A vida de um homem é primeiramente dirigida pelo desejo de manter a si mesmo e à sua família vivos, "manter a cabeça fora d'água"; ele tem sempre a ambição de ascender a níveis mais elevados; deseja maior conforto para si e para sua família.

Essas são precisamente as molas mestras que movem o homem comum, e é óbvio que, se todas fossem absolutamente removidas dele, ele ficaria inerte — ficaria sem qualquer razão para se agitar; seria como um tronco.

Ele diria: "Se não devo ter ambição de qualquer espécie, se devo cessar de desejar tanto a vida quanto o conforto, por que deveria fazer algo? Por que deveria me mover de todo?" Ele ficaria sem qualquer motivo adequado para o esforço de qualquer tipo, e todo o progresso para ele estaria em fim.

É óbvio que, para ele, a eliminação dessas coisas teria um efeito negativo.

235. Mesmo o homem que está quase pronto para trilhar o Sendero, que cessou de sentir qualquer interesse nas coisas inferiores, alcança um estágio em que há perigo de cair em um estado de inação.

Intelectualmente, ele está absolutamente convencido de que todas essas coisas inferiores não valem a pena ser perseguidas, e, porque cessaram de atraí-lo, ele não se sente inclinado a despender energia em qualquer direção.

Essa é uma experiência que sobrevém a quase todos no curso de sua evolução, e é um problema muito real para inúmeras pessoas.

Elas se livraram do inferior e não assumiram o superior.

Eles estão em um estágio de transição entre os dois; não realizaram suficientemente a unidade para que essa seja a grande força motriz na vida, mas realizaram o bastante para saber que os desejos do eu separado não merecem ser seguidos.

Assim, permanecem em um estado de animação suspensa.

Para alguns estudantes, é uma grande dificuldade despertarem-se desse estado.

Nada vale a pena; nada mais tem qualquer interesse para eles.

Eles querem morrer e acabar com tudo.

236. O único modo de um homem ir além dessa condição insatisfatória é avançar um pouco mais, e então ele começará a ver que há uma vida mais elevada e mais verdadeira que é infinitamente digna de ser vivida.

Ele descobrirá que, quando vislumbrar o plano divino, desejará lançar-se nele — não poderá fazer de outro modo.

Ao identificar-se com a Vida Una e agir como parte dessa Vida, ele encontra o único motivo que pode impeli-lo à ação.

Quando ele dá esse passo adiante e começa a realizar a Vida do Eu, então, em vez de querer cair na aniquilação e acabar com tudo, ele ansiará por possuir cada vez mais energia para lançá-la nessa obra gloriosa.

A força motriz do Eu Único o impelirá a uma atividade muito maior do que nunca antes, porque é infinitamente mais poderosa do que qualquer motivo inferior, e o homem que trabalha com ela para cumprir os altos propósitos da Deidade alcançará infinita felicidade e infinita paz.

CAPÍTULO

REGRAS 5 A

237. 5. Elimina todo sentimento de separatividade.

238. Contudo, permanece só e isolado, porque nada que é encarnado, nada que é consciente da separação, nada que está fora do Eterno pode ajudar-te.

239. A.B. — Este ensinamento é dado especialmente neste livro, destinado ao discípulo, porque ele tem de aprender a permanecer totalmente só.

Nada que é encarnado, que está fora do Eterno, pode ajudá-lo.

Toda ajuda que vem do encarnado é ajuda secundária e pode falhar-lhe no momento de sua maior necessidade.

As biografias dos grandes místicos cristãos mostram que foi uma característica invariável de suas vidas o sentirem-se abandonados por todos, tendo de permanecer absolutamente sós.

A mesma verdade também aparece nos Evangelhos cristãos, que contêm, no símbolo da vida de Jesus, um relato das experiências pelas quais toda alma deve passar nos estágios do discipulado.

Há duas cenas ligadas a esta afirmação; a primeira é a que se refere à agonia de Jesus no jardim do Getsêmani, quando Ele descobriu que Seus amigos e seguidores não podiam velar com Ele nem por pouco tempo, e aprendeu que deveria seguir sozinho; a segunda foi o clamor da cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" Essas experiências estão ligadas à quarta grande Iniciação, quando o homem é lançado de volta sobre si mesmo e aprende a apoiar-se somente no Eu interior, a perceber que ele próprio é apenas uma expressão do Eterno no mundo exterior.

Há sempre o perigo de que, nesta última grande prova, o discípulo venha a sucumbir.

240. Uma dupla tarefa se apresenta diante do discípulo.

Ele deve eliminar o senso de separatividade, mas deve aprender a permanecer só, a fim de que possa ser forte com a força do divino dentro de si mesmo.

Ele deve ser como uma estrela no céu, que dá luz a todos, mas não recebe luz de ninguém.

Isso ele só pode aprender pela experiência do isolamento.

Contudo, o senso de isolamento é ilusório, pois ele está no Eterno.

A ilusão se deve ao rompimento de todas as formas antes que a realização da unidade — de ser o Eterno — se desenvolva na consciência.

241. Este aforismo, com seu comentário, contém também outros pensamentos importantes.

Há um estágio em que o aspirante deve afastar-se do corpo dos homens, por causa de sua fraqueza, e não de sua força.

Às vezes, um homem está tão próximo da condição dos outros homens ao seu redor, que ainda levam a vida inferior que ele deixou, que sente que, ao manter companhia com eles, provavelmente será arrastado para os vícios deles.

Nesse momento, o sentimento de repulsa é útil; e, embora mostre que ele está em um estágio inferior de desenvolvimento, fará bem em segui-lo e evitar a companhia deles.

242. Quando um homem fala com horror de certo vício, pode ter certeza de que, num passado recente, esteve sob seu domínio. No passado recente, houve uma luta contra esse vício, e sua consciência interior, da qual nada desaparece, agora o adverte contra ele. Há um estágio em que o homem se elevou mais alto, quando não precisa buscar tal isolamento daqueles que ainda pecam.

Mas enquanto não for esse o caso, enquanto ele estiver sujeito a cair em vício por causa de um impulso externo, a segurança do homem está em fugir da tentação, até que seja forte o bastante para estar em meio àquele vício sem ser atraído por ele. Somente quando o homem tiver ido além do poder de cair na atração pelo vício é que ele geralmente superará seu horror e repulsa.

243. Então ele chegou ao estágio em que deve pensar no pecador como alguém que precisa de sua ajuda.

O próprio pensamento de suas faltas passadas agora o capacitará a ajudar os outros.

Não podemos ajudá-los enquanto nós mesmos estivermos sujeitos a cair, mas somente quando não formos nem atraídos nem repelidos, quando reconhecermos nossa identidade com aqueles que estão lutando.

Lembramos então que o pecado do mundo é nosso próprio pecado — a verdade profunda de que nenhum homem pode estar perfeitamente limpo enquanto outro permanecer impuro.

Enquanto um homem permanece parte da humanidade, a vida dela é a sua; para escapar disso, ele deve sair para fora da humanidade.

O vício de qualquer homem é nosso vício, até que ele também se livre dele. Sobre essa verdade gira inteiramente a salvação do mundo.

244. Esse deve ser o pensamento de qualquer discípulo, caso se encontre sob tentação especial.

Ele deve perceber que não deve ceder à tentação, porque em sua queda há uma queda para toda a humanidade.

Tal conhecimento deveria ser suficiente para mantê-lo afastado do mal.

Suponha que você tente realizar em consciência a vida da humanidade, e então tente conquistar uma fraqueza particular; você sentirá então que sua conquista não é uma conquista para si mesmo, mas para todos.

Toda a humanidade é ajudada porque uma parte dela lutou e conquistou.

Essa ideia muitas vezes lhe dará grande força.

De fato, vale a pena lutar pelo bem do todo, mesmo que não seja por seu próprio eu pessoal.

245. C.W.L. — As pessoas às vezes tornam essas instruções mais difíceis para si mesmas do que precisam ser, e talvez também um pouco irreais, ao exagerá-las.

Temos que enfrentar o fato de que há separação aqui embaixo, no plano físico.

Podemos nos sentir tão completamente fraternos quanto possível, mas o fato permanece, no entanto, de que no espaço nossos corpos físicos são separados.

Às vezes as pessoas querem negar esse fato; tentam levar a ideia de não-separação a tal ponto que a tornam irracional.

Isso nunca pode estar certo no ocultismo.

O ensinamento oculto é sempre a própria essência da razoabilidade e do bom senso, e sempre que algo nos é apresentado que seja obviamente irrazoável, podemos ter certeza de que há um erro em algum lugar.

Em alguns casos, pode parecer irrazoável porque não possuímos todos os fatos, mas quando os fatos estão todos diante de nós e a afirmação ainda tem uma aparência irrazoável, somos justificados em duvidar dela e aguardar maior esclarecimento.

246. Embora nossos corpos físicos sejam separados no espaço, há realmente menos separação do que parece. Reagimos uns sobre os outros a tal ponto que nenhum homem pode, em nenhum sentido, realmente viver sozinho para si mesmo.

Se um corpo físico tem certa doença, todos os outros próximos estão sujeitos a contraí-la. Se o corpo astral está doente no sentido de ser, digamos, propenso à irritabilidade, inveja, ciúme, egoísmo e assim por diante, ele também é infeccioso, porque irradia suas vibrações, e outros corpos astrais na vizinhança devem ser, em certa medida, afetados por tal radiação.

Quando, por exemplo, pessoas se sentam juntas em uma reunião, seus corpos astrais se interpenetram em grau considerável, porque o corpo astral de uma pessoa comum se estende cerca de dezoito polegadas ao redor do corpo físico — em alguns casos ainda mais — de modo que, embora ainda estejam bastante separados, devem reagir consideravelmente uns sobre os outros.

O mesmo é verdadeiro para o corpo mental, e até mesmo nossos corpos causais são separados no espaço e em condição.

Portanto, devemos compreender essa eliminação do senso de separatividade em conformidade com os fatos da natureza.

247. Não há separatividade no plano búdico.

Ali, as consciências não necessariamente se fundem instantaneamente no nível mais baixo, mas gradualmente se tornam cada vez mais amplas até que, quando alcançamos o nível mais elevado do plano búdico e nos desenvolvemos plenamente através de todas as suas diferentes subdivisões, descobrimo-nos conscientemente unos com a humanidade.

Esse é o nível mais baixo no qual a separatividade é absolutamente inexistente; em sua plenitude, a unidade consciente com tudo pertence ao próximo plano — o nirvânico.

248. Suponhamos que todos nós pudéssemos desenvolver a consciência búdica dentro de nós mesmos simultaneamente.

Cada um perceberia que ascendeu àquele nível e que sua consciência incluía a de todos os outros, mas ainda sentiria que aquela consciência inclusiva era a sua própria consciência.

Nenhum de nós teria perdido seu senso de individualidade, apenas nele incluiria muito mais do que jamais havia feito antes.

Ele se sentiria manifestando-se através de todos esses outros também.

Realmente, o que estamos experimentando é a única consciência que nos inclui a todos, a consciência do próprio Logos.

249. É no plano nirvânico que realizamos mais intensamente que tudo o que pensávamos ser nossa consciência, nosso intelecto, nossa devoção, nosso amor, eram na realidade Sua consciência, Seu intelecto, Seu amor, Sua devoção, manifestando-se através de nós um tanto como uma luz poderia brilhar através de uma lente.

Essa realização não chega plenamente ao homem no mundo búdico, mas chega-lhe naquele plano imediatamente superior.

250. Nas Estâncias de Dzyan é dito, referindo-se ao homem: "A centelha pende da Chama pelo mais fino fio de Fohat."¹ (¹ A Doutrina Secreta, Vol. I, p. 66.) Isso, creio eu, é aplicável em vários níveis; para nós pode ser tomado como significando que o ego pende da Mônada pelo mais fino fio, e esse fio atravessa o plano búdico.

O mais fino fio que se possa imaginar é tudo o que representa o homem comum nesses níveis búdicos.

Assim que ele volta sua atenção para assuntos superiores — quando está regularmente pensando neles e almejando-os — esse fio começa a engrossar.

Gradualmente torna-se cada vez mais como um cabo, e mais tarde aparece como um funil, porque se alarga acima (falo agora como alguém o veria clarividentemente), e desce até o corpo causal, que é uma coisa de tamanho definido por enquanto.

Mais tarde, o próprio corpo causal é ampliado pela irrupção de forças, e o funil torna-se muito maior, alargando-se tanto na base quanto no topo.

Na primeira Iniciação (para muitos, essa experiência vem antes disso), o homem abandona o corpo causal e mergulha no plano búdico.

Nesse momento, como expliquei anteriormente, o corpo causal desaparece absolutamente — a única coisa que parecera permanente através de sua longa linha de vidas, desde que deixou o reino animal, desaparece.

(² Ante., Vol. I, Parte II, Cap. 2: A Vida dos Corpos.) Quando isso ocorre, esse funil molda-se numa esfera.

Há mais dimensões ali, de modo que não posso realmente descrevê-lo, mas é assim que aparece a alguém capaz de vê-lo.

251. Após um homem ter tomado a primeira Iniciação, o senso de separatividade é uma das falhas que precisam ser inteiramente conquistadas antes que ele possa tomar a segunda.

É o primeiro dos dez sanyojana, ou grilhões, que ele deve lançar fora em sua ascensão pelos degraus do Caminho.

Torna-se possível para ele lançá-lo fora, final e irrevogavelmente, pela experiência que faz parte dessa primeira Iniciação.

Ele obtém então apenas um toque da consciência búdica.

Isso não significa necessariamente que ele possa retornar a essa condição de consciência sempre que quiser, mas ao menos ele a experimentou, e tendo uma vez sentido a unidade, ele sabe que ela existe, mesmo que seja incapaz de reentrar nela sem o auxílio do Mestre.

Ele sabe, portanto, que o senso de separatividade é uma ilusão.

É praticamente impossível para nós, aqui embaixo no corpo físico, compreender isso realmente.

Constantemente falamos disso e tentamos persuadir a nós mesmos de que o sentimos, mas enquanto se está num corpo físico e até que se tenha tido essa experiência superior, francamente, não acho que se possa senti-lo. Persuadimo-nos disso intelectualmente, mas realmente senti-lo é uma coisa diferente.

252. Quando um homem começa a funcionar no plano búdico, ele entra nele em seu nível mais baixo, mas é incapaz, a princípio, de aproveitar ao máximo até mesmo esse subplano mais inferior.

Ele sentirá uma intensidade de bem-aventurança que nenhuma palavra pode expressar, e uma extensão de consciência que, em contraste com qualquer coisa que já tenha sentido antes, sem dúvida dará a ideia de que o mundo inteiro está incluído.

No entanto, não é assim de modo algum.

Quando ele estiver suficientemente acostumado a esse nível superior para analisá-lo, descobrirá que a extensão de consciência, embora muito grande, ainda não é, de forma alguma, plena ou universal.

Gradualmente, ele amplia a esfera que pode ocupar efetivamente.

É algo semelhante à maneira como um exército ocupa um território conquistado.

Ele se estabelece primeiro e, então, gradualmente estende aquela parte sobre a qual tem poder definido, até que ela inclua o país inteiro.

Ele então prossegue tentando empurrar sua consciência para o próximo subplano; mas mesmo depois de ter trabalhado seu caminho através de subplano após subplano até alcançar o mais elevado, ele não construiu necessariamente o veículo búdico.

O homem que tem a consciência búdica ao seu alcance por meio da meditação ou do esforço pode sempre elevar-se a essa condição.

O homem que definitivamente construiu um veículo búdico tem essa consciência o tempo todo em segundo plano de sua consciência física, astral ou mental inferior.

Essa é outra e separada realização, e difícil, porque para fazê-lo o corpo causal deve ser eliminado, deve ser destruído como uma parede separadora.

253. Aquele cuja consciência trabalha no plano búdico durante a meditação descobre que, embora seja uno com toda a maravilhosa consciência do plano, há ainda um pequeno círculo de vazio que o exclui do restante.

Essa pequena barreira é, naturalmente, o corpo causal.

Para que o veículo búdico seja desenvolvido, até mesmo isso deve desaparecer.

Então o homem sente a realidade da Vida sem obstáculos de uma maneira impossível de descrever aqui embaixo.

Madame Blavatsky expressou a ideia como um círculo cujo centro está em toda parte e cuja circunferência em lugar nenhum — uma descrição muito bela e expressiva.

(¹ Ante., Vol. II, p. 67.) Naturalmente, é um paradoxo, mas todas as coisas que podem ser ditas sobre essas condições superiores devem necessariamente ser paradoxais.

254. Quando a unidade é plenamente realizada, o homem sente, por mais paradoxal que pareça, como se seu veículo naquele nível preenchesse todo o plano, como se ele pudesse transferir seu ponto de consciência para qualquer lugar dentro daquele plano e ainda assim ser o centro do círculo.

É uma experiência totalmente indescritível.

Junto com esse sentimento, permeando-o e acompanhando-o sempre, há uma sensação da mais intensa bem-aventurança — bem-aventurança da qual não podemos ter nenhuma concepção nestes planos inferiores — algo vívido, ativo, ardente além de toda imaginação.

A maior parte da bem-aventurança aqui embaixo, nos raros momentos em que sentimos algo que mereça esse nome, consiste principalmente na ausência de dor.

Somos felizes e bem-aventurados aqui embaixo quando, por um momento, estamos livres de fadiga e dor, quando podemos relaxar e sentir que estamos absorvendo influências agradáveis.

Isso é um sentimento bastante negativo.

A bem-aventurança do plano búdico é o sentimento mais intensamente ativo e vívido.

Não sei minimamente como expressá-lo. Se você pudesse imaginar a atividade mais intensa que já sentiu e então substituir essa atividade vívida e vigorosa por um sentimento de bem-aventurança, e então de alguma forma elevá-la — espiritualizá-la — a um plano totalmente superior, à enésima potência, isso transmitiria alguma ideia do que é esse sentimento.

255. É uma realidade ativa que é inteiramente avassaladora em sua força.

Não há nada de passivo nisso; não se está descansando.

Aqui embaixo vivemos vidas de tanta tensão e esforço que o descanso é sempre uma parte muito proeminente de qualquer ideal que possamos ter; mas lá não há de modo algum a sensação de que se está descansando ou de que se deseja descansar.

Somos uma energia encarnada tremenda cuja expressão é derramar-se a si mesma, e a ideia de descanso ou a necessidade de descanso está inteiramente fora da consciência de alguém.

O que aqui nos parece descanso pareceria uma espécie de negação lá em cima.

Tornamo-nos um com a expressão do poder divino, e esse poder divino é vida ativa.

As pessoas falam do descanso do nirvana — mas isso é do ponto de vista inferior.

É a intensidade do poder que é a característica real dessa vida superior — um poder tão intenso que não se manifesta em qualquer tipo de movimento comum, mas antes em uma vasta e irresistível ondulação que poderia parecer descanso quando vista de baixo, mas que significa a consciência do poder absoluto.

É impossível expressar tudo isso em palavras.

Quando alcançamos isso, finalmente conquistamos a erva gigante — o grande inimigo, o senso de separatividade.

É a tarefa mais difícil, no conjunto, que está diante de nós, porque envolve tudo o mais.

256. É somente depois que o corpo búdico está plenamente desenvolvido em todos os sete subplanos que o homem tem a plena fruição de todo o plano, um poder completo de identificação com toda a humanidade, de modo que ele pode aprender através dessa relação o que todas essas pessoas pensam e sentem.

Antes que essa consciência búdica seja alcançada, podemos nos esforçar para reduzir o senso de separatividade, e isso pode ser feito com grande sucesso intelectualmente, mas ainda permanecemos de fora, no sentido de não compreender os outros.

Eles ainda serão um mistério absoluto, pois o homem é o maior dos mistérios para o seu semelhante.

Podemos entrar em relações muito próximas com as pessoas por um bom tempo, e ainda assim não conhecê-las verdadeiramente por dentro.

Pode ser que até que o nível búdico seja alcançado, nenhum homem jamais conheça realmente outro homem por completo.

(1 Ante., Vol. II, p. 67.) Quando um homem alcança essa condição, ele é capaz de se derramar na consciência dos outros e ver o que eles fazem e por que agem dessa maneira particular.

Lá, todas as coisas estão dentro dele em vez de fora, e ele as estuda como partes de si mesmo.

Parece impossível aqui embaixo, mas isso é algo do que ele sente.

Toda a alegria do mundo é a sua alegria; seu sofrimento é o seu sofrimento.

Quando ele escolhe se colocar abaixo através de qualquer um dos milhões de tentáculos — as consciências de outras pessoas com as quais ele é um — então ele pode e de fato experimenta tudo o que essa pessoa está experimentando.

Dessa forma, todo o sofrimento do mundo está ao seu alcance, mas ele sabe com absoluta certeza que é uma parte necessária do plano e não tem existência nos níveis superiores.

Ele não é de modo algum menos solidário com isso, mas sabe que "Brahman é Bem-aventurança", e que ser uno com o divino é um estado de alegria interior perpétua.

É somente quando se alcança esse desenvolvimento que se pode ajudar plenamente os outros.

257. Quando um homem toca essa consciência, ele se retirou por um tempo desses níveis físicos inferiores onde pode ser perturbado ou abalado, e ele é ele mesmo parte da alegria divina.

Quando ele volta novamente para seus corpos mental, astral e físico, ele pode permitir que pequenos problemas o incomodem.

Isso não deveria ser assim; mas ainda há um grande abismo entre a vida superior e aquela vivida no corpo físico, onde pequenas coisas ainda podem ser muito irritantes.

A possibilidade de ser momentaneamente aborrecido por algo no plano físico permanece mesmo quando um nível muito elevado foi alcançado, mas então é meramente superficial.

As coisas das quais as pessoas realmente sofrem neste mundo são aquelas que sentem ser sem esperança.

Ninguém pode jamais ter qualquer sentimento de desesperança depois de ter tocado essa consciência superior, porque quando estamos absolutamente certos de que a realidade é sempre alegria, sabemos que todo sofrimento nos níveis inferiores é apenas temporário, e que mesmo isso não nos sobreviria se estivéssemos mais próximos da perfeição.

258. O poder de identificação é adquirido não apenas em relação à consciência das pessoas, mas em relação a tudo o mais no plano búdico.

Tudo é aprendido de dentro para fora, em vez de fora para dentro.

Se desejamos estudar qualquer assunto, qualquer organismo, o funcionamento de qualquer lei da natureza — não importa o quê — até e incluindo a consciência do corpo causal, temos que estudá-lo de fora, olhando para ele. No corpo causal somos capazes de examiná-lo com uma consciência enormemente ampliada, com o poder de saber vastamente mais sobre ele do que poderíamos saber nos planos inferiores.

Mas quando chegamos ao plano búdico, a diferença é uma diferença fundamental.

Aquilo que estamos examinando tornou-se parte de nós mesmos.

Examinamo-lo como uma espécie de sintoma em nós mesmos.

É difícil colocá-lo em palavras porque aqui embaixo não temos nada exatamente parecido, mas esse olhar para as coisas de dentro, em vez de de fora, dá a alguém uma vantagem muito grande.

É tão diferente em suas características que provavelmente estamos justificados em dizer que esse é o primeiro vislumbre que temos do modo como a Divindade olha para o Seu universo, porque Ele deve ter exatamente essa experiência — que aquilo para o qual Ele olha deve ser parte de Si mesmo, porque não há nada que não seja parte Dele.

Portanto, a Sua consciência deve ser essa consciência búdica elevada à potência, e com toda a percepção, glória e esplendor dos quais não podemos ter ideia em nenhum plano ainda.

Pode-se entender muito claramente por que esse mundo é falado como o real, e todos esses inferiores como o irreal, porque a diferença é tão grande e a atitude é tão inteiramente mudada que qualquer outro modo de olhar para as coisas parece irreal, até mesmo ridículo, uma vez que se aprendeu a vê-las de dentro.

259. Não é tão absolutamente impossível quanto muitos estudantes pensam alcançar essa visão superior.

Um número razoável de pessoas conseguiu, nesta encarnação, aqui e agora, obtê-la. Está certamente ao alcance daqueles que se esforçarem o bastante, se estiverem dispostos a seguir as regras — dispostos a adotar o total desapego que é exigido, porque enquanto houver algo de pessoal no ponto de vista do discípulo, ele não poderá fazer qualquer progresso com essa consciência búdica, que depende da supressão da personalidade.

260. A ideia de separatividade mostra-se de certas maneiras na vida diária, e é bom vigiar contra essas manifestações.

Uma maneira pela qual as pessoas a demonstram muito é pelo seu desejo de poder sobre outros eus separados.

Metade do mundo está eternamente tentando interferir com a outra metade.

Esse hábito está tão arraigado em nós que não o notamos; geralmente o consideramos à luz de bons conselhos.

Talvez um caso em dois mil possa ser isso, mas na maioria dos outros estamos simplesmente afirmando o nosso eu separado ao tentarmos imprimir-nos sobre as outras pessoas.

261. Fisicamente, tentamos fazer com que outras pessoas façam as coisas do nosso jeito e cedam a nós; estamos perpetuamente tentando fazê-las adotar o nosso plano particular, seja ele qual for. Porque é nosso, é o melhor plano do mundo e queremos impô-lo a todos os outros.

Encontramos a mesma coisa no nível intelectual.

As pessoas tentam constantemente impor suas opiniões e ideias aos outros.

Quando um homem desenvolve um intelecto aguçado, ele começa sutil e lentamente a querer dominar outras pessoas por meio desse intelecto.

Simplesmente porque seu pensamento se torna mais aguçado e mais forte do que o dos outros, ele tenta moldar o pensamento deles pelo seu.

É bom e correto que queiramos compartilhar com os outros tudo o que sabemos; que lhes apresentemos aquilo que achamos tão bom para nós mesmos.

Mas, via de regra, essa não é a ideia que existe por trás desse desejo de dominar outras mentes.

Ele geralmente coexiste com uma certa dose de desprezo pelas outras pessoas.

Pensamos: "Essas pessoas são como ovelhas; podemos arrastá-las; podemos fazê-las pensar o que quisermos." É em grande parte verdade que um homem que aprendeu a pensar, como deveríamos aprender por meio da meditação e do estudo, pode dominar os pensamentos dos outros com muita facilidade; mas não deveríamos fazer isso, porque qualquer coisa como dominação é ruim para a evolução do outro homem e não é boa para a nossa.

Portanto, até mesmo esse desejo de dominação intelectual deve ser resistido.

Faz parte do vício da separatividade.

262. Quando nos livramos disso, ainda há uma possibilidade mais elevada nessa linha — no reino do espiritual, também podemos tentar fazer com que as pessoas sigam o nosso caminho.

Isso está por trás de todo esforço para converter pessoas de uma religião para outra.

Talvez não seja totalmente justo colocar dessa maneira, porque o Cristianismo, pelo menos, começa com a gigantesca ilusão de que, a menos que as pessoas acreditem em seus dogmas particulares, elas terão um além-túmulo muito desagradável; portanto, sua tentativa de converter os outros adquire a cor do altruísmo.

Ele pressupõe: "Ortodoxia é a minha doutrina e heterodoxia é a sua doutrina", e: "O que eu acredito é verdade e você deve se alinhar a isso." Quando desenvolvemos a espiritualidade, quando aprendemos muitas coisas que outros não sabem, é certo e apropriado que preguemos nosso evangelho, que desejemos contar aos outros o que encontramos e dar-lhes toda oportunidade de nos seguir nesses reinos do pensamento superior; mas se esse desejo estiver tingido com um anseio de dominá-los — um desejo que é frequentemente encontrado junto com muitas boas qualidades — ainda há um toque do velho eu separado nele, e a "erva gigante" não é finalmente desenraizada.

263. Devemos também nos livrar inteiramente do desejo de dominar os outros, porque enquanto um homem trabalha para o self separado, ele pertence àquela grande massa de selves separados que é um fardo tão terrível na evolução.

No momento em que ele começa a perceber a unidade, ele deixa de ser parte do peso que precisa ser erguido e começa a ser um dos que erguem.

264. Permanecer sozinho e isolado significa que não se deve depender de ninguém fora de si mesmo, porque nenhuma pessoa ou coisa separada pode realmente, em última instância, ser útil para nós. A ajuda deve ser encontrada dentro de nós mesmos.

O Mestre pode nos ajudar o tempo todo em nossos esforços, mas nem mesmo Ele pode fazer o trabalho real por nós. Ele está constantemente nos sugerindo coisas, derramando ajuda em nós de todas as maneiras, mas a cada passo somos nós mesmos que devemos fazer o trabalho.

À medida que avançamos, devemos aprender a permanecer aparentemente inteiramente sozinhos, sem a ajuda direta do Mestre, mas isso é uma ilusão, porque ninguém pode jamais ser realmente separado do Mestre, ou da Divindade da qual esse Mestre é uma parte.

Ainda assim, devemos agir como se estivéssemos sozinhos, e em certos estágios de nossa evolução nos sentiremos absolutamente sozinhos; contudo, se pudermos aplicar o intelecto a isso, embora seja uma questão difícil em tais circunstâncias, reconhecemos imediatamente que nunca podemos estar realmente sozinhos.

Somos parte de Deus e não podemos deixar de sê-lo, porque se o fizéssemos, cessaríamos inteiramente de existir, ficaríamos inconscientes.

265. Somos parte de algo que jamais pode deixar de ser e, portanto, a ideia de solidão é uma ilusão, embora cause grande dor e sofrimento.

No plano físico, um homem muitas vezes está menos sozinho quando pensa estar mais sozinho; quando está no meio de uma multidão, as coisas superiores podem tocá-lo com menos facilidade, portanto ele está mais separado delas.

Mas quando esses selves separados não estão tão próximos ao seu redor, as influências do Self não separado podem atuar sobre ele muito mais plenamente, e assim é realmente verdadeiro dizer que o homem está menos sozinho quando pensa ou sente estar mais sozinho.

266. É quase impossível formar qualquer concepção da terrível sensação de estar absolutamente sozinho no universo — um ponto flutuando no espaço.

Essa é a condição chamada avichi, que significa "o estado sem ondas". É uma condição de consciência na qual um homem parece a si mesmo estar fora das vibrações da Vida Divina, e é dito ser a experiência mais terrível que pode sobrevir a um homem.

Esse é o fim do mago negro, que por muitas vidas se esforçou definitiva e determinadamente pela separatividade, que se colocou diretamente contra as forças unificadoras da evolução.

O pupilo do Mestre deve aprender a simpatizar até mesmo com o mago negro que sofre o avichi; portanto, uma vez em seu desenvolvimento, o homem deve experimentar esse estado de consciência.

Ele o toca apenas por um momento, mas nunca poderá esquecê-lo, e daí em diante sempre será capaz de compreender o sofrimento daqueles que permanecem por eras em tal condição.

Quando para nós esse momento chegar, devemos lembrar que tudo o que é, é Deus, e que não podemos ser separados d'Ele, mesmo que sintamos que o somos — devemos perceber que é uma ilusão final que deve ser conquistada.

267. Todos nós temos que permanecer sós e isolados, porque cada um de nós deve aprender a depender de si mesmo e a perceber que ele é Deus, que a centelha divina nele é, em verdade, parte do Todo.

Até que possamos fazer isso, não somos inteiramente confiáveis para as fases superiores do trabalho do Mestre.

Enquanto isso, para todo o nosso trabalho comum na vida, seja físico, astral ou mental, o conhecimento de que o Mestre nos envolve e está bem próximo atrás de nós o tempo todo é uma grande força e conforto.

Fazemos nosso trabalho regular todas as noites no plano astral ou mental, conforme o caso, e ao fazê-lo sabemos sempre que o poder do Mestre nos protege. Se a qualquer momento encontrarmos algo enormemente mais forte do que nós que ameace nos dominar, assim como no plano físico uma grande tempestade ou terremoto poderia fazer, sabemos sempre que podemos extrair indefinida e infinitamente de Seu poder.

Até disso o discípulo deve aprender a prescindir, quando chegar o momento, mas somente para que ele possa se tornar um centro tão forte quanto o próprio Mestre.

268. Não imagine que você possa se afastar do homem mau ou do homem tolo.

Eles são você mesmo, embora em menor grau do que seu amigo ou seu Mestre.

Mas se você permitir que a ideia de separatividade de qualquer coisa ou pessoa maligna cresça dentro de você, ao fazer isso você cria karma, que o ligará a essa coisa ou pessoa até que sua alma reconheça que ela não pode ser isolada.

269. C.W.L. — Esta é a primeira parte de uma longa nota do Mestre Hilarião.

Naturalmente, todos nós sustentamos em teoria que a humanidade é uma poderosa irmandade e é realmente uma unidade.

O Mestre aqui admite que há graus nessa unidade, e que há, portanto, graus de separatividade, e que nós estamos, até certo ponto, mais separados dos maus e dos tolos do que estamos de nosso amigo ou de nosso Mestre.

A ideia da fraternidade humana é frequentemente distorcida para implicar a igualdade do homem, o que ela realmente não pode significar.

Em qualquer família de muitos irmãos, deve haver diferenças consideráveis de idade entre eles, e deve haver, similarmente, diferenças de idade da alma entre esses membros da grande fraternidade humana.

Novamente, assim como na família física é dever do mais velho ajudar e treinar o mais novo, assim também na família da humanidade o mais velho deve proteger o mais novo e ajudá-los de todas as formas que puder.

A fraternidade implica variedade; ela requer essa diferença de idade, e também que muitas pessoas estejam realizando diferentes tipos de trabalho.

270. Um dos mais belos símbolos de fraternidade que já encontrei foi a visão de um de nossos membros de um templo oriental sustentado por muitas centenas de pilares.

Ele disse: "Todos esses pilares estão ajudando a sustentar o templo, e são, portanto, símbolos de almas individuais que formam parte do templo da humanidade.

Alguns desses pilares estão do lado de fora, são vistos e admirados o tempo todo.

Eles também enfrentam o sol e a chuva.

Outros estão bem no interior da floresta de pilares, nunca recebendo o sol diretamente sobre eles, nunca sendo admirados pelas pessoas que passam.

Alguns desses pilares estão em lugares onde os devotos se reúnem e se sentam encostados na base do pilar o dia todo.

Outros pilares estão em lugares menos acessíveis, mas cada um é parte integrante do templo e está realizando seu trabalho.

Isso é como a fraternidade da humanidade.

Algumas pessoas podem sentir que estão fazendo muito; outras podem nunca saber de uma única oportunidade de ajuda que lhes chega, e, no entanto, todas estão suportando sua parte e são tão pilares no templo quanto aqueles que são mais proeminentes aos olhos do público."

271. Muitos de nossos estudantes estão ansiosos para reivindicar unidade com o Mestre e os santos, e não tão ansiosos para reivindicar unidade com o criminoso, o bêbado, o ineficiente, o sensual, o cruel.

Mas, uma vez que a humanidade é una, devemos ser unos com as pessoas menos evoluídas tanto quanto com as mais elevadas; em um caso, há uma parte de nós mesmos para a qual devemos nos elevar, mas no outro caso, há uma parte da humanidade que devemos tentar ajudar.

Como podemos ajudá-los? Em primeiro lugar, pensando corretamente a respeito deles.

Se nos afastarmos deles com horror, se os odiarmos, estaremos tornando seu caminho mais difícil.

Se permitirmos que o sentimento natural e justificável em relação ao mal que está sendo feito influencie nossa atitude para com a pessoa que o pratica, estaremos cometendo um erro.

É quase impossível evitar isso às vezes, mas podemos sempre, até certo ponto, racionalizar para sair dessa situação.

272. Os médicos deparam-se com casos das doenças mais repugnantes e horríveis — que, em muitos casos, o próprio homem provocou inteiramente sobre si mesmo.

Mas nenhum médico que esteja realmente empenhado em seu trabalho pensa nisso quando o paciente está diante dele.

Ele não se afasta do homem com horror, mas encara a doença como um inimigo que deve ser combatido e vencido.

Esse é um excelente exemplo da atitude que deveríamos ser capazes de adotar quando temos de lidar com uma pessoa degradada.

Sem dúvida, é provável que não pudéssemos produzir grande efeito sobre um bêbado completamente degradado, cuja vontade está quase extinta; mas afastar-se dele com horror ou sentir desprezo não é o caminho para ajudá-lo.

Da mesma forma, quando um homem comete um crime terrível, podemos sentir o maior horror possível pelo crime, mas não pelo criminoso.

É difícil para nós separá-los, mas temos de fazê-lo.

273. Há outro pequeno ponto curioso sobre isso.

As coisas que mais nos horrorizam são aquelas para as quais temos certa inclinação em nós mesmos — das quais, concebivelmente, estamos em perigo.

Quando alguém está absolutamente livre da mais leve tendência para um crime específico, olha para ele sem horror; mas se alguém se sente tomado de horror diante de uma falha humana particular, pode considerar que essa é uma falta que representou um perigo real para si mesmo não há muito tempo — talvez uma ou duas vidas atrás.

274. Quando vamos em meio a influências malignas, às vezes temos de nos cercar de uma casca protetora para mantê-las afastadas.

Essa é frequentemente a melhor política, pois ainda somos muito humanos; mas ter de fazer isso é, até certo ponto, uma confissão de fraqueza.

(¹ Ver Vol. I, Parte V, Cap. 6: Serviço.) O homem absolutamente forte caminha diretamente para o meio de todos esses perigos, certo de que não podem afetá-lo, mas isso não seria uma atitude sábia para todos nós. Nossa força é limitada e, criando uma casca, podemos evitar gastar desnecessariamente uma parte dela.

Um homem que está perfeitamente seguro do seu próprio poder pode caminhar incólume entre todos os tipos de perigos, porque está seguro de si mesmo.

A força perfeita destrói todo encolhimento.

Recuamos diante de um caso de doença infecciosa porque tememos contraf-la; se estivéssemos certos de que somos imunes a essa doença, a ideia de contraf-la não nos ocorreria.

275. A ideia de que não devemos pensar em nós mesmos como separados do homem mau ou tolo não implica necessariamente que devamos estar sempre em estreita associação com tais pessoas, embora o contato seja às vezes útil.

Há muitas pessoas boas que se esforçam, numa grande cidade como Londres, por exemplo, para ajudar os pobres indo viver entre eles nos bairros miseráveis.

Alguns de nossos estudantes sustentam a opinião de que esse também é o nosso dever com relação às pessoas más e tolas.

Essa nem sempre é a melhor maneira de ajudá-las.

Podemos aprender com a conduta dos Mestres a esse respeito.

Os Grandes Seres não descem e vivem nos bairros miseráveis de nossas grandes cidades.

Por que não o fazem? Por uma razão: não poderiam levar adiante Sua obra pela humanidade.

Levaria quase todo o tempo do Mestre para limpar um lugar onde Ele pudesse trabalhar, e a quantidade de trabalho realizado seria reduzida a talvez um centésimo do que seria de outra forma.

276. Assim também conosco; não é de modo algum necessário que nos coloquemos nas piores condições.

Pelo contrário, muitas vezes podemos ajudar de forma mais eficaz não nos prejudicando dessa maneira.

Se um homem se encontra numa multidão particularmente desagradável, talvez tomada por algum sentimento selvagem ou explosão de paixão, ele pode lançar um invólucro ao seu redor e assim proteger-se da influência maligna, mas não pode fazer muito com aquela multidão enquanto estiver ocupado nisso.

Por outro lado, se estivesse longe dela, seria capaz de derramar mais força sobre ela. Mesmo assim, se uma multidão de homens subdesenvolvidos está sob o domínio de alguma paixão grosseira, muito pouco pode ser feito com ela a partir dos planos superiores, porque a força derramada dificilmente a afetaria enquanto estivesse naquele estado.

Portanto, não precisamos entrar em ambientes malignos a menos que vejamos claramente que podemos fazer ali um bem definido, embora devamos fazer o melhor que pudermos se nos encontrarmos em tal ambiente.

Ouvi, por exemplo, falar de pregadores que entraram em bares e iniciaram um serviço religioso, e houve casos em que uma jogada tão ousada como essa foi realmente bem-sucedida.

Haveria, naturalmente, muitas ocasiões em que tal procedimento terminaria em fracasso.

Nessas coisas, como na guerra, um movimento muito ousado e aparentemente imprudente pode ocasionalmente sair bem, mas geralmente se pode realizar mais trabalhando de maneira razoável.

277. Lembra-te de que o pecado e a vergonha do mundo são teu pecado e tua vergonha; pois tu és parte dele; teu carma está inextricavelmente entrelaçado com o grande Carma.

278. Não percebemos isso aqui embaixo, mas ao alcançar o plano búdico vemos que isso representa uma verdade real.

Ali sentimos: "Sou parte daquilo que a humanidade não pode evitar; existe algo nela que é uma vergonha para mim" — e o sentimos assim porque nós, como parte da humanidade, o causamos. Por outro lado, temos nossa parcela em todo o bem que foi feito.

Quando um homem dá um passo adiante, sentimos isso como um triunfo para todos; através dele toda a humanidade se aproximou um pouco mais de sua meta.

279. E antes que possas alcançar o conhecimento, deves ter passado por todos os lugares, tanto os imundos quanto os limpos.

Portanto, lembra-te de que a vestimenta suja que hesitas em tocar pode ter sido tua ontem, pode ser tua amanhã.

E se te afastares dela com horror, quando for lançada sobre teus ombros, ela se apegará ainda mais a ti.

O homem presunçoso prepara para si um leito de lama.

Abstém-te porque é certo abster-te, não para que tu mesmo permaneças limpo.

280. Esta passagem, com a qual a nota do Mestre Hilarião conclui, tem sido frequentemente mal compreendida; algumas pessoas a interpretaram como significando que cada indivíduo, em algum momento, deve ter cometido todos os pecados possíveis.

Não significa isso, porque o homem sábio aprende algo com a experiência dos outros.

Quando vimos uma pessoa se queimar ao colocar a mão no fogo, não precisamos colocar nossa própria mão também antes de termos certeza de que não é uma boa coisa a fazer.¹ (¹ Ante. Vol. II, p. 106.) Assim, não precisamos cometer todos os crimes possíveis para nos decidirmos sobre eles.

Todos nós, em algum estágio da evolução, ascendemos de uma condição humana primitiva e passamos pelos vários estágios da vida entre essa e nossa condição atual, mas não há razão para supor que nos saímos mal em cada estágio.

Há alguma razão para supor que a maioria de nós, no curso de nossa longa série de vidas, tenha experimentado os diferentes tipos de erros que é possível a um ser humano cometer, mas certamente não passamos por cada detalhe.

Quando uma forma de um mal particular é tocada, isso, penso eu, apresenta-se à alma sábia como experiência de uma ampla gama de erros semelhantes.

2 Ante.

Vol.

II, p. 106.

281. Então há outra consideração.

Todo homem, quando atinge a consciência búdica, olha através dela e experimenta tudo o que os outros experimentam.

Pensamos na glória e na maravilha da consciência búdica porque ela nos une aos Mestres.

Não devemos esquecer que ela também nos coloca em harmonia com os viciosos e os criminosos.

Seus sentimentos devem ser experimentados, assim como a glória e o esplendor da vida superior.

Assim, quando somos capazes de tocar o plano búdico, podemos obter experiência dos aspectos mais baixos e desagradáveis da vida ao entrar na consciência das pessoas que estão passando por essas fases particulares.

Não precisamos fazer isso como uma lição, porque já sabemos, por hipótese, que essas são coisas impossíveis para nós. Mas devemos ter experiência suficiente para sermos perfeitamente simpáticos, ou não poderemos ajudar os outros.

A pessoa perfeitamente simpática conhece intuitivamente as dificuldades e tentações dos outros e, assim, está cheia de amor até mesmo pelo que erra.

Pela simpatia, ele faz sua a "veste manchada".

Quando finalmente abandonarmos a separatividade e realizarmos a unidade, descobriremos que estamos fundidos na Vida divina e que a atitude de amor é a única que podemos adotar em relação a qualquer um de nossos semelhantes, sejam eles elevados ou humildes.

282. 6. Mata o desejo de sensação.

283. Aprende com a sensação e observa-a, pois somente assim podes iniciar a ciência do autoconhecimento e firmar o pé no primeiro degrau da escada.

284. A.B. — O discípulo deve observar o funcionamento da sensação em si mesmo, para que possa obter algum autoconhecimento dela. Ele só pode alcançar tal conhecimento pelo estudo deliberado de seus próprios pensamentos.

O primeiro efeito de tentar estudar seus próprios pensamentos é afastar-se deles, separá-los de si mesmo.

O próprio fato de estudá-los afastou sua vida deles, de modo a destruir, por enquanto, a identificação de si mesmo com seus pensamentos que habitualmente existe.

Um homem não se identifica com o objeto de seu estudo, com a coisa que está olhando.

É um ditado entre os seguidores de Shankaracharya que sujeito e objeto nunca podem ser o mesmo.

Assim, o próprio esforço de estudo enfraquece as formas, e nesse simples ato você está ganhando liberdade.

285. Estreitamente aliado a este conselho está a instrução de testar as experiências, com o objetivo de que o homem possa experimentar a condição de não ser mais afetado por elas.

Quando um homem observa sua própria sensação, a fim de aprender com ela, ele pode experimentar essa sensação, mas ao mesmo tempo pode fazer algo mais elevado com ela — pode medir essa força sem ceder a ela. Haverá também momentos em que o discípulo que pratica essa observação das sensações descobrirá que sensações adormecidas em si mesmo estão sendo reavivadas.

286. Todos nós temos reminiscências do passado, que podem ser ditas pairar ao nosso redor como nossos eus mortos, e são passíveis de serem revivificadas de fora.

Elas podem voltar à vida pelo contato com as formas-pensamento de outros homens ao longo das mesmas linhas, ou podem ser despertadas pela ação deliberada de algum poder que está trabalhando para a nossa purificação, ou que nos testa, seja pelo lado sombrio, seja pelo lado branco.

Suponha que um homem tenha esse eu morto vivificado; ele então sentirá o que é usualmente chamado de força da tentação.

O discípulo, tendo estudado a maneira como essas coisas funcionam, reconhece o que aconteceu; ele mede o poder do pensamento ressuscitado e lhe diz: "Você não é meu Eu vivo; você é meramente meu 'eu' do passado — então afaste-se de mim."

287. Às vezes, em um momento de tentação, é útil reconhecer que é meramente o seu passado que foi revivificado, e então você tem o direito de dizer: "Isto não sou eu." Então você o olha como algo exterior a si mesmo, como nenhuma parte do seu ser ou atividade, e sabe que ele não pode segurá-lo ou manchá-lo.

(¹ Ante. Vol. II, p. 154, 315.) A confiança paciente que surge desse conhecimento contém um grande elemento de força. Você sabe que está se aproximando do momento em que nem mesmo sentirá essa tentação.

Em breve ela não terá o poder de afetá-lo de forma alguma.

288. No processo deliberado de pesar, medir e observar seus próprios sentimentos e pensamentos passados, o discípulo está matando a última possibilidade de vida naquele eu morto.

A Voz do Silêncio quer dizer isto, quando afirma com relação ao desejo: "Cuidado para que dos mortos ele não volte a surgir." Os velhos sentimentos e pensamentos estão terminados, não quando são meramente enterrados fora da vista, mas quando o último fragmento deles é trabalhado até o fim, quando o homem os observa e vê com perfeita clareza o que são e que não fazem parte de si mesmo.

Nesse estudo silencioso, ele então os mata além de qualquer possibilidade de retorno à vida.

289.   C.W.L. — Temos primeiro que aprender a observar o funcionamento da sensação em nós mesmos, de fora.

Enquanto estamos sendo arrastados por ela, não podemos aprender nada dela, porque então somos seus escravos; mas se pudermos nos elevar e olhar para baixo, e pensar nela como algo pertencente ao nosso passado, estaremos então em posição de observá-la e estudá-la.

290.   Ondas de sensação fluem por todo o mundo, e temos que aprender a compreendê-las para poder ajudar os outros, mas, naturalmente, só podemos fazer isso quando não formos mais balançados por elas.

Sem dúvida, é em grande parte uma questão de temperamento, mas para muitos é uma das maiores dificuldades que sensações e emoções os agitam, e ainda não compreendem plenamente como controlá-las.

É como ficar de pé entre as vagas e tentar dominá-las.

Um homem não pode governar uma coisa que o derruba repetidamente e o arrasta; mas as pessoas não percebem que a emoção não é realmente uma força externa como essa, mas que está dentro de si mesmo e pode ser trazida perfeitamente sob o próprio controle, se alguém compreender como fazê-lo.

291.   O caminho é obter uma firme pegada nela bem no início.

Uma onda de raiva, depressão, ciúme, ou qualquer dessas paixões começará num instante e crescerá rapidamente até se tornar algo muito grande.

Ela surge tão subitamente, e as pessoas estão tão acostumadas a considerá-la como o eu, que não a reconhecem no momento, e por isso não a detêm imediatamente, dizendo: "Isto não sou eu; recuso-me a ser arrastado; permaneço firme." Se nos lembrarmos de fazer isso a tempo, a emoção desaparece prontamente.

A maioria das pessoas faz a resolução de não ser vencida quando está bem calma, mas infelizmente, quando a onda de sensação chega com ímpeto sobre elas, não querem resistir naquele momento. A alma interior não está imediatamente desperta para o perigo, então se deixa arrastar e se identifica com a emoção ou sensação.

Devemos, portanto, aprender a capturá-la exatamente no momento de sua chegada, pois se a deixarmos passar, é muito difícil, quando a sensação está em pleno vigor, contê-la subitamente, embora às vezes outra pessoa possa fazê-lo por nós. Depois, quando nos lembramos, lamentamos. O que se deve fazer na prática é tentar controlar a sensação cada vez um pouco mais cedo, e se conseguirmos suprimi-la uma vez antes que ela entre em seu ritmo, é provável que possamos fazê-lo invariavelmente depois disso.

292. É difícil no início apenas porque o homem, como Self, abdicou de seus direitos em tantas ocasiões anteriores que perdeu o hábito de reafirmá-los.

Mas se ele uma vez os reafirmar no momento crítico, descobrirá que pode fazê-lo repetidas vezes, porque o elemental que é a causa da dificuldade começará a temer, começará a perceber que não pode varrer tudo diante de si.

No início ele está bastante confiante, como um cão que se lança contra um homem, latindo e rosnando porque o julga amedrontado; mas se o homem não se vira e foge, o cão hesita e começa a duvidar do empreendimento.

O elemental não tem a inteligência de um cão.

Ele pode ou não saber que somos mais fortes do que ele, mas se não sabe, é apenas porque não nos afirmamos.

Devemos fazê-lo saber que somos seu mestre; quando uma vez ele sentir isso, hesitará logo no início a iniciar sua onda.

Contenha-o no início, e não haverá mais problemas.

293. Temos de aprender com a sensação, observando-a também nos outros.

Dessa forma, chegamos a compreender a natureza humana.

Podemos ver como outras pessoas fazem papel de tolas sob a influência da emoção e, vendo como isso parece ruim nelas e quanto dano evidentemente lhes causa, aprendemos a reprimir qualquer traço da mesma coisa em nós mesmos.

É naturalmente muito mais fácil ver as coisas nos outros do que em nós mesmos, quando estamos de fora, como espectadores.

Não devemos, contudo, olhar para as outras pessoas a fim de criticá-las e apontar seus defeitos, mas apenas para ver o que podemos aprender com elas.

Quando os vemos claramente não vivendo de acordo com o seu melhor e mais elevado, por causa de alguma paixão ou emoção ou algum sentimento de repugnância, podemos fazer uma nota mental disso, sem sentir de forma alguma que somos melhores do que eles, e podemos pensar: "Não poderia a mesma coisa ter acontecido comigo? Que eu veja para que isso não aconteça." Assim, sem adquirir o hábito de criticar, o que é sempre ruim, podemos aprender com os erros de outras pessoas.

Quando vemos outra pessoa chegar à ruína, por mais que sintamos pena dela, não há mal algum em pensar: "Que eu também não caia no precipício; basta que uma pessoa já tenha caído."

294. Grandes ondas de sensação inundaram o mundo durante a guerra.

Entre elas havia uma quantidade tremenda de repugnância e ódio contra os poderes com os quais por acaso estávamos em guerra.

Não pretendo de forma alguma defender as atrocidades cometidas por esses poderes.

Sei que elas ocorreram, porque eu mesmo, astralmente, vi uma grande parte delas, o que me encheu de vergonha pela humanidade.

Não desejo por um momento negar esses fatos, encobri-los ou desculpá-los.

Mas havia também grande perigo e dano no forte impulso de sentimento contra aqueles que cometeram os crimes.

As pessoas responsáveis pelas atrocidades foram aquelas que as cometeram, e os indivíduos por cuja ordem foram feitas — não a nação inteira.

Certamente muitas coisas foram feitas por ingleses no passado com as quais não gostaríamos de nos identificar — e isso tem sido o mesmo em todas as nações.

Não devemos nos deixar levar à injustiça no pensamento, assim como não devemos nos deixar levar à injustiça na fala ou na ação.

295. Nossos inimigos intencionalmente trabalharam deliberadamente para incitar o ódio contra nós. Isso pode, talvez, ter sido eficaz na época, como um dos truques da campanha.

Eles podem ter descoberto que isso compensava na obtenção de recrutas e dinheiro, e assim por diante; mas foi um grave erro moral.

Com isso, eles se colocaram de forma bastante conclusiva no erro, no que diz respeito a todos os aspectos superiores da questão.

Mas há perigo em tal caso, para que também não sintamos ódio.

É preciso estar absolutamente determinado na luta contra o mal, levá-la até o extremo, e ainda assim estar inteiramente livre de qualquer coisa como um pensamento de ódio.

Lembre-se de como o Senhor Buda disse: "O ódio nunca cessa pelo ódio." Pelo contrário, ele é sempre alimentado por ele.

296. Quando se ouve falar de atrocidades terríveis perpetradas contra mulheres e crianças, não se pode deixar de sentir intensa indignação.

Não há mal em sentir indignação contra tais malfeitorias.

É uma coisa terrível, e todas as pessoas de bom senso devem e hão de denunciá-la decididamente, sem qualquer tipo de atenuação ou desculpa; mas seria um grande erro odiar o infeliz homem que comete os crimes.

Ele deve ser muito mais compadecido do que censurado.

Não é nosso papel censurá-lo, mas é nosso dever tornar impossível que ele volte a fazer essas coisas.

Nossa atitude deveria ser a que um homem tomaria diante de alguma fera selvagem que ataca seus filhos.

Ele não a dignificaria odiando-a, mas a colocaria fora do caminho.

Deveríamos sentir imensa pena dos infelizes que fazem tais coisas, porque vemos o que deve ser o seu karma.

297. É uma coisa terrível que mulheres e crianças sejam massacradas, talvez mais terrível para os parentes do que para as próprias vítimas, mas é pior de tudo para aqueles que cometem o crime; são eles os que mais merecem compaixão, porque seu sofrimento, no fim, será muito mais terrível.

298. Na medida do que estiver ao nosso alcance, tomaremos providências para impedir que o que foi feito se repita, mas não devemos ter nenhum sentimento de ódio.

É um caso de noblesse oblige.

Estamos infinitamente acima do tipo de pessoa que faz esse tipo de coisa; estamos eras à sua frente em evolução e desenvolvimento; estamos tão distantes dele quanto ele está do reino animal, e, sendo assim, devemos demonstrar nosso maior desenvolvimento não compartilhando dessa paixão de ódio.

299. Só podemos estudar os efeitos da sensação se nos dissociarmos dela, se nos colocarmos à parte e tentarmos controlar o sentimento e aprender com ele. Não devemos ser arrastados por nenhum desses redemoinhos de sentimento popular, mas devemos tentar ver onde ele está errado e fazer o que pudermos para corrigi-lo.

Muitas pessoas, que estão sob a influência dessa sensação de paixão tremenda, pensam em nós como bastante apáticos e frios; é até possível que às vezes pensem que nos falta patriotismo se nos recusamos a odiar.

Naturalmente, isso não é lógico, mas as pessoas não são lógicas quando estão sob a influência dessas grandes ondas de ódio.

Podemos explicar-lhes que o patriotismo não exige que se odeiem outros países, mas às vezes eles não percebem que podemos amar nosso próprio país sem sermos obrigados a odiar outro.

300. Nossa atitude em relação a essas coisas é muito semelhante à que deveríamos ter diante dos problemas das criancinhas.

Uma criança quebra uma boneca e se desfaz em lágrimas e uma paixão de arrependimento por causa disso; fazemos tudo o que podemos para simpatizar com essa criança, mas somos bastante filosóficos, não compartilhamos a paixão do arrependimento.

Não nos desesperamos porque uma boneca se quebrou ou porque este ou aquele pequeno assunto possa ter acontecido na vida escolar da criança.

Percebemos que há um futuro, e que, em comparação com esse futuro, todas essas pequenas coisas são apenas temporárias e não têm grande importância, embora sejam enormemente importantes para a criança.

Estaríamos falhando em nosso dever se não oferecêssemos a simpatia, mas seríamos tolos se sentíssemos tanto quanto aquela criança sente — estaríamos nós mesmos agindo de maneira infantil.

É exatamente o mesmo com o homem que está aprendendo a adotar uma atitude filosófica.

Ele simpatiza com as pessoas que estão tão apaixonadamente perturbadas com essas coisas, mas ele mesmo não se perturba.

Assim como se diz à criança: "Oh, bem, não importa, tudo ficará bem com o tempo", assim gostaríamos de dizer àqueles que estão agitados sob essas emoções: "Se vocês apenas acreditassem, tudo se resolverá e tudo correrá bem." Se dizemos isso, somos considerados insensíveis, mas é absolutamente verdade.

Muitas vezes achamos difícil evitar a admiração sobre como as pessoas podem ser tão cegas.

Vemo-las agitando-se selvagemente por coisas que não importam em absoluto.

São frequentemente pessoas com possibilidades esplêndidas, mas não as veem, e permitem-se ser dominadas por surtos loucos de desejo.

Nós mesmos fizemos a mesma coisa há milhares de anos, talvez.

Portanto, aprendemos a ser pacientes, compreendendo que isso é um estágio na evolução, embora um estágio muito indesejável.

Assim, aqueles de nós que ainda estão em perigo de ceder a emoções desse tipo devem nos recompor e dizer: "Há vinte vidas atrás isso era talvez desculpável, mas agora, o tempo para isso já passou." Se na vida cotidiana vemos um homem de idade madura desperdiçando todo o seu tempo em prazeres, sabemos que isso pode ter sido muito bom há vinte anos, mas agora ele deveria estar pensando nas coisas mais sérias da vida.

Da mesma forma, devemos ter ascendido a um nível onde nossas emoções são as emoções superiores, onde temos a grande ideia da obra que Deus deseja que realizemos.

301.   7. Elimine a fome de crescimento.

302.   Cresça como a flor cresce, inconscientemente, mas ansiosa por abrir sua alma ao ar.

Assim deveis avançar para abrir vossa alma ao Eterno.

Mas deve ser o Eterno que extrai vossa força e beleza, não o desejo de crescimento.

Pois em um caso desenvolveis na luxuriância da pureza; no outro, endureceis pela paixão forçada pela estatura pessoal.

303.   A.B. — No estágio posterior do crescimento, o discípulo sentir-se-á abrindo-se para o Eterno e realizando sua beleza cada vez mais.

O desejo de crescer para ser maior que seu irmão torna-se então impossível para ele.

Antes que esse estágio seja alcançado, ele ainda está em perigo, por causa da grandeza do que já realizou.

Se ele pensa em seu crescimento como pertencente ao eu separado, e sente que ele próprio está se tornando grande, é provável que caia.

A única maneira de evitar esse perigo é livrar-se do desejo de ser grande, não ceder ao desejo de crescimento por si mesmo.

Pois quando está no plano superior do crescimento humano, o discípulo deve ser indiferente quanto a crescer ou não, mas deve importar-se apenas com a Vida divina e a Vontade divina, e pensar somente na alegria que isso pode trazer a todos que a acolhem em suas vidas.

304.   C.W.L. — Devemos crescer como a flor cresce.

Por quê? Porque a flor cresce desinteressadamente, absolutamente altruisticamente.

Ela não cresce para se exibir, mas para que sua espécie possa tornar-se maior por sua morte.

Ela não existe para obter fruto para si mesma, porque o fruto não vem até que a flor esteja morta.

Seu crescimento inteiro não é para si mesma, mas para outras plantas ainda por vir.

Assim, não é pensando em nós mesmos, mas esforçando-nos pelo bem dos outros que devemos avançar.

A grande ideia — a de ajudar na obra do Logos — deve atrair-nos. Devemos trabalhar para a obtenção de todas as virtudes e poderes simplesmente para que possamos ser mais úteis em Seu serviço; esquecendo-nos de nós mesmos no trabalho desinteressado, crescemos como parte do todo e assim "desenvolvemos na luxuriância da pureza".

CAPÍTULO

REGRAS 9 A

305. C.W.L. — Até onde chegamos neste livro, tivemos diante de nós o lado negativo das coisas. Foi-nos dito para eliminar certos desejos, mas agora chegamos ao lado positivo e aprendemos o que podemos, e de fato devemos, desejar.

Pode parecer-nos estranho que nos seja dito para desejar algo.

Aqueles que estudaram os livros indianos lembrar-se-ão de que este é um ponto no qual até mesmo os Upanishads diferem.

Um Upanishad desaprova todo tipo de desejo; argumenta que até mesmo desejar o certo deve ser evitado, porque devemos estar absolutamente sem qualquer preferência por isto ou por aquilo.

Outra dessas grandes escrituras determina que devemos ter o desejo de progresso, e diz que quando todos os outros desejos são conquistados, mas permanece o desejo pelo crescimento da alma, então não há mais para o homem possibilidade de dor.

Podemos reconciliar essas duas afirmações se tomarmos a primeira como significando que, se temos o desejo de cooperar até mesmo no trabalho superior do mundo como um eu separado, pensando em nós mesmos e nas grandes coisas que podemos fazer, ainda há um toque da ideia de separação; mas se somos capazes de pensar em nós mesmos como parte da humanidade e de conquistar nosso avanço em nome da humanidade da qual somos parte, e não há mais qualquer pensamento de eu, então elevamos e purificamos nosso desejo em uma aspiração que é inteiramente desejável.

306. 9. Deseja apenas aquilo que está dentro de ti.

307. Pois dentro de ti está a luz do mundo — a única luz que pode ser derramada sobre o Caminho.

Se não és capaz de percebê-la dentro de ti, é inútil procurá-la em outro lugar.

308. O pensamento expresso neste comentário é comum a todas as religiões, embora o apresentem de maneiras diferentes.

Nós o encontramos no cristianismo, mas como regra apenas os místicos cristãos parecem tê-lo compreendido. Nós o temos no belo verso:

309. Embora Cristo mil vezes em Belém nasça,

310. Mas não dentro de ti, tua alma ficará desamparada;

311. E na cruz do Calvário Ele pende em vão,

312. A menos que dentro de teu coração seja erguida novamente.

313. É fácil ver o que isso significa.

Se um homem não acredita em sua própria divindade inerente, não há esperança de progresso para ele, porque então não teria nada dentro de si sobre o qual pudesse trabalhar; nada dentro que o elevasse a algo mais alto; mas se ele sabe que há dentro de si o maravilhoso princípio crístico, então reconhece que desabrochar essa divindade é apenas uma questão de tempo, e que sua parte na obra é harmonizar seus veículos exteriores, para que essa glória interior possa resplandecer através deles.

Esse é o significado das palavras: "Cristo em vós, a esperança da glória". A esperança que temos dentro de nós é essa centelha divina; o homem que se recusa a acreditar que a possui coloca um obstáculo intransponível em seu próprio caminho, até que perceba seu erro.

314. É de fato verdade que a salvação só pode ser alcançada através do Cristo — não um homem que viveu e morreu, mas o princípio crístico dentro de nós.¹ (¹ Ante., Vol. I, Parte I, Cap. 4: A Oração Preliminar.) Dentro de nós está o nosso salvador.

Esta é a verdadeira doutrina cristã, em apoio à qual poderíamos citar muitos textos.

Todas as maneiras pelas quais a apresentação moderna do Cristianismo — se assim se pode dizer — se desviou e se tornou ridícula, surgem do mal-entendido dessa grande ideia.

Deve-se sempre lembrar que o Cristianismo começou com a bela filosofia gnóstica, mas os ignorantes entre seus seguidores recusaram-se a incluir em seu esquema religioso qualquer coisa que estivesse além de sua compreensão, ou qualquer coisa que exigisse anos de estudo para ser aprendida.

Assim, expulsaram os grandes doutores gnósticos como hereges.

Aplicaram à religião aquele método imprudente de tomar decisões, o voto majoritário, com resultados funestos.

315. Originalmente, o Cristianismo possuía uma belíssima exposição de filosofia — a única filosofia que está por trás de todas as religiões.

Quando a história evangélica, que foi concebida como uma alegoria, foi rebaixada a um relato pseudo-histórico da vida de um homem, a religião tornou-se incompreensível.

Consequentemente, todos os textos que realmente se referem a esse aspecto superior das coisas foram distorcidos e, naturalmente, não se ajustam à verdade que está por trás da ideia.

Porque o Cristianismo esqueceu muito de seu próprio ensinamento original, nos dias de hoje é costume negar que ele jamais tenha possuído qualquer ensinamento esotérico.

Há, no entanto, evidências suficientes para convencer o estudante imparcial de que esse conhecimento superior existiu e era bem conhecido dos apóstolos e dos pais da Igreja.

Não posso entrar completamente nisso no momento; basta lembrar ao leitor que Orígenes, o maior dos pais da Igreja, afirma a existência desse ensinamento secreto.

Ele traça uma distinção entre a "fé irracional popular", que conduz ao que chama de "cristianismo somático", e o "cristianismo espiritual". Por "cristianismo somático" ele entende aquela fé que se baseia na história evangélica, e acrescenta que é um ensinamento muito bom para as massas, mas que o cristão espiritual possui a Gnose e, portanto, compreende que todos os incidentes ali narrados — o nascimento, o batismo, a iluminação, a crucificação, a ressurreição e a ascensão — não ocorreram apenas uma vez em um só lugar, mas são etapas na vida espiritual de todo cristão à medida que ele progride.

¹ Ver anteriormente.

Vol. I, Parte V, Cap. 5: Superstição.

316. A ortodoxia moderna ainda baseia suas crenças na fé ignorante da multidão não desenvolvida e persiste em renegar o que resta de sua outrora magnífica herança, sob a forma de alguns preciosos fragmentos do ensinamento gnóstico.

Tendo perdido a interpretação superior, faz um esforço desesperado para apresentar a inferior de forma compreensível, mas isso não pode ser feito.

Os estudantes de Teosofia possuem o conhecimento que lhes permite interpretar todas essas estranhas doutrinas e ver sentido e beleza até mesmo nas declarações cruas do pregador de rua, porque compreendem o que ele quereria dizer se apenas soubesse um pouco mais sobre seu assunto.

317. Portanto, o que devemos desejar é aquilo que está dentro de nós mesmos o tempo todo; não o encontraremos em outro lugar.

Essa mesma ideia nos foi apresentada há muito tempo no antigo Egito.

Lá, eles centralizavam todas as suas ideias de religião na "luz oculta" e na "obra oculta". ¹ (¹ Ver anteriormente.

Vol. I, Parte V, Cap. 6: Serviço.) A "luz oculta" era a Luz que está em todo homem, e a "obra oculta" era aquilo que lhe permitiria manifestá-la, trazê-la à tona em si mesmo e então ajudar no seu desenvolvimento nos outros.

Esse era o ponto cardinal de seu credo — que a Luz está lá, por mais que possa estar encoberta; e por mais desesperador que possa parecer, nossa tarefa é retirar os véus e deixar a Luz brilhar.

318. As pessoas frequentemente cometem o erro de procurá-la em outro lugar.

Eles dizem: "Queremos que os Mestres nos ajudem; queremos que os Mestres nos elevem." Mas eu digo, com a maior reverência e respeito, o Mestre não pode fazer isso, o próprio Logos não pode fazê-lo. O Mestre pode nos dizer como podemos nos elevar a nós mesmos.

O processo é exatamente análogo ao desenvolvimento da força no músculo.

Ninguém pode fazer isso por outro, mas se ele tem o conhecimento, pode dizer-lhe como fazê-lo por si mesmo, e essa é toda a ajuda que se pode obter de fora.

Outra pessoa pode nos dizer que seguiu certas regras e exercícios e descobriu que eles trouxeram bons resultados.

O Mestre ou o pupilo avançado também pode, sem dúvida, derramar sobre nós força que torna nosso trabalho mais fácil, mas isso é tudo.

É o mesmo em todo o caminho.

Se não sentimos dentro de nós o poder de responder à beleza e glória da natureza, essa beleza e glória passarão por nós. Se não podemos ver Deus dentro de nós mesmos, é inútil procurá-Lo fora.

Quando nos realizarmos como parte Dele, então o Deus interior responderá ao Deus exterior, e começaremos a ser verdadeiramente úteis em Sua obra, que, afinal, é nosso principal objetivo na vida.

319. 10. Deseje apenas aquilo que está além de você.

320. Está além de você, porque quando você o alcança, você se perdeu.

321. C.W.L. — Isso novamente é uma afirmação que tem seu paralelo no ensinamento cristão.

O próprio Cristo diz claramente: "Aquele que achar a sua vida perdê-la-á; e aquele que perder a sua vida por minha causa achá-la-á." 1 ( 1 S. Mateus, 10, 39.) Isso acontece repetidas vezes em vários estágios.

Considere o homem do mundo vivendo sua vida comum, que é em grande parte uma vida em suas emoções — em alguns casos, em emoções bastante inferiores.

Assim que ele começa a compreender o lado mais elevado das coisas, percebe que há algo mais elevado e mais nobre do que isso.

Mas ele também descobre que, a menos que esteja disposto a pôr de lado essa vida inferior e grosseira, não pode realmente alcançar o superior; ele deve perder o inferior para que possa ganhar o superior.

322. No passo seguinte, o homem passa a viver em sua mente em grande medida.

Ele percebe que ser varrido pelas marés da paixão é, afinal, ignóbil, e que a mente deve selecionar e dominar as emoções, permitindo apenas aquelas que aprova, em prol do progresso.

Em breve ele vai além disso e descobre que a mente também não é totalmente satisfatória, mas que há uma vida mais elevada do que a da mente.

Assim, gradualmente, ele começa a viver no ego e a olhar para tudo desse ponto de vista, o que representa um grande avanço.

Mas, eventualmente, até isso não lhe basta mais.

Ele percebe que existe uma unidade que está além desse estágio, e então começa a ter alguma experiência do plano búdico, e quando toca esse plano, nada abaixo dele jamais voltará a satisfazê-lo.

323. Mesmo essa maravilhosa consciência búdica, por sua vez, será transcendida.

Além dela está a consciência do plano átmico — o nirvana.

Acima e além disso, novamente, está o Mônada.

Aqueles que ainda não são Adeptos veem o Mônada manifestando-se como um espírito triplo no plano abaixo do seu, mas ao alcançar o Adeptado, o Mônada e o ego terão se tornado um, e eles estarão conscientes como o Mônada — a Centelha Divina.

324. Em cada um desses estágios, sentimos que apreendemos a verdade e entramos na vida real, mas logo percebemos que há algo ainda mais elevado, tão elevado quanto aquilo que estava além de nossa experiência anterior.

Em todo o caminho ascendente, temos de abandonar o inferior antes de podermos realmente alcançar o superior.

Isto é, temos de perder a vida que conhecemos antes de podermos alcançar a vida superior que esperamos atingir.

Em cada estágio, ao alcançá-lo, descobrimos que perdemos o eu que conhecíamos anteriormente, porque o transcendemos. Nós o perdemos ao encontrar um eu superior.

325. Está escrito nos livros que nos tornamos um com o Logos, fundidos Nele.

Ora, desse resultado final nada sabemos, mas isto alguns de nós podemos afirmar por nossa própria experiência pessoal: que muitas dessas fusões em diferentes níveis ocorrem no progresso da alma, e em cada uma delas parece que nos tornamos totalmente um com o mais elevado que então podemos alcançar, e, no entanto, jamais perdemos nada do nosso verdadeiro Eu através de tudo isso.

Quando ascendemos, digamos, à consciência búdica e perdemos o corpo causal, perdemos a vida inferior, mas essa nunca foi mais do que uma manifestação muito inadequada de uma pequena parte de nós. Tudo o que ganhamos através da longa série de vidas ainda está ali.

O que descartamos é apenas a forma externa na qual nossas várias qualidades se expressavam.

Ainda temos as qualidades, em um nível superior, brilhando com maior esplendor, mas a forma na qual elas foram moldadas desapareceu.

Porque as pessoas identificam constantemente a vida com a forma, para muitos parece que, se perdessem essa forma, nada restaria.

Pelo contrário, nada do que foi conquistado se perde jamais.

326.   11. Deseje apenas aquilo que é inatingível.

327.   É inatingível, porque sempre recua.

Você entrará na luz, mas nunca tocará a Chama.

328.   C.W.L. — Isso não significa que a vida superior à qual aspiramos seja inatingível, mas que, quando alcançamos uma altura, sempre vemos outro pico além.

Aproximar-nos-emos cada vez mais do Divino, tornando-nos um com Ele em nível após nível, mas a Chama, Sua verdadeira consciência, nunca tocaremos.

Há muitos estágios no caminho, e eles se tornam cada vez mais indescritíveis em sua beleza à medida que ascendemos.

A qualquer altura que elevemos nossa consciência, a quaisquer glórias inefáveis que possamos ascender, sempre vemos algo ainda mais glorioso além.

A Chama sempre recua.

Até onde nosso conhecimento alcança, essa cadeia de glória e beleza crescentes é interminável.

Talvez não seja de muita utilidade especular sobre isso.

O Senhor Buda disse há muito tempo que era inútil falar do começo e do fim, porque "Véu após véu se erguerá, mas deve haver véu após véu atrás".

329.   Eu gostaria de transmitir a cada um, tão absoluta e vividamente quanto eu mesmo sinto, essa certeza inabalável do progresso que nos aguarda, de sua glória, beleza, poder, sabedoria e amor maravilhosos, de como ele se eleva de degrau em degrau e se torna cada vez mais indescritível aqui embaixo, e cada vez mais glorioso, belo e verdadeiro acima.

O caminho para isso passa pelo altruísmo.

Somente quando nos elevamos do eu inferior para a vida superior, para o eu universal mais amplo, o caminho se abre, e não há limite para a glória e o esplendor que o homem pode então alcançar.

CAPÍTULO REGRAS 13 A

330.   13. Deseje o poder ardentemente.

331.   C.W.L. — O comentário do Chohan sobre isso é:

332.   E o poder que o discípulo deve cobiçar é aquele que o fará parecer nada aos olhos dos homens.

333.   O poder que nos faz parecer nada aos olhos dos homens é o poder da auto-anulação no trabalho — de realizá-lo sem querer qualquer crédito por ele. Muitas pessoas querem estar na vanguarda.

Isso é frequentemente considerado apenas uma vaidade inofensiva, mas significa que elas ainda não esqueceram o eu inferior.

334. O discípulo não busca crédito por nada do que faz; ele busca realizar o trabalho e, desde que seja feito, não lhe importa se ele ou outra pessoa recebe o crédito por tê-lo feito. Se ele precisa se colocar à frente e atrair pessoas ao seu redor, ele o faz, mas não porque deseja o crédito disso. Ele sabe que é sempre muito melhor permanecer em segundo plano, se possível.

335. É sempre melhor não pensar em resultados, mas fazer o melhor que pudermos e esquecer de nós mesmos.

Todo ensinamento oculto conduz de volta a esse fato fundamental — esquecer o eu inferior e pôr-se a trabalhar.

Algumas pessoas pensam constantemente no próprio progresso.

É pelo menos melhor pensar em fazer progresso espiritual do que desejar riquezas mundanas, mas ainda é egoísmo, apenas em uma forma mais refinada.

Minha própria experiência me levaria a dizer que o melhor caminho para avançar é esquecer completamente o próprio progresso e simplesmente dedicar-se à obra do Mestre.

( 1 Ante., Vol. I, Parte III, Cap. 2: O Único Bom Desejo. Vol. II, pp. 360-1.) Se alguém fizer isso, o resto virá.

É a antiga verdade declarada no Evangelho: “Buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” 2 ( 2 S. Mateus, 6, 33.) Isso é absolutamente verdadeiro; essas outras coisas vêm.

Quando não estamos procurando por progresso, de repente descobrimos que realmente fizemos algum, e isso também é bom.

336. Quando um homem vê pela primeira vez como é realmente a vida no corpo causal, ele também percebe quão útil poderia ser nesse nível, quantas linhas existem ao longo das quais sua atividade poderia se derramar, e ele bem pode estar disposto a perguntar: “Não é melhor que eu faça este novo e esplêndido trabalho que vejo se abrir diante de mim?” Eu mesmo tenho por prática buscar o conselho ou a vontade do Mestre sempre que oportunidades grandiosas pareciam se abrir, e ainda assim havia a possibilidade de que fosse ainda melhor renunciar a elas.

Eu diria: “Mestre, o que desejas que eu faça?” Frequentemente Sua resposta seria: “É uma questão para você decidir.” Então só se pode usar o próprio melhor julgamento.

Nenhuma regra pode ser estabelecida em tais casos.

Ainda estaria disposto a tentar o mais elevado; mas deve-se lembrar que somos advertidos repetidamente: "Não deixe que o desejo pelo seu próprio desenvolvimento se interponha no caminho de qualquer trabalho útil que você possa realizar. Seu desenvolvimento virá no devido tempo." Sempre segui esse plano, e penso que é a atitude mais segura.

337. Através do trabalho realizado nesse espírito de esquecimento de si mesmo, ganhamos o poder que nos fará parecer como nada aos olhos dos homens.

Aceitemos, se necessário, a humilhação, porque tudo isso ajuda a tirar a personalidade de vista, e é isso que é mais necessário.

Quando as oportunidades surgem, devemos aproveitá-las, mas sempre devemos pensar: "Não é o meu trabalho; é o trabalho do Mestre." Não importa qual daqueles que seguem o Mestre tenha o privilégio de realizar qualquer peça específica de trabalho para Ele.

Nosso dever é vigiar para que não percamos nenhuma oportunidade de fazer qualquer parte do Seu trabalho.

338. Devemos compreender que não há nada pequeno ou grande no Seu trabalho, mas que qualquer coisa, por menor que seja, feita e oferecida a Ele, é tão importante aos Seus olhos quanto aquilo que é uma realização muito maior aos olhos do mundo.

Temos uma certa tendência a querer fazer o que consideramos ser o trabalho maior.

Isso ocorre porque não vemos que todas as partes do trabalho são igualmente necessárias.

Imagine por um momento como Ele deve contemplar o todo desde a Sua estupenda elevação de poder e conhecimento mais amplos.

Todas essas peças de trabalho parecerão muito pequenas, mas todas se encaixam em seus lugares.

339. Todos os problemas da vida que parecem complexos, senão incompreensíveis, aqui embaixo, tornam-se muito mais simples quando observados de um plano mais elevado.

O mesmo se aplica a níveis muito mais baixos.

Quando examinamos criaturas microscópicas, como aquelas que vivem em uma gota d'água, encontramos formas de vida complexas e belas.

Quanto mais se adentra nessas questões infinitamente pequenas, mais se descobre sua surpreendente complexidade.

Percebe-se como até mesmo para a própria Divindade esses mundos poderiam ser uma coisa simples, e no entanto são, pois quando olhamos de pontos de vista mais elevados, como somos capazes de alcançar, podemos ver que são as permutações e combinações das sete forças da Vida Una que produzem todos esses resultados maravilhosos.

Os fatores envolvidos na produção são poucos e simples; portanto, quanto mais alto se eleva, mais se pode compreender, e aquilo que aqui embaixo parece impossível de apreender prova estar plenamente ao alcance quando visto de níveis mais elevados.

340. Podemos reverentemente e razoavelmente supor, creio eu, que o Logos pode manter todo o Seu sistema simultaneamente em Sua mente, e sem qualquer dificuldade ver o que está sendo feito em cada mais remota ramificação dele. Todo o sistema em sua multiplicidade deve ser imediatamente evidente por si mesmo — algo que se poderia registrar numa folha de papel, por assim dizer.

Para o Manu e o Bodhi-sattva, o trabalho de moldar e guiar as raças humanas, que nos parece tão complexo e até confuso, deve ser bastante claro e simples.

341. Nosso dever é servir ao Mestre em nossa pequena esfera.

O detalhe é nossa preocupação, não a d'Ele.

O que Ele quer é que todo o trabalho corra bem, e tudo o que pudermos fazer para que assim seja é a nossa parte nele. Aqueles que se aproximam d'Ele em pensamento e, por tal associação, cresceram um pouco até a Sua atitude em relação a isso, estão sempre ansiosos para fazer qualquer coisa, por mais simples que seja, que possa parecer útil.

Podemos escrever uma pequena carta, talvez, que mudará o curso da vida de um homem, ou podemos proferir uma palestra e tentar mudar a opinião de algumas centenas de pessoas, e não conseguir; a pequena carta é um trabalho igualmente real.

Pode haver alguns de nós que estão tão ocupados que não podem fazer nada pessoalmente.

Nesse caso, provavelmente estamos ganhando dinheiro, e então talvez pudéssemos dar algum dinheiro para permitir que outros façam esse trabalho.

Há muitas pequenas maneiras pelas quais cada um pode trabalhar.

Não adianta esperar por uma grande oportunidade com a ideia de que, quando ela vier, estaremos prontos para aproveitá-la. É muito mais provável que estejamos prontos se nos habituarmos a sempre fazer as pequenas coisas que podemos fazer agora.

342. Um homem que trabalha sem qualquer consideração pelos próprios interesses e está sempre disposto a permanecer em segundo plano é inevitavelmente incompreendido pelo mundo.

As pessoas entendem e admiram um homem de vontade forte, que se propõe a fazer um nome para si, a causar uma impressão, e abre caminho até a frente.

Tal homem teve sucesso, do ponto de vista deles; ele mostrou ao mundo que é um homem forte.

O ocultista pode ser, na realidade, muito mais enérgico, mas não mostraria seu poder dessa maneira.

Ele geralmente procura apagar-se.

Ele percebe que uma das maiores qualificações é saber quando sair do caminho, saber quando deixar o poder divino fazer seu trabalho sem estragá-lo e obstruí-lo, colocando-se em seu caminho. Parece tão simples e, no entanto, o fato de haver centenas de trabalhadores que não conseguem fazê-lo mostra que é realmente uma grande dificuldade.

343. O homem mundano tende a considerar o ocultista como uma pessoa sem força de vontade particular, como alguém sempre pronto a ceder.

Assim o é, quanto aos pequenos detalhes da vida.

Ele deixa que outros façam sua vontade nas coisas que não importam, e até aceita ser dirigido até certo ponto; mas quando se trata de uma questão de princípio, ele mantém uma posição firme.

Ele não se importa com o que as pessoas dizem.

Pessoas que falam e especulam sobre os outros estão erradas em nove de cada dez casos, então o que importa o que por acaso pensam sobre nós? Como diz Tennyson: "Deixem-nos delirarem." Naturalmente, não quero dizer que devamos ignorar completamente todas as convenções mundanas.

Nos primeiros tempos, alguns de nossos membros sentiram que era certo parecer diferentes das outras pessoas quanto ao uso de traje de gala, e assim por diante. Não precisamos ultrajar os costumes da sociedade dessa maneira.

Além disso, parece-me que, se desejamos recomendar nossas crenças, devemos evitar ofender o mundo desnecessariamente.

Não é boa política opormo-nos violentamente às ideias das outras pessoas.

Quando surge um ponto em que nenhum princípio está envolvido, devemos ceder, simplesmente porque não há sentido em ir contra os usos do mundo.

344. Em todas as questões de princípio, devemos manter uma posição firme.

Por exemplo, o vegetarianismo estrito é, para nós, um princípio, porque acreditamos que seja o melhor em todos os sentidos, não apenas para nós mesmos, mas para todo o mundo ao nosso redor. É um pouco inconveniente quando saímos para jantar ou quando estamos viajando, mas deixamos passar tais inconveniências triviais e mantemos nosso próprio ponto de vista.

Mas em uma vasta quantidade de outras coisas, que realmente não importam, é mais econômico ceder aos costumes ordinários do tempo.

Quanto ao nosso vestuário — para tomar outro exemplo.

O traje do homem moderno é peculiarmente feio, desconfortável e insalubre, mas é mais econômico adotá-lo. Se nos opuséssemos a ele, por mais racional, estético e belo que nosso traje pudesse ser, atrairíamos atenção indesejada e provavelmente seríamos considerados mais ou menos insanos.

Não vale a pena.

É melhor não nos tornarmos indevidamente visíveis opondo-nos a coisas que não têm importância.

Mas quando um princípio está envolvido, devemos manter-nos firmes no que consideramos correto.

1 Ante., Vol.

I, Parte II, Cap. 3: Certo e Errado.

345. Se pudéssemos alcançar uma atitude absolutamente impessoal em relação a todo trabalho, isso nos ajudaria muito.

Ruskin fala disso a respeito da arte; ele diz que, embora o autoelogio e a vaidade sejam vulgares além das palavras, a autodepreciação indevida é apenas outra forma de vulgaridade.

Deveríamos almejar o estado de mente no qual somos capazes de ver o trabalho de fora e dizer: "Seja meu ou seu, ou de quem quer que seja, isto também está bem." Devemos ser capazes de elogiar um bom trabalho quando o vemos, não porque é nosso ou de nossos amigos, ou porque traz um grande nome, mas simplesmente porque é bom, deixando de lado absolutamente a questão de quem o fez. Receio que nem sempre façamos isso.

Nossa razão para citar algo nem sempre é porque é belo e admirável, mas porque Madame Blavatsky o disse ou a Dra. Besant o escreveu.

346. Há, no entanto, um aspecto disso que é bastante correto e verdadeiro.

Quando as pessoas se deparam com uma afirmação sobre algo que não conhecem e não podem verificar por si mesmas, é uma questão de importância para elas saber quem a disse. Elas podem dizer: "A Dra. Besant faz esta afirmação; tenho fortes razões para crer que ela conhece profundamente este assunto; consequentemente, aceito sua afirmação." Afinal, isso não é mais do que fazemos em relação à ciência.

Há muitos fatos na ciência que não temos meios de comprovar por nós mesmos, mas porque certos homens eminentes investigaram esses assuntos e chegaram a certas conclusões, nós os aceitamos.

Mas quando consideramos uma bela afirmação ética, não importa se ela vem da Bíblia ou do Bhagavad-Gita, do Alcorão ou dos Vedas; devemos aceitá-la pelo seu valor.

É então uma questão da felicidade da expressão e da beleza da ideia.

347. Assim como aceitamos as coisas, ou tentamos fazê-lo, pelo que valem, devemos também tentar valorizar nosso próprio trabalho pelo que ele vale, e não pensar que, por termos feito, ele necessariamente deve estar bem feito.

A maioria dos homens que podem fazer algo muito bem também conhece as imperfeições do seu trabalho.

Quando uma coisa é boa, devemos admitir com prazer que assim é; quando vemos falhas em nosso próprio trabalho ou no de outrem, não devemos hesitar em dizer: "Não concordo; penso que tal coisa poderia ser melhor feita." É bom adquirir a atitude mental que não se importa de onde vem uma coisa, se ela é boa, e também não hesita em afastar o mal, mesmo quando ele vem de nós mesmos.

348. Isso é difícil, verdadeiramente, porque quando isso é perfeitamente realizado, significa que o homem está olhando de cima, do ego, para este mundo inferior.

Mesmo o uso da mente inferior dará muito desse poder, embora o obtenhamos perfeitamente apenas no corpo causal.

A mente inferior pode exercer o discernimento, e se a usarmos do ponto de vista superior e não permitirmos que seja obscurecida pelo sentimento pessoal, ela é uma coisa muito bela e admirável quando plenamente desenvolvida.

Somos bastante orgulhosos de nosso desenvolvimento intelectual nesta quinta sub-raça da quinta raça raiz, que enfatiza esse trabalho discriminativo da mente inferior, mas o que chamamos de intelecto é apenas uma coisa muito pequena em comparação com o que há de se desenvolver no decorrer da próxima ronda, que será aquela verdadeiramente dedicada ao intelecto.

Somos orgulhosos das realizações da mente inferior, e não sem certa dose de razão; ela tem feito um trabalho maravilhoso na ciência e na invenção.

Mas somente aqueles que são capazes de olhar para o futuro e que também viram os Mestres, que são homens do futuro, percebem o que seremos talvez no decorrer de alguns milhares de anos.

Posso testemunhar que nossa mais elevada atividade intelectual atual não passa de brincadeira de criança em comparação com o que será no futuro, de modo que é claro que há uma esplêndida perspectiva se abrindo diante de nós.

349. O que a pessoa comum chama de sua mente é exclusivamente a parte mais baixa dela. Em sua mente há quatro subdivisões, consistindo respectivamente em matéria do sétimo, sexto, quinto e quarto subplanos do plano mental, mas praticamente ele está usando apenas a matéria do subplano mais baixo, ou sétimo.

Isso está muito próximo do plano astral; portanto, todos os seus pensamentos são coloridos por reflexos do mundo astral, e assim são muito misturados com emoção, sentimentos e desejos.

Muito poucas pessoas conseguem lidar com o sexto subplano até agora.

Nossos grandes homens de ciência certamente o usam bastante, mas infelizmente muitas vezes misturam com ele a matéria do subplano mais baixo, e então se tornam ciumentos das descobertas e invenções de outras pessoas.

Se eles conseguem ascender ao quinto subplano, já estão muito mais livres da possibilidade de enredamento astral.

Se conseguem elevar-se ao quarto subplano, que é a parte mais elevada do corpo mental, estão então bem no centro do plano mental, e ao lado deles está o corpo causal.

Estão então muito distantes da possibilidade de terem seus pensamentos afetados por vibrações astrais.

350. Podemos compreender como essas coisas funcionam.

Uma vibração é recebida mais facilmente por aquilo que está em sintonia com ela. Se um homem sente muita raiva, ele é capaz de agitar a emoção da raiva nos corpos astrais das outras pessoas ao seu redor.

Isso também perturbará o pensamento inferior delas; mas não afetará o pensamento superior, se elas o tiverem — a maioria das pessoas ainda não o tem.

Uma das coisas que nós, como estudantes, tentamos fazer em nosso pensamento e meditação é despertar as partes superiores do corpo mental e colocá-las em funcionamento.

Aqueles que meditam regularmente sobre os Mestres e sobre as coisas a Eles relacionadas devem estar usando, em certa medida, a parte superior do corpo mental, e quanto mais ela é usada, mais nosso pensamento ficará imune a desejos, paixões e emoções.

Mas como a maioria das pessoas não chega tão longe, a grande massa de pensamento no mundo é muito colorida pelo desejo, e a maioria das formas-pensamento que vemos está carregada tanto de matéria astral quanto de matéria mental.

351. Todos nós vivemos muito próximos uns dos outros, com a consequência de que, mesmo quando outras pessoas não estão pensando em nós, elas nos afetam. Naturalmente, nós também as afetamos, e devemos sempre nos esforçar deliberadamente para afetá-las para o bem.

Se nos propusermos a ser um centro de paz e amor absolutos, ajudaremos enormemente todos aqueles ao nosso redor; mas enquanto formos centros de desejo, emoção e sentimento egoísta, tornamos o desenvolvimento impossível não apenas para nós mesmos, mas também para todos os que estão próximos de nós, e isso é uma questão muito séria.

Todo aspirante deveria levar a sério o fato de que está impedindo o progresso dos outros se cede a esse desejo pessoal.

352. O poder da autoanulação é impossível de alcançar até que tenhamos erradicado completamente todo desejo pessoal.

Falamos de nossa devoção ao nosso trabalho e aos Mestres; certamente isso não é demais para fazer por amor a Eles.

Mesmo que um esforço muito grande seja necessário, devemos estar dispostos a fazê-lo em prol desses Grandes Seres que tanto fizeram por nós, por meio de quem todo o ensinamento teosófico nos chegou. Não se trata de lhes proporcionar gratificação ao fazer essas coisas — embora certamente Eles não possam deixar de se comprazer ao ver o progresso daqueles a quem tentam ajudar — mas também é senso comum.

Se queremos ajudar na evolução, a primeira e mais necessária coisa a fazer é tomar-nos a nós mesmos em mãos.

Devemos obter aquele controle sobre o eu inferior que nos faz parecer nada aos olhos dos homens.

Que assim seja; muitas das grandes forças atuam invisivelmente.

Podemos estar entre essas forças e, como tais, podemos nos dar ao luxo de parecer insignificantes aos olhos do mundo.

353. 14. Deseja a paz fervorosamente.

A paz que deves desejar é aquela paz sagrada que nada pode perturbar, e na qual a alma cresce como a flor sagrada sobre as lagoas tranquilas.

354. C.W.L. — Este breve aforismo está intimamente ligado ao anterior.

O poder que nos é dito para desejar conduz à paz; a menos que tenhamos poder sobre o eu, não podemos ter paz.

355. Somente quando tivermos alcançado a paz poderemos dá-la aos outros; poder fazer isso é certamente um dos maiores e mais belos poderes.

A vida da maioria das pessoas é cheia de preocupação e ansiedade, de ciúme e inveja.

O tempo todo elas são apenas um turbilhão não só de emoções, mas também de desejos insatisfeitos.

Muitos daqueles que se dedicam ao estudo do ocultismo, isto é, ao estudo da realidade que está por trás, ainda esperam poder continuar vivendo esse tipo de vida.

Mesmo alguns daqueles que supostamente são estudantes de ocultismo há anos e tentam se aproximar dos Mestres, aparentemente ainda não conseguem renunciar aos seus desejos.

Eles não fazem nenhuma tentativa séria de se livrar de todas as suas emoções tolas e perturbadoras, e então se perguntam por que não progridem e por que outros parecem passar à frente deles.

Como podem esperar avançar até terem deixado todas essas coisas para trás? Até estarmos completamente livres de tais perturbações, é absolutamente impossível fazer qualquer progresso superior real.

Se queremos estabelecer comunicação com o Mestre, devemos ter perfeita paz interior.

356. Diz-se que a luta é uma necessidade para o progresso.

É certamente verdade que há um longo estágio na evolução da alma em que ela se encontra em um estado constante de luta e conflito.

Ao olharmos para o passado, podemos ver que o progresso era então mais rápido numa vida de tormenta e tensão do que quando as condições eram mais fáceis.

Nesse desbaste grosseiro do caráter, todos os problemas e dificuldades que os homens encontram e a oposição que surge em seu caminho, sem dúvida, ensinam-lhes algo; eles aprendem suas lições com isso.

Mas no estágio mais elevado a que o discípulo chegou, esse estado de luta já não tem valor.

Pois o crescimento de ordem superior exige paz perfeita.

Um Mestre escreveu certa vez: "A lei da sobrevivência do mais apto é a lei da evolução do bruto; mas a lei do sacrifício é a lei da evolução do homem." Muitas pessoas pensam que obterão paz quando seus desejos insanos forem satisfeitos, mas descobrem por experiência que não é assim. Então começam a pensar como é triste terem cedido a eles, e percebem que deveriam ter se elevado acima deles.

Não há paz a ser obtida pela satisfação do desejo.

A paz só pode ser alcançada de uma única maneira: colocando de lado os desejos inferiores e desenvolvendo o poder que nos torna "como nada aos olhos dos homens".

357. Diz-se aqui que a flor sagrada cresce nas lagoas tranquilas.

É somente em águas paradas que o lótus pode se desabrochar em sua plenitude; ele não pode fazê-lo se for açoitado pelo vento e pela tormenta.

É somente em paz que a alma pode se desabrochar.

As tempestades de paixão e desejo são exatamente como as tempestades que derrubam as flores no plano físico.

Todos os desenvolvimentos de ordem superior são como flores muito delicadas, e se forem submetidos a violentas tempestades de paixão, são esmagados e desaparecem.

Pessoas que estão sempre em fúrias reais, que constantemente ruminam todo tipo de tolices pessoais, que estão sempre pensando em seus próprios sentimentos e são preenchidas de ciúme e inveja dos outros, não podem desenvolver todas as finas e delicadas frondes e gavinhas que significam progresso.

358. As pessoas em geral têm muito pouca ideia científica do que o progresso oculto, a evolução real, significa.

Somente seus métodos de educação já mostram que não o compreendem. Há uma certa quantidade da evolução pela qual passamos — até aproximadamente o nível do selvagem e um pouco além disso — que podemos considerar como razoavelmente definitivamente estabelecida; isto é, não poderíamos facilmente regredir abaixo desse ponto sob quaisquer circunstâncias.

Mas o crescimento que vai além disso — além da parte quase animal, ou, de qualquer forma, da parte inferior e emocional do homem — é uma questão de desenvolvimento extremamente delicado de muitos tipos.

As coisas que diferenciam a pessoa altamente culta e artística da pessoa bastante grosseira e não desenvolvida são todas de natureza muito sutil — questões de crescimento longo, lento e cuidadoso; são brotos tenros de grande promessa, que mal desabrocharam e certamente ainda não alcançaram o que serão no futuro.

O primeiro sopro de condições desfavoráveis destrói esse crescimento mais refinado.

A turbulência da educação moderna, na qual as crianças são amedrontadas e às vezes até maltratadas, tem o efeito de esmagar todo o delicado florescimento de cultura e refinamento que as almas que entraram nesses corpos infantis podem ter vindo adquirindo há muito tempo — talvez por vinte ou trinta vidas.

Em consequência, as crianças tornam-se muito semelhantes a selvagens primitivos.

Frequentemente estão cheias de medo e ódio e de um grande senso de injustiça duradoura, e todo o desenvolvimento mais refinado que realmente marca a diferença entre uma sub-raça posterior e uma anterior é varrido.

359. As pessoas não percebem minimamente o que estão fazendo quando destroem essas coisas, como fazem com tanta frequência. Constantemente vejo meninos e meninas que pertencem talvez a pais comuns, mas que são eles próprios bastante promissores; se fossem tomados em mãos e conduzidos do modo correto, fariam progresso distinto nesta vida.

Mas seu ambiente é totalmente inadequado para tal desenvolvimento, e todo o crescimento mais refinado é podado e rechaçado, e eles atravessam a vida como pessoas bastante comuns.

Vi casos em que a mesma coisa aconteceu repetidas vezes em talvez quinze ou vinte vidas; o progresso que poderia ter sido feito no primeiro caso não foi feito até a vigésima.

Provavelmente o karma acumulado de viver um pouco melhor de maneira tranquila em cada uma dessas vidas tornou necessário, por fim, que o ego recebesse melhores circunstâncias, e então ele teve sua oportunidade.

Mas, até onde podemos ver, esse mesmo desenvolvimento poderia ter sido realizado igualmente bem vinte vidas antes, se apenas o ambiente tivesse sido um pouco melhor.

360. É uma coisa triste para as pessoas que reprimem esses toques delicados.

Suponho que não há crime maior do que a repressão daqueles que estão tentando progredir.

Isso é uma das coisas que o Cristo quis dizer quando falou do pecado contra o Espírito Santo que não seria perdoado nem neste mundo nem no vindouro.

Essa palavra "perdoado" é, no entanto, uma tradução incorreta – "abandonar", "pôr de lado" dá uma ideia melhor do significado.

O que se quer dizer é perfeitamente claro.

O pecado contra o Espírito Santo é a repressão do espírito divino no homem; produz um resultado cármico que não poderia ser corrigido nesta dispensação – nem neste período mundial, nem talvez no próximo, tão grave é.

361. Muitas pessoas cometem esse crime contra si mesmas, bem como contra seus filhos.

Elas não dão à parte superior de si mesmas a oportunidade de crescer.

As crianças muitas vezes conseguem ver espíritos da natureza e outras coisas belas que as pessoas mais velhas não conseguem ver.

Não há razão para que as pessoas mais velhas também não as vejam, se a sua sensibilidade não tivesse sido destruída pelo tipo de vida no qual tantas vezes foram lançadas.

Às vezes, mais tarde na vida, com grande dificuldade, elas começam a recuperar o poder, não apenas da clarividência, mas também o poder de apreciar tudo o que é artístico e belo, todos os matizes sutis de sentimento e percepção que significam cultura e educação real.

362. As coisas que afetam o progresso superior são todas extremamente delicadas – tão cuidadosamente, tão exatamente equilibradas, que o menor toque na direção errada as fará retroceder por semanas e meses.

É possível fazer retroceder o crescimento de meses em um único dia.

Portanto, muito depende do ambiente.

Não se pode sempre contar com a obtenção novamente do mesmo ambiente, então o ocultista sempre se esforça para fazer o máximo uso de quaisquer condições que tenha a qualquer momento, enquanto também está vigilante para que nenhuma delas o arraste para baixo.

Um dos Puranas diz:

363. Sem um corpo, ninguém alcança o objetivo da alma; portanto, deve-se cuidar do corpo como um tesouro e realizar boas ações.

Uma aldeia, ou um campo, ou posses, ou uma casa, ou pedaços bons e maus de carma podem ser obtidos novamente – mas este corpo, nunca mais.

¹ Garuda Purana Saroddhara, xvi, 17, 18.

364. As pessoas às vezes dizem: "Não posso fazer muito nesta vida; tentarei o que puder na próxima." É sempre bom manter diante de nós a ideia da próxima vida e do que podemos fazer nela, mas não é seguro depender demasiadamente disso, porque o carma por trás de cada pessoa certamente é mais ou menos misto e às vezes se manifesta em ondas.

Podemos ter carma em determinado momento que nos proporcionará boas circunstâncias.

Não se segue que na próxima vida teremos condições igualmente boas.

No geral, as probabilidades são de que nosso carma fluirá no mesmo sulco, mas, por outro lado, pode haver um bloco de carma desagradável que as autoridades cármicas não consideram que o homem seja forte o bastante para suportar desta vez, e na próxima vida elas poderiam soltá-lo sobre ele, de modo que ele poderia não ter oportunidades tão boas.

365. É extremamente sábio aproveitar todas as oportunidades disponíveis nesta vida.

Se fizermos isso, e assim mostrarmos aos Senhores do Carma que estamos tirando proveito delas, isso influenciará seriamente a incidência do carma sobre nós na próxima vida.

Constituirá uma espécie de reivindicação por boas circunstâncias.

Não é sábio, porque temos muitas oportunidades nesta vida, supor que as teremos novamente em nossa próxima vida.

Podemos tê-las ou não.

Não gosto de ouvir as pessoas dizerem: "Sou velho demais para fazer qualquer coisa nesta vida." Se fizermos bom uso do que temos e avançarmos o máximo possível, criamos uma condição de coisas em que seria difícil para as divindades cármicas não nos darem oportunidades novamente; podemos fazer tal carma ao longo de uma linha particular que podemos tomar o reino dos céus à força — podemos forçar os Senhores do Carma a arranjar nosso carma de modo que a oportunidade deva vir, porque as causas que colocamos em movimento não podem se esgotar exceto ao longo de uma linha semelhante.

Certamente é bom fazer uso pleno de toda boa oportunidade que nos chega, para que por acaso, ao negligenciá-la, não façamos uma diferença de alguns milhares de anos em nossa evolução.

366. Alguns milhares de anos não são nada na longa vida da alma, mas não queremos ser atrasados dessa maneira.

Nas Vidas de Alcyone encontramos, por exemplo, o caso de um jovem que teve oportunidades notavelmente boas em conexão com um dos grandes Mestres em um templo no Egito.

367. Ele tola e desperdiçadamente perdeu seu tempo, jogou fora suas oportunidades e as perdeu.

O Mestre disse então que estaria sempre pronto a recebê-lo novamente quando ele voltasse.

É somente nesta vida, seis mil anos depois, que ele voltou.

Aquela negligência lhe custou uma boa quantidade de tempo.

Pense no que poderia ter sido feito nesses seis mil anos, se ele tivesse aceitado a oferta.

Naquela época, o Mestre que a fez ainda não havia alcançado o Adeptado.

Certamente, se o discípulo tivesse aceitado, ele poderia agora estar muito avançado no caminho para o próprio Adeptado.

Não pode ser indiferente se um homem dá um passo como esse seis mil anos antes ou depois.

O homem que o deu muito antes teria todo o trabalho dos anos intermediários nos mais elevados níveis em seu crédito — parece impossível que seja a mesma coisa.

368. Não sei até que ponto, nos conselhos do Eterno, o que chamamos de tempo importa.

Há um ponto de vista ao qual se pode ascender em que passado, presente e futuro parecem todos um único agora eterno, mas mesmo nesse agora eterno há algumas coisas que estão mais abertas e outras menos abertas, e portanto a aceitação ou a negligência de uma oportunidade deve fazer diferença, embora possa haver alguma maneira pela qual um erro desse tipo possa ser ajustado no futuro, na qual, de algum modo, o pesar do homem por não ter conseguido possa ser uma força que o capacite a trabalhar duplamente bem para tentar alcançar o passado.

Só se pode conjecturar a respeito, apenas tentar imaginar como tal coisa funcionaria; mas há razão bem distinta para supor que haverá uma posição em que o passado possa ser retificado.

369. Isso se vislumbra, nos níveis superiores, de uma maneira mais ou menos assim.

Dizemos que o passado foi assim-assim e que não podemos alterá-lo. Assim era quando estávamos nele. Como sabemos o que ele é agora que dele nos afastamos? Esse passado ainda existe; é o presente para outra pessoa em algum lugar.

Essa ideia é difícil de compreender.

No plano físico, sabemos que vemos um objeto; conhecemos pela luz que dele provém. A luz que nos mostrou algo ontem está agora a muitos milhões de quilômetros de distância, e está agora mostrando essa mesma coisa bem longe; nosso ontem pode ser o presente para outra pessoa, no que diz respeito à mensagem dessa luz.

Se essa analogia se sustenta, não sei, mas algo assim parece ser verdadeiro.

O passado está, de algum modo, progredindo.

370. Olhando de cima, do plano superior, para a vida aqui embaixo, é algo como estar de pé sobre uma montanha e observar um trem de ferro movendo-se no vale abaixo.

O trem já passou por certos pontos, no que diz respeito às pessoas que estão nele.

Os pontos foram ultrapassados, mas ainda estão lá.

As árvores e os animais que viram naqueles pontos ainda estão vivos.

O passado ainda está ativo, mas, porque não estão mais nele, a maioria das pessoas imagina que sua participação nele já terminou.

Não tenho certeza disso.

Não acho que seja muito proveitoso tentar compreender esse ponto, porque não se pode fazer nenhum sentido coerente dele aqui embaixo.

Mas acredito que o passado não é irrevogável, e que quando nós, por nossa vez, alcançarmos o estágio em que podemos olhar para tudo isso de cima, ele parecerá muito melhor do que nossa memória atual indicaria, porque, de algum modo, todo esse passado também está avançando como parte da realidade divina das coisas, e também se tornará glorificado e desabrochará no que deveria ter sido — não posso pretender dizer como.

Ainda assim, a ideia é estimulante — a possibilidade de que as coisas que deixamos de fazer, os erros que cometemos, possam não ser assim no final, embora o sejam para nós agora.

É uma ideia difícil de compreender aqui embaixo, mas estou certo de que há alguma verdade por trás dela.

371.   15. Deseje posses acima de tudo.

372.   Mas essas posses devem pertencer somente à alma pura e, portanto, ser possuídas igualmente por todas as almas puras, e assim ser a propriedade especial do todo apenas quando unidas.

Anseie por tais posses que possam ser mantidas pela alma pura, para que acumule riqueza para aquele espírito unido de vida que é o seu único Eu verdadeiro.

373.   C.W.L. — As posses que devemos desejar são qualidades que serão úteis a toda a humanidade.

Cada vitória que conquistamos deve ser conquistada para a humanidade, não para nós mesmos.

O desejo de possuir deve ser um desejo de possuir com todos os outros — um desejo de que todos compartilhem a mesma herança.

Essa é a velha história da impessoalidade sob outra forma.

Vemos isso lindamente ilustrado nas vidas dos Mestres.

Lembro-me de que, há muito tempo, senti considerável admiração sobre como poderia ser que os Mestres aparecem sem karma.

Eles são até mencionados em alguns dos livros sagrados do Oriente como tendo se elevado acima do karma.

Não pude compreender isso, porque o karma é uma lei tanto quanto a gravitação o é. Poderíamos elevar-nos até o próprio sol, mas não ultrapassaríamos a gravitação; pelo contrário, sentiríamo-la com muito mais intensidade.

Parecia-me igualmente impossível escapar à lei de causa e efeito, uma vez que, sob sua operação, cada pessoa recebe conforme aquilo que faz.

Se os grandes Mestres estão o tempo todo fazendo o bem numa escala que não podemos de modo algum esperar igualar, e ainda assim não criam karma, o que então acontece com o resultado estupendo de todas as Suas emissões de energia?

374.   Pouco depois, ao estudar o problema, começamos a ver como isso funcionava.

Se eu descrever como o karma se parece clarividentemente, talvez isso ajude a tornar o assunto mais inteligível.

A aparência do funcionamento da lei do karma nos planos superiores é algo como o seguinte.

Todo homem é o centro de uma série incrivelmente vasta de esferas concêntricas — algumas bem próximas, outras alcançando uma distância prodigiosa no empíreo distante.

Todo pensamento, palavra ou ação, seja bom ou mau, egoísta ou altruísta, envia uma corrente de força que se precipita em direção às superfícies dessas esferas.

Essa força atinge a superfície interior de uma ou outra das esferas em ângulo reto com ela, e é refletida de volta ao ponto de onde veio.

De qual esfera é refletida parece depender do caráter da força, e isso também regula o tempo de seu retorno.

A força gerada por algumas ações atinge uma esfera comparativamente próxima e volta voando muito rapidamente, enquanto outras forças se precipitam quase até o infinito e retornam somente após muitas vidas — por que razão, não podemos dizer.

Tudo o que sabemos é que, em qualquer caso, elas inevitavelmente retornam, e não podem retornar a nenhum outro lugar senão ao centro do qual emanaram.

375.   Todas essas forças lançadas para fora do homem devem recair sobre ele enquanto ele as projeta de si dessa maneira.

No entanto, todo homem tem uma conexão interior com a Divindade que não passa por nenhuma dessas esferas concêntricas, mas sim pelo próprio centro.

Ao voltar-se para dentro, ele pode alcançar o próprio Logos, e enquanto envia toda a força de seu pensamento e desejo nessa direção, ela não é refletida de volta para ele de forma alguma, mas vai reforçar a grande emanação do poder divino que a Divindade está sempre enviando através de Seu universo, pelo qual Ela o mantém vivo.

Sua força brota no centro; ela não vem de fora.

Se observarmos clarividentemente um número de átomos físicos, veremos alguns atraindo força e outros derramando-a.

Eles devem receber essa força de algum lugar.

Ela não entra por um lado e sai pelo outro; ela brota no centro, aparentemente do nada, mas na realidade vem de alguma dimensão superior que não podemos ver.

Assim, a comunicação com Deus reside no próprio coração das coisas, e o homem que mantém os olhos sempre voltados para a Divindade, e pensa somente n'Ele no trabalho que realiza, derrama toda a sua força ao longo dessa linha.

Ela desaparece no que lhe diz respeito, mas, como disse antes, vai reforçar a força divina que está sempre sendo derramada em toda parte.

Não há resultado pessoal para o homem nos planos inferiores, mas com cada um desses esforços ele se aproxima mais da verdade divina dentro de si — torna-se uma expressão melhor e mais plena dela, e assim não seria verdadeiro dizer que ele não obtém resultado algum.

Em um universo de lei, nada poderia existir sem resultado, mas não há resultado externo que o traga de volta à terra.

376. Isso, creio eu, é o que se quer dizer quando se afirma que os Grandes Seres escapam à lei do karma.

Eles gastam toda a Sua poderosa força espiritual em fazer o bem em nome da humanidade e como unidades da humanidade, e assim escapam à prisão da lei.

Qualquer resultado que exista vai para a humanidade, não para Eles.

O karma de todas as ações gloriosas do Mestre não é retido para que Ele receba o resultado; ele vai para a humanidade como um todo.

377. É nesse espírito de impessoalidade que nós também devemos realizar a ação.

Se fizermos qualquer coisa, mesmo uma boa ação, pensando: "Eu estou fazendo isto; quero o crédito disto", ou mesmo se não pensarmos em receber o crédito, mas apenas pensarmos: "estou fazendo isto", como os fariseus de outrora, teremos a nossa recompensa.

O resultado voltará para o eu pessoal, e nos prenderá de volta à terra tão certamente como se fosse um resultado maligno.

Mas se tivermos esquecido completamente o eu pessoal e estivermos agindo meramente como parte da humanidade, é para a humanidade, da qual cada um é parte, que o resultado da ação virá.

Quanto mais verdadeiramente pudermos agir sem pensamento de si, mais perto estaremos de nos aproximar do coração divino das coisas.

É assim que o próprio Logos contempla tudo.

Não poderia haver pensamento de si para Ele; Ele age sempre para o bem do todo e como representante do todo.

Se agirmos pensando somente Nele, então o resultado fluirá em Sua força divina e não virá até nós como algo que nos aprisione, mas sim como algo que nos tornará uma expressão cada vez maior Dele, e nos elevará cada vez mais para a paz de Deus que excede todo entendimento.

CAPÍTULO REGRAS 17 A

378. 17. Busca o caminho.

379. C.W.L. — Os três breves aforismos aos quais chegamos agora estão intimamente entrelaçados, e tanto no comentário do Chohan quanto nas notas do Mestre Hilarião eles são praticamente tratados em conjunto.

Por essa razão, dificilmente é possível organizá-los em grupos separados como foi feito até aqui, e assim os tomarei na ordem em que aparecem no livro.

É evidente que chegamos a uma parte muito importante do ensinamento, pois há um comentário mais longo de cada um desses Grandes Seres do que sobre qualquer uma das sentenças anteriores.

380. A nota do Mestre Hilarião à décima sétima regra começa da seguinte forma:

381. Estas quatro palavras parecem, talvez, demasiado leves para se sustentarem sozinhas.

O discípulo pode dizer: "Devo eu estudar estes pensamentos se não busquei o caminho?" Contudo, não prossigas apressadamente.

Pausa e considera por um momento.

É o caminho que desejas, ou é que há uma perspectiva obscura em tuas visões de grandes alturas a serem escaladas por ti mesmo, de um grande futuro que deves alcançar? Sê advertido.

O caminho deve ser buscado por si mesmo, não com respeito aos teus pés que o trilharão.

382. O espírito com o qual devemos nos aproximar da Senda é belamente expresso nestas palavras.

Ao longo de todo o caminho, a personalidade deve ser posta de lado, e deve-se trabalhar do ponto de vista do Eu Superior.

Fazer isso é buscar o caminho.

Já vimos que, mesmo quando o homem deixou para trás a ambição comum, ele a encontra repetidamente em formas mais sutis.

Sua ambição agora é alcançar um nível mais elevado; ele decidiu não desejar mais nada para o eu pessoal, colocar todo o poder que possui inteiramente a serviço da Grande Loja Branca.

Ele pensa apenas em ser um bom instrumento, em colocar-se em tal posição em relação ao Mestre que Suas forças possam fluir através dele com o mínimo de obstáculo possível.

383. Todas as forças que descem de planos superiores encontram naturalmente grande constrição quando vêm atuar em um plano inferior.

A força que passa através de qualquer discípulo nunca pode ser mais do que uma parte muito pequena da influência que algum Grande Mestre possa enviar através dele.

Isso assim deve ser pela própria natureza do caso, mas aquele que se torna, com todas as imperfeições que naturalmente se apegam a nós no plano físico, um instrumento tão perfeito quanto possível para a força do Mestre, pode realizar um trabalho muito útil.

O objetivo do discípulo é deixar que o máximo possível dessa força flua através dele, e descolorí-la o menos que puder.

384. A força é derramada através dele para que ele possa disseminá-la, mas não se espera que ele seja uma mera máquina na sua distribuição.

Ele realmente empresta a ela algo de si mesmo, algo de sua própria coloração; isso é intencionado e esperado, mas deve estar em perfeita harmonia com a atitude e o sentimento do Mestre.

Isso é possível porque o pupilo torna-se um com o Mestre de uma maneira muito maravilhosa, como expliquei em *Os Mestres e o Caminho*.¹ (¹ Op. cit., Cap. V.) Não é apenas que tudo o que está na consciência do pupilo também está na consciência do Mestre, mas que tudo o que acontece na presença do pupilo também está na consciência do Mestre — não necessariamente quando está acontecendo, a menos que Ele assim o escolha, mas certamente dentro de Sua memória.

Se o Mestre por acaso estiver ocupado em algum de Seus trabalhos superiores no momento, não se segue necessariamente que Ele esteja atento a uma conversa que o pupilo esteja mantendo na ocasião; mas temos evidências surpreendentes de que às vezes Ele pode estar, porque ocasionalmente Ele interpõe um pensamento ou uma observação, e corrige algo que está sendo dito.

385. Como expliquei em outro lugar, qualquer sentimento que o pupilo se permita ter repercutirá no Mestre; se fosse um sentimento como aborrecimento ou raiva, o Mestre o excluiria num instante; naturalmente o pupilo não quer dar-Lhe o trabalho de fazer isso, embora, talvez, se se possa dizê-lo com toda reverência, não seja um trabalho muito grande.

Possivelmente o Mestre faz isso muito rapidamente, num único pensamento, mas ainda assim não se deseja causar nem mesmo essa interrupção insignificante de Seu trabalho.

386. Naturalmente também o pupilo quer evitar o bloqueio de si mesmo que necessariamente acontece ao mesmo tempo: portanto, ele tenta, tanto quanto possa, impedir que qualquer pensamento ou sentimento indesejável entre em sua consciência.

387. Ele se afastaria de uma multidão ruidosa ou de qualquer lugar com magnetismo extremamente ruim, a menos que tivesse de ir até lá para realizar o trabalho do Mestre.

Nesse caso, ele colocaria uma casca ao seu redor e zelaria para que nenhuma desagradabilidade alcançasse o Mestre.

Ainda assim, coisas puramente físicas na consciência do discípulo também estão na consciência do Mestre.

Se, por exemplo, o discípulo é sobressaltado por um som repentino, isso lhe causa um pequeno choque.

Esse pequeno choque é comunicado ao Mestre.

Ele não se importa com isso; Ele o põe de lado, mas o fato permanece de que é comunicado, e isso mostra quão estreito é o vínculo.

Um discípulo sábio tenta evitar qualquer tipo de choque; ele é geralmente uma pessoa bastante gentil e tranquila, por essa razão.

387. É uma das marcas distintivas do discípulo que ele nunca esquece seu Mestre, ou a presença de seu Mestre.

Assim, ele não permite dentro de si, se puder evitar, exceto por inadvertência, qualquer pensamento ou sentimento que não queira registrado no pensamento ou sentimento do Mestre, e ele até tenta evitar, tanto quanto possível, perturbações exteriores que também pudessem ser de um tipo que o fizessem ser temporariamente isolado.

388. O deleite do discípulo nessa união íntima com o Mestre é intenso.

A alegria de estar em contato com uma inteligência tão gloriosa, com emoções tão esplêndidas, ou antes poderes — porque coisas como devoção, amor e simpatia, em um Mestre, não podem ser chamadas de emoções; são grandes poderes — é maravilhosa, bela além das palavras.

Quanto mais o discípulo se abre a essas influências superiores, mais elas fluem para dentro dele, e mais ele se torna semelhante ao Mestre a quem serve.

É uma questão de crescimento constante, mas esse crescimento é muito auxiliado pelo fluxo contínuo de força entre o Mestre e o discípulo.

389. Essa união é uma espécie de antecipação em escala inferior da unidade superior que surge quando a consciência búdica está plenamente desenvolvida; mas, aquém desse desenvolvimento, creio que não há nada tão íntimo quanto a relação entre discípulo e Mestre.

Aqueles que desejam estar na posição privilegiada de um discípulo deveriam já viver, tanto quanto puderem, da maneira que sentirão ser-lhes-á obrigatório viver quando se tornarem discípulos.

Quanto mais pudermos trazer essa calma e serenidade gerais de ação, sentimento e pensamento para nossas vidas, mais próximos estaremos de ser aptos para a associação mais íntima quando ela vier.

Sem dúvida, o caminho para merecer tal privilégio é viver como se já o tivéssemos.

Sei que as pessoas muitas vezes pensam que as pequenas coisas externas não importam.

Às vezes dizem: "Oh, talvez tal coisa nos retenha na evolução, mas não pode importar muito, é uma coisa tão pequena." Já ouvi isso ser dito sobre o consumo de carne e o fumo.

Mas não estamos em uma posição em que possamos nos dar ao luxo de negligenciar a menor coisa que seja de ajuda.

A empreitada diante de nós é de magnitude considerável, e não é tarefa fácil.

Sendo assim, não é próprio do homem sábio negligenciar até mesmo o menor auxílio.

E essas coisas não são pequenas na realidade.

O Mestre diz ainda, em Sua nota:

390. Há uma correspondência entre esta regra e a décima sétima da segunda série.

Quando, após eras de luta e muitas vitórias, a batalha final for vencida, o segredo final for exigido, então você estará preparado para um caminho posterior.

391. A décima sétima regra na segunda parte do livro, à qual o Mestre se refere, diz assim: "Indaga do íntimo, do Uno, o seu segredo final, que ele guarda para ti através das eras." Isso significa que, assim como agora devemos buscar o Eu Superior, quando tivermos alcançado esse nível mais elevado, devemos buscar o Uno, a Mônada.

O segredo final é sempre como fazer mais e mais elevado trabalho.

Muitas pessoas parecem pensar que essa é uma perspectiva bastante sombria.

Há um grande número de pessoas cujo grande desejo é o descanso; há tanta tensão e estresse e excesso de trabalho ao nosso redor que elas anseiam pelo descanso completo.

Esse é um ponto de vista que pertence exclusivamente ao corpo físico.

Nos planos superiores, nunca estamos cansados.

(¹ Ver Vol. I, Parte III, Cap. 2: O Único Bom Desejo. Vol. II p. 216, 347.) Conheci pessoas que permaneceram no mundo astral por vários anos esperando por um corpo que o Mestre considerasse adequado.

Em um caso, um homem teve que esperar vinte e cinco anos; em outro, vinte.

Ambos se dedicavam absoluta e ininterruptamente ao trabalho do Mestre durante todo esse tempo.

Certamente, nenhum deles tinha o menor senso de fadiga, nem estava de qualquer forma menos ansioso para trabalhar ao final desse período.

Portanto, se existe tal coisa como fadiga no plano astral, ela deve estar muito além de qualquer tempo com o qual tenhamos que lidar.

392. Quando o segredo final desta grande lição é revelado, nele se abre o mistério do novo caminho — uma senda que conduz para além de toda experiência humana, e que está totalmente além da percepção ou imaginação humanas.

Em cada um desses pontos é necessário pausar longamente e considerar bem.

Em cada um desses pontos é necessário ter certeza de que o caminho é escolhido por si mesmo.

O caminho e a verdade vêm primeiro, depois segue a vida.

393. A.B. — Quando a alma liberta completou os estágios de progresso até o Arhatship, e está passando adiante para a primeira das grandes Iniciações além, ela faz uma escolha entre uma variedade de caminhos que se lhe abrem.

Eles são do número sagrado de sete — ela tem sete vias de escolha diante de si.

(1 Ante., Vol. II, p. 217, 375.) As pessoas frequentemente dizem que nesse ponto só pode haver uma possibilidade — que um homem deve escolher ser um Mestre — sendo a ideia subjacente que, se ele decidir corretamente, escolherá retornar para ajudar o mundo.

Tal decisão se recomenda quando se pensa na própria humanidade, mas devo lembrá-lo de que esta é uma conclusão precipitada.

Uma dica é lançada quanto à natureza da escolha, onde a nota diz: “Em cada um desses pontos é necessário ter certeza de que o caminho é escolhido por si mesmo.” As palavras “por si mesmo” dão a chave.

A escolha deve ser feita apenas pelo bem do caminho.

O fato de haver mais de um caminho deveria impedir-nos de estabelecer a lei quanto à nossa escolha; ainda mais deveria impedir qualquer pessoa de usar as palavras: “Se ele escolher corretamente,” como se alguém pudesse escolher errado quando a alma está liberta.

394. No entanto, uma ideia — muito sutil — percorre-nos, de que podemos ditar a escolha.

Às vezes nos encontramos escolhendo para nosso próprio futuro — para o futuro distante — o que ser e o que fazer; e isso é realmente a consciência inferior escolhendo para a superior.

Essa tendência sutil percorre toda a nossa vida.

Parte de nossa consciência sente a si mesma como o “eu”, e naturalmente se inclina a escolher o caminho do futuro tal como o vê, esquecendo que está assim escolhendo para a consciência superior, em cujas mãos somente a escolha realmente reside.

Decidir em vossas mentes o que será feito ao final do estágio de Arhat seria como uma criança escolhendo sua profissão na vida.

Sua seleção, não sendo guiada pelo conhecimento, certamente não seria uma que seu julgamento maduro aprovasse.

Uma criança pequena não pode ter escolha quanto à sua carreira futura, e o mesmo se dá nessas questões.

O ego superior escolherá, sem considerar o inferior; na verdade, o inferior perecerá antes que a escolha se apresente.

Tudo o que é importante colocar diante do inferior, então, é a ideia de serviço — de ser feito um instrumento para servir.

A menos que faça isso, torna-se um obstáculo para a consciência superior.

Lembre-se de que ele pode lançar obstáculos no caminho dessa consciência; como muitas vezes foi dito, ele crucifica o ego superior.

395. Outra coisa a lembrar é que não podemos julgar qualquer estágio de consciência que não tenhamos experimentado, e do qual não conhecemos o valor relativo.

Ao pensar em uma condição superior de consciência que você não experimentou, não há possibilidade de você ser capaz de formar qualquer juízo sobre ela. Quando você alcança esse estado, o universo se altera para você, provocando uma mudança em sua natureza e fazendo-o saber como tal consciência pode agir.

Você deve experimentar essa mudança antes de poder conhecer.

Assim, ao formar qualquer opinião sobre um caminho futuro, trata-se de julgar um estado de consciência do qual você não tem conhecimento, e seu julgamento é inútil.

396. Visto de um ponto de vista superior, há apenas uma coisa que decide nossa escolha, e essa é a necessidade do mundo no momento.

Onde um lugar está vazio, onde a ajuda é necessária — são essas as coisas que decidem a escolha.

Dentre os diferentes caminhos diante dele, a alma purificada irá para onde a ajuda é necessária.

Autodeterminado, ele segue esse curso onde a ajuda é necessária pela Hierarquia, para a expressão da Vontade do Logos.

Foi-me dito por um Grande Ser que era um erro pensar que a escolha pudesse ser feita aqui embaixo; que a escolha é sempre feita para dar a ajuda que é necessária para a expressão da Vontade do Logos.

397. Um grupo de trabalhadores representa a ajuda no mundo.

Somente quando o reforço é necessário entre Eles, somente quando um canal é desejado, a escolha se voltaria para o trabalho no mundo.

Enfatizei isso porque foi dado como um aviso a mim mesmo, para não deixar meus pensamentos se afastarem da atividade útil para outras linhas de trabalho que ainda não nos foram dadas para fazer. No Bhagavad Gita somos advertidos de que o dharma de outro é cheio de perigo — nosso trabalho está onde nosso dharma está.

398. C.W.L. — O caminho que conduz para fora de toda a experiência humana é o caminho do Adepto, que se abre diante d'Ele com uma escolha de sete vias, como já vimos.

Ouvi muitos membros dizerem: "Oh, naturalmente não há dúvida alguma sobre o que devemos escolher; devemos permanecer para servir à humanidade." É mais sábio não desperdiçar nossas forças em tais decisões, porque, na realidade, não sabemos nada sobre isso. É como um menino pequeno decidindo o que fará quando for homem.

Ele quer ser pirata ou maquinista.

Sabemos tão pouco agora sobre as condições que determinarão nossa escolha quanto a criança pequena sabe sobre aquelas que determinarão seu futuro.

Nenhuma das sete vias pode ser, em si mesma, mais desejável do que outra, embora todas conduzam a trabalhos de naturezas diferentes.

399. Certamente, a ideia que será mais proeminente quando chegar o momento da escolha será: "Onde posso ser mais útil?" O que talvez possamos profetizar com segurança sobre nossa ação é que diremos: "Aqui estou eu, Senhor; envia-me para onde mais se precisar de ajuda." Mas, mesmo assim, pode bem ser que, à medida que nos desenvolvemos, venhamos a adquirir alguma aptidão especial para uma ou outra dessas linhas, e, portanto, será obviamente melhor para todo o sistema que sejamos utilizados na linha onde possamos fazer o maior bem.

400. Sempre que se alcança um nível mais elevado de consciência, nossa visão do mundo se amplia de tal forma que se torna algo inteiramente novo para nós. Quando alcançarmos o Adeptado, teremos um horizonte imensuravelmente mais vasto.

Compreenderemos exatamente o que estamos fazendo, porque seremos capazes de ver o sistema solar como o vê seu Criador, de cima, em vez de baixo: veremos o padrão que está sendo tecido e o que tudo isso significa.

Cada passo adicional, cada extensão de consciência nos aproxima de ver o significado de tudo, de modo que, à medida que avançamos, tornamo-nos cada vez menos propensos a cometer erros e a compreender mal, mas o conhecimento perfeito só pode ser o do Adepto, cuja consciência se tornou una com a do Logos do sistema, ainda que apenas, por enquanto, em uma de Suas manifestações inferiores.

401. Em todo caso, essa escolha está nas mãos do Mônada, portanto certamente não precisamos nos preocupar com isso agora.

Sempre existe a possibilidade de a Mônada já ter decidido tudo isso, mesmo agora, e quando tal escolha é feita, os representantes inferiores ou partes dela simplesmente cairão em seu lugar quando chegar o momento, quaisquer que sejam as ideias que possam ter formado anteriormente.

Tudo o que é importante para nós apresentarmos à personalidade agora, com relação a tal escolha, é a ideia de serviço.

Se conseguirmos fazê-la compreender essa ideia de estar sempre atenta para servir, ela se tornará muito prontamente um canal perfeito para o ego, e isso influenciará a individualidade, por sua vez, a ser um canal ou instrumento perfeito para a Mônada.

O serviço é o mais elevado ideal na vida; não disse o próprio Cristo: "Qualquer que quiser ser entre vós o primeiro, seja vosso servo"? (S. Mateus, 20, 27.)

402. 18. Buscai o caminho retirando-vos para dentro.

403. 19. Buscai o caminho avançando corajosamente para fora.

404. C.W.L. — Buscar o caminho retirando-se para dentro significa, no início, procurar e seguir a orientação do Eu Superior.

Como foi explicado anteriormente, o primeiro estágio no caminho é a unificação da personalidade com o ego.

Mais tarde, o ego torna-se uma expressão perfeita da Mônada, e o homem está então pronto para a Iniciação Asekha.

Além disso, o Adepto se esforça para elevar a consciência de sua Mônada à consciência do Logos.

É sempre a si mesmo, em níveis cada vez mais elevados, que ele busca.

405. Sempre que um homem, em qualquer estágio, tenta derramar devoção para cima, em direção a um nível mais elevado, tal torrente de poder divino desce sobre ele que chega a submergir completamente seu esforço, e o efeito não é tanto que ele tenha alcançado o alto, mas que o poder tenha sido derramado sobre ele.

O mesmo acontece entre o pupilo e o Mestre.

O pupilo envia seu amor em direção ao Mestre, mas é superado pela resposta do amor do Mestre, de modo que, para ele, parece ter recebido uma vasta torrente de amor, embora, em primeiro lugar, tenha sido sua ação que tornou possível o derramamento.

406. Tal, em um nível mais elevado, é o derramamento sobre o Adepto do Espírito Santo, o poder do Terceiro Aspecto do Logos, simbolizado nas "línguas repartidas, como que de fogo" de Pentecostes. (Atos, 2, 3.) Assim, no devido curso, o Adepto torna-se uno com o Terceiro Aspecto do Logos manifestando-se no plano nirvânico.

Seu próximo passo é tornar-se uno com aquele Aspecto que é representado pelo Cristo no seio do Pai.

Mais tarde, embora eu nada saiba sobre isso, estou bastante certo de que ele se aproximará cada vez mais da Deidade do nosso sistema solar.

Aproximar-nos-emos sempre da Luz, mas jamais tocaremos a Chama.

Não que não venhamos a ascender um dia à altura onde Ele Se encontra, mas Ele não permanece imóvel para nos receber. Ele também está evoluindo e, portanto, não tocaremos a Chama, embora nos aproximemos cada vez mais dela. A maravilhosa bem-aventurança dessa experiência não pode ser descrita aqui embaixo, porque é toda de uma natureza que não tem contraparte no mundo inferior.

407. Em todo homem há muito a ser encontrado pela busca interior.

A personalidade, que a maioria das pessoas pensa ser o seu eu, é apenas uma fração muito pequena do homem.

Somos pessoas muito maiores do que nos mostramos ser. O ego só pode manifestar uma pequena parte ou faceta de si mesmo numa encarnação particular e, mesmo que essa parte se manifeste perfeitamente, é apenas uma pequena parte.

Um grande homem é uma coisa bela e admirável de se ver, mesmo aqui embaixo, mas podemos ter certeza de que o todo é muito maior do que a parte que podemos ver.

Nenhuma personalidade poderia expressar toda a multiplicidade de possibilidades que residem no ego, que contém em si a essência da experiência de todas as vidas que já viveu.

O mais alto e o melhor de nós aqui embaixo poderia ser tomado como uma amostra média razoável das qualidades que descobriríamos no ego se fôssemos capazes de vê-lo.

408. Obtemos essas amostras às vezes e devemos tentar compreendê-las como tais; frequentemente encontramos, por exemplo, uma pessoa bastante comum demonstrando grande heroísmo quando surge uma emergência súbita.

Um trabalhador sacrificará a própria vida para salvar seu semelhante.

Ora, a possibilidade de fazer isso mostra que o homem interior está realmente nesse nível.

Seja o que for o mais elevado que um homem possa tocar, isso é, na realidade, o próprio homem, porque ele não poderia tocar, não poderia pensar nisso, se não fosse ele mesmo.

Toda a expressão inferior — as tempestades de paixão, os sentimentos mais baixos — pertence à personalidade.

Eles não deveriam estar ali — isso é óbvio — mas não são o homem real.

Se às vezes ele toca grandes alturas, esse é o nível em que ele deveria sempre se esforçar para se manter.

409. As coisas elevadas e nobres pelas quais um homem anseia devem estar, em certa medida, desenvolvidas no ego; caso contrário, ele não poderia ansiar por elas aqui embaixo.

As pessoas que não desejam tais ideais são aquelas em que essas qualidades particulares não existem nem mesmo em germe.

Se almejamos coisas superiores, elas estão em nós não como mera possibilidade, mas como um fato vivo, e cabe a nós viver em nosso nível mais elevado e, dessa forma, alcançar um ainda mais alto.

Todo o objetivo do ego ao se colocar para baixo é tornar-se mais definido, para que todos os seus sentimentos vagamente belos se cristalizem em uma resolução definitiva de agir.

Todas as suas encarnações formam um processo por meio do qual ele pode ganhar precisão e definição.

Portanto, a especialização é o nosso caminho de avanço.

Descemos a cada raça ou sub-raça a fim de adquirirmos as qualidades para cujo aperfeiçoamento essa sub-raça está trabalhando.

O fragmento do ego que é colocado para baixo é altamente especializado.

Ele se destina a desenvolver uma certa qualidade, e, quando isso é feito, o ego o absorve em si no devido curso, e ele faz isso repetidas vezes.

A personalidade espalha algo de sua realização especial sobre o todo quando é retirada para o ego, de modo que ele se torna, assim, um pouco menos vago do que antes.

410. O ego, com todos os seus poderes poderosos, é muito menos preciso do que a mente inferior, e a personalidade, valorizando acima de tudo os poderes discriminativos da mente inferior que se destina a desenvolver, muitas vezes passa, em consequência, a desprezar o eu muito mais elevado, porém mais vago, e adquire o hábito de pensar em si mesma como independente do ego.

411. Embora o ego seja vago nos estágios iniciais de sua evolução e seja, portanto, insatisfatório até esse ponto, não há nele nada que seja mau — nenhum defeito moral.

Não há matéria no corpo causal que possa responder às vibrações inferiores, mas onde quer que haja uma lacuna em seu desenvolvimento, há sempre a possibilidade de que os veículos inferiores caiam em algum tipo de ação maligna.

Às vezes acontece, em tal caso, que, quando surge uma emergência, o elemental astral toma posse do homem e ele, enlouquecido, apunhala outro homem, ou, estando em grande necessidade de dinheiro, encontra-se em alguma posição em que pode obtê-lo desonestamente e sucumbe à tentação.

O ego não está então suficientemente desperto para intervir e impedir a ação, ou talvez ele não compreenda que a paixão ou a ganância do corpo astral pode forçar o eu inferior a cometer um crime.

Quando encontramos o mal surgindo inesperadamente no caráter de um homem, não devemos pensar que ele vem do Self Superior.

No entanto, isso provém de uma deficiência no Eu Superior; porque se o ego fosse mais desenvolvido, ele refrearia o homem à beira do pensamento maligno, e o crime não seria cometido.

412. Buscar o caminho retirando-se para dentro significa para nós que devemos sempre nos esforçar para viver à altura do nosso mais elevado nível, para que possamos trazer para baixo cada vez mais os tesouros que o ego acumulou durante inúmeras encarnações.

Mas, ao buscar assim realizar o Eu Superior, devemos lembrar que também devemos buscar o caminho avançando para fora.

Não podemos nos dar ao luxo de ignorar o que está fora de nós, e devemos fazer o nosso melhor para estudar e nos familiarizar com o mundo e o que nele se passa.

CAPÍTULO REGRA

413. 20. Não o busqueis por um único caminho.

Para cada temperamento há um caminho que parece o mais desejável.

Mas o caminho não é encontrado apenas pela devoção, apenas pela contemplação religiosa, apenas pelo progresso ardente, apenas pelo trabalho de autossacrifício, apenas pela observação estudiosa da vida.

Nenhum deles, isoladamente, pode levar o discípulo mais do que um passo adiante.

Todos os passos são necessários para compor a escada.

414. A.B. — A Regra 20 é o comentário do Chohan sobre os três breves aforismos 17 a 19, que foram considerados no último capítulo.

Ela nos diz que o homem não deve se desenvolver apenas na linha onde encontra menos resistência, mas deve desdobrar seus poderes em todas as linhas antes de alcançar a meta universal de utilidade.

Seu objetivo é ser um instrumento perfeito da Boa Lei, e nenhum homem pode tornar-se isso a menos que cresça ao longo de todas as linhas.

Cada tipo ou temperamento deve, portanto, suprir o que lhe falta antes que a perfeição possa ser alcançada.

A humanidade alcança a meta não pela devoção, nem pela contemplação religiosa, nem pelo trabalho de autossacrifício, nem pela observação e pelo pensamento profundo isoladamente.

Em última análise, todos nós precisaremos ter todas essas coisas, mas enquanto estamos no caminho, as pessoas são limitadas por seus temperamentos, e por muito tempo ainda o trabalho de cada discípulo em ajudar a humanidade provavelmente estará limitado principalmente a uma dessas vias.

415. É claro por que devemos dominar todos os caminhos.

À medida que os homens avançam, devem aproximar-se cada vez mais, devem ser soldados em um todo orgânico.

Assim, se um homem possuísse grande poder de contemplação religiosa, mas muito pouco dos outros poderes, de pouca utilidade seria para ele entrar em contato com um homem que possuísse principalmente a qualidade do trabalho de autossacrifício.

Ele não poderia encontrá-lo nesse terreno, e isso limitaria a sua utilidade.

Portanto, é desejável que, enquanto o discípulo se esforça para aperfeiçoar-se em sua linha especial de trabalho, buscando aprender tudo sobre algo, ele não negligencie, ao mesmo tempo, aprender algo sobre tudo, de modo a poder estabelecer pleno contato com pessoas de diferentes temperamentos com as quais deve trabalhar.

416. A nota-chave é o equilíbrio; devemos ser capazes de trabalhar, até certo ponto, em todas as linhas.

Tolerância também é necessária, para que possamos ajudar a todos.

Devemos ver o caminho de cada homem como certo para ele – como uma das estradas que conduzem adiante, deve ser reconhecido como bom.

Devemos ter respeito por todos os tipos de pessoas e, até que sejamos capazes de ajudá-las a todas nós mesmos, devemos tentar encaminhar aqueles a quem não podemos ajudar para outros que possam ajudá-los, e não depreciar as estradas pelas quais estão seguindo, nem procurar desviá-los para a nossa.

417. C.W.L. – As pessoas são quase sempre desequilibradas em seu desenvolvimento.

Alguns são fortes na devoção, outros no intelecto, outros na linha do trabalho.

Cada homem, segundo seu temperamento, é conduzido naturalmente pela linha que lhe é mais fácil; contudo, não deve esquecer que o desenvolvimento integral é necessário antes que possa alcançar o Adeptado.

O Adepto é, acima de tudo, um homem completo, e se O temos diante de nós como ideal, devemos fazer o que pudermos para nos desenvolver em várias direções.

É uma coisa bela ser pleno de devoção, mas devemos ter conhecimento junto com ela, porque o homem que é meramente devoto cegamente é de pouca utilidade.

O contrário é verdadeiro para aqueles que avançam pelo intelecto.

Eles também devem cuidar de adquirir devoção; caso contrário, seu desenvolvimento intelectual os desviará.

É melhor desenvolver-se ao longo de uma linha do que não se desenvolver de modo algum, mas, embora cada homem deva seguir sua própria linha, deve, no entanto, lembrar-se de que existem outras linhas.

Frequentemente, a tendência é criticar outros caminhos e sentir que podem ser menos úteis que o nosso.

Eles seriam menos úteis para nós, talvez, mas não o são de modo algum para aqueles que os seguem.

Onde quer que estejamos presentemente em nosso desenvolvimento, certamente teremos de nos tornar equilibrados; portanto, se agora apreciamos apenas a ideia do trabalho, teremos, contudo, de realizar a posição do homem que avança pela sabedoria, e também a daquele que progride pela devoção, e não nos permitir pensar que eles sejam menos imediatamente úteis do que nós.

Receio que as pessoas que progridem pela devoção sejam frequentemente um tanto intolerantes com aqueles que desejam estudar e trabalhar.

Às vezes dizem: "Tudo o que você está fazendo pertence ao plano externo ou ao lado puramente intelectual das coisas, enquanto o lado do coração de tudo é sempre o mais importante, e se você negligenciar isso, não poderá fazer nenhum progresso real." É perfeitamente verdade que o lado do coração deve ser desenvolvido, mas, no entanto, há aqueles que progridem melhor através do trabalho definido, e outros que não conseguem evocar de si mesmos o melhor que há dentro deles sem estudo cuidadoso e plena compreensão.

418. Os homens às vezes se sentem atraídos pela vida superior e se dedicam apenas à contemplação.

Há ocultistas que consideram esse o melhor caminho, pelo menos nos estágios iniciais.

Um homem poderia dizer: "Devo primeiro me desenvolver para poder servir.

Quando eu for um Adepto, servirei perfeitamente; não cometerei erros." Mas há trabalho a fazer em todos os níveis, e o homem que se qualificou como Adepto tem de trabalhar em níveis muito mais elevados do que qualquer um que possamos alcançar; portanto, se esperarmos até atingir o Adeptado antes de estarmos dispostos a trabalhar pelo mundo, uma grande parte do trabalho inferior ficará, nesse ínterim, por fazer.

Nossos Mestres estão trabalhando principalmente no nível nirvânico, sobre os egos dos homens aos milhões.

Eles estão fazendo nesse nível superior o que não poderíamos fazer, mas há uma grande quantidade de trabalho a fazer nos planos inferiores que nós podemos fazer.

419. As pessoas às vezes têm se inclinado a pensar que os Mestres deveriam estar fazendo esse trabalho inferior, que Eles deveriam, por exemplo, estar trabalhando com indivíduos aqui embaixo.

Já expliquei antes que Eles não fazem isso, exceto nos casos relativamente raros daqueles que Eles veem que muito em breve lhes recompensarão pelo esforço.

É tão inteiramente uma questão do que é melhor para o trabalho que nenhum sentimento de qualquer espécie entra na questão.

Eles trabalharão com um pupilo se ele puder fazer um bom trabalho em troca, e se a quantidade de energia gasta em ensiná-lo e orientá-lo produzir mais resultado dessa maneira em um dado tempo do que seria produzido pela mesma quantidade de energia empregada em linhas mais elevadas e mais amplas; isto é, somente se o homem for apto a aprender e estiver preparado para fazer muito por si mesmo sempre que a oportunidade se apresentar.

Até esse ponto, o interesse Deles por ele seria o que se poderia chamar de uma preocupação geral.

420. Há muito trabalho a ser feito nesses níveis inferiores, e é um fato que grande parte e variedade dele não foi realizada anteriormente.

Novos caminhos de serviço estão constantemente sendo abertos à medida que a humanidade avança em fraternidade.

Nossos Mestres tiveram muitos discípulos antes de a Sociedade Teosófica existir, mas a maioria deles eram orientais, principalmente hindus e budistas, sufis e zoroastrianos.

A tendência da mente oriental não é exatamente a mesma que a nossa.

Acho que, sem ofensa, podemos dizer que ela é menos prática em algumas direções do que a nossa, e a maioria dos discípulos indianos ocupou-se principalmente com seus próprios estudos, dos quais tinham uma quantidade imensa a realizar, e somente quando haviam avançado consideravelmente nessa linha é que se voltavam para ajudar os outros.

Eles não tinham o incentivo que temos para o trabalho dos auxiliares invisíveis.

Ninguém na Índia — nem mesmo um coolie — é tão ignorante quanto o cristão médio sobre os estados pós-morte, portanto não há a mesma necessidade de resgatá-los das ilusões criadas pela ideia do inferno eterno.

Assim que nossos estudantes começaram a ver o que o trabalho astral envolvia, perceberam que havia uma necessidade premente de ajuda.

Aqui estavam pessoas aos milhares sofrendo intensamente com um pesadelo, uma espécie de bicho-papão, que elas mesmas haviam criado simplesmente por causa de ensinamentos tolos.

Uma visão dessa natureza impele a pessoa a fazer imediatamente um esforço para aliviar todo aquele sofrimento; consequentemente, o trabalho dos auxiliares invisíveis começou e cresceu como uma bola de neve.

Todo aquele que é ajudado põe-se a trabalhar para ajudar os outros, de modo que aconteceu que, em cerca de trinta e cinco anos, desde que o trabalho foi regularmente assumido, o efeito produzido tem sido realmente muito grande.

421. Um homem pode alcançar grandes alturas dedicando-se apenas ao seu próprio desenvolvimento, mas por essa linha ele não alcançará o Adeptado.

O homem que espera atingir o Adeptado antes de servir ao mundo nunca será um Adepto.

Ele pode escapar para o nirvana, ou obter liberação, mas porque não percebeu o que o Logos quer dele, será em breve alcançado por numerosas pessoas menos adiantadas e menos talentosas que perceberam essa única coisa importante.

Então ele terá de abandonar sua vida nos planos superiores e voltar para aprender o que não aprendeu antes — que a humanidade é una, e que um homem que não percebe esse fato não pode escalar as mais elevadas alturas do progresso.

422. Mas, como aqui se diz, somente o trabalho de autossacrifício não é suficiente para alcançar o homem o mais elevado desenvolvimento.

Ele também precisa desenvolver sua devoção e, acima de tudo, desenvolver seu poder de resposta à luz interior, porque sem isso ele não será um instrumento perfeito.

Sem isso, ele poderia estar trabalhando com grande energia, mas seria incapaz de responder ao toque, à sugestão vinda do alto, com rapidez suficiente.

Ele precisaria, por assim dizer, ser puxado energicamente, em vez de exigir apenas um toque suave, que é tudo o que deveria ser necessário, e assim causaria mais trabalho ao seu Mestre em seu treinamento.

Ele também deve aprender algo do grande plano, porque, por mais gloriosa que seja a obra, o homem não pode realizá-la perfeitamente a menos que tenha conhecimento.

Portanto, ele deve fazer um esforço definido no sentido do estudo para alcançar isso.

Muito conhecimento vem na prática real do trabalho, mas há toda razão para aproveitarmos a experiência acumulada de nossos predecessores e aprendermos tudo o que pudermos pelo estudo, para que nosso trabalho possa ser melhor realizado.

423. Os vícios dos homens tornam-se degraus na escada, um a um, à medida que são superados.

As virtudes dos homens são de fato degraus, necessários — de modo algum dispensáveis.

Contudo, embora criem uma atmosfera favorável e um futuro feliz, são inúteis se permanecerem isoladas.

424. A.B. — Aqui tanto os vícios quanto as virtudes são chamados de degraus.

Essa visão ampla não pode prejudicar os estudantes, e é de fato necessária para o discípulo, mas seria correto no mundo adotar a visão estreita, pois vício deve significar vícios, e virtude deve significar virtudes, para pessoas não desenvolvidas.

A visão ampla confundiria suas ideias de moralidade; eles não podem aplicar princípios com compreensão e pensar no aspecto moral de cada ação, então devem ter uma lista de coisas que são más, para sua evitação, um conjunto de mandamentos religiosos e sociais para sua orientação.

Seria um erro perturbar a visão popular de vício e virtude, embora ela permita muitas ações que o discípulo já superou.

425. Mas os esoteristas devem aprender a compreender o que ambos significam, como manifestações do Divino.

A maneira de considerar isso é pensar em cada alma como um ser divino, como um centro de energias que se irradiam para o mundo.

A vida do homem consiste na expressão da vida do atma, e ela encontra expressão para fora.

Nos estágios iniciais de sua evolução, não havia nada que se pudesse chamar de vício ou virtude, mas simplesmente uma irrupção de energias, em grande parte ao longo de linhas que os padrões alcançados pela sociedade de hoje não aprovariam.

É verdade que desde o início de nossa carreira humana, a maioria de nós, especialmente aqueles que se individualizaram em um ponto elevado do reino animal, estávamos em condições de usar nossa inteligência até certo ponto, e assim pudemos aprender muitas coisas pela observação dos outros.

Mas permanece o fato de que, ainda assim, todos nós, nos estágios anteriores, devemos ter feito muitas coisas que hoje seriam consideradas más.

Essas experiências nos ensinaram a fazer melhor, portanto foram passos ou meios de progresso.

E também ajudaram a tornar possível que compreendêssemos e ajudássemos outros que estão passando por tais experiências agora.

Todos os tipos de experiências são igualmente necessários; não poderíamos saber, nem mesmo parcialmente, o que são sem toda espécie de expressão, e nunca seríamos capazes de ajudar outras pessoas se não compreendêssemos.

426. Em tempos passados, podemos ter sido assassinos ou bêbados; se essas coisas foram nossa experiência particular, agora as conhecemos como erradas porque as fizemos antes de sabermos melhor, e descobrimos que seus resultados trouxeram sofrimento.

Em um estágio posterior, aprendemos que tais coisas atrasam nosso progresso e, portanto, são erradas, mas sem alguma experiência nunca teríamos percebido isso conscientemente.

Nenhuma quantidade de conselhos poderia ter nos dado o conhecimento vívido que obtivemos pela experiência.

Tendo aprendido nossa lição ao longo de uma linha, nunca mais, sob qualquer tensão de tentação, cometemos aquele erro específico.

Você nunca estaria seguro se houvesse qualquer possibilidade de cair.

Você deve ter conhecimento consciente dessas coisas; a coisa típica que precisa conhecer, a experiência fundamental que deve ter, se deseja estar seguro e ser útil.

427. C.W.L. — Aqui novamente o Chohan nos lembra que o objetivo do treinamento oculto não é produzir meramente homens bons, mas grandes potências espirituais que possam trabalhar inteligentemente para o Logos.

A bondade moral é certamente um pré-requisito, mas é inútil sozinha.

428. Quando um homem começa sua evolução no estágio bastante primitivo, ele não tem ideias de certo e errado, então dificilmente poderíamos falar dele como tendo vícios e virtudes.

A salvação é, afinal, nada mais do que um centro de energia em irrupção — o tipo irresponsável de irrupção do qual vemos tanto nos reinos inferiores.

Uma criatura como uma mosca tem um corpo minúsculo, mas é uma massa de energia que é terrível em comparação com seu tamanho.

Imagine uma entidade do nosso próprio tamanho dotada de tanta energia em proporção e tão pouca ideia do que fazer com ela — seria uma coisa terrível, selvagem, uma fonte de perigo para tudo ao redor.

429. O selvagem tem esse tipo de energia.

Ela irrompe em lutas e em luxúrias de todos os tipos, que são certamente vícios do nosso ponto de vista, embora dificilmente estejamos justificados em considerá-los como tais nele.

Ele não assassina por qualquer tipo de prazer ímpio ou depravado no assassinato, como tem acontecido com pessoas de raças superiores.

Ele certamente tem uma espécie de orgulho em ser capaz de dominar e matar outras pessoas, e dessa maneira ele descarrega uma vasta quantidade de energia que, muitos milhares de anos depois, será direcionada para canais úteis.

Ele tem que aprender como lidar com essa energia; como deixá-la fluir através de si sem causar dano a si mesmo ou aos outros, mas isso é uma questão de longo treinamento e desenvolvimento, e de obter controle dos veículos pelo ego.

430. Vemos a mesma coisa em um estágio muito mais elevado se desenrolando no caso de um homem imensamente poderoso, um milionário americano do tipo antigo, por exemplo, que fazia uma grande quantidade de dinheiro muitas vezes arruinando outras pessoas.

Ele estava fazendo uma coisa muito perversa, mas estava desenvolvendo tremendos poderes de concentração e liderança.

Tendo aprendido naquela posição como fazer tudo isso e como administrar seus semelhantes, ele poderia talvez em outra vida ser um general de um exército.

Muito provavelmente, a princípio, ele usaria sua liderança como Napoleão o fez — para seu próprio avanço e para gratificar sua ambição.

Mais tarde, ele aprenderia a usar seus poderes a serviço de seus semelhantes.

Dessa maneira, é claro que os próprios vícios dos homens são degraus no caminho para algo mais elevado e melhor.

O avanço do vício para a virtude é, em grande parte, uma questão de aprender a controlar nossas energias e direcioná-las corretamente.

Começamos a transmutar nossos vícios em virtudes quando percebemos que a energia que está se desperdiçando e causando tanto dano poderia ser aplicada para bons propósitos.

Cada vez que uma qualidade maligna é finalmente conquistada, ela é transformada na virtude oposta, e assim se torna um degrau definitivo que nos eleva mais alto na evolução.

431. Toda a natureza do homem deve ser usada sabiamente por aquele que deseja entrar no caminho.

432. A.B. — A palavra "caminho" aqui significa a vida espiritual real.

O homem é um ser espiritual, portanto, ao viver a vida espiritual, ele está sendo seu verdadeiro eu.

Se ele quiser trilhar esse caminho, deve usar todas as suas faculdades e poderes, a totalidade de si mesmo.

O que o homem é em sua essência, isso ele se torna em verdade — uma manifestação do divino.

Quando o discípulo está em certo estágio, é-lhe dito: “Tu és o Caminho.” Antes desse momento, seu Mestre é para ele o seu Caminho — ele vê o divino se manifestando no Mestre; mas quando o divino nele se manifesta, ele mesmo é o Caminho.

Ele se torna o Caminho na medida em que avança.

Portanto, toda a natureza do homem deve ser usada sabiamente.

Quando isso é feito, o fragmento divino, com a ajuda daquilo que ele criou para seu próprio uso, pode desdobrar seus poderes latentes em vida ativa e positiva.

433. As palavras “fragmento divino” não são usadas meramente como uma frase poética; elas contêm uma verdade que não podemos nos dar ao luxo de esquecer, que quaisquer outras palavras seriam inadequadas para expressar.

A mesma ideia é encontrada no Catecismo citado em A Doutrina Secreta, 1 (1 Op.cit., Vol. I, p. 145.), onde o Guru pergunta ao pupilo o que ele vê.

Ele vê inúmeras centelhas, que parecem como se destacadas; os ignorantes as veem como separadas, mas pelos sábios elas são vistas como uma única Chama.

Tal fragmento, na medida em que é um centro de consciência, é um ponto sem magnitude; não pode ser separado.

Todos os centros são fundamentalmente um, pois há apenas uma esfera última, um universo.

Mas o mistério da unidade do ser não pode ser compreendido abaixo do plano nirvânico; não pode ser expresso nos mundos inferiores, e todas as tentativas de simbolizá-lo devem ser imperfeitas.

434. O fragmento divino é a Mônada, que é reproduzida no espírito tríplice no plano nirvânico.

Ali o Atma é tríplice, e ele coloca um de seus poderes no búdico e outro no plano mental.

Ele contém as possibilidades do Logos, mas é a princípio bastante incapaz de expressá-las.

O Atma, derramando-se a si mesmo, aparece em Manas como o princípio individualizador, a faculdade que cria o “eu”, que dá origem à individualidade no tempo, como o oposto à Eternidade.

Ele atrai matéria ao seu redor para se expressar no plano manásico superior, e assim cria como seu veículo o corpo causal, que dura através da longa série de encarnações humanas.

Esse é o corpo criado com dor, por meio do qual o homem se propõe a desenvolver-se.

435. Pense no Atma como se derramando sobre o terceiro plano para baixo, o plano manásico.

Ele atrai ao seu redor matéria do nível mais elevado desse plano e forma o corpo causal.

Esse corpo é então seu veículo para a expressão do aspecto manásico de si mesmo nesse plano.

É o manas atuando através do corpo causal.

Esse manas torna-se dual na encarnação.

Ele desce aos níveis inferiores do plano mental e ali forma um veículo — o manas inferior — que, por sua vez, constrói o corpo astral.

Este, por sua vez, fornece a força que constrói os corpos etérico e físico.

Cada corpo em seu próprio plano é um meio de colher experiências que, quando adequadas, são transmitidas àquele que formou o veículo; assim, após o término da encarnação pessoal, o manas inferior entrega ao corpo causal toda a experiência que adquiriu, e a personalidade perece.

O corpo causal retém todas as experiências que sejam de natureza a auxiliar seu crescimento, e elas permanecem com ele através de todas as suas futuras encarnações.

436. O corpo causal também tem uma relação com o que está acima dele. O que ocorre no lado interno ou superior desse veículo é a transmissão, ao terceiro aspecto do atma, da essência de todas as experiências que nele possam ter entrado; o que assim é vertido no aspecto manásico do atma torna-o capaz de atuar sem o corpo causal — isto é, sem um veículo permanente que o limite.

437. O estudante que refletir sobre isso descobrirá que lançará luz sobre o perecimento da individualidade.

A mesma ideia aparece nas escrituras hindu e budista.

O corpo causal é a individualidade, aquilo que persiste ao longo do ciclo de encarnações.

Ele surge à existência em um certo período de tempo; tem de perecer em outro período.

Ele nasce e morre.

Como diz a Gita: "Certa é a morte para o que nasceu."¹ (¹ Op. cit., II, 27.) Isso é verdadeiro não apenas no mundo exterior, mas no sentido mais amplo; assim como há nascimento do corpo causal, assim ele deve perecer.

É a coisa que o fragmento divino construiu para si mesmo com muita dor.

É o "eu" para o discípulo.

Em alguns, o "eu" é considerado ainda mais baixo, na personalidade, mas este é o "eu" que deve ser alcançado no início do Caminho.

Ele é finalmente transcendido no término do estágio de crescimento do Arhat, na liberação real.

Até esse momento, ele está diminuindo e mudando de caráter à medida que o Arhat cresce.

Será finalmente descoberto que é um "eu" defeituoso, não o verdadeiro "eu" de forma alguma, mas neste estágio da evolução humana qualquer tentativa de descrever sua condição futura seria enganosa.

438. O discípulo corretamente coloca diante de si, como seu objetivo, a realização e purificação da individualidade.

É uma coisa criada para o uso de seu criador.

Às vezes é tecnicamente chamada de criatura; então ouvimos falar do homem – o verdadeiro homem – encontrando sua criatura.

Assim também o indivíduo, a criatura, encontra seu próprio criador.

Esse encontro ocorre apenas em um alto estágio de evolução.

Quando um homem encontra sua criatura, ele é perfeito e transcende a individualidade.

439. A criação da individualidade ocorre em um estágio inferior; o homem está ocupado construindo-a por um período muito longo.

Os membros menos evoluídos da humanidade ficam por um longo período encerrados em seus veículos inferiores – isso é necessário para seu progresso, antes que o indivíduo esteja totalmente construído – portanto, o corpo causal permanece uma casca inconsciente por muito tempo, enquanto as atividades estão ocupadas na personalidade.

Pense nas eras gastas na construção do veículo físico; pense nas rondas e nos estágios que os pitris atravessaram na cadeia lunar antes de se tornarem aptos a passar para a evolução humana.

Há uma diferença imensa no tempo que os seres humanos levam para construir o indivíduo, embora todos levem muito tempo.

A construção prossegue mais rapidamente nos estágios superiores, sob a inspiração do ego mais evoluído, do que nos estágios inferiores; quando a inteligência atinge um alto estágio, ela está utilizando forças superiores e aprendendo a não desperdiçá-las, e então a construção prossegue com imensa rapidez.

Isso nos dá grande encorajamento; pois ao olharmos para trás, para a cadeia lunar, e pensarmos no tempo que levamos para avançar, pareceria muito longo se tivesse de ser repetido, mas olhando para frente vemos que o progresso pode se tornar quase incrivelmente rápido.

440. O fragmento divino não pode fazer nada por si mesmo; todo o seu desenvolvimento deve vir pelo contato com forças externas, e através dos veículos – não pode crescer sem eles.

Como H.P.B. disse, o espírito é insensível nos planos inferiores.

Não pode produzir nenhum poder sem um veículo de expressão no plano em que tem de agir.

Além disso, só pode ter controle dos veículos quando eles são aperfeiçoados.

O trabalho de levar os veículos à perfeição desenvolve os poderes do espírito à perfeição, então os dois desenvolvimentos prosseguem juntos.

E quando esse trabalho está completo, o espírito tem em si mesmo o poder de desintegrar seus veículos individuais no momento em que os deixa, e de reintegrá-los num momento em que escolhe fazê-lo.

441. Pensai nos Seres Espirituais aperfeiçoados.

Somente enquanto evoluíam em nosso estágio humano e abaixo dele é que os veículos eram necessários para Seu crescimento, mas quando tal Ser, tendo absorvido todas as experiências dessa evolução em Sua essência, deseja manifestar-Se, Ele pode a qualquer momento criar o que quer para a manifestação, e após ter utilizado as forças do plano, pode retirar novamente o veículo.

Ao falar dos Espíritos Planetários, H.P.B. menciona que Eles passaram pela humanidade.

Eles não poderiam aparecer como auxiliadores se não tivessem, através dos estágios humanos, absorvido em sua essência a experiência necessária.

Assim, existem Seres que podem não estar manifestos, mas que podem manifestar-Se a Si mesmos, extraindo de Sua essência a experiência de que necessitam e criando um veículo no qual trabalhar.

442. Não é difícil compreender como os veículos são para seu "próprio uso". À medida que avançamos, elevamo-nos acima da escravidão de cada veículo que se manifesta exteriormente, e aprendemos a usá-lo apenas para o trabalho superior, sem qualquer consideração de si mesmo.

Fazer isso, no que diz respeito ao corpo físico, deve ser a prática diária do discípulo.

O corpo físico deve ser dominado de modo que não possa lançar sua própria reflexão sobre você; ele existe apenas para você usar, e você deve aprender a controlá-lo completamente, de modo que ele não possa compelir você a atender a qualquer experiência que não deseje.

Ele deve ser apenas um instrumento para uso; você o está treinando para transmitir sua experiência ao ego.

Chegará um tempo em que você não mais desejará transmitir experiência alguma; então o "eu" toma o que quer para seu próprio propósito.

Esta é uma condição elevada a se alcançar, pois é o estágio do Adepto.

443. Em A Doutrina Secreta, é dito que o corpo de um Mestre é ilusório.

Isso significa apenas que o corpo físico não pode afetá-Lo ou perturbá-Lo.

As forças que atuam ao redor não podem influenciá-Lo através dele, exceto na medida em que Ele as permite; elas não podem tirá-Lo de Seu centro.

H.P.B. também disse que o corpo físico de um Mestre é um mero veículo.

Ele não transmite nada, mas é simplesmente um ponto de contato com o plano físico, um corpo mantido como instrumento necessário para o trabalho que Ele realiza, e abandonado quando não é mais necessário.

O mesmo é verdadeiro para os corpos astral e mental.

Quando o corpo causal se torna apenas um instrumento, a individualidade perece, tendo o átma adquirido o poder de manifestar seu terceiro aspecto no plano mental à vontade, não necessitando mais de um veículo permanente nesse plano.

444. C.W.L. — Esta afirmação parece, à primeira vista, contradizer algumas das anteriores.

Por exemplo, fomos instruídos a eliminar o desejo — a eliminar várias partes de nós mesmos.

Diz-se em A Voz do Silêncio que o pupilo deve aprender a matar a forma lunar¹ (¹ Ante., Vol. I, Parte I, Cap. 2: Iniciação e a aproximação a ela. Vol. II, p. 128.) à vontade — a livrar-se de seu corpo astral.

As palavras "à vontade" nos dão a chave para a expressão.

Não devemos destruir o corpo astral, porque, se o fizéssemos, tornar-nos-íamos monstros, com grande desenvolvimento mental, mas sem qualquer simpatia.

Muitas pessoas acham a emoção um grande problema porque ela as subjuga, mas devem tentar não destruí-la, e sim purificá-la e controlá-la. Ela deve ser uma força que possamos usar, e não algo que nos subjugue. Não devemos eliminá-la, porque sem ela jamais poderíamos compreender a emoção nos outros e, portanto, jamais poderíamos ajudar pessoas que seguem essa linha; mas ela deve ser refinada, e todo o eu deve ser arrancado dela.

445. Da mesma forma, as pessoas intelectuais não devem destruir o intelecto, mas devem refreá-lo e guiá-lo. É bem verdade que o intelecto, como a devoção, pode descontrolar as pessoas.

Elas nem sempre percebem isso; dizem que o intelecto em si é uma garantia contra qualquer excesso, mas receio que não seja.

Muitas pessoas fazem do intelecto uma espécie de deus; dizem: "Nossa razão é a única coisa que temos para nos guiar, e devemos sempre segui-la até sua conclusão lógica." Isso seria bem verdade se todas as suas premissas estivessem sempre corretas desde o início, mas geralmente são notavelmente deficientes.

Elas geralmente consideram apenas o lado físico do problema e deixam de levar em conta o lado oculto, muito mais importante, e portanto suas conclusões são inevitavelmente errôneas.

Como disse antes, devemos ser equilibrados; devemos aprender a ver todos os lados de uma questão, e devemos nos esforçar para evitar desenvolver qualquer qualidade, por mais boa que seja, a tal excesso que fique totalmente desproporcional em relação a todas as outras qualidades, porque muitas vezes a qualidade mais admirável pode tornar-se perigosa se for tomada dessa maneira, separada do todo.

O homem que possui intelecto aguçado é muito digno de parabéns por causa desse desenvolvimento intelectual, mas tanto mais, se o possui, deve ter cuidado para que o outro lado, o do amor e da simpatia, não seja negligenciado nem esquecido.

446. Exatamente da mesma forma, aqueles que possuem o poder do amor e da simpatia devem cuidar para que desenvolvam o lado intelectual de suas naturezas, para que não sejam levados por sua simpatia a ações tolas que não ajudarão, mas atrapalharão.

Uma pessoa com a mais aguçada simpatia, mas sem conhecimento, é muitas vezes perfeitamente desamparada, assim como muitos homens estariam diante de algum acidente triste, sem o conhecimento que um médico teria.

Muitas pessoas, embora cheias de simpatia e ansiosas por ajudar, não sabem o que fazer, e os esforços que fazem, se ignorantes, podem ser tão propensos a causar dano quanto bem.

Muito claramente, há a necessidade de conhecimento tanto quanto de emoção.

447. A emoção é a força motriz em nossas naturezas.

Diz-se nos antigos livros indianos que as emoções são os cavalos, mas a mente é o guia; a mente segura as rédeas; portanto, precisamos desenvolver ambos.

Precisamos ter nossos cavalos, porque eles são o meio de progresso, nosso armazenamento de força; mas também devemos ter orientação razoável, ou então eles fugirão conosco. Tudo isso é perpetuamente inculcado em todo estudo oculto, mas não pode ser dito com demasiada frequência, porque as pessoas esquecem.

Há sempre aqueles que desenvolvem apenas um lado e são tristemente carentes do outro, e essa é uma das maneiras pelas quais até mesmo uma pessoa avançada pode chegar à ruína.

448. Cada homem é, para si mesmo, absolutamente o caminho, a verdade e a vida.

Mas ele só o é quando apreende firmemente toda a sua individualidade e, pela força de sua vontade espiritual despertada, reconhece essa individualidade como não sendo ele mesmo, mas aquela coisa que ele criou com dor para seu próprio uso e por meio da qual ele propõe, à medida que seu crescimento desenvolve lentamente sua inteligência, alcançar a vida além da individualidade.

Quando ele sabe que é para isso que existe sua vida separada, maravilhosa e complexa, então, de fato, e somente então, ele está no caminho.

449. C.W.L. — O caminho — significando a verdadeira vida espiritual — só pode ser encontrado após a experiência de construir a individualidade.

A expressão usada aqui pelo Mestre Veneziano — aquela coisa complexa que o homem construiu com muito trabalho e dor para seu próprio uso — é verdadeira quanto à individualidade e, novamente, quanto a cada personalidade.

A individualidade em si é assim construída pela Mônada; ela constrói, por sua vez, as suas várias personalidades, mas tudo para uso do superior, e somente para isso; o erro que todos os homens cometem é o de se identificarem com a natureza inferior, permitindo que ela os iluda, fazendo-os supor que ela é o “Eu”, quando, na realidade, o “Eu” é a Mônada muito distante, que está usando todos esses veículos.

450. Toda a evolução do homem pode ser descrita como um recolher-se em si mesmo, mas sempre trazendo consigo os seus feixes, nunca voltando de mãos vazias.

Esse processo de transmitir o resultado da experiência do inferior para o superior ocorre em todos os níveis, o tempo todo.

Há muitas maneiras pelas quais fazemos isso na vida cotidiana, só que não pensamos nisso sob essa luz.

Por exemplo, sabemos ler; adquirimos esse poder nesta encarnação, passando muito lentamente por um longo processo de aprendizado.

Agora podemos pegar um livro e compreender seu significado imediatamente, sem precisar pensar em saber ler.

Esquecemos os detalhes dessa experiência, e não nos seria de nenhum valor lembrá-los.

Alguns de nós aprenderam a ler música e podem executá-la à primeira vista, mas no início, quando estávamos aprendendo, tínhamos que olhar cuidadosamente para cada nota e depois olhar para o piano para encontrá-la. Agora, o fato de termos passado por todo esse trabalho está esquecido.

Não precisamos lembrar de todas as lições de música separadamente para sermos capazes de tocar, que era o objetivo de todo o processo.

451. É exatamente o mesmo com a memória das vidas passadas.

Pessoas que acreditam em reencarnação frequentemente têm um sentimento de ressentimento no fundo de suas mentes, porque não se lembram daquilo pelo qual estão agora sofrendo, mesmo enquanto estão prontas para admitir que isso é o resultado de ações erradas no passado.

Esse sentimento é talvez bastante natural, mas realmente não importa em absoluto; a alma sabe, e tomou nota daquilo que trouxe o resultado maligno, e fará tudo o que puder para influenciar a personalidade, de modo a impedir que o mesmo erro ocorra novamente.

452. As pessoas pensam que simplificaria suas vidas se a personalidade pudesse lembrar de todas aquelas encarnações passadas.

De certas maneiras, poderia, mas creio que, se na personalidade tivéssemos a lembrança completa de todas as nossas vidas passadas antes de alcançarmos o Adeptado, isso faria mais mal do que bem.

Em primeiro lugar, não temos o poder de pesar todas essas coisas com calma.

Seria algo distintamente deprimente olhar para trás, para os crimes horrendos que cometemos nas vidas passadas.

Há muito tempo aprendi a olhar para trás, para as minhas próprias vidas passadas, mas isso não é, de forma alguma, um prazer. Existem certas ações belas, alguns incidentes notáveis nas vidas passadas de todos, e é possível olhar para trás com certo grau de prazer para esses, mas descobrimos que, ao olhar para uma vida passada, o que imediatamente nos impressiona com mais força é o número de oportunidades que não enxergamos.

Aqui, ali, em toda parte, estávamos cercados de oportunidades, e não podemos deixar de nos admirar por termos aproveitado tão poucas delas.

Não era, geralmente, que deixávamos de aproveitá-las por não querermos; nossas intenções eram boas, ainda que talvez de uma bondade um tanto débil, e se tivéssemos visto as oportunidades, as teríamos aproveitado.

Agora olhamos para trás e nos admiramos de nossa própria cegueira.

Dizemos: "Se ao menos eu tivesse tomado esta ou aquela linha de ação, certos resultados teriam se seguido, e a esta altura eu poderia ter alcançado o Adeptado." Mas não o fizemos.

Quando ascendermos a esse nível, o poder de olhar para trás nos será útil, mas com a quantidade de intelecto e livre-arbítrio que temos agora, certamente não seria um prazer puro.

453. Consideremos os princípios gerais envolvidos.

Todo este esquema do qual fazemos parte visa promover a evolução do homem; portanto, não pode haver dúvida alguma de que, se fosse melhor para ele que uma personalidade se lembrasse de todas as suas vidas passadas, certamente assim teria sido arranjado.

Como isso não foi feito, deveríamos ao menos ter fé suficiente para ver que é melhor como está. Quando um homem tem o poder de olhar para trás, ele também adquire com isso uma visão mais ampla e uma perspectiva mais equilibrada das coisas, e nessa altura ele está tão imbuído da certeza da justiça no esquema que, se não puder ver exatamente como um resultado se seguiu de sua causa, dirá: "Bem, não vejo a razão para isto, mas tenho certeza de que a verei em breve." Não lhe ocorreria pensar que foi tratado injustamente.

A pessoa que está sempre falando de ser tratada injustamente e acusa perpetuamente o alto céu de negligenciá-la não compreende os rudimentos do caso.

Sabemos que a lei é absolutamente justa — tão justa quanto a lei da gravitação — mas não se segue que possamos sempre dizer exatamente como ela se manifestará.

454. Como já disse, o ego registra aquilo que produz resultados malignos.

Prevenido pela experiência passada, ele tenta influenciar a personalidade antes que esta se torne tão forte, tão definida e decidida que não se deixe guiar pelo toque mais vago do ego por trás.

Ela pensa distintamente que sabe o que é melhor em sua própria linha.

Muitas vezes recusa ser ajudada de cima, e assim o ego não pode influenciá-la em toda a extensão que desejaria.

Mas ele tenta obter controle, e à medida que avançamos sentiremos este eu superior cada vez mais se esforçando para tomar as rédeas.

Se nos identificarmos com ele, descobriremos que então ele pode fazer muito mais por nós. Sua principal dificuldade é o fato de que a personalidade média se identifica com os veículos inferiores e de certo modo ressente sua interferência, mas se ela puder ser persuadida a se identificar com ele, então imediatamente toda a dificuldade fica muito diminuída.

455. Quando, além disso, há completo controle dos corpos astral e mental, o progresso pode ser realmente rápido.

Normalmente, quando o ego quer lidar com uma coisa através de seus veículos inferiores, eles insistem em trazer cem outras, em enviar relatórios que não são solicitados nem desejados pelo ego.

O controle da mente tem de ser conquistado para que ela relate ao ego apenas o que ele quer saber.

Então, quando o ego apresenta algum problema à sua mente e diz: "Pense nisso e me dê a informação que quero", a mente controlada obedece perfeitamente, enquanto em circunstâncias semelhantes a mente média relata cem coisas inúteis ao ego, porque todo tipo de pensamentos errantes irrompe e se afirma.

456. O sistema de entregar os resultados do trabalho inferior, mas não a experiência detalhada, continua o tempo todo até alcançarmos o adeptado.

À medida que o ego se desenvolve, a primeira mudança decidida que o homem faz é elevar o intelecto, o manas, ao nível búdico; ele permanece ainda tríplice, mas em vez de estar nos três planos, está agora em dois, com o atma desenvolvido em seu próprio plano, o buddhi em seu próprio plano, e o manas nivelado com o buddhi, elevado à intuição.

Então ele descarta o corpo causal porque não tem mais necessidade dele. Quando deseja descer e se manifestar novamente no plano mental, tem de criar um novo corpo causal, mas caso contrário não precisa de um.

457. De maneira muito semelhante, essas duas manifestações no plano búdico – o buddhi e o intelecto glorificado que é a intuição – serão em breve elevadas ao plano nirvânico ou átmico, e o espírito tríplice nesse plano será plenamente vivificado.

Então as três manifestações convergirão em uma só.

Esse é um poder ao alcance do Adepto, porque Ele unifica a Mônada e o ego, assim como o discípulo tenta unir o ego à personalidade.

458. Essa elevação do manas superior do corpo causal, de modo que ele fique no plano búdico lado a lado com o buddhi, é o aspecto ou condição do ego que Madame Blavatsky chamou de ego espiritual.

É difícil elaborar em detalhe as comparações com o estado pelo qual os místicos cristãos descreveram ter passado, porque eles o abordam de um ponto de vista muito diferente, mas essa condição parece corresponder ao que eles costumavam chamar de "iluminação espiritual" – isto é, o estado do Arhat.

É o desdobramento do princípio crístico.

Falamos do nascimento do princípio crístico quando há o primeiro despertar da consciência búdica no homem, mas quando se diz que o Cristo está plenamente desdobrado dentro dele, penso que deve significar esse estado.

459. Quando as pessoas alcançam alguns desses níveis superiores, a taxa de seu progresso aumenta enormemente.

Lembro-me de que certa vez me perguntaram na Índia se o progresso de um homem no Caminho poderia ser medido por progressão aritmética.

Respondi: "Penso que, uma vez que o progresso esteja definitivamente iniciado, ele se assemelha muito mais a uma progressão geométrica." Isso foi bastante duvidado.

Os indianos pareciam achar que era uma afirmação extrema, então perguntei ao Mestre Kuthumi se a progressão geométrica seria uma descrição justa do progresso de alguém que tivesse entrado no Caminho.

"Não", Ele disse, "isso não seria uma descrição justa. Quando uma pessoa entra no Caminho, se ela concentra todas as suas energias nele, seu progresso não será nem por progressão aritmética nem geométrica, mas por potências." Portanto, não seria na razão 2, 4, 8, 16, etc., mas como 2, 4, 16, 256, etc.

Isso lança uma luz muito diferente sobre o assunto, e começamos a ver que o que está diante de nós não é tão impossível nem tão cansativo como às vezes parece.

Percorremos todos esses milhares de anos para alcançar nosso estágio atual, e não parece uma grande conquista quando consideramos o tempo despendido nisso. Se nossa evolução futura fosse igualmente lenta, a mente recuaria apavorada diante da contemplação dos éons necessários para alcançarmos a meta.

É encorajador pensar que, quando definitivamente começamos a trilhar o Caminho, progredimos com rapidez verdadeiramente grande.

460. Suponho que a pessoa boa comum dedica um centésimo de sua mente para tornar-se um pouco melhor.

Muitas pessoas não fazem nem isso.

Nós, que estudamos e tentamos viver de acordo com os princípios do ocultismo, fomos mais longe e começamos a dedicar uma parte razoável de nosso tempo a isso. Quando se alcança o estágio em que toda a nossa força e pensamento estão concentrados nessa grande tarefa, avançaremos a passos largos; por mais atrasados que estejamos agora, quando pudermos dedicar todas as nossas faculdades ao trabalho a ser feito, seremos capazes de realizá-lo muito mais perfeitamente do que agora parece possível.

461. Buscai-o mergulhando nas misteriosas e gloriosas profundezas do vosso próprio ser mais íntimo.

Buscai-o testando toda a experiência, utilizando os sentidos para compreender o crescimento e o significado da individualidade, e a beleza e a obscuridade daqueles outros fragmentos divinos que lutam lado a lado convosco e formam a raça à qual pertenceis.

Buscai-o pelo estudo das leis do ser, das leis da natureza, das leis do sobrenatural; e buscai-o fazendo a profunda reverência da alma à estrela tênue que arde em vosso interior.

Firmemente, enquanto observais e adorais, sua luz se tornará mais forte.

Então podereis saber que encontrastes o começo do caminho.

E quando tiverdes encontrado o fim, sua luz se tornará subitamente a luz infinita.

462. A.B. — Neste comentário, consideramos novamente o método tríplice de buscar o caminho.

463. Pode-se fazer uma divisão para fins de classificação, tomando as leis da natureza como abrangendo o mundo dos fenômenos, o mundo da observação; as leis do sobrenatural como aquelas do manas superior e do buddhi; e as leis do ser como aquelas da existência real do nirvana.

Pelos leis da natureza entendemos então as leis que atuam nos planos físico e astral e nos subplanos rupa do manas.

464. As leis que estão acima dessas, mas abaixo daquelas do "ser", podem ser chamadas de leis do sobrenatural.

Isso inclui tanto os planos arupa do manas quanto o plano búdico.

Essa é a região onde a vida se expressa mais do que a forma, onde a matéria está subordinada à vida, alterando-se a cada momento.

Não há ali nada que represente uma entidade de contornos definidos.

A entidade muda de forma a cada mudança de pensamento; a matéria é um instrumento de sua vida e não uma expressão de si mesma; a forma é feita momentaneamente — muda a cada mudança de sua vida.

Isso é verdadeiro no plano arupa de manas, e também de modo sutil no plano búdico.

É verdadeiro também quanto ao ego espiritual, que é buddhi mais o aspecto manásico do Uno, que foi elevado a buddhi quando o veículo causal foi descartado.

Esse estado é chamado pelos místicos cristãos de iluminação espiritual; é o estágio do Arhat, do Cristo no homem.

465. A palavra sobrenatural é comumente usada para cobrir tudo o que não pode ser explicado pela experiência comum do mundo.

Qualquer coisa que pareça irregular ou em desacordo com as leis da natureza tem sido assim rotulada, para grande confusão das pessoas pensantes.

Há uma revolta generalizada no mundo contra tudo o que é chamado de sobrenatural; as pessoas sentem que não pode haver nada sobrenatural, porque não há irregularidade ou desordem na natureza, nenhuma região onde a lei não exista.

A lei está operando em toda parte e é una.

"Assim como é em cima, é embaixo" é a verdade universal.

Uma única natureza está se expressando de diferentes maneiras, mas é sempre a mesma.

Mas quando chegamos ao que aqui é chamado de sobrenatural, alcançamos um estado além de tudo o que pode ser tocado pelos sentidos — mesmo usando o termo em seu sentido mais pleno.

Passamos inteiramente para além de tudo o que é fenomênico, adentrando os próprios mundos espirituais.

466. O plano de atma, além disso, é o nirvana, a região do ser, onde tudo é realidade, onde reside a verdadeira consciência.

Devemos buscar esse caminho pelo estudo do nosso íntimo ser.

Somente quando pudermos alcançar o plano nirvânico em meditação superior poderemos ter um vislumbre da verdadeira consciência átmica; mas ela pode ser buscada.

Começamos a procurá-la tentando realizar sua existência.

Pense nela como numa região onde tudo é realidade, onde todas as limitações desapareceram, onde a unidade é reconhecida.

Na meditação, tente imaginá-la, tente figurá-la para si mesmo.

Você só pode fazê-lo por uma série de negações.

Você pensa: "É fenomênica? Não é. É intelectual? Não é." Você a busca eliminando o que ela não é.

Então você diz: "Não é uma coisa que os sentidos possam perceber; não é o que a inteligência possa imaginar; não é encontrado nem mesmo pela inteligência iluminada, com sua vasta extensão", e assim por diante.

467. Poder-se-ia perguntar: "Por que buscá-lo pelo que não é, se você pode ter um toque de consciência átmica?" Falando francamente, não é a consciência átmica que você obtém no cérebro, mas uma pequena vibração do aspecto manásico do atma, diferente de qualquer outra vibração na consciência manásica.

Vibrações iniciadas em planos superiores são diferentes daquelas que começam no plano manásico.

Quando uma pessoa atinge o estágio mais elevado do Caminho propriamente dito – o quarto ou Caminho Arhat – então, em meditação fora do corpo, ela pode passar para o samadhi e alcançar a consciência átmica no nirvana.

468. C.W.L. – Esta dupla divisão tripla, dos métodos pelos quais devemos buscar o caminho e as leis que correspondem a esses métodos, é iluminadora e sem dúvida intencional.

Mergulhar nas profundezas do ser mais íntimo leva ao estudo das leis do ser – as leis daquele plano que está além de tudo o que é manifestação para nós, ou seja, o nirvana.

Os planos superiores são, naturalmente, ainda planos de manifestação, e mesmo o que está além deles não é realmente não-manifestado, mas o é para nós, em nosso estágio atual.

Somente pelo estudo das leis do ser poderemos cumprir o propósito real de mergulhar nas profundezas do nosso ser mais íntimo, que é "fazer reverência à estrela tênue que arde dentro". Claramente, esse é um estágio muito elevado no desenvolvimento – quando buscamos o atma e seguimos apenas isso.

469. O teste de toda experiência corresponde ao estudo das leis da natureza, ou seja, as leis do mundo fenomênico, aquelas que operam nos planos físico, astral e mental, nos quais a personalidade mergulha.

Então devemos aprender a compreender a individualidade pelo estudo das leis do sobrenatural, pelas quais evidentemente se entendem as leis daqueles mundos nos quais o ego, como tal, se move, ou seja, as leis do plano búdico e da parte superior do plano mental.

Naturalmente, não há nada de sobrenatural, mas essa palavra é usada aqui evidentemente em um sentido um tanto técnico.

Através de todos os planos é a mesma Vida que se expressa de diferentes maneiras, e não há quebra da lei e da ordem naturais em todo o esquema; somente quando chegamos a uma região além de qualquer coisa que nossos sentidos físicos, astrais ou mentais possam tocar, é que alcançamos algo além da natureza que a maioria de nós conhece, onde outras e mais amplas leis operam.

Penso que é nesse sentido que o Chohan usa esta palavra "supernatural". Além da esfera desses sentidos, passamos para uma região acima do fenomênico, para o que os gregos chamavam de mundo numênico, que é a fonte e a causa dos mundos fenomênicos.

Assim, o significado desta passagem parece ser que, quando compreendermos completamente a personalidade, teremos apreendido "as leis da natureza"; quando buscarmos compreender a individualidade, estaremos lidando com as "leis do supernatural"; e quando, além disso, tentarmos realizar o atma, estaremos estudando as "leis do ser".

470. As diferenças nesses níveis são suficientemente grandes para justificar tal classificação.

No plano físico, tudo depende muito de sua forma, e isso também é verdadeiro nos mundos astral e mental inferior.

No nível do corpo causal, embora não seja inteiramente verdade que sejamos sem forma, pelo menos as formas são diferentes e mais diretas.

O pensamento do corpo causal é como um relâmpago que se lança diretamente ao seu objeto; em vez de fazer uma forma definida e separada, é simplesmente uma irrupção, direta ao objeto, do impulso que o pensamento deu.

471. Quando nos elevamos acima disso para o búdico, alcançamos uma condição que, como expliquei antes, dificilmente pode ser descrita em palavras.

Lá, o pensamento de cada pessoa é uma pulsação de todo o plano, de modo que cada pessoa nesse nível envolve dentro de si o pensamento de todos os outros e pode aprender com ele e pode experimentar através dele, por assim dizer.

Não se pode esperar torná-lo muito claro; só se pode sugerir.

472. É bom para nós tentarmos compreender esses estados superiores.

Quase a única maneira pela qual podemos fazer isso é pelo método adotado nos livros hindus, que é sempre uma negação.

Eles não descrevem um estado de consciência; eles gradualmente eliminam todas as coisas que ele não é.

Depois de fazer isso, se conseguirmos reter uma espécie de essência sublimada do pensamento da coisa, aproximamo-nos um pouco mais do que ela realmente é. Os seguidores do Buda frequentemente perguntavam: "O que é o nirvana?", ou às vezes diziam: "O nirvana é, ou não é?" — isto é, tem existência, ou não tem? O Buda, em certa ocasião, respondeu: "O nirvana é; sem dúvida existe, e, no entanto, se me perguntais se ele é, só posso dizer que não é nem um estado de ser nem de não-ser, no sentido em que compreendeis essas palavras." Talvez nem Ele pudesse torná-lo claro para nós em nosso nível.

À nossa maneira, muito mais limitada, temos o mesmo tipo de experiência.

Posso testemunhar que, quando se desenvolve a consciência búdica e se a utiliza, muito daquilo que agora não podemos tornar claro torna-se absolutamente evidente; mas, no momento em que se retorna dessa condição de consciência, já não se pode expressar aquilo que se compreendeu.

Que isso não é facilmente expressável é demonstrado pelo fato de o próprio Buda, tão imensamente maior, ter sido incapaz de colocá-lo em palavras que pudessem ser compreendidas aqui embaixo, exceto por negações.

CAPÍTULO — A NOTA SOBRE A REGRA

473. A.B. — O Mestre Hilarião acrescenta a seguinte nota à Regra 20.

474. Buscai-a testando todas as experiências; e lembrai-vos de que, quando digo isto, não digo: "Cedei às seduções dos sentidos para conhecê-la." Antes de vos tornardes um Ocultista, podeis fazê-lo; mas não depois.

Quando escolhestes e entrastes no Caminho, não podeis ceder a essas seduções sem vergonha.

Contudo, podeis experimentá-las sem horror: podeis pesar, observar e testá-las, e aguardar com a paciência da confiança a hora em que elas não mais vos afetarão.

475. Nos estágios iniciais da evolução humana, o ego não é suficientemente desenvolvido para distinguir o certo do errado.

Mas, no momento em que ele aprende a distingui-los, a conhecê-los como diferentes, a moralidade começa.

Quando, por exemplo, ele começa a compreender a diferença entre destruir a vida e guardá-la, há, para ele, o nascimento da moralidade nessa linha.

O tipo de experiência que lhe ensinou esse conhecimento não é mais necessário então.

Mas, embora o homem não precise mais testar essa experiência, ainda há às vezes um impulso dos sentidos, compelindo-o a alguma ação errada, e isso depois lhe causa sofrimento, porque ele reconhece que foi errado ceder a ela. O dito do pseudo-ocultista, de que um homem pode fazer o mal para ganhar experiência, nunca se justifica.

Quando um ato é praticado enquanto o homem está inconsciente de que é errado, ele está obtendo experiência necessária; mas quando há conhecimento de que é errado, então cada cedência significa uma queda, e intenso sofrimento deve seguir-se.

476. A condição de ceder sob a pressão das circunstâncias dura por muitas vidas; mesmo depois que um homem entrou no Caminho, o conflito com os desejos dos sentidos frequentemente continua.

Antes que se possa progredir rapidamente, há longos estágios de conflito entre o desejo que atua através dos corpos astral e mental, e o conhecimento de que sua gratificação é um obstáculo à vida superior.

O conflito nos estágios inferiores é longo, e quando passa a um estágio mais elevado, e surge quando as imagens mentais se misturam com os desejos dos sentidos, as tentações tornam-se mais sutis, pois a mente idealiza os objetos dos sentidos, refina os impulsos grosseiros e apresenta os desejos em seu aspecto mais sedutor.

Outro estágio vem quando o aspirante está no próprio Caminho, pois mesmo ali a força aguda das velhas tentações é suficientemente forte para assaltá-lo.

É nessa conexão que temos a declaração na nota do Mestre, que mostra ao discípulo como ele pode utilizá-las; ele pode pesar, observar e testar essas seduções, aguardando pacientemente o momento em que elas não mais o afetarão.

477. Quando o centro de consciência se separou do corpo de desejos e se moveu para o plano manásico, um avanço considerável foi feito.

O homem não olha mais para o corpo de desejos como sendo ele mesmo, mas meramente como um veículo.

Contudo, suas vibrações ainda podem afetá-lo, pois ele tem uma vida própria, e às vezes é como se os cavalos tivessem fugido com ele.

Esse é o estágio mencionado no Kathopanishad, quando o condutor refreou os cavalos e eles estão indo tranquilamente, mas ainda estão sujeitos a se desgovernar de vez em quando.

O discípulo sabe quando eles fugiram pela excitação dos sentidos.

É um estágio de grande provação.

Toda a natureza do homem é envergonhada e dolorida pela degradação; ele não pode ceder sem sofrimento.

Em sua condição normal de consciência, os sentidos não o atraem; ele não sente as tentações do corpo, que são realmente astrais.

Contudo, há momentos em que ele as sente.

Isso acontece porque o antigo molde do desejo não está desfeito, e ele foi vivificado de fora.

O canal não desapareceu, embora esteja se desgastando, e existe o perigo de que ele seja subitamente preenchido de fora, e então a forma-desejo é revivificada.

Influências astrais causam vibrações nele suficientemente fortes para afetar novamente a consciência do homem; deixado a si mesmo, não o afetaria; mas ele chega a um lugar, tempo ou pessoa por causa dos quais fortes influências externas vibram através dele e revivificam essa antiga forma.

478. Elas devem ser reconhecidas como vindas de fora, não de si mesmo, portanto o discípulo deve compreender o que são.

Com vergonha, degradação e horror, ele sente essa coisa e se pergunta como pode senti-la. A resposta é que há uma etapa no crescimento em que seduções provenientes dos sentidos podem ser experimentadas, mas não precisam ser cedidas a elas. O homem então as deixa passar. Ele diz: "Eu sinto você; eu o reconheço; eu o peso; mas recuso-me a ser movido." Esse é o significado da passagem na Kathopanishat, onde se diz que o homem chegou ao ponto em que pode conter os cavalos. Ele pode manter os sentidos sob controle.

É a última lição com relação à tentação dos sentidos.

Quando é aprendida, o poder deles sobre o homem passou para sempre.

Nunca mais terão o poder de afetá-lo; é a última luta com eles, e quando termina, a alma escapou.

479. Quando esse tempo de luta chega, e chegará para todos, depois que o centro de consciência é movido para o plano manásico, é uma ajuda imensa compreender sua natureza e saber como lidar com ele, poder dizer: "Não sou eu; é simplesmente uma vibração da natureza inferior enviada a mim; eu a rejeito; essa é minha resposta." No momento em que você a repudia, o senso de horror desaparece; você se recusa a sentir sua influência.

Quando você tiver feito isso, pode testar a si mesmo e ver sobre que parte de sua natureza ela está atuando.

Então você esperará com paciência pelo tempo em que não a sentirá mais.

Você confia na lei; senta-se e espera pacientemente, e em pouco tempo ela não conseguirá estabelecer vibrações; os sentidos não podem fazer você responder a elas.

Você diz: "Posso esperar pacientemente pelo tempo em que não sentirei essa coisa."

É uma forma morta revivificada que sinto, e em breve será desfeita e se desvanecerá. Não resta nada além de esperar — talvez por meses ou anos.

A vitória é conquistada quando você é capaz de fazer isso — o molde é quebrado.

O reconhecimento da sua paciência dá o último golpe para despedaçá-lo, e nunca mais poderá afetá-lo, a menos que você volte as costas à meta, o que parece impossível.

480. Há outra coisa para a qual essa experiência é valiosa; até que você a tenha atravessado, não pode ajudar a pessoa que cede.

Você não pode ajudar nenhum ser humano a menos que esteja acima dele, e, no entanto, não pode erguer ninguém a menos que compreenda o que ele está sentindo.

Há um estágio em que você mesmo está nas garras do desejo; não pode então ajudar outros que estão na mesma dificuldade.

Mais tarde, você escapa.

Você repele o desejo e alcança um ponto em que não consegue compreender por que outro homem deveria cair em tentação; não compreendendo os sentimentos dele, não pode ajudá-lo; pode apontar-lhe o mal, mas não pode dar ajuda espiritual.

Não pode derramar força nele porque está fora dele, e como não está sentindo com ele, sente um choque de horror.

Quando sente esse horror, você é inútil.

Nunca pode ajudar alguém de quem se sente repelido; é melhor deixá-lo em paz quando se sente assim.

Você deve ser capaz de sentir com uma pessoa para poder ajudá-la.

481. Mesmo que você possa sentir com uma pessoa, não pode ajudá-la se ela ergue um muro ao seu redor; nesse caso, é melhor abandoná-la por um tempo, pois a ajuda dada de fora não serve.

Você pode ter que desistir de tentar ajudar uma pessoa no plano físico, mas não precisa parar de fazê-lo de dentro.

Ajudar de dentro exige mais coragem do que fazê-lo de fora.

É muito mais gratificante dar conselhos e orientações externos; é muito mais satisfatório para a natureza inferior do que dar ajuda interna e invisível.

482. Outra coisa — se você pode ajudar uma pessoa, não se deixe desviar pela opinião de outra pessoa de que ela não merece ajuda, nem pela ideia dela mesma de que você não a está ajudando.

H.P.B. às vezes era condenada por seus próprios discípulos.

Diziam coisas duras sobre ela, mas ela era boa e forte, e não os repeliu, mas continuou ajudando-os de dentro, deixando-os pensar o que quisessem.

Ao ajudar de dentro, desgastamos a antagonismo.

Quando você sentiu antagonismo, antipatia mental em relação aos outros, possivelmente até mesmo em relação ao seu próprio mestre, como às vezes acontece, você talvez os culpe.

Onde você sentiu um muro, pensou que era o muro deles, mas mais tarde percebe que o muro era uma ilusão — uma coisa que você mesmo criou no plano mental.

Ao atravessar este estágio, construímos muro após muro e sofremos pela existência dos muros, até que os derrubamos.

483. Há um estágio ainda mais elevado, que é difícil de explicar.

Existem homens que fazem um elo entre os Grandes Seres e a massa da humanidade.

Como foi dito de Jesus, eles sentem os sofrimentos dos homens e suas tentações e, no entanto, são sem pecado.

É o estágio em que a pessoa está em um corpo de desejo absolutamente puro; toda matéria morta foi eliminada dele, e apenas o poder de refletir imagens é retido.

O homem é incapaz de pecar.

484. Suponhamos que tais pessoas não existissem; não haveria elo entre a humanidade e os Grandes Seres.

Eles preservam um elo, e em Sua perfeita pureza sentem em Si mesmos os sofrimentos dos outros.

Este estágio vem imediatamente antes do do Mestre; é o último estágio do Arhat.

Um Mestre não pode sofrer dor, Sua consciência é tão perfeita; Ele pode imaginar experiências passadas sem sofrimento.

A experiência é para Ele uma imagem perfeita, sem dor.

Mas na condição avançada do estágio anterior a esse, embora o homem não possa pecar e a personalidade seja pura, ela ainda transmite um senso de sofrimento.

485. Nos livros exotéricos, este estágio é às vezes confundido com o dos Mestres, e um sentimento de sofrimento é atribuído a Eles.

É no estágio anterior a esse que há sofrimento, onde aqueles no estágio do Arhatismo compartilham o trabalho do Mestre, sem terem perdido a suscetibilidade de sentir dor.

O Mestre transcende todo sofrimento.

Os Arhats participam da construção do "muro de guarda", mas o constroem com dor.

As pessoas tendem a aplicar ao Mestre o que é verdadeiro apenas para discípulos superiores, que ainda estão em um estágio onde o pecado é transcendido, embora o poder de sofrer permaneça.

486. No nível inferior, podemos simpatizar com os amigos até perdermos todo senso de diferença, e devemos sofrer se simpatizarmos tão profundamente.

Até que ahamkara seja transcendido, simpatia e sofrimento devem andar de mãos dadas.

Se sairmos deste estágio cedo demais, perdemos nosso poder de simpatia; essa é uma das tentações no Caminho.

Os Grandes Seres recuam mesmo quando já alcançaram o último estágio, porque se perderem inteiramente o sofrimento, perdem a simpatia, e se a simpatia não é perfeita, o muro da separatividade não é derrubado.

487. Mas não condeneis o homem que sucumbe; estendei-lhe a mão como a um irmão peregrino cujos pés se tornaram pesados de lama.

Lembrai-vos, ó discípulo, que por maior que seja o abismo entre o homem bom e o pecador, é maior ainda entre o homem bom e o homem que alcançou o conhecimento; é imensurável entre o homem bom e aquele que está no limiar da divindade.

Portanto, sede cauteloso para não vos imaginardes, cedo demais, como algo à parte da massa.

488. A.B. — Aqui nos é dito que não devemos condenar o homem que sucumbe à tentação.

Quando tiverdes passado pelo estágio de provação, não haverá receio de que condeneis alguém.

Quando as tentações forem transcendidas, e pensardes no tempo em que ainda as sentíeis, não condenareis o homem que sucumbe.

489. A diferença entre o homem virtuoso e o vicioso é comparativamente pequena; ambos lutam nos estágios iniciais, e quando observados de qualquer dos lados, a diferença é pequena.

Mas quando um homem alcançou o conhecimento e viu o significado da virtude e do vício, ele deu um passo enorme.

Quando ele vê a virtude e o vício apenas como o par de opostos, transcendeu o conhecimento; ele está no limiar da divindade, e a diferença é imensurável.

Temos aqui a advertência de que, se cedo demais nos julgarmos à parte da massa, virá a tentação de desprezar aqueles que estão abaixo de nós, e então cairemos.

Uma pessoa que alcançou a divindade não olha para ninguém com desdém; ela pode sentir com todos, e é una com o mais humilde.

490. Quando tiverdes encontrado o início do caminho, a estrela de vossa alma mostrará sua luz; e por essa luz percebereis quão grande é a escuridão na qual ela arde.

Mente, coração, cérebro — tudo é obscuro e sombrio até que a primeira grande batalha seja vencida.

Não vos espanteis nem vos aterrorizeis com a visão; mantende vossos olhos fixos na pequena luz, e ela crescerá.

Mas deixai que a escuridão interior vos ajude a compreender a desamparo daqueles que não viram luz alguma, cujas almas estão em profunda penumbra.

491. A.B. — Quando olhamos para cima, para a região do Atma, e adoramos a luz interior, veremos a luz à medida que ela se torna mais forte.

Quando você vê essa luz pela primeira vez, recebe um toque de consciência pelo qual enxerga a escuridão em que ela arde; o contraste a revela para você.

É então essa escuridão interior que o ajudará a compreender o desamparo daqueles que não viram luz alguma.

É por eles que a compaixão verdadeira se faz necessária.

Não há necessidade de sentir sofrimento pelas pessoas depois que elas sabem que existe luz.

Compaixão é necessária para aqueles que não sabem que estão na escuridão, mas estão imersos em coisas triviais e, ainda assim, julgam-se sábios.

A escuridão deles é tão grande que realmente não sabem o que lhes causa tanto sofrimento.

São essas as pessoas para quem os Grandes Seres enviam compaixão.

492. Aqueles que viram mesmo que um pouco de luz estão progredindo em coisas das quais os homens do mundo não tiveram sequer um vislumbre.

Uma vez que a luz é vista, esse tipo de compaixão não é necessário.

Se um homem assim é visto sofrendo, reconhece-se que ele está derrubando o muro rapidamente, e que é bom para ele poder fazê-lo.

493. C.W.L. — Quando começamos a ter conhecimento da existência da alma, percebemos um grande fato do qual a vasta maioria da humanidade nada sabe.

A maioria das pessoas — mesmo as chamadas religiosas — não tem certeza da existência da alma.

A maioria delas vive inteiramente com vistas a este mundo.

Podem manter uma crença teórica na imortalidade da alma, mas as coisas do mundo são mais importantes para elas, e suas vidas são apenas em casos relativamente raros guiadas por essa crença.

494. Para que a "estrela da alma" possa se manifestar, devemos primeiro estar certos da existência da alma; devemos conhecê-la como algo dentro de nós mesmos.

Quando colocamos nossas afeições nas coisas superiores, quando conhecemos certas verdades dentro de nós mesmos e nada pode abalar sua realidade para nós, a estrela começa a mostrar sua luz — há um tênue reflexo dela. Por esse pequeno brilho, vemos quão densamente ignorantes fomos e ainda somos; esse é o primeiro sentimento que temos ao adquirir um pouco mais de conhecimento.

495. "A primeira grande batalha" é a batalha contra os sentidos.

Em sua luta constante contra eles, o homem se colocou em oposição à sua natureza inferior e saiu vitorioso.

Quando o brilho da luz chega, vemos quão escuro foi o caminho, como todas as nossas ações, e até mesmo nossas afeições, foram sem aquela direção que as torna reais.

A pequena luz faz tudo parecer irremediavelmente errado; faz-nos sentir impotentes, mas não devemos nos apavorar com a visão.

496. Não os culpe.

Não recue diante deles, mas tente erguer um pouco do pesado karma do mundo; dê sua ajuda às poucas mãos fortes que impedem os poderes das trevas de obterem vitória completa.

497. C.W.L. — Devemos ter cuidado para não entender mal esta passagem.

As poucas mãos fortes são a Grande Fraternidade Branca.

A luta não é contra o diabo, como o cristão a coloca, nem devemos pensar nos magos negros como detentores dos poderes do mal.

É a força avassaladora da matéria que aqui se quer dizer com poderes das trevas.

Nossa ajuda no esforço para superá-los é necessária e é calculada — faz parte do plano.

498. Há apenas algumas mãos fortes ajudando atualmente porque a nossa humanidade ainda evoluiu poucos Adeptos.

O Logos baseou Seu plano na ideia de que, assim que houver aqueles que o compreendam, eles cooperarão com ele. Isso é demonstrado pelo fato de que, até meados da quarta raça-raiz, e até mesmo um pouco além desse tempo, todos os grandes cargos relacionados com a evolução do mundo eram ocupados por pessoas que não pertenciam à nossa humanidade.

Alguns vieram até nós de Vênus, outros da Lua.

Eram grandes Adeptos que eram verdadeiramente livres, que poderiam ter partido inteiramente para reinos superiores.

Mas, após o ponto médio da evolução, esperava-se que nós mesmos desenvolvêssemos nossos próprios Mestres, e o Senhor Gautama Buda foi o Primeiro deles.

É claramente intencionado que não apenas forneçamos os grandes oficiais, como os Budas e Cristos, mas também que todos nós, em nosso nível muito mais baixo, estejamos cooperando inteligentemente e tentando impulsionar a evolução o máximo que pudermos.

499. Então você entra em uma parceria de alegria, que traz de fato trabalho terrível e profunda tristeza, mas também um grande e sempre crescente deleite.

500. A.B. — Isso significa que entramos em relação com Aqueles cuja vida é bem-aventurança, mas, lado a lado com essa experiência, ainda há tristeza porque sentimos a escuridão em que as pessoas estão. Você sente tristeza pelas pessoas, porque ainda não está no ponto de dizer, ao ver o sofrimento: "Sim, está bem." Nesta fase, surge um sentimento sutil sobre prazer e dor que não existe no mundo inferior; você sente mais intensamente até que a luz se torne perfeitamente clara, porque a luz mostra a escuridão.

Contudo, um deleite crescente virá, pelo reconhecimento da lei.

Mais do que isso, nenhum ser é infeliz nas profundezas fundamentais de sua consciência, porque todos são partes da vida divina, que é a própria felicidade.

Cada vez mais, à medida que progride, o discípulo contacta essas profundezas, até que por fim percebe, usando as palavras do Gita, que estava se lamentando por aqueles que não deveriam ser lamentados, que o sábio não se lamenta nem pelos vivos nem pelos mortos.

Por que alguém deveria se lamentar por um ser que é fundamentalmente feliz?

501. O discípulo entra em uma parceria de alegria, mas essa mesma parceria traz labuta e profunda tristeza, porque ele oscila de uma condição para a outra.

Ele deve aprender a sentir a alegria interior e, ainda assim, não perder o contato com os princípios inferiores dos outros, nos quais a tristeza deles é sentida.

Ele deve sentir isso também, mas não deve ser dominado por isso. O Caminho é tão estreito quanto o fio de uma navalha, mas devemos manter perfeito equilíbrio sobre ele, enquanto os pares de opostos atuam sobre nós. Uma grande função do Mestre é preservar nosso equilíbrio.

O pupilo estará oscilando de um lado para o outro.

Quando a obscuridade vier, o Guru lhe enviará a lembrança da parceria de alegria; quando ele tender a perder completamente o contato com as tristezas do mundo, virá o lembrete da tristeza.

502. Por muito tempo, o discípulo está sujeito a essas oscilações.

Não alcançaríamos a perfeição a menos que experimentássemos as coisas diferentes separadamente, antes de atingirmos o equilíbrio.

É a experiência da humanidade que temos de aprender uma lição de cada vez, para que possamos dar-lhe total atenção.

O discípulo que trilha o caminho é lançado de um lado para o outro, até aprender a manter o equilíbrio.

Às vezes, uma obscuridade totalmente sem causa desce, e ele se encontra profundamente na sombra.

Ele não encontra razão para isso; apenas sabe que ela está ali — uma obscuridade que não consegue sacudir.

Se ele aprendeu a lição corretamente, aceitará isso com calma e paciência, e não tentará escapar dela. Aprenderá então simpatia e paciência, e outras lições que podem ser aprendidas na obscuridade, não na luz.

Aceito nesse espírito, o período de obscuridade não é uma coisa tão indesejável, pois toda a preocupação e o problema desapareceram dele. Devemos receber as lições e aprender sem sofrimento.

As pessoas não sofrem tanto com a obscuridade quanto com as imagens.

Como uma criança com medo do escuro, enchemos a escuridão da alma com formas de horror.

A escuridão é simples escuridão e nada mais; não contém nada além das lições que tem a nos ensinar, e todos os fantasmas, com o tempo, desaparecerão.

A escuridão jamais pode nos esmagar; a princípio nos paralisa de medo, mas por fim aprendemos sua lição.

503. Na última Iniciação, a do Mestre, o atma é visto como uma luz clara, uma estrela, e quando se expande, na derradeira ruptura do muro, torna-se a luz infinita.

Antes disso, o Arhat pode sentir a paz subjacente do atma quando em estado meditativo, mas constantemente retorna à dor.

Mas quando um homem ascende ao plano átmico em plena consciência, e a consciência búdica nela se funde, vê-se apenas uma única luz.

Isso é belamente expresso em A Voz do Silêncio: "Os Três que habitam em glória e bem-aventurança inefável, agora no mundo de Maya perderam seus nomes.

Tornaram-se uma única estrela, o fogo que arde mas não queima, esse fogo que é o Upadhi da chama."

504. Enquanto o homem estava no corpo causal, via os Três Sagrados como separados, mas agora os vê como os três aspectos do atma tríplice.

Buddhi e manas, que eram "gêmeos sobre uma linha" na consciência búdica do estágio anterior, agora são um com o atma, a estrela que arde acima, o fogo que é o veículo da chama mônada.

Então diz o Instrutor: "Onde está tua individualidade, Lanoo, onde o próprio Lanoo? É a centelha perdida no fogo, a gota dentro do oceano, o raio sempre presente tornado o Todo e a Radiação eterna." Aquele que era discípulo agora é um Mestre.

Ele permanece no centro, e o atma tríplice irradia dele.

505. C.W.L. — "Você entra em uma parceria de alegria, mas ela traz também terrível labuta e profunda tristeza", diz a nota do Mestre.

Tudo isso é verdade, mas também é verdade que a alegria sempre crescente contrabalança a tristeza.

506. Todo estudante que desenvolveu plenamente suas faculdades é, por hipótese, um homem compassivo; ele deve passar por um período de tristeza e quase desespero, por causa de toda a dor e sofrimento que vê.

Porque as pessoas são atrasadas na evolução e ainda não são razoáveis, há em evidência muito mais de sofrimento e dor, de raiva, ódio, ciúme, inveja e coisas semelhantes do que de altas virtudes, de modo que há uma preponderância de vibrações desagradáveis provenientes da humanidade.

Isto se manifesta no mundo astral, de modo que qualquer homem que se torne plenamente desenvolvido astralmente torna-se ao mesmo tempo consciente da tristeza e dos problemas do mundo — consciente apenas de maneira vaga, mas isso está sempre presente com ele como um peso que sobre ele repousa.

Constantemente, casos individuais de tristeza e sofrimento astrais que por acaso ocorrem em sua vizinhança também pressionam fortemente sobre ele.

Além disso, qualquer catástrofe que envolva grande tristeza para um grande número de pessoas influencia distintamente a atmosfera astral do mundo.

507. O estudante tem de aprender a receber isso sem ser por ele oprimido, e isso leva um tempo considerável.

Ele gradualmente aprende a olhar mais profundamente e, com o passar do tempo, começa a ver que todo esse problema é necessário sob as circunstâncias que os próprios homens criaram.

O sofrimento que sobrevém é uma necessidade por causa de sua grande negligência e frouxidão.

Se os homens tivessem sido um pouco mais cuidadosos, uma grande parte disso poderia facilmente ter sido evitada.

Mencionei antes que o sofrimento real trazido a nós pelo karma de vidas passadas é talvez um décimo daquilo que nos sobrevém, e os outros nove décimos são o resultado de nossa própria atitude errada aqui e agora, nesta vida.

Nesse sentido, há uma vasta quantidade de sofrimento inteiramente desnecessário.

Mas o outro lado do escudo é que, enquanto as pessoas persistirem em adotar a atitude errada, em pensar e agir tolamente, sob a lei eterna o sofrimento deve sobrevir-lhes; de maneira indireta, isso é distintamente bom, porque as está trazendo à consciência de sua própria tolice.

A pena é que elas precisam de tantas lembranças, que não conseguem de imediato captar a deixa e alterar sua atitude — tanto sofrimento poderia ser poupado se isso fosse possível.

508. Isso nos parece, a todos nós que estudamos o assunto, muito fácil de ver.

Abrigo, portanto, uma esperança — e penso que uma esperança bem fundada — de que o sofrimento do mundo diminuirá muito rapidamente assim que a visão de senso comum das coisas for aceita por uma minoria razoavelmente grande de pessoas.

Elas passarão a ver que estão criando seus próprios problemas para si mesmas e, com o tempo, abster-se-ão de tudo o que é indesejável, puramente do ponto de vista do senso comum.

Membros da Sociedade Teosófica deveriam estar exibindo perante o mundo um exemplo da atitude teosófica perante a vida, mas há muitos deles que, embora conheçam essas verdades, acham difícil colocá-las em prática.

Isso é natural, mas ao mesmo tempo sente-se que muitos deles poderiam adotar as novas ideias um pouco mais rapidamente, e é certo que coisas desse tipo se propagam em uma proporção definida.

Um homem pode expor um ponto de vista e causar pequena impressão; dez homens podem causar mais de dez vezes a impressão; cem homens podem causar imensamente mais de cem vezes a impressão que um único homem causaria, a menos que ele fosse um gênio raro.

Temos cerca de trinta mil membros em nossa Sociedade; creio que se todos estivessem realmente adotando essa visão filosófica superior da vida e, com isso, evitando obviamente uma grande quantidade de sofrimento, formariam um exemplo poderoso e marcante.

Dessa maneira, poderíamos ajudar um vasto número daqueles que ainda nada sabem sobre o lado superior das coisas.

509. Quando começamos a ver que o que está sendo feito é sempre o melhor — o melhor sob as circunstâncias para todos —, nossa dor não é mais do mesmo tipo que antes.

Somos igualmente solidários com os outros, mas não somos mais dominados pelo sofrimento deles; simpatizamos com eles, mas não compartilhamos de seus sentimentos.

Os Mestres são profundamente solidários com as pessoas que sofrem, e, no entanto, não poderíamos dizer que Eles Mesmos compartilham desse sofrimento, por causa de Sua visão interior.

Como já disse antes, um Mestre nunca está triste, nunca está deprimido.

Pareceu-me às vezes, contudo, como se mesmo Eles pudessem ficar decepcionados com as pessoas.

Não sei se deveria dizer sequer isso, mas sei disto: que Eles fazem esforços muito fortes às vezes para produzir certos resultados, e, no entanto, esses resultados, por falha de Seus instrumentos, não se produzem.

Não sei se Eles preveem desde o início que esses esforços fracassarão.

Não posso deixar de sentir que em muitos casos Eles preveem, mas ainda assim os fazem exatamente como se esperassem que fossem bem-sucedidos.

Por exemplo, muito trabalho foi feito antes da grande guerra na tentativa de evitá-la. Esse esforço fracassou, mas se os Adeptos que o iniciaram sabiam desde o início que tal seria o resultado, não sei: Eles trabalharam nisso como se esperassem que fosse bem-sucedido.

510. Madame Blavatsky, em muitos casos, oferecia às pessoas oportunidades de maneira semelhante.

Às vezes, ela fazia todo o possível para persuadi-las a aceitá-las, quando sabia desde o início que não o fariam. Lembro-me bem de uma ocasião em que algumas pessoas vieram até ela para fazer perguntas.

Pareciam-me obviamente inadequadas para qualquer conhecimento ou trabalho teosófico, pois não estavam de modo algum no estado de espírito em que isso lhes seria útil.

Ela falou com esses meros estranhos casuais e contou-lhes sobre coisas bastante íntimas que esperava fazer na Sociedade.

Eram pessoas bastante zombeteiras, que não pareciam nem um pouco dignas de tal confiança, e quando se retiraram, a Condessa Wachtmeister disse: "Madame, por que a senhora contou àquelas pessoas essas coisas? Parece certo que não são o tipo de pessoas a quem isso faria algum bem.

Elas apenas irão embora e zombarão, e talvez nos causem dano." Madame Blavatsky respondeu: "Bem, minha querida, algum karma as trouxe até mim, e devo dar-lhes a sua chance, e fazer tudo o que puder por elas." Ela pensava que, ao confiar-lhes até certo ponto dessa maneira, estava dando-lhes uma chance.

Não posso dizer, e ela podia, quão próximas elas estavam interiormente de aceitá-la, mas na superfície sua atitude era a atitude zombeteira convencional.

Nunca mais ouvimos falar delas, mas tiveram a sua chance.

Algum karma passado evidentemente lhes dera o direito à oportunidade, e embora isso não significasse nada para elas naquele momento, pode possivelmente ajudá-las um pouco a aceitá-la quando outra chance semelhante lhes surgir.

511. Nesta ocasião, Madame Blavatsky cumpriu muito plenamente a ideia de não culpar as pessoas que estão nas trevas.

Ela sabia que quanto mais autossatisfeitas estivessem, mais dignas de pena eram.

É inútil culpar alguém por ser o que habitualmente é, porque esse é o seu nível na evolução; é até onde ele chegou.

Se ele cai abaixo do seu nível médio, podemos razoavelmente dizer: "Você sabe, isso é errado; você não deveria ter feito isso", e isso pode possivelmente ajudá-lo a não fazê-lo novamente.

Mas o nível em que um homem habitualmente se encontra mostra onde ele está na evolução, e por mais atrasado que esteja, não há nada a ganhar culpando-o.

Seria tão tolo quanto culpar uma criança de cinco anos por ainda não ter dez.

512. Então, novamente, aquelas mesmas pessoas que frequentemente exibem as características menos agradáveis têm em si a potencialidade das coisas elevadas e nobres também, e às vezes estas emergem em uma grande explosão quando surge uma emergência.

Como expliquei antes, há homens cujas vidas ordinárias estão certamente em um nível muito baixo, mas em alguma grande emergência podem demonstrar um desprendimento que os capacita a lançar suas vidas fora em prol de um companheiro.

O homem sempre tem o deus interior, e ele se manifesta às vezes quando menos esperamos. Porque está lá, é sempre possível apelar a ele. Nem sempre podemos alcançá-lo, porque está profundamente sepultado, mas na maioria dos casos somos capazes de vislumbrá-lo de alguma forma.

513. A visão do sofrimento do mundo também traz, como se diz aqui, terrível labuta; uma vez tendo visto essa vasta massa de atraso e miséria, não podemos deixar de trabalhar o tempo todo para alterá-la. Não há mais nada a fazer.

Nunca podemos voltar ao mundo e ser indiferentes à existência do sofrimento e da dor, uma vez que realmente os tenhamos sentido. Contudo, por trás da labuta há um grande e sempre crescente deleite.

Isso vem do reconhecimento da lei; vemos o significado do sofrimento e o bem que dele há de advir. Notai as palavras: "Entrais em uma parceria de alegria." Essa é a verdadeira beleza desta vida superior.

Entramos em parceria com os grandes seres.

Sentimo-nos trabalhando para e com Eles, e isso por si só é uma alegria tão grande que nos sustenta através do trabalho que, de outra forma, poderíamos sentir impossível de realizar.

CAPÍTULO REGRA

514. 21. Procura a flor desabrochar no silêncio que se segue à tempestade: não antes.

515. Ela crescerá, brotará, fará ramos e folhas e formará botões, enquanto a tempestade continuar, enquanto a batalha durar.

Mas não até que toda a personalidade do homem seja dissolvida e derretida — não até que seja mantida pelo fragmento divino que a criou, como mero sujeito para grave experimento e experiência — não até que toda a natureza tenha cedido e se tornado sujeita ao seu Eu Superior, poderá a flor se abrir.

Então virá uma calma como a que surge em um país tropical após a chuva pesada, quando a natureza trabalha tão rapidamente que se pode ver sua ação.

Tal calma virá ao espírito atormentado.

E no profundo silêncio ocorrerá o misterioso evento que provará que o caminho foi encontrado.

Chame-o pelo nome que quiser, é uma voz que fala onde não há quem fale — é um mensageiro que chega, um mensageiro sem forma ou substância; ou é a flor da alma que se abriu.

Não pode ser descrito por nenhuma metáfora.

Mas pode ser sentido depois, procurado e desejado, mesmo em meio à fúria da tempestade.

516.   C.W.L. — O desabrochar da flor é o desenvolvimento, o desdobramento da alma.

A pior característica da dor e do sofrimento aqui embaixo é a sensação de que se está desamparado.

As pessoas se envolvem em todos os tipos de lutas e, em muitos casos, pensam que estão predestinadas ao fracasso.

Dirão: "Ouvi falar de certas pessoas que progrediram rapidamente, mas não há chance para mim." Elas se sentem sem esperança porque não sabem.

Nunca mais poderemos ter esse sentimento quando a alma uma vez se desdobrou, porque sabemos.

Ainda teremos lutas, problemas e dificuldades, mas sabemos com certeza que, como almas, somos invencíveis.

517.   Como aqui se diz, é no silêncio e na calma que a alma cresce.

As pessoas nos dizem — e penso que muitas vezes enfatizam isso de modo bastante exagerado — que a alma cresce através do sofrimento.

Colocada dessa forma, a afirmação não é inteiramente correta.

É cometendo erros e corrigindo-os que a alma aprende a crescer, e o sofrimento invariavelmente vem como resultado dos erros; mas, como expliquei antes, o crescimento não ocorre durante o sofrimento, e sim depois.

Uma pessoa pode ficar muito melhor após uma operação cirúrgica, mas a melhora não ocorre enquanto a operação está sendo realizada.

(1 Ante. p. 100.) Da mesma maneira, enquanto as pessoas estão nas agonias de todo tipo de dificuldades terríveis, elas não estão crescendo, mas, pela maneira como enfrentam essas dificuldades, podem estar aprendendo a crescer depois de as terem superado.

É no silêncio que se segue à tempestade que a flor cresce.

É possível que as plantas desenvolvam força dentro de si ao suportar uma tempestade, mas o crescimento só pode vir quando o açoite da tempestade termina.

Devemos ter passado pelo turbilhão da batalha antes de alcançar essa grande recompensa da vitória, o verdadeiro desdobramento da alma, que traz consigo uma calma certeza que nada mais poderá jamais abalar.

518.   O mundo inteiro está clamando, por assim dizer, por essa certeza acerca das coisas superiores.

Tão ávidas estão as pessoas que qualquer charlatão que professe ter conhecimento direto é imediatamente assegurado de seguidores.

Qualquer professor que esteja sinceramente empenhado sempre atrai pessoas ao seu redor, porque as religiões do mundo falharam lamentavelmente em dar qualquer satisfação real.

O ponto fraco da maioria dos ensinamentos religiosos em relação a todos esses assuntos é que eles não explicam; simplesmente estabelecem a lei — lei perfeitamente boa — como "Não matarás", mas não explicam em detalhe por que todas essas coisas são erradas.

Por exemplo, no que diz respeito à ira e aos pensamentos malignos, nada é ensinado sobre o mal causado dessa maneira, desde que não se manifeste em palavras ou ações.

No entanto, Cristo falou claramente o suficiente sobre questões dessa natureza.

Ele declarou enfaticamente, com relação ao sétimo mandamento, que um homem que olhasse de maneira imprópria para uma mulher já teria cometido o pecado em seu coração, mas não há registro de que Ele tenha dado qualquer explicação sobre a maneira como a forma-pensamento atua, o que teria tornado Seu ensinamento sobre esse ponto muito mais compreensível.

519. O primeiro passo para alcançar a certeza direta sobre a verdade espiritual ou superfísica é, em efeito, o primeiro passo em todo progresso oculto — o domínio da personalidade.

Quando alcançamos isso, a paz vem imediatamente, e então descobrimos que estávamos vivendo em meio a uma atmosfera de paz sem o saber; porque nós mesmos criamos uma pequena tempestade ao nosso redor, e por isso a paz não existia para nós, mesmo que alguns de nossos vizinhos pudessem estar vivendo nela o tempo todo. Quando essa faculdade da alma, essa certeza, é alcançada, nada jamais parece o mesmo novamente, porque então não podemos mais ter qualquer senso de desesperança.

Aquilo em que meramente acreditamos pode nos falhar num momento crítico, porque a base de crença que satisfaz um homem num momento nem sempre o satisfaz em outro, quando talvez ele esteja sob tremenda tensão.

Mas essa certeza sempre satisfaz.

Quando uma vez vimos e conhecemos por nós mesmos, ainda que essa visão e esse conhecimento possam se afastar de nós e não possamos mais nos apegar a eles, podemos sempre dizer: "Eu vi; eu conheci; neste momento não sou capaz de ver ou conhecer, mas eu vi, eu conheci", e essa certeza nos sustenta.

520. De fato, quando temos essa experiência direta, achamos muito difícil nos imaginar de volta à condição em que estávamos antes.

Ela muda toda a nossa atitude em relação a tudo no mundo.

Acontecimentos que pareciam de grande importância antes são vistos como de muito menor significado; agora que conhecemos a grande verdade interior da vida que realmente importa, a vida exterior, que não importa, ocupa seu devido lugar.

Contudo, temos de lembrar que a maioria das pessoas que encontramos ainda está onde nós estávamos antes de termos essa expansão de consciência, e às vezes é um pouco difícil não lhes faltar com simpatia, porque elas perseguem fogos-fátuos.

Esquecemos que até ontem estávamos fazendo a mesma coisa.

521. O silêncio pode durar um momento de tempo ou pode durar mil anos.

Mas ele terminará.

Contudo, você levará sua força consigo.

Uma e outra vez a batalha deve ser travada e vencida.

É apenas por um intervalo que a natureza pode ficar imóvel.

522. O momento real do completo desabrochar pode ocorrer em qualquer ponto da carreira de um homem; isto é, quando chega o tempo para a alma se desabrochar, ela pode fazê-lo quer tenha um corpo físico ou não naquele momento; o silêncio duraria apenas um momento, ou apenas um tempo muito curto, aqui no plano físico, mas poderia muito bem durar mil anos se o homem estivesse no mundo celestial.

Ele virá em algum momento para todos, e uma vez alcançado nunca pode ser perdido.

Contudo, é apenas por um momento que a natureza pode ficar imóvel, porque a evolução está continuamente em andamento, e ficar parado não é evoluir.

Foi dito que no ocultismo nenhum homem fica parado, que ele está sempre ou retrocedendo ou avançando.

Não sei se isso é realmente assim, mas é bastante certo que, se ele não está avançando, deveria examinar a si mesmo e tentar descobrir por quê.

Deveria haver um progresso constante e contínuo.

523. Chegamos agora à nota do Mestre Hilarião sobre a Regra 21.

524. A abertura da flor é o momento glorioso em que a percepção desperta; com ela vêm a confiança, o conhecimento, a certeza.

A pausa da alma é o momento de admiração, e o momento seguinte de satisfação — esse é o silêncio.

525. A abertura da flor é um processo gradual.

Mesmo enquanto o botão ainda está firmemente fechado, ele está lentamente inchando sob a influência do sol e da chuva e das múltiplas influências que atuam sobre ele. O rompimento real do botão é comparativamente súbito, mas o crescimento é contínuo.

O crescimento tem progredido antes disso; continuará depois.

Para usar outra analogia: o crescimento do frango vem ocorrendo dentro do ovo antes, e continua depois, da quebra da casca; há um ponto particular em que a casca se quebra que é, para nós, o momento dramático, embora seja realmente apenas parte de um crescimento constante.

O mesmo ocorre com o crescimento da alma.

526. Esta passagem refere-se também a um estágio particular na vida do discípulo.

Descreve os sentimentos do homem quando a primeira grande verdade da Iniciação lhe é apresentada.

As pessoas tendem a pensar que as coisas que serão ensinadas na Iniciação são muitas e variadas.

Não violo nenhum compromisso ao dizer que as grandes verdades não são todas dadas ao mesmo tempo.

Em cada estágio, um único fato é comunicado — um fato que muda a face da terra para o homem, da mesma forma que o conhecimento da reencarnação e do carma mudou nossas vidas.

Seria de esperar que, tendo um novo fato diante de si, fosse necessário ao Iniciado crescer até ele e comprová-lo. Não é assim. No momento em que o homem tem a verdade, ele a reconhece imediatamente como verdadeira: não precisa de prova.

Então vem o momento de admiração; ele se maravilha com a beleza e a perfeição dela. Somente mais tarde ele vê que isso não é tudo.

A visão posterior traz mais ao campo de visão, mas por enquanto é perfeição.

Ele também se admira de que o que é tão óbvio tenha escapado à sua atenção antes.

Então vem o momento de satisfação que é o silêncio.

527. Sabe, ó discípulo, que aqueles que passaram pelo silêncio, sentiram sua paz e retiveram sua força, anseiam que tu também passes por ele.

528. Certamente o fazem, porque aqueles que desdobraram as faculdades da alma conhecem todo o sistema e o veem em ação diante de si, e porque o veem, anseiam que todos o vejam. Eles percebem que parte desse plano é que todos devemos ajudar.

Portanto, desejam que cada um, o mais cedo possível, seja levado a ver que seu dever é auxiliar, que esse é o verdadeiro trabalho do mundo.

Todos temos trabalho subsidiário a fazer; temos nosso papel a desempenhar no palco do mundo físico, e devemos desempenhá-lo tão bem, tão nobremente, quanto pudermos; não importa o que seja, importa apenas que o desempenhemos bem.

Mas devemos lembrar que por trás disso está a verdadeira vida da alma, e essa é a coisa de maior importância.

529. Vivemos numa atmosfera em que o meio é tomado pelo fim.

A maior parte de nossa educação é construída sobre esse plano.

Por exemplo, as pessoas aprendem geometria e matemática, mas nunca lhes é mostrado que isso leva à compreensão de como o grande Arquiteto construiu Seu universo.

Enquanto as tomarmos como fins em si mesmas, elas não levam a lugar algum em particular; mas se as seguirmos como faziam os antigos que as inventaram, descobriremos que são de grande utilidade.

Pitágoras ensinou o valor dos números e da geometria, mas ensinou-o aos physikoi, isto é, àqueles que estavam aprendendo os segredos da vida.

Eles os aprendiam para compreender melhor a vida, e é desse ponto de vista que devemos estudar todas as coisas, não meramente para fazer cálculos materiais e comerciais.

530. Portanto, no Salão do Aprendizado, quando for capaz de ali entrar, o discípulo sempre encontrará seu Mestre.

531. Houve muitos mal-entendidos sobre essas palavras, “o Salão do Aprendizado”. Elas também são usadas em A Voz do Silêncio.

Os três salões ali mencionados podem ser interpretados de mais de uma maneira, como já expliquei.

532. 1 Ante. Vol. II, p. 89ss.

533. Mabel Collins, que escreveu Luz no Caminho, tomou o salão do aprendizado em um sentido muito literal, como um edifício real.

Ela fala de ter entrado astralmente nesse edifício e visto alguns desses preceitos escritos ali em letras douradas na parede.

Ela pode estar perfeitamente certa ao fazer essa afirmação.

Essa experiência pode pertencer ao método particular pelo qual ela foi ensinada, e aqueles que a ensinaram podem ter tido tal templo.

Não sei se é assim; só posso dizer que nunca o vi. Mas é bastante óbvio que muito do que é dito aqui sobre o salão do aprendizado se refere claramente ao plano astral, onde o aspirante aprende a maioria de suas lições no início.

Poucos homens ainda desenvolveram plenamente o corpo astral; a maioria ainda está aprendendo a usá-lo; portanto, muito trabalho está sendo feito nesse nível.

Os homens também estão gradualmente desenvolvendo o corpo mental, mas ainda não são capazes de usá-lo como veículo mesmo após a morte.

Qualquer pessoa que tenha desenvolvido as faculdades do corpo mental e possa olhar para os mortos, encontra-os cada um encerrado em uma casca de seu próprio pensamento, com certas vias abertas a partir dessa casca – mas apenas muito poucas, e apenas em um grau muito limitado.

O morto vive nessa casca, e não no mundo mental de forma alguma.

É por isso que ele está perfeitamente feliz com suas ideias muito limitadas.

Sem dúvida, sua capacidade de bem-aventurança seria muito maior se tivesse todo o plano mental à sua disposição e tivesse desenvolvido as faculdades que lhe permitissem funcionar plenamente nele. Como está, ele se encontra no meio de tudo isso, mas, devido às suas limitações, só pode tocar uma pequena parte do que de outra forma poderia ser alcançado.

534. Poucas pessoas desenvolveram o corpo mental a um ponto em que ele possa ser usado como veículo.

Os pupilos dos Mestres são, no devido tempo, ensinados a viajar em seus corpos mentais e a formar o que é chamado de *mayavi rupa* quando desejam trabalhar no plano astral.

Aquele que aprendeu a fazer isso deixa seus corpos astral e físico deitados na cama e, quando deseja trabalhar no plano astral, materializa um corpo astral temporário para esse fim e o deixa dissolver-se novamente assim que a necessidade dele tenha passado.

O Mestre primeiro ensina ao pupilo como isso é feito, e depois ele pode fazê-lo por si mesmo, como expliquei em *The Masters and the Path*¹.

535. A garantia de que o discípulo encontrará seu Mestre no salão do aprendizado parece ser uma contradição direta com a orientação dada em *A Voz do Silêncio*: "Não procures teu Guru nessas regiões mayávicas"². As duas passagens são perfeitamente conciliáveis se compreendermos o que cada uma significa.

O significado aqui é que, no mundo astral, o homem sempre encontrará alguém representando o Mestre.

O próprio Mestre provavelmente lidará com ele apenas em ocasiões especiais, e ele trabalhará no plano astral geralmente sob a direção de um dos pupilos mais antigos do Mestre.

536. A declaração em *A Voz do Silêncio* é meramente um aviso para não aceitarmos qualquer entidade astral casual como guia, sem saber exatamente quem ela é, pois há inúmeras entidades astrais de vários tipos que estão prontas, da maneira mais louvável, a se autoproclamarem professoras, e não são de modo algum dissuadidas pelo fato de muitas vezes saberem muito menos do que as pessoas a quem se propõem ensinar.

537. Aqueles que pedem receberão.

Mas, embora o homem comum peça perpetuamente, sua voz não é ouvida.

Pois ele pede apenas com sua mente; e a voz da mente só é ouvida naquele plano em que a mente atua.

Portanto, somente quando as primeiras vinte e uma regras forem cumpridas é que digo: aqueles que pedem receberão.

538. A primeira frase da passagem acima recorda uma muito semelhante nos Evangelhos, na qual o Cristo diz: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á." ¹ (¹ S. Mateus, 7, 7.) As pessoas geralmente interpretam isso como significando que suas preces serão respondidas e que, se baterem à porta do céu, ela lhes será aberta.

Elas pensam vagamente que, se tentarem obter a salvação, ela lhes será concedida.

Esta passagem assume um ponto de vista mais elevado e se refere claramente à verdade e ao desenvolvimento oculto.

Ela não se aplica ao homem comum, mas ao pupilo que, tendo passado pelas primeiras vinte e uma regras, alcançou a primeira Iniciação.

539. O homem que pede apenas com sua mente está se esforçando para obter conhecimento oculto, tentando perscrutar os mistérios da vida e da natureza meramente por seus poderes mentais, e o Mestre diz claramente que isso não é suficiente.

Esse homem obterá sua resposta, mas apenas no nível em que a mente atua.

Ou seja, ele adquirirá apenas uma concepção intelectual de certos assuntos.

Ainda assim, isso é algo muito bom de se ter e não deve ser de modo algum desprezado.

O homem que, ao estudar Teosofia, obtém uma compreensão intelectual firme de seus ensinamentos fez extremamente bem.

Ele então a aceita como verdadeira, porque satisfaz as exigências de seu intelecto.

Isso já é um resultado valioso, mas não é conhecimento real; não é de modo algum a mesma coisa que a certeza absoluta que provém do conhecimento adquirido no plano intuicional, e o ocultista considera apenas esse conhecimento como marcando um avanço verdadeiramente importante.

540. Não se pode ter um intelecto aguçado demais; podemos dar isso como absolutamente certo.

É bom que nos esforcemos para acrescentar ao nosso conhecimento, para desenvolver nossos intelectos fazendo algo definido, porque, como expliquei antes, nenhum grande progresso pode ser feito antes que haja desenvolvimento mental e também astral.

Em alguns casos, o homem que obtém uma compreensão intelectual do sistema teosófico pode correr um risco considerável de exaltar indevidamente seu intelecto.

Ele pode ser tentado a criticar, a sentir que poderia ter planejado o universo muito melhor do que ele está atualmente organizado.

O homem que faz isso está fazendo um uso totalmente errado de seu intelecto e se prejudicará.

Seria muito melhor para ele se pudesse adquirir algum desenvolvimento na linha de sentir mais profunda e intensamente.

Mas se, juntamente com seu desenvolvimento intelectual, o homem puder reter a humildade, se, enquanto apreende o máximo que puder do sistema, ele puder, contudo, dentro de si e externamente, abster-se de julgá-lo, então somente o bem resultará de seu desenvolvimento.

541. Sempre nos dizem que devemos seguir nossa própria consciência.

Os ditames da consciência vêm de cima e representam geralmente o conhecimento do ego sobre o assunto.

Mas o próprio ego ainda está apenas parcialmente desenvolvido.

Seu conhecimento sobre qualquer assunto dado pode ser bastante pequeno, ou mesmo impreciso, e ele só pode raciocinar a partir das informações que tem diante de si.

Por causa disso, a consciência de um homem frequentemente o desencaminha.

Às vezes acontece que um ego jovem e que sabe pouco pode, no entanto, ser capaz de impor sua vontade à sua personalidade.

Como regra geral, o ego subdesenvolvido também é subdesenvolvido em seu poder de se impor sobre seus veículos inferiores, e talvez isso seja até bom.

Às vezes, porém, um ego que carece de desenvolvimento em tolerância e amplo conhecimento pode ainda ter uma vontade suficientemente forte para imprimir em seu cérebro físico ordens que mostrariam que ele era um ego muito jovem e não compreendia.

1 Ante., Vol.

I, Parte IV, Cap. 6: Confiança.

542. Não podemos deixar de obedecer à nossa consciência, mas certamente poderíamos tentar verificá-la e confirmá-la por certos fatos amplos que ninguém pode contestar.

Pode ser que os Inquisidores estivessem agindo sob os ditames de sua consciência às vezes, mas se eles tivessem comparado as grandes regras amplas de que deveriam amar uns aos outros, que seu suposto líder, Cristo, lhes havia dado, com a consciência que ditava assassinatos, torturas e queimadas, eles teriam esperado e dito: "Manifestamente algo está errado.

Pelo menos consultemos antes de seguir nossos instintos neste assunto particular." Eles teriam feito muito bem em buscar tal conselho, para testar essa consciência, pelas regras gerais vindas Daquele que eles próprios reconheciam como infinitamente maior do que eles.

Eles não pensaram nisso; assim veio muito mal ao mundo.

Muito poucas pessoas pausarão e considerarão em um caso desse tipo, embora se possa facilmente ver que é a única coisa segura a fazer.

543. Portanto, devemos usar nosso intelecto de tal maneira que ele seja um instrumento do ego, e não um obstáculo no caminho de seu desenvolvimento.

Portanto, quando a consciência parece nos ditar algo que está claramente contra as grandes leis de misericórdia, verdade e justiça, faremos bem em pensar cuidadosamente se a regra universal não é uma coisa maior do que esta aplicação particular que parece entrar em conflito com ela.

544. Mesmo antes de termos qualquer consciência definida no plano intuicional, frequentemente recebemos reflexos dele. Intuições ocasionalmente penetram em nossa vida diária e, embora a maioria dessas impressões do eu superior que são genuínas provenha antes do mundo causal do que do búdico, ainda assim, de vez em quando, recebemos um lampejo do conhecimento real do espírito que não pode se expressar em nenhum nível inferior ao plano búdico.

Esses lampejos inestimáveis trazem-nos um conhecimento que sentimos ser absolutamente certo, embora em muitos casos não possamos dar nenhuma razão intelectual para ele.

545. Temos razão em nos sentirmos confiantes a respeito disso, se a coisa for uma intuição real.

A dificuldade para a maioria de nós nos estágios iniciais é que nem sempre podemos distinguir entre intuição e impulso.

A Dra. Besant deu uma ou duas regras para essa distinção.

Ela diz: "Se você tiver tempo para esperar e ver, deixe o assunto permanecer por um tempo — durma sobre ele, como às vezes se diz.

Se for meramente um impulso, a probabilidade é que ele desapareça; se for uma intuição real, permanecerá tão forte quanto antes.

Então, novamente, a intuição está sempre conectada a algo altruísta.

Se houver qualquer toque de egoísmo manifestado em algum impulso proveniente de um plano superior, pode ter certeza de que é apenas um impulso astral e não uma verdadeira intuição búdica."

546. Tanto os impulsos astrais quanto as intuições do alto entram na parte etérica do cérebro físico a partir do plano astral, mas a intuição viria originalmente ou do corpo causal ou do búdico, conforme o caso. Como ambos descem do alto, é frequentemente difícil distingui-los.

Seremos capazes de distinguir infalivelmente em um estágio posterior, porque então teremos nossa consciência aberta acima do nível astral e saberemos com certeza se essas sugestões surgem no corpo astral ou vêm de um plano superior.

Atualmente, a maioria das pessoas não tem essa vantagem e, consequentemente, têm de exercer seu melhor julgamento com a mente que conseguiram desenvolver.

547. Quando as vinte e uma regras são cumpridas e o discípulo, na Iniciação, recebe um toque de consciência búdica, o conhecimento da unidade lhe aparece como um grande fato espiritual.

Após essa experiência, há uma diferença entre ele e o homem comum que pergunta com sua mente.

Frequentemente se disse que a unidade é a característica do plano búdico.

Isso, talvez, exija um pouco mais de explicação.

Pode-se conhecer algo de forma bastante completa no próprio corpo causal — conhecer a essência da coisa, porque o ego, trabalhando através do corpo causal, pensa pensamentos abstratos.

Ele não precisa descer a exemplos, pois seus pensamentos penetram até o cerne da questão.

Mas tudo isso, por mais maravilhoso que seja, ainda é feito de fora.

548. A grande característica do plano búdico é que seu trabalho é feito de dentro.

Se quisermos simpatizar com um homem, compreendê-lo plenamente para ajudá-lo, e estivermos trabalhando no corpo causal, nós, metaforicamente falando, voltamos o refletor sobre seu corpo causal e estudamos todas as suas peculiaridades; elas são bem marcadas e claramente visíveis, mas são sempre vistas de fora.

Se quisermos o mesmo conhecimento, possuindo a faculdade do plano búdico, elevamos nossa consciência ao plano búdico, e ali encontramos a consciência desse outro homem como parte de nós mesmos.

Encontramos ali um ponto de consciência que o representa — poderíamos chamá-lo de um buraco, mais do que um ponto.

Podemos nos derramar por esse buraco e entrar em sua consciência em qualquer nível inferior que desejarmos, e portanto podemos ver tudo precisamente como ele vê — de dentro dele, por assim dizer, em vez de olhá-lo de fora.

Compreender-se-á facilmente o quanto isso se presta muito mais à perfeita compreensão e simpatia.

549. Quando temos a visão mais ampla que tal conhecimento proporciona, e, tendo nos tornado um com todas essas diferentes entidades e todos os seus diferentes problemas, as estudamos de dentro em vez de de fora, podemos ver a direção na qual devemos aplicar nossa força.

Essa é outra e muito grande vantagem — que sabemos como abordar os problemas aqui embaixo.

Não quero dizer que um homem que tenha tido um vislumbre dessa unidade não cometeria erros num plano inferior; mas ele não cometeria tais erros se fosse capaz de elevar sua consciência a esse plano, olhar a coisa desse ponto de vista e então trazer a lembrança claramente para seu cérebro físico e agir de acordo com ela. Ele poderia nem sempre ter tempo para passar por esse procedimento, ou poderia não pensar em fazê-lo no momento; portanto, às vezes cometeria erros como outros homens, mas certamente teria grande vantagem na posse desse poder, não apenas pelo maior conhecimento que isso lhe dava no momento, mas também pela visão mais ampla que lhe permitiria ver em que direção suas forças poderiam ser melhor usadas para produzir os resultados desejados.

550. Ler, no sentido oculto, é ler com os olhos do espírito.

Perguntar é sentir a fome interior — o anseio da aspiração espiritual.

Ser capaz de ler significa ter obtido o poder, em pequeno grau, de satisfazer essa fome.

551. O anseio da aspiração espiritual não é o mero desejo de saber e compreender, que poderíamos ter em conexão com o corpo causal.

Pertence antes à manifestação superior do nível búdico, e é somente ali que pode ser plenamente satisfeito.

Como expliquei, o que acontece no veículo búdico, se trazido para a personalidade, reflete-se no corpo astral.

As pessoas, consequentemente, muitas vezes confundem uma explosão emocional pertencente ao plano astral com verdadeira aspiração espiritual.

552. Aqueles que estudaram ocultismo não deveriam cometer esse erro, mas os iniciantes frequentemente o fazem. Vemos com frequência exemplos disso durante reuniões de reavivamento religioso, quando pessoas bastante incultas e subdesenvolvidas são levadas a um alto estado de êxtase por algum tempo pela pregação de alguém que está ele próprio cheio de forte emoção e, portanto, é capaz de despertá-la em seus ouvintes.

Alguns dos grandes pregadores emocionais do passado tiveram esse poder de fato muito fortemente.

Não digo por um momento que eles não realizaram grande bem; sem dúvida o fizeram, mas a maior parte de seu trabalho era confessadamente o que chamaríamos de astral — visava aos sentimentos das pessoas.

553. Indubitavelmente há pessoas nas quais a aspiração superior pode ser evocada trabalhando-se de baixo, mas são muito poucas e dificilmente seriam encontradas entre as classes menos cultas.

Esta não é uma visão estreita ou iliberal, porque as condições de nascimento resultam do carma; se uma pessoa nasce em uma classe de vida na qual é inculta e sem educação, é porque mereceu esse nascimento e, portanto, as fortes probabilidades são de que seja uma alma mais jovem do que aquela que nasce com maiores vantagens.

Isso não é invariavelmente assim, porque há muitas exceções e casos especiais, mas, de modo geral, é verdadeiro.

Assim, quando evangelistas do tipo Moody e Sankey se dirigem principalmente às pessoas menos educadas, é de se esperar, no todo, que despertem apenas suas emoções, e é incerto se os resultados serão ou não permanentes.

Se a impressão causada for suficientemente forte, a memória dela sobreviverá mesmo quando a emoção diminuir, e a pessoa que foi, como dizem, "salva" poderá permanecer em seu novo e mais elevado estado de espírito.

554. Essas grandes comoções emocionais são às vezes benéficas, mas em muitos casos são prejudiciais.

Contra os casos de pessoas que, por meio delas, abandonaram permanentemente sua vida de vícios, temos de considerar aqueles outros em que danos sérios são causados, nos quais pessoas, por exemplo, são completamente desequilibradas mentalmente, tornando-se débeis mentais ou até violentamente insanas.

Casos em que um benefício duradouro resulta não são muito comuns; a grande maioria é afetada apenas temporariamente: a excitação passa e nenhum bem definido permanece.

No entanto, é uma coisa boa naqueles casos em que as pessoas são elevadas, mesmo temporariamente, a um nível mais alto.

555. Tal emocionalismo, contudo, não é permitido aos estudantes de ocultismo, porque eles estão além do estágio em que tal excitação poderia adiantar seu progresso.

Não deve haver confusão entre emoção desse tipo e a exaltação dos planos superiores.

Pessoas em tais reavivamentos frequentemente entram em uma condição extática na qual certamente perdem o controle por um tempo.

Eu mesmo vi casos em que pessoas batiam os pés, gritavam alto e eram tão arrebatadas de si mesmas que não sabiam o que faziam.

Dizem que é tudo alegria; suponho que certamente sentem isso, mas é uma emoção descontrolada e, portanto, deve ser evitada pelo estudante de ocultismo.

556. O homem que experimenta a consciência búdica também é arrebatado de si mesmo, com uma bem-aventurança tão intensa que as palavras falham completamente em expressá-la: mas ele nunca perde o conhecimento de que é ele mesmo.

Ele está em um nível superior: ele é mais ele mesmo do que jamais foi antes; não perde o autocontrole.

O êxtase que ele sente pode, de fato, produzir por reflexo uma certa emoção na personalidade — um sentimento de alegria intensíssima em todos os níveis, mas nunca uma emoção descontrolada.

Isso nunca o levaria a ações precipitadas ou mal consideradas, a esquecer-se de si mesmo ou a perder a dignidade.

Com a intensa exaltação, com a indescritível bem-aventurança da experiência superior, vem uma paz absoluta que parece preencher a terra, ao passo que as emoções inferiores perturbam o equilíbrio de uma maneira extraordinária.

557. Um clarividente que observe uma reunião revivalista verá geralmente que entidades não humanas se reúnem ao redor dela a fim de aproveitar as vastas ondas de emoção descontrolada.

A emoção é uma força tremenda, e essas ondas são, se considerarmos a medição real, coisas de tamanho e poder enormes.

Elas se lançam e se agitam pelo mundo astral nas proximidades, e produzem ali todo o efeito que uma grande tempestade mostraria no plano físico.

Há muitas criaturas astrais que se deleitam nisso.

Elas mergulham e sentem o maior prazer e excitação por causa disso. Não sabem nem se importam se a emoção é sentimento religioso, ódio ou amor; querem apenas a vibração tremenda, o redemoinho e o balanço da tempestade.

Esses seres sentem o maior prazer em girar em seus vórtices e ser levados por ela, de maneira muito semelhante à dos banhistas de surfe no mar.

Com esse propósito, essas entidades agitam a emoção entre os seres humanos o máximo que podem; simplesmente sabem que aqui há algo de que desfrutam imensamente, então se põem a trabalhar para intensificá-lo o quanto possível.

Em grande parte, são responsáveis pelas grandes explosões de força em tais ocasiões, e essas criaturas as tornam maiores, assim como um cardume de baleias se agitando em águas revoltas as tornaria mais revoltas.

Elas têm aproximadamente a mesma quantidade de inteligência que esses animais, portanto não há nada de muito espiritual nisso. Não é, como muitos pensam, uma inspiração divina, nem é exatamente digno permitir-se ser o brinquedo de criaturas desse nível.

558. Somente se, com intensa exaltação e bem-aventurança, vier ao mesmo tempo um senso de calma e paz absolutas, é que se está tocando níveis superiores; quando há excitação e perturbação, e uma perda de autocontrole, certamente se está em um nível inferior.

559. Quando o discípulo está pronto para aprender, então ele é aceito, reconhecido, admitido.

Assim deve ser, pois ele acendeu sua lâmpada, e ela não pode ser ocultada.

560. Esta é uma afirmação consoladora.

Os discípulos são sempre observados, embora muitas pessoas tenham dificuldade em perceber isso.

Os Próprios Grandes Seres explicaram que, quando Olham para o mundo, o homem que acendeu sua lâmpada se destaca como uma grande chama na escuridão geral.

Eles não poderiam deixar de vê-la. Cuidadosamente, Eles observam onde quer que a luz comece a brilhar e procuram ajudar cada pequeno clarão a se transformar em chama, para que estes também se tornem portadores de luz para o mundo.

561. As pessoas às vezes tendem a criticar imprudentemente neste assunto.

Talvez seja natural; mas seria melhor para elas se não o fizessem.

Eu mesmo conheci casos em que membros — geralmente pessoas intensamente intelectuais, muito perspicazes em discernir faltas e fraquezas nos outros — disseram: "Fulano é um pupilo do Mestre; não vejo que ele seja de qualquer forma mais apto para tal posição do que eu mesmo.

Estou há tantos anos na Sociedade; fiz tal e tal trabalho, e se um homem como esse, com certas falhas óbvias, pode ser aceito, por que não eu?"

562. Pessoas que fazem tais observações esquecem o princípio geral que está por trás de todo progresso oculto.

Sua objeção é exatamente da mesma natureza daquela que é tão frequentemente levantada contra a lei do carma.

As pessoas dizem que não conseguem ver a justiça de certas coisas que lhes aconteceram e, portanto, não existe lei de justiça.

"Justiça não se obtém — é uma ilusão." Isso seria precisamente o mesmo que dizer: "Construí uma máquina para funcionar por força hidráulica, e ela não funciona; portanto, não existe tal coisa como pressão hidráulica." Nenhum homem são diria isso; ele começaria a procurar o defeito em sua máquina, sabendo que as leis da natureza são invariáveis, e que erros não são cometidos nessa linha.

Ninguém adotaria essa atitude com relação a uma lei da ciência física; no entanto, as pessoas o fazem em conexão com a lei do carma.

Se começassem com a hipótese de que a lei do carma existe e que funciona invariavelmente, então, quando não conseguissem ver como ela opera em um caso particular, atribuiriam a culpa a si mesmos e à sua visão limitada, e não cometeriam um erro tão tolo quanto dizer que não existe tal coisa como a lei do carma.

563. Exatamente da mesma forma, se as pessoas se consideram melhores de várias maneiras do que outros que são selecionados pelos Mestres como discípulos, devem lembrar que o Mestre faz Suas seleções com julgamento infalível.

Não há dúvida de que existem muitas coisas em planos superiores que nem mesmo um Mestre ainda conhece, mas certamente, no que diz respeito a todos estes planos inferiores com os quais temos algo a ver, Seu conhecimento pode ser aceito como infalível.

Há Adeptos superiores que estão acima dos Mestres, como o Manu e o Bodhisattva, o Buda e o grande Senhor do Mundo, que devem conhecer certas coisas que nem mesmo nossos Mestres conhecem: isso é claro.

O Logos do sistema solar deve saber ainda mais, e além disso deve haver Logoi superiores que possuem conhecimento ainda mais amplo.

Mas podemos estar bem certos do julgamento e da precisão do Mestre no que diz respeito a estes planos que Ele domina completa e definitivamente.

Portanto, se Ele escolhe um homem, não está cometendo um erro.

564. Mesmo no caso raro em que um homem depois cai e age indignamente, não se segue que o Mestre tenha cometido um erro ao selecionar tal homem.

O homem deve ter tido direito a essa oportunidade esplêndida, e porque ele havia merecido esse direito, a oportunidade teve de ser-lhe dada.

Pode ter sido despendida uma grande quantidade de trabalho no treinamento de tal discípulo, e parece que foi desperdiçado; mas não é assim. Tudo isso contará em algum lugar, de alguma forma, no curso de sua evolução; isso é certo.

O Mestre às vezes oferece uma oportunidade a um homem porque ele a mereceu, embora possa haver nesse homem, juntamente com certas boas qualidades, outras menos desejáveis, que o tornariam inadequado se viessem a predominar.

No entanto, a oferta é feita porque é justo que seja feita.

565. Às vezes há laços especiais entre egos que, muitas vidas depois, culminam na relação estreita de Mestre e discípulo.

Há o caso bem conhecido de nosso falecido Vice-Presidente, Sr. Sinnett.

Há muito tempo ele era um nobre poderoso no Egito.

Seu pai havia construído e dotado um grande templo; portanto, ele tinha uma grande quantidade de influência e era praticamente o poder controlador daquele templo.

Um daqueles que agora são nossos Mestres era prisioneiro de guerra no Egito na época, e o Sr. Sinnett e eu éramos soldados no exército que O capturou.

Ele era uma pessoa distinta em seu próprio país e, consequentemente, foi designado aos nossos cuidados, pois cativos de alta linhagem eram muito bem tratados no Egito e eram recebidos por pessoas de posição correspondente à sua, desde que não tentassem escapar.

Assim, Ele viveu na casa do Sr. Sinnett por dois anos e, durante esse tempo, tornou-se profundamente interessado no trabalho oculto do Templo, desejando dele participar. O Sr. Sinnett pôde dar-Lhe a desejada introdução ao estudo oculto.

Ele fez o mais surpreendente progresso nesse estudo e, em cada vida subsequente, continuou os estudos iniciados no antigo Khem.

Numa vida posterior, tornou-se um Adepto, enquanto Seu benfeitor do Egito estava longe de alcançar esse nível.

Quando, nesta encarnação, Ele percebeu que queria difundir as verdades teosóficas pelo mundo, porque chegara o tempo em que o mundo estava maduro para recebê-las, Ele procurou alguém para fazê-lo e viu Seu velho amigo e benfeitor como editor de um grande jornal diário, bem qualificado para realizar exatamente essa tarefa.

Ele quitou essa antiga dívida dando-lhe essa oportunidade.

Sabemos quão bem e nobremente ele a aproveitou. Isso mostra que se pode ter feito um vínculo, num passado distante, com alguém que desde então se tornou um Adepto, e que a quitação da dívida por Ele naturalmente assume a forma de dar ajuda e informação, e de aproximar o homem de Si.

566. Assim, de várias maneiras, vínculos podem ser feitos, e pode bem ser que a pessoa escolhida como discípulo esteja longe de ser perfeita, mas ela não poderia ser escolhida dessa maneira particular se não fosse digna.

O fato de ainda ter certos defeitos e fraquezas não a impede, se tiver outras e maiores recomendações, se as vantagens superarem as desvantagens.

Há muitas circunstâncias que podem influir na aceitação de um discípulo específico por um Mestre.

Podemos ter certeza de que ele não pode ser aceito a menos que o mereça, mas podemos não ser capazes de ver como o mereceu. O inverso dessa proposição é igualmente certo — que ninguém que o mereça pode deixar de ser observado e aceito.

Não é sábio usar esta mente inferior, que desenvolvemos com tanta dor e trabalho, para criticar as ações dos Mestres, que sabem muito mais do que nós. Talvez nem sempre possamos entender por que Eles fazem isto ou aquilo, mas aqueles que Os seguem deveriam ao menos confiar o bastante para dizer: "Sei que o Mestre deve estar certo.

Não vejo claramente por quê."

Quanto a mim, sei que serei levado quando estiver pronto.

Minha tarefa é tornar-me apto para isso. Enquanto isso, não tenho preocupação com o que o Mestre faz em relação a outras pessoas.

567. Isso é muito mais sábio.

O mesmo se dá com o trabalho que nos é dado a fazer. Se aparentemente ele parece ser um fracasso, não devemos permitir que isso nos desencoraje. Talvez não tenhamos alcançado o resultado que esperávamos, mas podemos ter alcançado exatamente o resultado que o Mestre pretendia.

Ele nem sempre nos conta tudo o que está em Sua mente.

Ele nos designa uma obra a fazer, e pensamos que o que para nós é o resultado óbvio desse trabalho é necessariamente aquilo que Ele visa obter dele. Pode ser que Ele tenha em mente uma ideia completamente diferente.

Ele pode até desejar treinar o trabalhador de uma maneira particular — para não ser decepcionado pelo fracasso, por exemplo; ou pode ter referência a algo mais, do qual o trabalhador nada sabia.

Tive várias instâncias disso no curso de minha experiência em ocultismo.

Disseram-nos para fazer certas coisas, e supusemos que elas visavam a um certo resultado, que não veio.

Ficamos perplexos; mas em anos posteriores viu-se que algo bastante diferente não teria sido alcançado quando o foi, se aquele trabalho não tivesse sido feito.

Não tenho dúvida alguma de que, nesse caso, o Mestre nos deu o trabalho, não com o objetivo que supúnhamos, mas com o outro objetivo do qual nada sabíamos.

568. Assim, diria àqueles que se queixam do que consideram falhas nos discípulos, e dizem que eles não deveriam ser escolhidos: "Deveis estar tendo uma visão parcial; estais usando vosso intelecto numa linha onde ele não é útil.

Se sabeis da existência dos Mestres e compreendeis algo de Seus poderes, podeis estar certos de que Eles sabem exatamente o que estão fazendo; e se não vedes o que é, afinal não é essencial que vejais.

Eles sabem; isso é o que importa." O reconhecimento nem sempre é dado a conhecer imediatamente ao discípulo.

O curso ordinário é que um homem que se mostrou digno da alta honra do discipulado seja trazido, de algum modo, a um contato próximo com alguém que já é discípulo de seu futuro Mestre, e o Mestre, por meio desse discípulo, geralmente dá algumas instruções a ele.

(1 Ante, Vol.

II, p. 66, 103.) Provavelmente o Mestre dirá ao discípulo mais velho: "Traga fulano a mim astralmente uma noite." O homem é trazido, e então o Mestre lhe diz: Tenho observado seu trabalho e penso que você talvez possa fazer um progresso maior. Ofereço-lhe a posição de aluno probacionário se você se comprometer a dedicar todas as suas energias, ou tanto quanto puder, ao serviço da humanidade, numa direção que eu indicarei. Esse é o procedimento mais usual, mas às vezes tal reconhecimento só vem após um período muito longo.

E mesmo então pode haver razões pelas quais o homem não deva saber nada disso em sua consciência desperta.

569. Lembro-me de um caso peculiar na Índia.

Havia um velho, um hindu ortodoxo, que vivera uma vida extremamente boa, útil e ativa.

Era um homem que não demonstrara egoísmo algum e se dedicara, tanto quanto podia, ao bem-estar da humanidade.

Ele primeiro lidara muito admiravelmente com todos os seus deveres familiares e depois usara todo o seu tempo e dinheiro para fazer o bem do seu ponto de vista.

Ele sempre sustentara, antes de a Sociedade Teosófica chegar ao seu conhecimento, que os grandes Rishis não apenas deviam ter existido no passado, mas também deviam existir no presente, e esperava um dia aproximar-se deles, mas era bastante humilde quanto a isso. Costumava dizer: "Sei que cabe a Eles dar o passo, não a mim. Tenho buscado Eles e tentado cumprir o que deve ser a Vontade deles todos estes anos." Por fim, um dia, um de nossos Mestres falou a este homem e disse: "Por quarenta anos observei seu trabalho e em muitos casos o guiei, embora você nada soubesse disso. Agora chegou o momento em que é melhor para você que o saiba."

570. Esse é um exemplo muito notável e parece mostrar que pode haver muitas pessoas altruístas trabalhando sob a direção de nossos Mestres, embora nada saibam de tal direção.

Pode haver razões que, nesta vida, tornem indesejável que elas saibam.

Podemos ter certeza de que o Mestre sabe o que é melhor e, se Ele não escolhe Se revelar, não precisamos por isso supor que Ele não esteja observando.

571. Nessas relações, o Mestre sempre faz exatamente o que é melhor para o homem, bem como o que é melhor para a obra, porque Ele tem a enorme vantagem de lidar com essas coisas em níveis superiores, onde não é preciso equilibrar o bem contra o mal, como nos planos inferiores, onde muitas vezes só se pode fazer o bem em uma direção quando se causa algum mal de outra forma.

Essa questão recôndita foi aludida pelo Manu, quando Ele disse que não há fogo sem fumaça.

Mas há fogo sem fumaça, bem puro sem quaisquer consequências ou associações adversas, nos níveis superiores, porque tudo coopera para o bem do todo, e o avanço do todo inclui também o avanço da unidade.

Mesmo que pareça, em alguns casos, que se causa dano, que uma pessoa é contida, é porque tal contenção é o melhor para o seu progresso naquele momento — como a poda de uma árvore, que a árvore poderia facilmente considerar um ato cruel, e no entanto é enfaticamente destinada ao seu benefício.

572. Mas aprender é impossível até que a primeira grande batalha tenha sido vencida.

A mente pode reconhecer a verdade, mas o espírito não pode recebê-la.

573. O ego envia impressões através dos planos inferiores assim que começa a despertar, mas há muitas coisas que se interpõem em seu caminho.

Ele nada pode fazer até que o corpo astral seja controlado; porque, se este é uma massa de emoções agitadas, como pode o ego enviar através desse corpo qualquer instrução coerente ou racional? A primeira grande batalha é contra as paixões, contra os sentidos, e ele deve conquistá-las; mas, quando isso é feito, ele ainda tem a mente para enfrentar, e pode ser que a mente se revele um adversário ainda mais formidável do que o corpo astral.

574. Então o Mestre prossegue falando sobre o conhecimento que é alcançado por essa intuição.

Já expliquei que, em cada Iniciação, o candidato recebe uma chave de conhecimento que lhe confere uma nova perspectiva sobre a vida, mostra-lhe uma profundidade maior, um desdobramento mais pleno, por assim dizer, do significado do ensinamento oculto.

(1 Ant., Vol. II, p. 351.) Cada vez, ao recebê-la, parece ao homem ser ela final.

Ele diz: "Agora tenho todo o conhecimento; isto é tão satisfatório, tão completo, é impossível que possa haver mais." Há uma infinidade ainda por aprender; ele está apenas no caminho do aprendizado.

À medida que avança, mais e mais será desdobrado diante dele.

O Mestre sabe precisamente em que estágio é mais útil dar determinada informação.

As pessoas frequentemente pensam que deveriam recebê-la toda de uma vez.

Isso é tão tolo quanto esperar que um professor explique cálculo diferencial a uma criança que está apenas aprendendo a tabuada.

Ela deve passar por muitos estágios intermediários antes de poder saber, mesmo remotamente, o que isso significa.

575. É exatamente assim conosco. Somos um pouco propensos, muitas vezes — novamente surge aquela presunção intelectual — a pensar que sabemos ao menos o suficiente para sermos confiados com todo o conhecimento possível.

Só posso dizer que Eles sabem melhor do que nós o que é melhor para nós, e o que é melhor para cada um é também o que é melhor para o todo.

576. Embora muitas pessoas reconheçam que assim deve ser, e que, naturalmente, o todo deve ter precedência sobre qualquer parte, elas às vezes sentem um pouco que as partes estão sendo ignoradas, que, enquanto tudo trabalha para o bem do todo, as partes individuais frequentemente sofrem no caminho.

O mundo é melhor administrado do que isso; na verdade, o que é melhor para o todo é também o melhor para cada uma das partes, e não apenas se faz justiça à humanidade como um todo, mas se faz de modo a não envolver injustiça para nenhuma das unidades da humanidade.

Estejamos certos disso e percebamos com absoluta certeza; então não teremos nenhum sentimento de dúvida ou consternação, e, aconteça o que acontecer, seremos capazes de confiar serenamente que está sendo feito para o melhor.

577. Uma vez tendo atravessado a tempestade e alcançado a paz, é então sempre possível aprender, mesmo que o discípulo vacile, hesite e se desvie.

A Voz do Silêncio permanece dentro dele, e, ainda que ele abandone completamente o Caminho, um dia ela ressoará, e o dilacerará, separando suas paixões de suas possibilidades divinas.

Então, com dor e gritos desesperados do eu inferior abandonado, ele retornará.

578. Em tal caso, haveria de fato uma luta terrível.

Não nos submetamos a isso; é melhor, enquanto ainda podemos, manter-nos bem sob controle e não nos tornarmos sujeitos de uma operação cirúrgica como a de separar o eu superior do inferior.

A luta com o eu inferior continua o tempo todo.

Se o discípulo permite que ela crava suas presas no superior e o afaste de suas maiores possibilidades, ele deve inevitavelmente sofrer terrivelmente quando chegar o momento da separação, que deve chegar, pois aqueles que entraram na corrente só podem deixá-la alcançando a margem oposta.

579. Portanto, digo: Paz esteja convosco, "A minha paz vos dou", só pode ser dito pelo Mestre aos amados discípulos que são como Ele mesmo.

580. Há um ponto muito interessante em relação à distinção que o Mestre faz aqui.

"Paz esteja convosco" é apenas uma saudação oriental comum, embora bela.

Quando dizemos "Adeus", que significa "Deus esteja convosco", é a mesma coisa, pois Deus é Paz.

O "salaam" dos muçulmanos é novamente o mesmo que "salem" em Jerusalém, e Jerusalém significa a morada da paz.

Os hindus têm a palavra "shanti", que significa paz, e o seu "namaste", que significa "saudações" ou "reverência" a Ti, é geralmente respondido com a palavra "shanti".

581. É costume escrever "Paz esteja convosco" no final dos livros no Oriente como uma espécie de saudação final ou despedida do autor ao leitor.

Mas, como o Mestre diz aqui, "A minha paz vos dou" só pode ser dito sob circunstâncias especiais.

Quando Cristo disse: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá", 1 (1 S. João, 15, 27.) Ele falava apenas aos Seus discípulos especiais.

Diz-se aqui que o discípulo que pode receber a paz do Mestre é somente aquele que é como o próprio Mestre, isto é, um pupilo aceito – talvez até mais, aquele que é o "filho" do Mestre.

Ele recebe não meramente um bom desejo de paz e bênção, o que certamente seria algo eficaz quando pronunciado por alguém que tivesse o poder de pronunciá-lo, mas mais do que isso.

O Mestre dá a Sua própria paz, a paz que nada pode perturbar, àqueles que são como Ele mesmo, que são Seus próprios filhos, parte de Sua própria natureza, compartilhando com Ele tudo o que Ele é na medida em que são capazes de receber. Isso não significa, é claro, que o pupilo seja capaz de compartilhar tudo o que o Mestre é e tem – fazer isso significaria que o pupilo era ele próprio um Adepto – mas pelo menos ele compartilha o máximo possível.

582. Há alguns, mesmo entre aqueles que ignoram a Sabedoria Oriental, a quem isto pode ser dito, e a quem diariamente pode ser dito com mais plenitude.

583. Esta é uma mensagem muito interessante e notável, que pode muito bem parecer estranha para nós, porque há muitos de nós que conhecemos algo da Sabedoria Oriental, que prestamos reverência aos grandes Mestres, que por muitos anos pertencemos a uma organização especialmente dedicada a Eles e ao Seu serviço, e, no entanto, para a maioria de nós o Mestre não pode dizer: "A Minha paz vos dou", mas apenas àqueles pouquíssimos que Ele tomou para uma relação muito mais próxima de Si mesmo.

Sendo assim, lemos ainda que a alguns que não conhecem a Sabedoria Oriental de modo algum esta bênção interior pode ser dada.

584. Como se dá isso, e quem seriam aqueles a quem tal privilégio é concedido? Seriam poucos apenas, no estágio atual da evolução, mas ainda assim poucos, sem dúvida, existem.

Para compreender isso, pensemos no que é que capacita um Mestre a tomar um discípulo tão próximo d'Ele quanto isso.

É que o discípulo entrou no mundo do Mestre, aprendeu a olhar as coisas como o Mestre as olha, e a colocar-se na atitude do Mestre diante do mundo e de tudo o que lhe pertence. Um homem pode fazer isso sem saber nada sobre a Sabedoria Oriental ou sobre o Mestre; ele pode, ainda sem esse conhecimento, ser tal homem que adotaria essa visão elevada.

A característica especial da atitude do Mestre é que ela é totalmente altruísta, que o eu inferior não entra nela de modo algum.

Ele olha para tudo do ponto de vista do plano da Divindade, e nunca por um momento traz a Sua própria personalidade para a questão; se algo é útil para a evolução humana, é bom; se é um obstáculo à evolução humana, é uma coisa má.

Embora a Sabedoria Oriental deva levar-nos perfeitamente a essa atitude se a compreendermos plenamente, podemos ver que outros, ignorantes dela, poderiam também alcançar tal atitude.

Para estar suficientemente perto do Mestre a ponto de receber a Sua paz, o altruísmo total é o primeiro e maior pré-requisito.

Pode-se estar perto do Mestre, pode-se até receber a Sua paz, e ainda assim, de dois que estejam ao Seu lado e a recebam, um pode recebê-la muito mais plenamente do que o outro.

A pessoa ignorante, embora totalmente santa e altruísta, receberá da paz do Mestre tudo o que puder receber, mas o homem que, igual a ela nesse aspecto, possuir além disso a sabedoria superior, receberá dessa paz infinitamente mais.

585. Considerai as três verdades.

Elas são iguais.

586. Esta linha é precedida por um triângulo que é usado como uma espécie de assinatura d'Aquele que a escreveu, assim como a cruz é prefixada pelos Bispos Católicos às suas cartas e documentos.

Isto é feito aqui para atrair atenção especial.

587. As três verdades às quais o Mestre Hilarion se refere são aquelas que Ele próprio enunciou em outro livro que ditou — O Idílio do Lótus Branco — que não recebeu toda a atenção que merece.

É um relato de uma vida anterior Sua, que Ele passou no Egito quando a grande religião egípcia estava em sua decadência e não era mais compreendida.

Seu esplêndido e impessoal culto havia degenerado no seguimento de uma deusa que exigia de seu povo não tanto pureza perfeita quanto paixão perfeita, e assim havia muita corrupção.

588. O Mestre, cujo nome naquela época era Sensa, era um pupilo clarividente em um templo egípcio.

Os sacerdotes do templo reconheciam seu valor como clarividente e como médium, mas não desejavam que ele ensinasse a verdadeira religião ao povo, porque isso teria interferido no sistema eclesiástico existente, e eventualmente o mataram.

No decorrer da história, depois de passar por muitas provações, ele se viu cercado por um grupo de Adeptos, entre os quais estava seu próprio Mestre, que então lhe disse o que ensinar ao povo — àqueles que haviam sido desencaminhados por ensinamentos errôneos.

Disseram-lhe para pregar apenas verdades amplas.

Temos a forma na qual as três grandes verdades foram então dadas.

Elas são precedidas pelas palavras: "Há três verdades que são absolutas e não podem ser perdidas, mas que podem, no entanto, permanecer silenciosas por falta de quem as fale." Isso significa que elas nunca podem ser perdidas porque são mantidas pela Grande Fraternidade, embora possam, em um dado momento, não ser conhecidas no mundo porque não há quem as pronuncie.

589. A primeira grande verdade é: "A alma do homem é imortal, e seu futuro é o futuro de algo cujo crescimento e esplendor não têm limite." Esta grande verdade de imediato elimina todo medo do inferno e da necessidade de salvação, porque há absoluta certeza de realização final para toda alma humana, não importa quão longe ela possa parecer ter se desviado do caminho da evolução.

590. A segunda grande verdade é: “O princípio que dá vida habita em nós e fora de nós, é imortal e eternamente benéfico, não é ouvido, nem visto, nem cheirado, mas é percebido pelo homem que deseja a percepção.” Isso significa que o mundo é uma expressão de Deus, que o homem é parte Dele e pode conhecê-lo por si mesmo quando for capaz de elevar-se ao nível em que isso possa ser-lhe revelado, e que todas as coisas se movem definitiva e inteligentemente em direção ao bem.

591. A terceira grande verdade é: “Cada homem é seu próprio legislador absoluto, o dispensador de glória ou trevas para si mesmo; o decretador de sua vida, sua recompensa, seu castigo.” Aqui temos uma declaração clara da lei do carma, a lei do reajuste, do equilíbrio.

592. Seguem então as palavras: “Estas verdades, que são tão grandes quanto a própria vida, são tão simples quanto a mente mais simples do homem. Alimentai com elas os famintos.”

593. Aqui temos um esquema de religião que pode ser ensinado a todos. Consiste em três pontos principais de crença, formulados de maneira simples, porém muito cuidadosamente expressos para evitar mal-entendidos. Poderiam ser brevemente enunciados assim: “O homem é imortal”, “Deus é bom” e “O que o homem semear, isso colherá”. Nessa forma mais simples, são adequados para aqueles que estão no estágio em que precisam de dogmas simples estabelecidos para eles.

Uma alma mais desenvolvida desejará compreender tudo isso. A ela podem ser dados os detalhes, e há o suficiente nesses detalhes para ocupar as mentes dos homens mais sábios.

594. Essas três verdades podem ser vistas; poderiam ser deduzidas da experiência, mesmo que fosse possível que fossem perdidas. Muitos egos as conhecem. Alguns as conhecem por si mesmos em primeira mão, mas há muitos outros que, no presente, pelo menos no que diz respeito às suas personalidades, estão apenas na posição de crer. Aceitam-nas porque lhes é dito que são verdadeiras por aqueles em quem confiam, e porque parecem ser evidentes por si mesmas — porque não podem, de outra forma, de maneira razoável, explicar a vida como a veem. Esse é um estágio, e um estágio muito útil, no caminho para o conhecimento real, mas, é claro, não é conhecimento direto.

Posso dizer a vocês, por exemplo: "Sei que essas verdades são realmente assim, porque em muitos planos e através de muitos anos fiz investigações e realizei experimentos que não poderiam ter resultado como resultaram, a menos que essas leis básicas fossem verdadeiras." Até agora, apenas poucos podem dizer "eu vi", mas todos devem trabalhar rumo a esse ponto, porque o conhecimento real dá a alguém um poder muito maior do que mesmo a mais definitiva convicção intelectual.

595. Quando um homem fala desses fatos, é sempre evidente se ele fala daquilo que ele mesmo sabe ou apenas daquilo que ouviu.

Isso faz diferença no efeito magnético.

Portanto, por causa dos outros, é importante que saibamos algo por nós mesmos o mais cedo possível.

Pode ser apenas uma parte muito pequena da grande verdade, mas se a conhecemos por nossa própria experiência, isso imediatamente torna mais que provável que todo o resto também seja verdadeiro, e nos dá confiança adicional.

Aqueles que têm a perfeita confiança nascida do conhecimento podem dar ajuda aos outros, ajuda que não pode ser dada até que se saiba.

É isso que torna nossos fragmentos de experiência pessoal tão úteis.

596. Há muitas pessoas que, em algum momento, em visão, em sonho ou em meditação, viram o Mestre.

Isso é, talvez, algo que não poderia ser provado a mais ninguém.

As pessoas poderiam dizer a um homem que teve essa experiência: "Talvez tenha sido apenas uma alucinação, ou imaginação"; mas ele sabe perfeitamente bem que não foi nada disso.

Ele sabe que realmente viu, e que também sentiu algo que o tornou certo de que aquele era um de nossos Grandes Mestres.

Isso é um pedaço de experiência, pequeno, mas de vasto alcance em seus efeitos.

Aqueles que foram tão afortunados a ponto de ter tido tal experiência podem ser profundamente gratos.

Eles sabem pelo menos isso, e saber um fato pertencente ao mundo superior imediatamente torna todo o resto do ensinamento mais luminoso e mais claro de seguir.

Portanto, tais experiências não devem de modo algum ser desprezadas.

597. Não há mal no fato de não sabermos perfeitamente.

Assim deve ser; está na natureza das coisas.

É quando supomos nosso conhecimento completo, quando ele é lamentavelmente incompleto, quando pensamos que sabemos tudo e condenamos outros homens que pensam de modo diferente, não percebendo que eles podem estar vendo outro lado de uma verdade de muitas faces, é que erramos.

Apeguemo-nos por todos os meios ao nosso conhecimento imperfeito, mas, ao tentarmos aumentá-lo sempre que tivermos oportunidade, nunca esqueçamos que ele é imperfeito, para não cairmos no erro de condenar alguém que talvez saiba mais do que nós. A verdade é profunda; a verdade é muitas vezes misteriosa.

Não pode ser apreendida em sua totalidade por um único homem, nem por um único corpo ou seita de homens.

Devemos gradualmente aprender a apreciar a verdade, antes de podermos conhecê-la em qualquer de seus aspectos.

A verdade sobre qualquer coisa é o modo como essa coisa se apresenta ao Logos, ao Criador, de todo o sistema.

Aquele que a fez sozinho compreende tudo, conhece todas as coisas como elas são.

Sua visão é a única visão perfeita.

Para nós, a verdade é relativa.

Não podemos ver o todo como Ele o vê; mas, embora nosso conhecimento deva ser imperfeito, ao menos não precisa ser errôneo, na medida em que alcança.

Podemos ter tanto da verdade sobre uma certa coisa que, quando chegarmos a conhecer tudo sobre ela, quando alcançarmos o Adeptado, não teremos de corrigir o que anteriormente conhecíamos, mas apenas de acrescentar a isso.

598. É uma coisa muito difícil saber o que se pode ensinar às pessoas de fora.

É bom, portanto, ter esta declaração autorizada de um Mestre, sobre certas coisas que podem ser ensinadas geralmente.

Frequentemente temos de falar sobre Teosofia a pessoas que não compartilham de modo algum nosso ponto de vista.

Ao palestrar para o público, sente-se às vezes que ajudaria a esclarecer as coisas se revelássemos algo de seu significado interno, e ainda assim hesitamos, temendo causar dano.

599. É bastante óbvio que, se tentássemos ensinar-lhes tudo o que sabemos sobre Teosofia, muitas pessoas que ouvissem não compreenderiam grande parte disso. Há pessoas com quem se sente de imediato que não se poderia falar dos Mestres, porque a ideia lhes seria totalmente estranha.

Elas provavelmente fariam algum comentário frívolo ou zombeteiro a respeito, o que nos causaria dor e lhes traria um carma extremamente ruim.

O homem que fala mal dos Grandes Seres assume sobre si uma responsabilidade muito séria, e o fato de não acreditar Neles simplesmente nada tem a ver com o resultado.

Podemos não acreditar que um certo pedaço de metal esteja quente, mas, se o segurarmos, nos queimaremos.

Pessoas que falam mal daqueles que dedicam toda a sua vida e força para ajudar o mundo são culpadas do grande pecado da ingratidão, bem como do pecado de zombar das coisas sagradas, o que é blasfêmia; e o fato de não saberem que essas coisas são sagradas não entra de modo algum na questão.

Portanto, temos que equilibrar com cuidado aquilo que dizemos, porque o único objetivo de falar é fazer o bem à pessoa a quem nos dirigimos.

Podemos causar-lhe dano em vez de bem se lhe apresentarmos algo que a faça zombar ou escarnecer.

600. Lembrai-vos do dito do Cristo, que muitas vezes não é bem compreendido, sobre lançar pérolas aos porcos.

Isso é frequentemente interpretado de forma bastante equivocada como uma comparação das pessoas a porcos.

Certamente não foi essa a intenção do grande Mestre.

Ele simplesmente quis dizer que dar as verdades interiores a pessoas que ainda não têm o conhecimento que lhes permita apreciá-las seria tão tolo quanto lançar pérolas aos porcos.

Elas provavelmente se lançariam adiante esperando receber algo para comer e, ao descobrirem que as pérolas não eram comestíveis, as pisariam na lama e então se voltariam para dilacerar o doador das pérolas por terem sido decepcionadas em sua expectativa de alimento.

As pérolas não lhes seriam de nenhuma utilidade, por mais valiosas que fossem para nós. Essa é geralmente a atitude das pessoas comuns quando lhes apresentamos verdades que não são compreensíveis para elas.

Elas não veem o seu valor; lançam-nas de lado e geralmente se irritam conosco por lhes darmos algo que consideram inútil.

601. Sempre se reconheceu que apenas verdades simples podem ser dadas à grande massa dos homens, que ainda não são altamente evoluídos.

Todas as grandes religiões tiveram alguma verdade especial que inculcaram fortemente, e se qualquer dessas verdades for tomada em sua totalidade, verificar-se-á que ela cobre a maior parte do terreno.

É muito necessário que certas ideias sejam implantadas nas mentes dos egos humanos em evolução, para que passem de religião em religião, de raça em raça, aprendendo algo de cada uma.

602. No Hinduísmo, por exemplo, a grande ideia do dever foi especialmente enfatizada.

É óbvio que quando o pensamento do dever preenche a mente de um homem, isso deve conduzir a uma vida boa e cuidadosamente ordenada.

A religião grega foi uma que enfatizou a beleza.

O grande fato cardinal que foi impresso no grego durante toda a sua vida foi que a beleza era uma expressão de Deus, e que, na medida em que um homem pudesse tornar a si mesmo e ao seu entorno belos, ele os aproximava do que a Divindade desejava que fossem, permitindo assim que o poder divino se manifestasse mais plenamente através dele.

Assim, até o menor objeto da vida cotidiana era sempre belo — não necessariamente caro, não difícil de obter, mas belo em forma e cor.

Esse foi o fato que a Grécia imprimiu no mundo — o poder da beleza.

603. No Cristianismo, a ideia central é a devoção.

A Igreja Cristã tem, por séculos, colocado diante de si a ideia de produzir santos, homens santos, boas pessoas, e ela se felicita e baseia sua reivindicação de atenção nos santos já produzidos.

Ela celebra seus dias e, de todas as maneiras, os coloca no mais alto pináculo possível.

604. Nosso exame da história desses santos mostra que entre eles estavam incluídos indivíduos de muitos tipos diferentes.

Alguns deles eram, sem dúvida, grandes, eruditos e capazes.

Outros não eram nada disso, mas eram bastante comuns e ignorantes, sendo sua grande virtude o fato de serem bons.

Somente quando chegamos a estudar profundamente é que percebemos que a religião cristã não se destina apenas a alimentar o fogo da devoção, mas também a auxiliar seu povo em todos os níveis e ao longo de todas as linhas.

605. Quando examinamos outras grandes religiões, como o Budismo ou o Hinduísmo, descobrimos que elas também estão preparadas para encontrar seu povo em toda parte.

Cada uma dessas religiões tem certos preceitos para os não instruídos, em virtude dos quais eles serão ajudados, se os seguirem verdadeiramente, a levar uma boa vida.

Elas também têm muito ensinamento metafísico e filosófico para aqueles que dele necessitam. O Cristianismo, em sua forma atual, não oferece realmente isso.

É verdade que existem os escritos dos Padres, e se voltarmos a Orígenes e Clemente de Alexandria, encontramos indícios desses ensinamentos superiores; encontramos, por exemplo, a declaração de que o Cristianismo tem seus Mistérios.

Mas o Cristianismo apresentado às pessoas por qualquer uma das grandes Igrejas, como a Grega, a Romana ou a Anglicana, é certamente uma representação mutilada do que originalmente foi.

606. Toda religião verdadeira deve ser capaz de se adaptar a pessoas em todos os níveis, de atender ao sábio e ao erudito, bem como ao devoto ignorante.

Certamente não deve exaltar o homem ignorante, porém devoto, acima do mais sábio, que deseja compreender.

Infelizmente, tem havido uma tendência distinta por parte do Cristianismo de condenar as pessoas que quiseram saber, de depreciar sua sabedoria como meramente a sabedoria deste mundo, e de considerar aqueles que assumem a atitude de uma criancinha como propensos a progredir mais rapidamente.

A alma criança deve comportar-se como tal, e toda religião deve estar preparada para encontrar e alimentar a alma criança, mas isso não é razão para que não haja alimento mais forte para aqueles que são mais avançados.

As almas que já passaram pelos estágios iniciais de crescimento há muito tempo, em outras vidas, agora desejam compreender o grande Plano — saber algo sobre o mundo em que vivem e o esquema pelo qual ele foi feito e é mantido em funcionamento.

Muitos de nossos irmãos cristãos descobriram, com grande alívio e certa surpresa, que a Teosofia era capaz de suprir-lhes esse conhecimento, sem destruir seu Cristianismo de modo algum.

Não há nada no ensino cristão original que de qualquer forma contradiga qualquer ciência, embora tenha havido uma tendência anticientífica associada ao ensino eclesiástico desde a Idade Média.

Originalmente, o Cristianismo cumpriu seu propósito tão bem quanto qualquer uma das outras fés; é somente porque ele foi especialmente infeliz na perda do ensino superior que ele necessita distintamente de complementação nos dias atuais.

607. O Chohan então conclui a Parte I com as palavras:

608. Estas escritas acima são as primeiras das regras que estão escritas nas paredes do Salão do Aprendizado.

Aqueles que pedem terão.

Aqueles que desejam ler lerão.

Aqueles que desejam aprender aprenderão.

QUE A PAZ ESTEJA COM VOCÊS

PARTE II

LUZ NO CAMINHO

CAPÍTULO

O COMENTÁRIO PRELIMINAR

609. C.W.L. — A segunda parte de Luz no Caminho pressupõe que o estudante tenha passado pela Primeira Iniciação; ela conduz o homem através dos passos do Caminho que levam ao nível de Adepto.

Mas uma segunda e mais elevada interpretação dela começa além disso, e ajuda a guiar o homem que já se tornou um Adepto para seu próximo estágio.

Swami T. Subba Row, que conhecia muito sobre esses assuntos, disse-me certa vez que havia realmente sete significados para este livro — sete maneiras pelas quais ele poderia ser interpretado — todas aparentemente em níveis diferentes, e ele disse que as interpretações mais elevadas levavam um homem até a Iniciação do Mahachohan.

Isso, naturalmente, trata de assuntos que estão absolutamente além do nosso alcance.

Não poderíamos possivelmente compreender a que se refere em um nível tão elevado, portanto é inútil para nós sequer buscar tal interpretação.

É possível que possamos formar alguma ideia de um duplo significado, mas qualquer coisa além disso certamente estará completamente fora do nosso alcance.

610. No que já estudamos, fomos instruídos a abandonar o eu inferior — a personalidade.

Na interpretação mais elevada, isso significaria abandonar a individualidade.

Assim como a primeira parte, em sua interpretação mais inferior, destinava-se a produzir a união do eu superior e do eu inferior, da mesma forma, em sua segunda interpretação, visa à unidade do ego com a Mônada; aquilo que é a segunda interpretação da primeira parte deve ser a primeira interpretação da segunda parte, pois decorre da primeira.

Seria bom para nós ter isso em mente; então, aqui e ali, poderemos vislumbrar o que deve ser o significado da próxima interpretação, ainda mais elevada.

611. Do silêncio que é paz, uma voz ressonante se erguerá.

E essa voz dirá: Não está bem; tu colheste, agora deves semear.

E, sabendo que essa voz é o próprio silêncio, tu obedecerás.

612. Tu, que agora és um discípulo, capaz de permanecer de pé, capaz de ouvir, capaz de ver, capaz de falar, que conquistaste o desejo e alcançaste o autoconhecimento, que viste tua alma em seu florescimento e a reconheceste, e ouviste a Voz do Silêncio — vai à Sala do Aprendizado e lê o que ali está escrito para ti.

613. Essa é a introdução a esta segunda parte, escrita pelo Mestre Veneziano.

Antes de tudo, talvez seja necessário referir-se às palavras iniciais: "Do silêncio que é paz, uma voz ressonante se erguerá.

E, sabendo que essa voz é o próprio silêncio, tu obedecerás." Houve muita especulação entre os teósofos quanto ao significado exato da voz do silêncio, mas agora é geralmente compreendido que a expressão nem sempre significa a mesma coisa.

O silêncio está sempre logo acima do ponto que o homem alcançou, e a voz do silêncio é a voz que desce até ele do alto, a voz do eu interior, como já vimos.

1 Ante., pp. 62-3.

614. Em todos os casos, essa voz que fala do alto é aquela que, quando ouvida, deve ser obedecida, e ao homem recém-iniciado (se tomarmos a interpretação inferior), ou àquele que alcançou o adeptado (se considerarmos a interpretação superior), essa voz diz que, enquanto ele descansa na fruição dessa paz maravilhosa, não convém descansar por muito tempo.

No silêncio, o homem permaneceu em admiração pela glória de tudo o que recebeu pela Iniciação; ele descansará em contemplação por um tempo; passará algum tempo estudando tudo sob a nova luz que lhe chegou.

Ele é agora chamado de volta pela voz, que lhe diz que ele colheu, e agora deve semear novamente.

Uma vez que o homem alcançou esse nível e obteve tudo o que ele significa em conhecimento, certeza e paz, ele deve tentar comunicar esses dons aos outros.

Ele não deve descansar satisfeito por havê-los alcançado ele mesmo.

615. O Chohan prossegue lembrando ao estudante suas qualificações: "Tu és agora um discípulo, capaz de permanecer de pé, capaz de ouvir, capaz de ver, capaz de falar." E a explicação do Mestre é que ser capaz de permanecer de pé é ter confiança.

Agora, o homem tem essa confiança porque ele sabe.

Na Primeira Iniciação, o discípulo recebeu um contato definido com o plano búdico.

Ele teve experiência relacionada a isso, não necessariamente de longa duração, mas foi definida, de modo que ele sabe por si mesmo que tal realidade existe, e que a vida é una.

616. Vem então uma longa nota do Mestre Hilarion, e podemos ver imediatamente, ao olhar para essa nota, que Ele está lidando com todo o assunto de maneira muito diferente nesta segunda parte.

Antes, Ele nos deu o que poderíamos chamar de um comentário geral sobre o que foi dito; aqui Ele explica praticamente cada palavra do texto, de modo que evidentemente Ele considera isso algo muito mais difícil de entender, exigindo explicação em vez de mero comentário.

617. Ele diz para começar:

618. Ser capaz de permanecer de pé é ter confiança; ser capaz de ouvir é ter aberto as portas da alma.

619. A expressão "portas da alma" lembra o nome em páli dado à primeira qualificação no caminho probatório, que é a discriminação entre o real e o irreal.

Em Pali, isso é chamado *manodwaravaj-jana*, que significa "a abertura das portas da mente".¹ (¹ Ante., Vol. I, Parte I, Cap. 2: Iniciação e a Abordagem a Ela.) A mente do homem torna-se aberta à diferença entre as coisas que valem a pena seguir e as que não valem, e por isso se diz que sua mente abriu suas portas para receber a verdade.

Na Iniciação, ele tem que abrir mais portas, as da alma; em outras palavras, ele tem que adquirir a consciência búdica.

Então, pela primeira vez, o homem é realmente uma alma e está olhando as coisas do ponto de vista de uma alma.

Abaixo desse nível há separação, devido à matéria, de modo que mesmo no corpo causal ele ainda está muito longe do verdadeiro significado da existência, tal como a alma o vê. Mas com a realização da consciência búdica, o homem é atraído para uma condição que difere em espécie, não apenas em grau, do que veio antes.

Portanto, atribui-se tanta importância a isso. Por isso, faz parte da Primeira Iniciação, embora nos seja inteiramente possível alcançar essa consciência separadamente e antes de chegarmos à Iniciação.

620. Ser capaz de ver é ter alcançado a percepção.

621. Embora seja verdade que o iniciado vê diretamente consideravelmente mais do que o homem comum do mundo físico vê, também é verdade que, a partir do que vê, ele pode inferir muito mais do que pode ser facilmente contado ou compreendido com precisão.

Homens ponderados há muito tempo se perguntam, discutem e argumentam se Deus existe ou não.

Nenhum clarividente treinado jamais discute essa questão, porque ele sabe.

Não quero dizer que ele vê Deus.

"Ninguém jamais viu a Deus", você lerá nas Escrituras Cristãs. (¹ 1 S. João, 1, 18.) Isso não é inteiramente verdade se você fala do Logos Solar; mas, mesmo assim, é verdade para a grande maioria dos estudantes.

Mas, embora a maioria dos homens nunca tenha visto a eletricidade, eles têm ampla prova de que tal coisa existe; o fato de termos luz e de nossos bondes serem movidos por sua ação prova-nos que existe tal força, embora nunca a tenhamos visto. Da mesma forma, o clarividente que nunca viu a Divindade solar ainda assim viu evidências suficientes de Sua obra para provar que Ele deve existir.

Essa é a nossa posição com relação a muitas doutrinas teosóficas que se referem a assuntos superiores.

Nem sempre sabemos diretamente, mas vemos os resultados.

622. Ninguém abaixo do posto de Adepto pode ver a Mônada, mas o Arhat pode saber de sua existência.

No plano nirvânico, que é o imediatamente abaixo do habitat da Mônada, vemos uma manifestação tríplice, que chamamos de espírito tríplice.

(¹ Ante, Vol. I, Parte V, Cap. 1: Libertação, Nirvana e Moksha. Vol. III, p. 212, 248.) Os raios que compõem essa manifestação tríplice estão obviamente convergindo à medida que se elevam ao ponto mais alto.

Podemos ver que eles devem tornar-se um só, embora a unidade real esteja fora do nosso alcance visual.

Os fenômenos que vemos a respeito deles indicam que eles só podem ser três facetas de um grande corpo, ou grande luz.

Assim, embora não saibamos realmente por nossa própria visão que a Mônada existe, aceitamo-la com base na evidência em que podemos confiar plenamente — o testemunho de nossos Mestres — e os fenômenos que podemos ver no plano mais elevado que podemos alcançar exigem que exista tal realidade como essa.

623. Fomos informados por esses Grandes Seres de certas coisas que ainda estão fora do nosso alcance, mas em todos os casos, quando demos um passo adicional, pudemos realizar mais daquelas coisas que nos foram ditas.

Isso nos aconteceu repetidas vezes.

Portanto, embora quando alguém atinge o nível ao qual este texto se refere eu não diga que verá o Logos, digo que verá tal evidência de Sua existência que tornará absolutamente impossível duvidar dela. Vendo isso, e também o funcionamento da lei evolutiva, obtém-se a certeza absoluta de que tudo está bem.

624. Um pouco da visão superior traz de fato a certeza de que tudo está bem, e isso é uma coisa muito grande, verdadeiramente.

Suponho que até que alguém a alcance, dificilmente saberá o que é — a certeza absoluta de que nada pode, em última instância, dar errado, de que por mais sombrias que as coisas possam parecer, isso é apenas aparência, e em breve as nuvens se romperão e a luz do sol eterna, que esteve lá o tempo todo, voltará a brilhar.

625. Talvez não seja tão difícil, com um pouco de prática, pensar que tudo vai bem para si mesmo.

À medida que atravessamos a vida, encontramos todos os tipos de problemas e dificuldades, e mesmo à parte do ocultismo, o homem de mentalidade teosófica logo passa a reconhecer que não é tanto o que lhe acontece que importa, mas sua própria atitude diante do acontecimento — que ele pode se tornar muito feliz em circunstâncias que tornariam muitas outras pessoas infelizes.

O inverso também é verdadeiro; um homem pode conseguir tornar-se infeliz em meio a circunstâncias que tornariam a maioria das outras pessoas felizes.

Portanto, pode não ser tão difícil chegar a acreditar que tudo está trabalhando para o bem no que diz respeito a si mesmo; mas é muito mais difícil acreditar nisso para aqueles que amamos, se os vemos se meterem em problemas, cometerem erros e sofrerem de várias maneiras.

É muito mais difícil acreditar que tudo está sendo devidamente administrado no que lhes diz respeito, porque naturalmente sentimos um interesse protetor; queremos protegê-los desses golpes do carma.

626. Dizem que o amor é cego.

Talvez possa cegar um pouco nesse sentido.

Minha própria experiência pessoal, no entanto, é o contrário — que uma forte afeição torna a pessoa particularmente perspicaz em relação a um defeito, a fim de que se possa ajudar a removê-lo.

O provérbio é entendido como significando que não se veem os defeitos da pessoa amada; seja como for, quando algo do senso de realidade é alcançado, um dos grandes benefícios que se obtém disso é que então se está bastante seguro, tanto por si mesmo quanto por aqueles que se ama, de que todas as coisas cooperam para o bem, e de que o resultado final será, em todos os casos, o melhor que se poderia obter.

É uma grande fonte de paz ter essa certeza.

627. Poder falar é ter alcançado o poder de ajudar os outros.

628. É significativo que Ele escolha a fala como o modo pelo qual podemos ajudar os outros mais facilmente.

Isso é verdade para a maioria de nós. Podemos fazer várias coisas no plano físico no sentido de ajudar os outros, mas talvez a maior ajuda que nós, como teosofistas, podemos dar aos outros seja pela fala, ou pela escrita, que é apenas outra forma de fala.

Podemos apresentar-lhes o que sabemos.

Muito poucos de nós temos conhecimento direto dessas questões, mas temos uma certa convicção interior para a qual não poderíamos, se pressionados ao extremo, dar uma razão real.

O que dá tamanho poder tremendo ao que a Dra. Besant diz é que as pessoas sentem, quando ela fala, que ela está falando daquilo que conhece.

Ela tem, além disso, a mais maravilhosa eloquência.

Não se pode esperar alcançar isso em pouco tempo, pois a eloquência não é um dom.

Foi conquistada, por trabalho árduo continuado através de muitas vidas.

Ela voltou grande parte de seu poder intelectual, através de muitas vidas, na direção da fala.

O resultado de tal prática é que ela pode fazê-lo bem.

Lembro-me de alguém elogiando-a por sua maravilhosa eloquência.

Ela respondeu: "Bem, tenho falado em público há doze mil anos; suponho que já deva saber algo sobre isso a esta altura." É exatamente essa prática que lhe conferiu tão notável poder, e é somente por uma quantidade proporcional de trabalho que podemos esperar adquiri-lo. No entanto, qualquer um de nós, sem essa maravilhosa eloquência, pode falar sobre as coisas que conhece, e nossa convicção transmitirá confiança aos outros.

629. Exatamente na medida em que nos sentimos seguros de nós mesmos é que podemos transmitir nossa convicção aos outros e ser uma ajuda real para eles; portanto, se fosse apenas por essa razão, vale a pena buscar alcançar essa convicção.

Deveríamos estudar cada vez mais plenamente, e não nos contentar com meras visões superficiais das ideias teosóficas; precisamos viver nelas.

Sei que há membros da Sociedade Teosófica que pertencem a ela há vinte anos e não sabem mais agora do que no dia em que se filiaram.

Mas também sei que muitos dos membros mais antigos gradualmente viveram os ensinamentos até que estes se tornaram, por assim dizer, parte deles mesmos, e eles conseguem falar com certeza e, de fato, sentir uma certeza que os estudantes mais novos, por mais entusiasmados que sejam, não adquirem facilmente.

Permanece verdadeiro agora, como era nos dias antigos: "Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a doutrina, se ela é de Deus."¹ (¹ 1 S. João, 7, 17.) O único modo de alcançar a certeza antes de se poder ver por si mesmo é viver como se fosse verdade.

Ao fazer isso, as evidências se acumularão gradualmente ao redor de alguém de que assim é, e embora cada uma delas possa parecer pequena em si mesma, tomadas em conjunto constituirão um testemunho que não se pode duvidar ou negar.

630. Ter conquistado o desejo é ter aprendido a usar e controlar o eu; ter alcançado o autoconhecimento é ter se retirado para a fortaleza interior, de onde o homem pessoal pode ser visto com imparcialidade.

631. A fortaleza interior é, naturalmente, o ego neste caso.

Há um estágio posterior em que a fortaleza interior é a Mônada, com a qual o ego deve ser unificado.

Já expliquei como o ego se projeta para baixo, na personalidade.

Tenhamos isso claramente em mente.

A Mônada projeta um raio de si mesma — essa é a símile mais próxima que podemos encontrar — para o plano nirvânico, o próximo abaixo do seu próprio.

Isso se divide em três raios e torna-se o atma tríplice, ou espírito tríplice, e os três aspectos desse descem¹ e se manifestam nos planos inferiores até aparecer como atma-buddhi-manas, que, tomados em conjunto, constituem o ego.

Ora, esse ego é apenas uma manifestação parcial da Mônada, um pequeno fragmento dele, por assim dizer, mas, não obstante, comporta-se como se fosse uma entidade inteiramente separada, assim como a pessoa comum pensa em si mesma como entidade separada e tende a pensar na alma como algo que flutua vagamente sobre ela, como um balão cativo.

632. Creio que todos os Teosofistas que ainda não o fizeram fariam bem em ler *Human Personality*, do Prof. Myers, porque é uma exposição notabilíssima da relação entre o superior e o inferior, e é especialmente interessante para nossos membros, porque ele começou como cético e acabou por ter de admitir as aparições e, em suma, tudo o que necessariamente daí decorre.

Eu o vi com frequência.

Ele costumava estar muito com Madame Blavatsky.

Ficava muito impressionado com o que ela lhe dizia, mas nunca obtinha satisfação completa.

Estava sempre buscando algo definitivo do seu ponto de vista intelectual, e é isso o que praticamente não pode ser dado; é, em todo caso, dificílimo de dar no que concerne a qualquer coisa nos planos superiores.

Não se podem expressar as funções, os poderes ou as condições dos planos superiores em termos dos inferiores, de modo algum.

Isso é tão impossível quanto dar o conteúdo de um cubo em medida quadrada.

A diferença é precisamente desse tipo.

633. O Prof. Myers buscava a expressão do mundo superior em termos do inferior.

Podemos aproximar-nos; podemos visar a isso e tentar estimular a intuição em nossos leitores e ouvintes, mas não podemos dizê-lo em palavras — não porque nos seja dito que não devemos, mas porque não pode ser feito.

As pessoas precisam desenvolver as faculdades superiores para ver nos planos superiores.

Podemos contar-lhes tudo o que pudermos sobre o mundo astral; quando alcançarem esse mundo astral em plena consciência, dirão: "Nem a metade me foi contada." Isso é verdade, porque não pode ser contado.

Essas coisas superiores não podem realmente ser conhecidas cá embaixo, mas ao menos conhecê-las parcialmente já é um grande conforto e vantagem.

Talvez não compreendamos plenamente, mas sabemos o bastante para ter certeza de que não há necessidade de medo e dúvida, e isso, ao menos, é um grande e glorioso benefício que o estudo teosófico nos proporciona.

634. Ter visto tua alma em seu florescimento é ter obtido um vislumbre momentâneo em ti mesmo da transfiguração que, por fim, te tornará mais que homem.

635. Quando um homem alcança a consciência búdica, ele obtém essa visão mais ampla que é mais do que visão, porque é também sentimento.

E é tão maravilhosa, algo tão inteiramente novo na experiência do homem, que o Mestre aqui se refere a ela repetidamente, de diferentes maneiras, abordando-a de diferentes pontos de vista.

Ter o primeiro vislumbre daquilo que te tornará mais que homem é ter esse primeiro toque da unidade com o Logos, isto é, com o Deus do sistema solar.

Mas deve ser lembrado que, na Iniciação, um homem não atinge a plena consciência búdica, nem desenvolve de qualquer maneira um veículo búdico.

636. O pupilo já se exercitou no desenvolvimento da consciência búdica, de modo que geralmente já teve experiências nesse nível.

Mas, se não as teve, sua primeira experiência agora ocorre, e isso está diretamente relacionado aos grilhões que ele começa a descartar.

Os três primeiros que devem desaparecer são a ilusão do eu, a dúvida e a superstição.

Todos esses são dissipados por esse vislumbre.

Ele não pode ter ilusão de separatividade quando reconheceu a unidade.

Ele não pode mais duvidar dos fatos.

Dizem-lhe que não deve duvidar da evolução, da grande lei do carma, e do fato de que o mais elevado avanço deve ser alcançado pela santidade.

É certamente verdade — o homem não pode duvidar dessas coisas.

Ele pode vê-las em operação, e, porque está de pé ali onde muitos caminhos se encontram, sabe que há muitas estradas e que todas conduzem à única Bem-aventurança; ele não pode mais manter a superstição de que qualquer forma particular de crença seja necessária àquele que alcançou esse nível.

Ele se ergue no pico da montanha e vê todas as estradas que sobem até ele, e vê que todas são boas.

Tão grande ênfase é dada a essa experiência búdica; de qualquer ponto de vista, é a obtenção de "um vislumbre daquilo que te tornará mais que homem".

637. Para aquele que alcançou o Adeptado, isso significa ainda muito mais do que isso, porque Ele se tornou definitivamente Uno com uma certa manifestação da Divindade.

Assim como Ele Se mostra nesse conjunto de planos que, tomados em conjunto, constituem o plano prakrítico, o mais baixo dos grandes planos cósmicos, Ele Se mostra como Três e ainda assim Uno, a Sempre Bendita Trindade que é, contudo, uma gloriosa Unidade.

638. Repetidamente nos é dito que devemos manter essas duas ideias sempre em nossas mentes quando pensamos Nele, que devemos "nem confundir as Pessoas nem dividir a Substância", mas devemos tentar, tanto quanto pudermos, apreender a ideia deste grande Mistério dos Três que ainda assim são Um, o qual não pode ser perfeitamente compreendido ou explicado.

Tanta importância tem sido atribuída, em todos os tempos e em quase todas as religiões, à compreensão desse Mistério, que é evidentemente de grande importância prática.

Muitos milhares de pessoas têm dito que todas essas doutrinas são meramente de valor teórico, que não fazem diferença na vida prática.

Isso não é inteiramente verdade.

É inquestionavelmente uma necessidade que se compreenda um pouco disso, pelo menos.

Tudo não podemos apreender, mas ao menos devemos saber que existem essas três linhas de força, e ainda assim que toda a força é uma e a mesma; sem saber isso não podemos apreender o método pelo qual nosso mundo veio à existência, nem podemos compreender o homem, porque "Deus fez o homem à Sua própria imagem" e o homem, portanto, tem essa mesma característica — que ele é três e ainda assim um.

Agora, os Três e o Um em nosso plano prákritico cósmico mostram-se por um arranjo muito semelhante ao atma-buddhi-manas no homem — ou, seria mais correto dizer que o nosso se assemelha Àquele.

639. Temos o Espírito mais elevado no mais alto de nossos planos, e então o segundo Aspecto desse Espírito que desce um plano — e assim tem dentro de si duas qualidades: aquela do plano superior e aquela do plano inferior.

As pessoas falam dele como dual; no Cristianismo ouvimos falar de Cristo como Deus e homem —, e em A Doutrina Secreta lemos que "Pai-Mãe tecem uma teia".¹ (¹ Op. cit., Vol. I. pp. 59, 111.) Esse aspecto é sempre duplo: é igual ao Pai quanto à Sua Divindade, porém, quando desce um plano, é inferior ao Pai quanto à Sua Humanidade.

Contudo, esses dois não são separados, mas constituem um único Cristo, e esse Cristo é um com o Pai.

640. Então há a Terceira Pessoa da Bem-aventurada Trindade.

Descendo ao segundo plano e ali permanecendo nivelada com o Filho, e então descendo mais um estágio e manifestando-se na parte superior do que às vezes chamamos de plano nirvânico ou átmico, ainda além de tudo o que podemos alcançar, Ela ali permanece.

Então se verá que há três linhas que, juntas, formam um triângulo.

Temos a linha horizontal que conecta os três Aspectos ou Pessoas em seu próprio nível; depois há a perpendicular do triângulo — mas descendo, neste caso, do que podemos chamar de base, em vez de subir até ela — que liga os três diferentes estados ou aspectos das Três Pessoas; então há a hipotenusa do triângulo.

Agora, essa linha, a hipotenusa do triângulo, cujo quadrado é igual à soma dos quadrados dos outros dois lados, representa a Divindade.

Para nós, cá embaixo, ela representa as Três Pessoas como Pessoas, e ainda assim as liga em uma só.

641. Um homem atinge o Adeptado quando eleva sua consciência ordinária ao nível nirvânico, e o próprio fato que o diferencia de um Adepto é que Ele unificou a Mônada com o ego.

Uma vez que, então, Ele se tornou uno com a Mônada, já alcançou o nível da terceira ou mais baixa manifestação da Divindade.

Portanto, isso se derrama sobre Ele da maneira que é tipificada pela descrição do Pentecostes.

Depois que Ele passou pela crucificação e pela ressurreição, que tipificam o nível de Arhat, tem diante de si a ascensão, e após a ascensão vem a descida do Espírito Santo.

No símbolo tal como nos é dado, o Cristo ascendeu; e o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, segundo a história que nos é apresentada, independentemente do Cristo, e depois que Ele partiu.

Mas na grande doutrina gnóstica da Pistis Sophia, diz-se que Cristo permaneceu onze anos após Sua ascensão, ensinando Seu povo, donde se verá que a descida do Espírito Santo ocorreu não depois, mas muito decididamente durante Sua presença com Sua igreja.

Deve representar a obtenção do Adeptado por todos aqueles que são tipificados como os apóstolos (quem quer que realmente tenham sido), porque "línguas de fogo pousaram sobre eles"; uma afirmação que aponta muito de perto para certos fenômenos bem conhecidos no Oriente.

642. Aqueles que viram estátuas do Senhor Buda ou de qualquer um dos grandes santos ou divindades da Índia terão notado que há frequentemente uma curiosa pequena dupla cúpula no topo da cabeça.

Muito poucos têm qualquer concepção do que isso realmente significa.

Há no alto da cabeça um certo chakra, às vezes chamado de "lótus de mil pétalas". No homem comum, é um vórtice ou depressão no corpo etérico, mas quando um homem atinge um certo nível elevado, ele é capaz de voltá-lo para fora em vez de para dentro, e fazer dele uma elevação em vez de uma depressão.

É isso que tentam representar quando retratam o Senhor Buda com aquela curiosa cúpula dupla erguendo-se no alto da cabeça.

Isso brilharia e daria muito a impressão de uma chama de fogo.

Assim, "línguas de fogo" não é de modo algum uma má descrição poética.

643. O outro fenômeno estranho descrito em conexão com aquela descida, o fato de que aqueles que falavam eram ouvidos por cada homem em sua própria língua, não é, até onde sabemos agora, um concomitante necessário do Adeptado, mas pertence a um estágio mais elevado.

Eu mesmo conheci um caso desse fenômeno.

Parece que ele desceu sobre aqueles apóstolos naquela época, se tomarmos o relato como representando um fato histórico.

644. Clarividentemente, não vimos os apóstolos dispostos dessa maneira.

Não é que não houvesse tal pessoa como Pedro, mas havia muitos Pedros.

Esse era o título dado ao chefe de cada igreja — petros, uma rocha sobre a qual a igreja foi construída — porque o líder da igreja era a rocha sobre a qual ela se erguia.

Não é um símbolo inadequado; pois sabemos como muitas vezes Lojas Teosóficas e outras organizações dependem de uma pessoa exatamente dessa maneira.

Parece que nos tempos antigos o mesmo se aplicava.

Havia aqueles que podiam liderar, e onde há um líder, sempre haverá seguidores.

Assim, seu conhecimento é a rocha sobre a qual aquela igreja particular é construída.

Quanto ao resto, não investigamos com suficiente proximidade para falar com precisão, mas não se pode deixar de duvidar muito dessa história, especialmente porque Orígenes nos advertiu especificamente para não a tomarmos como história, e a comparou com a história de Agar e Ismael, sobre a qual está escrito na Bíblia: "O que é uma alegoria". 1 (1 Gálatas, 4.24.) Obtemos uma visão muito mais ampla e útil de todas essas coisas se aplicarmos essa ideia a elas, porque, como Orígenes coloca, "Quer essas coisas tenham acontecido na Judeia ou não, é pelo menos certo que por toda a eternidade elas estão acontecendo nas vidas dos homens cristãos", e esse é o lado importante da ocorrência, não o evento material.

645. Assim, o Adepto torna-se uno em consciência com a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

Isso deve ser algo semelhante ao modo como, um plano inteiro abaixo, nos encontramos alcançando a unidade de consciência; descobrimos que os outros parecem parte de nós mesmos quando atingimos a plena consciência desse nível nirvânico; todos, então, são vistos como facetas do Uno.

646. Reconhecer é realizar a grande tarefa de contemplar a luz fulgurante sem baixar os olhos, e não recuar em terror, como diante de algum fantasma horrendo.

Isso acontece a alguns, e assim, quando a vitória está quase conquistada, ela se perde.

647. Parece muito estranho que alguém a tal altura possa cair, e, no entanto, alguns caem. Antes que esse nível seja alcançado, toda possibilidade de medo deveria ter sido inteiramente transcendida, mas há aqueles que se encolhem diante desses magníficos desenvolvimentos porque temem perder sua individualidade.

A mesma coisa, em um nível muito mais baixo, confronta o homem após a morte.

Há muitos que se apegam intensamente à vida física, certos de que não existe outra vida além daquela.

Quando o duplo etérico, que é composto de matéria física, é extraído do corpo denso, tal homem, em seu corpo astral, apega-se à contraparte etérica, que ainda o envolve, em vez de deixá-la dissipar como deveria, e assim acumula muitos problemas para si.

Ele vive no "mundo cinzento", como às vezes é chamado.

648. Encontramos o mesmo fenômeno nesse nível mais elevado.

O homem, através de todas as suas encarnações, teve um corpo causal; ele identifica esse corpo causal com sua individualidade e se encolhe diante da ideia de perdê-lo. A bem-aventurança e a luz infinita do plano búdico se avultam diante dele, mas ele só pode alcançá-las abandonando seu corpo causal, e isso às vezes o aterroriza.

Ele teme que, ao perder isso, perderá tudo e será fundido naquela luz infinita, então recua no próprio limiar.

Ele teme a total novidade de se fundir na união.

Ele não sabe que, quando assim se fundir, ainda se sentirá tão ele mesmo quanto antes, e sentirá não que a gota foi fundida no oceano, mas que o oceano foi derramado na gota.

649. Ocasionalmente, temos outros exemplos disso em níveis mais baixos.

O homem que funciona em seu corpo mental às vezes tem medo de soltá-lo e de mergulhar de volta no corpo causal, que não é mais concreto, mas abstrato; assim, nesse estágio, ele para e hesita, e teme passar adiante.

O progresso da pessoa em qualquer um desses casos depende do poder por trás, do tremendo entusiasmo e devoção que a está conduzindo; uma vez que essa é a força propulsora, para o homem hesitar significa que esse entusiasmo falha, pois medo e entusiasmo dessa natureza não podem coexistir.

No momento em que ele se permite sentir medo, por esse mesmo pensamento ele recua e cai, e não tem mais o lugar que havia alcançado.

650. Há uma certa justificativa para o recuo em alguns casos, e penso que a razão para isso é que, se um homem vai além do nível no qual pode ser consciente, ele cai em transe e perde a si mesmo.

Na Índia, os homens falam de entrar em samadhi.

Nós nos perguntávamos que estágio poderia ser esse, e o identificamos com vários níveis, um após outro, e então descobrimos que não era constante.

Levou muito tempo para descobrir que samadhi é uma coisa diferente para pessoas diferentes.

Significa a condição exatamente além do nível em que o homem é capaz de reter a consciência.

Para um selvagem cuja consciência é clara apenas no plano físico, o plano astral seria samadhi.

Para a maioria daqueles de nossa raça que não estudaram esses assuntos, entrar no corpo causal seria samadhi, porque eles não seriam suficientemente conscientes para que a experiência lhes fosse de alguma utilidade.

Muitos de nós, se conseguíssemos nos forçar para o plano búdico, ficaríamos inconscientes nesse nível.

Isso significaria que, quando depois voltássemos a flutuar para nossos veículos inferiores, retornaríamos sem qualquer conhecimento adicional definido.

Chegaríamos com a sensação de grande bem-aventurança, uma sensação de ter nos banhado em todo tipo de glórias intangíveis, mas sem conhecimento definido e sem novo poder de fazer algo útil.

651. Esse tipo de samadhi — uma condição exatamente além de sua consciência — não é incentivado por nossos Mestres.

Aqueles Grandes Seres diriam: "Por todos os meios, atinja o mais alto nível que puder alcançar, mas faça-o conscientemente; suba gradualmente, não salte para dentro dele. Tenha cuidado; avance firmemente, mantendo sua consciência o tempo todo enquanto o faz." Há possibilidades que poderiam ser ditas perigosas; nada é realmente perigoso, porque nesses níveis superiores não se tem uma vida separada a perder da mesma maneira que se tem aqui embaixo, mas é bem possível ser varrido para fora da linha de evolução se alguém fizer experimentos precipitados.

No entanto, isso não é provável para o estudante comum, porque ele está trabalhando firmemente em níveis que conhece e almeja alcançar.

652. O fato da possibilidade de recuar — temendo enfrentar os desenvolvimentos superiores — foi fortemente apresentado diante de nós nas iniciações dos antigos Mistérios Egípcios.

Os candidatos eram ensinados que, na busca do conhecimento, não deveriam ser nem precipitados nem medrosos; quando o candidato era levado à porta da cripta ou salão subterrâneo onde essas grandes cerimônias eram realizadas, ele recebia uma lição prática nesse sentido, pois, ao entrar, uma espada era mantida diante dele tocando seu peito, para simbolizar que ele não deveria avançar precipitadamente em busca daqueles mistérios, e ao mesmo tempo seu condutor o guiava por meio de uma corda lançada ao redor de seu pescoço, de modo que, se ele se assustasse e recuasse bruscamente, feriria a si mesmo.

Posteriormente, isso lhe era explicado.

Diziam-lhe que o homem deve ter confiança serena; nunca deve avançar precipitadamente em algo que não compreende, nem, por outro lado, deve recuar com medo quando encontra algo que lhe parece terrível.

653. Nossa grande fundadora, a própria Madame Blavatsky, a quem ninguém poderia acusar de falta de coragem, que se vestia como homem e lutou sob Garibaldi em 1864, contou-me que, quando foi levada pela primeira vez à presença do Senhor do Mundo, o Único Iniciador, o grande Rei Espiritual do Mundo, ela caiu de bruços e não pôde olhar para Ele, por causa do tremendo poder e majestade em Seu rosto.

Isso não afeta todos os candidatos exatamente da mesma maneira, mas, ainda assim, se esse foi o resultado em uma pessoa tão inteiramente destemida como Madame Blavatsky, pode-se compreender que não é um teste leve ser trazido face a face com o representante do Logos Solar neste planeta; é uma experiência tremenda.

654. Aqueles que se tornam pupilos do Mestre, um dia, no devido curso, serão conduzidos pelo Mestre pelo caminho que leva à Iniciação, e então deverão enfrentar o Único Iniciador, não de fato no primeiro passo, nem mesmo no segundo, mas no terceiro e no quarto.

Mas antes que isso aconteça, eles terão tido tantas experiências no caminho até lá que provavelmente estarão em grande parte preparados; assim também o estava Madame Blavatsky, e contudo o que eu disse é o que ela me contou. Embora eu concorde inteiramente com ela que esse rosto é pleno de majestade e poder — poder incrível, além de tudo o que possas imaginar de poder —, é também tão pleno de amor que me parece que não se poderia sentir medo em Sua presença, nem creio que Madame Blavatsky o sentisse, mas simplesmente uma reverência tão grande que ela sentia como se a luz fosse ofuscante e não pudesse ser enfrentada — ela a sentia demasiado grande para si.

655. Mas o que aqui se menciona não é o encontro com o Único Iniciador, mas o encontro com o próprio Eu Superior — a entrada nesse reino espiritual mais amplo.

Os homens recuam diante disso, como eu disse, porque temem que, ao mergulharem nesse mar resplandecente, possam nunca mais voltar, que a individualidade possa se perder.

Um homem que pensa saberia que muitos outros mergulharam nele e não se perderam, mas nem sempre se pensa em tais momentos; age-se talvez antes por instinto.

É preciso esforçar-se para dispor a própria ação instintiva de modo que ela seja ação razoável e correta.

Não devemos recuar diante do divino, quer ele se manifeste em nós mesmos, quer em qualquer outro.

Aqui se diz que alguns assim o fizeram; e assim, quando a vitória estava quase conquistada, foi perdida.

Isso seria triste.

Mas não devemos nos deixar enganar pela maneira como isso é apresentado.

656. Frequentemente somos advertidos de que quanto mais alto um homem se eleva, mais longe pode cair.

Há várias razões para isso.

Uma é que ele pode usar mal a força divina que lhe chegou; a outra é que ele pode cair em tal condição que cause um vazamento no canal que é composto por vários discípulos, incluindo ele mesmo.

Os Grandes Seres enviam uma enorme onda de força através de tal canal e não podem recuá-la. Se o canal se torna defeituoso, grande parte da força pode se perder.

Nem sempre é uma vasta efusão numa única direção — às vezes parte dela segue por um caminho e parte por outro, para realizar coisas diferentes — e somente se todas as diversas pessoas que formam o canal permanecerem firmes em suas linhas específicas é que o sucesso está assegurado.

Seria uma coisa triste se alguém falhasse e assim causasse um vazamento, o que seria muito grave devido à grande pressão da força por trás, e resultaria numa queda para esse homem.

Novamente, recuar do bom trabalho que está ao alcance de alguém por medo da responsabilidade também implica uma queda.

657. Quanto mais alto o homem sobe, mais longe pode cair, se cair até o fundo; seria uma coisa muito triste que um homem caísse de volta neste ponto elevado, mas é muito improvável que alguém que tivesse subido tão alto caísse até o fundo.

Não devemos ter a impressão de que uma queda, mesmo como a descrita em nosso texto, seja fatal.

"Quem sobe pode cair, quem cai subirá; a roda gira, incessantemente." ¹ Não há queda fatal, porque é a vontade de Deus que todo homem progrida; portanto, todo homem assim o fará, e é apenas uma questão da velocidade com que se move.

658. A Luz da Ásia, Livro Oitavo.

659. Para tal homem, perder sua posição seria um grande desperdício de alta oportunidade, mas não o lançaria de volta ao começo.

Significaria que ele deve trabalhar deliberadamente para desenvolver dentro de si a consciência de sua própria divindade, e aprender a confiar nela.

660. Isso não seria nada fácil, é claro, porque um homem que tivesse perdido o controle de si mesmo num momento crítico, que tivesse perdido a coragem, acharia difícil recuperá-la. Na escalada, se um homem olha para baixo e vê um grande abismo abaixo dele, provavelmente ficará assustado e cairá, mas o homem que nunca se assustou muito provavelmente iria até o fim sem ter medo algum.

O homem que uma vez perdeu a coragem por olhar para baixo levará muito tempo para seguir seu caminho em segurança, mas não quero que ninguém pense que o homem que cai não se recuperará.

É uma pena triste; ele deveria ter sabido melhor; não se pode deixar de ver e dizer isso; mas ele se recuperará e seguirá em frente, mais cedo ou mais tarde.

661. É muito fácil dizer que se deve ter perfeita confiança na própria divindade, mas é uma questão mais difícil quando se está face a face com algumas dessas grandes provações; se houver uma queda, pelo menos se pode ter certeza de que o trabalho realizado ainda conta, portanto não há possibilidade de uma queda final fatal.

É algo como ser reprovado num exame no plano físico.

Significa uma boa dose de problemas, mas o homem ainda tem todo o conhecimento que adquiriu ao estudar para o exame.

Quando puder tentar novamente, é quase certo que terá sucesso.

662. Parece às vezes muito triste quando um homem que está fazendo bom progresso oculto morre subitamente; alguém é levado a dizer: "Que pena; se ele tivesse continuado nesse ritmo, provavelmente teria alcançado a Iniciação nesta vida." Mas o que acontece é karma e é para o melhor, e ele não perderá o que já ganhou.

O Eu retém tudo o que alcançou.

O que ele terá de fazer é trazer um novo veículo físico à sujeição, mas será muito fácil para ele fazê-lo até o ponto que já alcançou, e somente depois disso as dificuldades recomeçarão.

663. Ouvir a Voz do Silêncio é compreender que de dentro vem a única orientação verdadeira: ir ao Salão de Aprendizado é entrar no estado em que o aprendizado se torna possível.

Então muitas palavras serão escritas ali para ti, e escritas em letras de fogo para que facilmente as leias.

Pois quando o discípulo está pronto, o Mestre também está pronto.

664. Já vimos que a esfera do aprendizado começa no plano astral, o plano mais baixo no qual se pode aprender algo praticamente com relação aos estados superiores.

Isso não significa que não haja nada a ser aprendido nos níveis superiores, no mundo celestial, por exemplo; há muito a ser aprendido, mas para o homem comum o plano astral é o seu salão de aprendizado, e quando fora do corpo físico nesse mundo astral ele receberá muito do ensinamento que deve ser-lhe dado.

Há muitos estudantes que não compreendem bem o que significa ser aceito como pupilo por um Mestre.

Alguns parecem esperar que, se essa grande privilégio lhes viesse, estariam constantemente recebendo ensinamentos do Mestre, que Ele os instruiria especialmente com relação a detalhes minuciosos de seu progresso.

Quando o Mestre aceita pupilos em prova, isso significa muito mais que Ele os observa na vida comum do que Lhe ensina algo especialmente.

Um objetivo principal, então, é ter diante de Si todo o detalhe da vida, dos pensamentos e dos sentimentos do pupilo, para que Ele possa saber se pode utilmente levar esse pupilo a uma relação mais íntima.

Ele deve saber disso antes de dar um passo adiante, caso contrário isso poderia causar-Lhe grande transtorno, e não valeria a pena do ponto de vista do trabalho.

Enquanto está em prova, o pupilo pode ser usado como canal para a força — isso acontece com frequência — mas é somente quando o vínculo mais estreito é estabelecido que ele está em comunicação constante com o Mestre, e mesmo assim ele não saberá necessariamente da comunicação.

Ele pode sentir às vezes que a força está fluindo através dele, e é uma experiência maravilhosa, um grande privilégio e deleite ser usado para a disseminação da força do Mestre, mas ele não será instruído pelo Mestre, exceto em ocasiões muito raras.

665. Na maioria dos casos, um pupilo mais velho é designado para cuidar do neófito e dar-lhe a instrução necessária.

No meu próprio caso, Madame Blavatsky me ensinou muito em nome do Mestre, mas fui separado dela por cerca de cinco anos e enviado para a Índia quando ela estava na Europa.

Consequentemente, era impossível para ela, exceto por cartas ocasionais e, às vezes, no plano astral, dar-me qualquer ajuda.

Portanto, fui colocado aos cuidados de Swami T. Subba Row.

Ele era um professor excepcionalmente paciente em todos os detalhes, e assim fui muito ajudado por ele.

666. l Ante., Vol. II, p. 67, 103.

667. Naqueles dias, eu via meu próprio Mestre apenas ocasionalmente, e mesmo quando O via, geralmente não era algo na forma de ensino que Ele me dava, mas sim instruções sobre algo que Ele queria que eu fizesse. Mas, no processo de fazer o trabalho, ganhava-se uma vasta quantidade de conhecimento e treinamento.

A tentativa de fazer algum serviço, mesmo sem saber como a princípio, mostra a alguém em que direções está faltando.

Então a pessoa se põe a trabalhar para preencher essas lacunas, a fim de poder fazer o próximo trabalho melhor; e acho que posso dizer por mim mesmo que foi dessa maneira que aprendi a maior parte do que me veio. Eu inventava um jeito, de uma forma ou de outra, de fazer a coisa, e então via onde o método poderia ser melhorado, até que cheguei a saber como colocar em prática os métodos superiores, como Swami T. Subba Row poderia me dar. Mas isso significava muito trabalho árduo, tensão e, muitas vezes, um desenvolvimento muito lento.

Ainda assim, tinha que ser feito e foi feito, e acho que é assim que todos os pupilos são treinados.

Eles receberão um trabalho para fazer e, ao fazerem o trabalho, aprenderão como fazer um trabalho maior.

Mas sobre este grande assunto da relação entre Mestre e pupilo, escrevi extensamente em Os Mestres e o Caminho.

668. Várias possibilidades de aprendizado se abrem diante do pupilo.

Muitos deles estão igualmente abertos a qualquer um de nós no plano astral, se escolhermos aproveitá-los.

Às vezes vamos a palestras no plano físico para aprender algo sobre Teosofia, porque algumas pessoas aprendem mais facilmente quando os fatos lhes são apresentados dessa forma, enquanto outras aprendem mais facilmente pegando um livro e lendo sobre o assunto.

Para aqueles que apreciam a palavra falada, há sempre conferencistas em ocultismo.

669. Alguns daqueles que são trabalhadores e auxiliares no mundo astral dedicam a maior parte do seu tempo a esse ramo de trabalho.

Nosso ex-Vice-Presidente, Sr. A. P. Sinnett, costumava assumir essa como sua parte nos deveres do plano astral.

Ele não se lançava, via de regra, no trabalho comum dos auxiliares invisíveis, mas, em vez disso, tinha um departamento próprio, e sempre podia ser encontrado ministrando instrução sobre Teosofia a qualquer um que, naquele vasto mundo astral, desejasse ouvir.

Dessa forma, ele colocou muitas pessoas, tanto mortas quanto vivas, em contato com essas grandes verdades, pois possuía um certo método dogmático de expor seus pontos que muitos achavam muito útil e fácil de acompanhar.

CAPÍTULO — REGRAS 1 A 4

670. C.W.L. — No último capítulo consideramos o que é, na realidade, um prefácio à segunda parte do livro, mas agora chegamos às regras.

Até a Regra 12, elas são numeradas da mesma maneira que na Parte I: as Regras 1 a 3, 5 a 7 e 9 a 11 pertencem, em conjuntos de três, ao antigo manuscrito de folhas de palmeira, e as Regras 4, 8 e 12 são comentários do Chohan.

Mais adiante, a numeração segue um plano diferente.

671. Neste capítulo, trataremos das Regras 1 a 3, e dividirei o comentário do Chohan, que é a Regra 4, em suas três partes, abordando-as juntamente com as regras às quais se aplicam.

672. Põe-te de lado na batalha vindoura, e, embora lutes, não sejas tu o guerreiro.

673. Ele é o teu próprio eu.

Contudo, tu és apenas finito e sujeito ao erro.

Ele é eterno e infalível.

Ele é a verdade eterna.

Uma vez que Ele tenha entrado em ti e se tornado o teu Guerreiro, jamais te abandonará por completo; e no dia da grande paz Ele se tornará uno contigo.

674. O discípulo deve lutar.

Ele deve lançar-se na evolução que se processa ao seu redor.

Ele deve lutar ao lado do espírito.

O espírito está gradualmente aprendendo a usar a matéria; tendo-a dominado em certo nível, eleva-se acima dela para conquistar um plano mais elevado de matéria e aprender a usá-lo.

Está em processo de dominar a matéria em todos os níveis.

Isso ocorre ao nosso redor e também dentro de nós; por isso, alistamo-nos nessa luta, para suavizar o caminho das forças evolutivas.

675. Devemos fazer com que a personalidade se coloque de lado nesse conflito pelo progresso da evolução; ela não deve entrar na luta de forma alguma.

A personalidade deve ser usada, pois é somente através dela, como instrumento, que podemos alcançar outras pessoas no mundo, mas não devemos permitir que o eu pessoal se intrometa.

Em cada um dos planos da personalidade, é preciso livrar-se do emaranhamento, retendo, porém, o poder.

Assim, retiramo-nos gradualmente dos corpos físico, astral e mental e, ainda assim, conservamos a capacidade de funcionar neles.

676. A interpretação superior deste aforismo aplica-se quando a personalidade foi posta de lado e o homem está em unidade com o ego.

Então ele aprende que a individualidade deve ser colocada de lado e busca a consciência do Mônada.

O Mônada deve ser permitido agir através do ego.

677. Que o guerreiro é eterno e seguro pode ser tomado como relativamente verdadeiro quanto ao ego em relação ao eu inferior.

Podemos tomá-lo como absolutamente verdadeiro no que diz respeito ao Mônada em relação ao ego.

O ego, como foi dito, pode frequentemente cometer erros em um estágio anterior, mas é muito menos provável que o faça do que a personalidade.

O Mônada não comete erros; mas, por outro lado, se alguém se aventurasse a falar do Mônada como se o compreendesse, quando na verdade não o compreende, poderia dizer que o conhecimento do Mônada sobre as condições aqui embaixo seria provavelmente um tanto vago.

Seu instinto não pode deixar de estar do lado do certo, pois ele é divino.

Ele é eterno e é seguro, como aqui se diz, mas pode ser que as visões tomadas tanto pelo Mônada quanto pelo ego sejam frequentemente gerais, e em nossos esforços para aplicá-las neste plano podemos cometer erros, porque o propósito inteiro da descida à matéria é ganhar a precisão e a exatidão que resultam do perfeito conhecimento das condições inferiores.

Uma vez que sua evolução não está completa, tanto o Mônada quanto o ego ainda não possuem esse conhecimento exato.

Eles são, para nós, os guias; não se deve fazer outra coisa senão obedecer-lhes; mas mesmo esses guias estão eles próprios se desdobrando.

678. No nível superior, o dia da grande paz será o alcance do nirvana.

No nível inferior, significa a unificação do eu inferior e do eu superior.

679. 2. Procura o Guerreiro, e deixa que ele lute em ti.

680. Procura-o, senão na febre e na pressa da luta poderás passar por ele; e ele não te conhecerá, a menos que tu o conheças.

Se o teu clamor alcançar o seu ouvido atento, então ele lutará em ti e preencherá o vazio monótono interior.

E se assim for, então poderás atravessar a luta calmo e incansável, permanecendo à parte e deixando que ele batalhe por ti.

Então te será impossível desferir um único golpe em falso.

681. Isso parece uma coisa curiosa de dizer sobre o eu superior, mas é verdade; ele está irradiando esplendidamente, porém indefinidamente.

Até que se possa ver o ego nos homens, não se tem concepção de quão grande ser um ego realmente é, quão infinitamente mais sábio e mais forte do que a entidade encarnada.

Ainda assim, não há necessidade de ninguém se orgulhar ou se vangloriar do fato de ser uma pessoa muito refinada, uma pessoa magnífica, em um nível muito mais elevado, pois assim é também toda outra alma humana.

Todos são, na realidade, muito melhores do que jamais parecem ser. O maior santo nunca pode expressar plenamente o seu ego; ele está sempre, nesse plano superior, ainda mais santo do que jamais poderá estar aqui embaixo.

Portanto, devemos tentar deixar que essa parte superior de nós mesmos atue através de nós. Esse ego é muito mais sutil, muito melhor do que a personalidade, mas ele projeta a personalidade a fim de evoluir, para tornar-se ele próprio mais próximo da perfeição.

Ele necessita dessa evolução, por isso não devemos cometer o erro de considerar o ego como perfeito; ele não é.

O que ele mais precisa para a sua evolução é definitude, exatidão.

Ele é magnífico, mas, se assim podemos nos aventurar a dizer, vago em sua magnificência.

682. Ele deseja se desenvolver através daquele fragmento de si mesmo que está encarnado aqui embaixo.

Ele sabe como descer, mas até que ele próprio esteja, em certa medida, desenvolvido, não sabe como guiar o eu inferior.

É através das experiências do eu inferior aqui embaixo que ele aprenderá a fazer as coisas que deseja.

Seu desejo é a evolução; ele coloca uma parte de si mesmo para baixo, uma ponta de dedo, por assim dizer, nos planos inferiores; essa ponta de dedo aprende a definitude, mas quando retorna a ele ao final de um curto ciclo de vida física, astral e mental, o que ela traz de volta é apenas, se assim se pode expressar materialmente, uma pequena quantidade de definitude.

Lembra-te de como a alma-grupo foi gradualmente tingida pela experiência dos diferentes animais.

( 1 Ver A Textbook of Theosophy, Cap. IV, para um relato sobre as almas-grupo.)

(O assunto é vasto demais para ser explicado aqui.) Um leão, um gato ou um cão podem passar por certas experiências e adquirir certas qualidades que podem ser muito bem marcadas nele como indivíduo.

Pode haver coragem suficiente para fazer daquele gato, cão ou leão um animal notavelmente corajoso, mas quando você coloca essa quantidade numa alma grupal para cem, há apenas um centésimo para cada, então são necessárias muitas vidas dirigidas ao longo de linhas semelhantes para que a qualidade possa ser fortemente desenvolvida na alma grupal como um todo.

683. Embora o ego seja um indivíduo e seja bem diferente da alma grupal, ainda assim, de certo modo, o mesmo se aplica a ele.

Ele desenvolve precisão numa personalidade, mas quando isso retorna ao ego, a mesma quantidade tem de ser distribuída por todo o corpo causal.

A quantidade que era bastante suficiente para tornar uma personalidade muito precisa, quando entra no ego, é apenas uma fração de suas necessidades.

Ele pode precisar de muitas vidas para desenvolver o suficiente da qualidade para torná-la proeminente na próxima vida, pois o ego não guarda uma parte específica de si mesmo que deva ser a personalidade, mas, de toda a massa de si mesmo, ele projeta algo, porém não a mesma parte duas vezes.

684. Um ego altamente desenvolvido, que já adquiriu grande precisão, compreenderá a personalidade e trabalhará através dela de forma inteligente, procurando torná-la um instrumento eficiente.

Mas, para o homem comum do mundo, não é assim de modo algum. Portanto, a personalidade deve clamar a ele e então buscar essa influência.

Se o homem aqui embaixo, querendo ajudar no Plano, fizer isso, o ego responde instantaneamente e imediatamente se derrama através da personalidade, que então deve ficar de lado e deixar o guerreiro lutar nele.

685. O ego tem muitas possibilidades esplêndidas, que apenas precisam ser despertadas.

Essa é uma das razões para o grande avanço que muitas vezes é alcançado por um homem rude que vai à guerra e talvez perca a vida por suas convicções, ou, em todo caso, corre um risco muito definido de fazê-lo. Fazer algo grandioso assim — colocar um ideal acima do conforto pessoal, acima da possibilidade de dor terrível, acima da possibilidade, até mesmo da probabilidade, da morte — desperta no ego uma resposta muito ampla.

686. Já ouvi pessoas argumentarem um pouco contra isso.

Pessoas me escreveram dizendo: "Você diz que um soldado ganha espiritualidade, mas como pode ser isso, se o soldado sai inspirado mais pelo ódio do que por qualquer sentimento nobre?" Mesmo que seja verdade que ele tenha tal sentimento contra o inimigo, se ele se voluntariou para lutar pelo que considera justo, ele faz uma coisa grande, nobre e altruísta, e isso reage sobre o ego e o desperta mais do que quase qualquer outra ação isolada provavelmente faria. Às vezes, na vida privada, um homem tem uma oportunidade de sacrifício maior do que o risco da própria vida; ele pode, por exemplo, dedicar todo o seu tempo ao serviço paciente e altruísta de outro, renunciando a diversões e mudanças, e velando à cabeceira de um leito de enfermo, em caso de doença crônica.

Tais sacrifícios são ainda maiores do que o heroísmo dramático do soldado.

Mas são poucos, enquanto em tempo de guerra muitos milhares partem e aproveitam a grande oportunidade.

O homem faz um esforço maravilhoso de autossacrifício; então o ego é despertado, e ele derrama em resposta uma esplêndida torrente de devoção, capaz de causar um sacrifício ainda mais consistente em outra vida.

Um esforço de coragem é talvez exigido; isso evoca do ego uma corrente constante de coragem, e assim o homem que perde a sua vida a encontrará, como Cristo disse há muito tempo.

Aquele que perdeu a sua vida de tal maneira certamente ganhou uma vida muito mais plena para a sua próxima encarnação, que será inquestionavelmente uma personalidade maior.

O ego será capaz de fazer descer mais do seu poder, e também será muito mais capaz de dirigir a personalidade.

687. Outra maneira pela qual "na febre e na pressa da luta podes passar por ele" se torna possível é quando os homens se dedicam a boas obras e permitem que a personalidade se manifeste neles.

Isso nunca deveria acontecer com estudantes de ocultismo, mas acontece.

Há uma vasta quantidade de bom trabalho sendo realizado na Sociedade Teosófica, e certamente aqueles que o realizam deveriam estar inteiramente acima de qualquer tipo de sentimento pessoal em relação a isso; mas muitas vezes não estão.

Uma pessoa sente: "Este pequeno pedaço de trabalho é meu, e portanto deve ter precedência sobre outro trabalho.

Não é que eu o esteja fazendo para minha própria satisfação e por isso não queira ver ninguém mais fazendo-o; mas quero fazê-lo porque estou bastante certo de que eles não o fariam tão bem." Tal atitude está repleta de engrandecimento pessoal.

Para ter qualquer conexão com um trabalho como o nosso desenvolve a pessoa, torna seus sentimentos mais aguçados e deveria tornar seu intelecto mais brilhante: o próprio fato de ter essa influência estimulante tende a acentuar a personalidade, mas isso não é desculpa para a tolice de permitir que assim o faça.

688. O mesmo ocorre em outras organizações.

Em meus dias de juventude como sacerdote, tive muito a ver com trabalhos eclesiásticos de todos os tipos, incluindo o treinamento de corais.

As pessoas envolvidas nesse trabalho estão todas laborando diretamente para a igreja de Deus, supostamente dedicando-se a algo mais elevado do que o homem comum lá fora; ainda assim, creio que não há outro grupo de pessoas entre as quais haja tanto conflito quanto entre os trabalhadores da igreja e os corais.

Ninguém que tenha tido que treiná-los deixará de reconhecer que isso é um fato.

É triste, mas verdadeiro, e não deveria ser assim. No entanto, ocorre precisamente porque eles têm trabalhado em conexão com algo um pouco acima do nível comum, e ao fazer isso, a vida neles foi despertada mais do que é habitual.

689. O discípulo tem de cuidar para que sua personalidade não se evidencie nessas boas obras, porque se isso acontecer, ele perderá de vista o guia superior.

O ego pode lutar nele e trabalhar através dele somente quando ele está devotado ao trabalho, não à sua parcela ou parte pessoal nele. Ele pode esquecer o eu superior em um impulso de personalidade, e então não estará em condições de receber sua ajuda, de ouvir uma sugestão dele; assim, ele pode, por um tempo, isolar-se do ego e perder o grande benefício de sua ajuda.

A vagueza do eu superior, a menos que ele seja um ego desenvolvido, talvez o impedisse de indicar uma linha específica de trabalho, mas quando a personalidade, sendo mais definida, encontrou o trabalho, o ego pode e de fato se derrama sobre ele, e o capacita a realizá-lo de maneira muito melhor e com um estado de espírito totalmente mais grandioso do que a personalidade poderia alcançar sem auxílio.

690. Mas se tu não o procurares, se o ignorares, então não há salvaguarda para ti.

Teu cérebro vacilará, teu coração se tornará incerto, e na poeira do campo de batalha tua visão e teus sentidos falharão, e não distinguirás teus amigos de teus inimigos.

691. Tudo o que aqui é descrito de fato ocorre quando a personalidade não busca a orientação superior.

Ele não distingue seus amigos de seus inimigos; é arrastado pelo turbilhão da paixão e, sob sua influência, acreditará no que é dito por alguém que não é, de forma alguma, um amigo verdadeiro.

Vê-se isso com frequência na vida diária; se uma pessoa está excitada, irritada ou com ciúmes, dará ouvidos à fofoca ridícula daqueles que se dizem amigos, mas que na realidade não o são.

692. Um fofoqueiro, um criador de intrigas, não é amigo de ninguém; é o pior inimigo daqueles a quem fala.

É de fato algo muito triste para quem entra em contato com uma pessoa desse tipo e acredita no que ela diz.

Assim que ouvimos alguém começar a falar mal de outra pessoa, é melhor evitá-lo o mais rápido possível, porque podemos ter certeza de que não aprenderemos nada de bom, e também de que a pessoa que fala mal de outro para nós falará da mesma maneira sobre nós para a próxima pessoa que encontrar.

Portanto, é melhor não ter nada a ver com essas pessoas fofoqueiras e não ser de forma alguma influenciado por qualquer coisa que digam.

Frequentemente, quando alguém ouve o que elas dizem, responde: "Não acredito; não darei atenção a isso", mas, ainda assim, fica um tanto afetado; deixa que aquilo volte à sua mente repetidamente e se pergunta se o que foi dito poderia ter tido algum fundamento real, em vez de tratá-lo imediatamente com desprezo, que é a única atitude razoável a tomar.

693. Quando se conhece bem uma pessoa, deve-se estar preparado para seguir o próprio conhecimento que se tem dela, e não se deixar arrastar pelo que dizem outros que talvez a conheçam menos.

Há entre nós disposições de todos os tipos, mas, de modo geral, não se pode errar se nos atermos ao nosso próprio conhecimento do que uma pessoa é, pensa e faz, até vermos claramente por nós mesmos que essa pessoa mudou de alguma forma, e mesmo assim não se deve tomar um único exemplo.

É preciso esperar e ver, porque muitas vezes, por um momento, uma pessoa é alterada por um pouco de má saúde ou insônia, e então diz e faz coisas que não diria nem faria em outras circunstâncias.

Portanto, não se deve julgar o amigo precipitadamente por uma única palavra ou ação, mas esperar e ver como as coisas realmente estão com ele.

(1 Ante, Vol. I, Parte III, Cap. 5: Cuide da sua própria vida.) Supor que ele mudou porque alguém diz que mudou é absolutamente injusto.

Quando você tem um amigo, permaneça ao seu lado e aguarde até que ele próprio diga algo ou faça algo que sustente essa ideia do que se supõe que ele esteja pensando, fazendo ou dizendo; não aceite a evidência de outras pessoas que possam estar falando sob algum equívoco, cometido por descuido ou porque não gostam dele.

694. Assim como uma pessoa que se deixa influenciar dessa maneira acaba por não distinguir seus amigos de seus inimigos e por não compreender os fatos de modo algum, o mesmo ocorre com o homem que permite que sua personalidade o domine.

Se o ciúme se apodera dele, ele fica completamente cego.

Seus sentidos normais não lhe servem de nada; ele não os escuta de forma alguma; ele decide de antemão sobre todos os assuntos e é inútil tentar fazê-lo mudar de ideia.

É muito estranho, e é triste ver como as pessoas estão prontas a acreditar no mal dos outros.

O mal pode ser refutado; pode-se mostrar claramente que não há fundamento para ele; mas ainda assim permanece uma certa suspeita.

695. Tudo isso não deveria ser assim, mas vem em parte de um excesso de desenvolvimento da parte particular de nós mesmos na evolução da qual a humanidade está atualmente empenhada.

A mente inferior aprende pela discriminação, distinguindo diferenças entre uma coisa e outra e, portanto, ela sempre ataca em primeiro lugar as diferenças.

Assim, quando um homem entra em contato com uma pessoa que não conhece, com qualquer ideia que lhe seja desconhecida, ou com um livro que nunca viu antes, a tendência geral é agarrar-se primeiro às coisas de que não gosta, àquelas que são diferentes das coisas a que está acostumado, e então exagerá-las fora de toda proporção.

A razão para isso é que desenvolvemos essa faculdade discriminativa um pouco demais, ou melhor, ainda não desenvolvemos suficientemente a faculdade búdica contrabalançadora.

É muito bom ser capaz de discriminar.

É uma necessidade; mas deveríamos ter também o espírito de síntese, que vê semelhanças tanto quanto diferenças.

696. O ensinamento dado nesta passagem também aparece de forma muito enfática no Bhagavad-Gita:

697. O homem, meditando sobre os objetos dos sentidos, concebe um apego a eles; do apego nasce o desejo; do desejo surge a ira; da ira procede a ilusão; da ilusão, a memória confusa; da memória confusa, a destruição do buddhi; da destruição do buddhi, ele perece.

1 Op. cit., II, 62-3.

698. É difícil, eu sei, para nós percebermos como a Mônada pode ser divina e, ao mesmo tempo, não desenvolvida; como ele pode ser diferente no final de sua encarnação na individualidade daquilo que era no início.

Tomemos uma analogia, imperfeita como é. O corpo humano é composto de milhões e milhões de células.

Essas são células humanas porque fazem parte do homem, e, no entanto, se houver qualquer tipo de evolução — e talvez haja — pela qual a alma da célula possa um dia tornar-se a alma de um ser humano, certamente não se diria que no final não houve evolução, porque a célula era humana desde o início.

Essa similitude pode sugerir como a Mônada é parte do Logos, e ainda assim não desdobrada.

Não é seguro, eu sei, fazer analogias desse tipo do inferior para o superior, e então forçá-las a se ajustarem a cada detalhe, porque geralmente não se ajustarão.

Há um grande ditado oculto: "Assim em cima como embaixo", mas o inverso disso: "Assim embaixo como em cima", é verdadeiro apenas com limitações estreitas e restritivas.

Penso que podemos raciocinar com segurança de cima para baixo, como fazem os hindus, a partir do que lhes é dito existir acima, para o que, portanto, devem encontrar em algum lugar abaixo, de maneira geral.

Mas não é totalmente seguro inverter o processo, porque os arranjos nos planos superiores são obviamente maiores e mais amplos, embora não conheçamos as maneiras pelas quais o são. Podemos frequentemente nos enganar se dissermos que, porque certa coisa acontece aqui embaixo, deve também acontecer lá em cima.

Algo que seja uma expressão da mesma lei deve acontecer lá em cima, mas pode assumir alguma forma que não reconheceríamos.

699. A analogia das células dentro do corpo não é totalmente segura para ser levada longe, mas há vários pontos que encontramos em nosso estudo que indicam que algo desse tipo está ocorrendo.

Sabemos que a vida animadora de todos os reinos inferiores torna-se, por sua vez, apenas um veículo para uma vida ainda mais elevada quando o homem é individualizado.

O corpo causal que estamos usando agora foi a alma de algum animal do qual nos individualizamos; assim, o que em um estágio é a vida animadora pode mais tarde tornar-se um veículo.

Dito dessa maneira, contudo, essa verdade necessita de ressalvas, porque, embora o que no homem é o corpo causal fosse toda a alma que podia ser vista com relação ao animal e à planta, ainda assim é matéria em um nível definido, e deve ter havido vida vinda de cima, animando e vivificando essa matéria, invisível.

Devemos lembrar sempre que a energia, o espírito, nunca podemos realmente ver, mas apenas sua manifestação em alguma forma de matéria.

Tomemos este corpo físico como exemplo.

O que é que o anima? É o homem em seu corpo astral.

Esse corpo astral não podemos ver; portanto, nesta etapa, ele é para nós a alma.

Se a visão astral for desenvolvida, descobrimos que ele, por sua vez, é energizado por algo superior.

Isso se revela ser o corpo mental; e este, por sua vez, é energizado pelo ego — e assim continua, por toda a escala ascendente. O que para nós parece ser a vida animadora nunca é o espírito real, mas alguma manifestação dele. Quando chegamos ao mais alto que podemos, as bolhas de koilon — no verdadeiro éter do espaço —, à nossa visão atual, parecem vazias.

É claro que não o são, porque há nelas algo que tem poder para manter separada a incrível força do éter.

Portanto, decididamente há algo nesse espaço aparentemente vazio.

No presente, não podemos vê-lo, mas talvez desenvolvimentos posteriores nos permitam fazê-lo. Então, o que vermos não será o espírito animador, mas alguma forma superior de matéria através da qual esse espírito animador está se manifestando.

A força superior nunca é vista de modo algum.

700.   3. Recebe suas ordens para a batalha e obedece-lhes.

701.   Obedece-lhe, não como se ele fosse um general, mas como se ele fosse a ti mesmo, e suas palavras faladas fossem a expressão de teus desejos secretos; pois ele é a ti mesmo, ainda que infinitamente mais sábio e mais forte do que tu.

702.   Devemos aprender que, sempre que há um conflito entre o superior e o inferior, nós somos o superior.

A princípio, não sentimos definitivamente que é o nosso eu.

Acreditando que assim seja por nosso ensinamento, devemos agir como se sentíssemos que assim é, e então, muito em breve, descobriremos que é verdade.

Nosso perigo é que possamos nos identificar com o inferior e abandonar o superior.

CAPÍTULO REGRAS 5 A

703.   C.W.L. — As Regras 5, 6, 7 e 8 enquadram-se em um de nossos grupos familiares.

Dividirei a Regra 8, que consiste nos comentários do Chohan, nas três porções apropriadas a cada uma das regras mais curtas, e tratarei delas juntamente com essas regras, como no último capítulo.

Temos assim:

704.   5. Escuta o canto da vida.

705.   A própria vida tem fala e nunca se cala.

E sua expressão não é, como vós, que sois surdos, podeis supor, um grito: é um canto.

Aprende com ela que és parte da harmonia; aprende com ela a obedecer às leis da harmonia.

706. Sobre o Aforismo 5 há também uma longa nota do Mestre Hilarião, que começa:

707. Procure-a e ouça-a, primeiro em seu próprio coração.

A princípio você pode dizer: "Ela não está aí; quando procuro, encontro apenas discórdia." Procure mais fundo.

Se novamente ficar desapontado, pause e procure mais fundo outra vez.

Há uma melodia natural, uma fonte obscura em todo coração humano.

Ela pode estar oculta e totalmente encoberta e silenciada — mas está lá.

Na própria base de sua natureza, você encontrará fé, esperança e amor.

708. O que se quer dizer é que, sob toda a vida, e exibida mais ou menos conforme o estado de desenvolvimento de cada vida, está a grande força que move todas as coisas.

No Cristianismo, fomos ensinados a chamá-la de vontade de Deus, ou amor de Deus, mas as pessoas muitas vezes usam esses termos religiosos de maneira vaga, de modo que eles perdem muito de sua realidade e poder.

Na religião popular, há várias dessas expressões que têm certa conotação histórica ou tradicional, mas que, na verdade, não significam muito para as pessoas que as usam.

As pessoas falam, por exemplo, sobre a graça de Deus, mas creio que muitas vezes têm pouca ideia do que realmente querem dizer.

Novamente, quando na igreja se recita a Ladainha, as pessoas dizem: "Poupai-nos, bom Senhor." Essa é uma frase espantosíssima e totalmente ilógica e impossível, mas ninguém parece jamais pensar nisso. Dizem "poupai-nos" — e O chamam de "bom Senhor" ao mesmo tempo — uma contradição em termos.

Um bom Senhor jamais precisaria ser pedido para poupar alguém.

Pedir isso é pior que errado, porque sugere maldade em Deus.

É blasfêmia ainda pior do que usar Seu nome em juramentos casuais, como às vezes as pessoas fazem nas ruas, embora isso já seja grave o bastante.

Estão atribuindo a Ele paixões humanas, e malignidade ainda por cima, e Lhe pedem que não exerça Sua malignidade sobre elas.

709. Da mesma forma, as pessoas falam da misericórdia de Deus.

Isso novamente contém muito a mesma ideia, de que Ele poderia fazer algo bastante terrível a você, mas em vez disso Ele escolhe mostrar misericórdia.

Certamente todas essas frases implicam um total mal-entendido do que a palavra Deus significa; é a mais grandiosa, a mais bela palavra que existe; significa o Bem, e Aquele que é bom não precisa de súplica para mostrar misericórdia em um caso particular, pois Ele é sempre tão pleno de amor que a ideia de qualquer coisa além de misericórdia seria totalmente impensável.

Deus certamente mostrará amor a todos, independentemente do que façam. Não sei como as pessoas pensam que um pai amoroso provavelmente se sentiria, se encontrasse seus filhos rastejando a seus pés e implorando que tivesse misericórdia deles.

710. Temos essa dificuldade para combater quando, na Teosofia, tentamos falar sobre essas forças superiores.

Aqueles de nós que passaram pelas várias igrejas e capelas, infelizmente, foram acostumados a falar sobre tais coisas livremente, mas a pensar nelas como sendo totalmente vagas e sem significado particular.

As pessoas vão à igreja e talvez peçam a bênção divina, com uma ideia geral de que Deus cuidará delas, ou algo desse tipo.

Receio que seja uma concepção muito anticientífica.

O que se deveria compreender é que um serviço religioso é um meio destinado a transmitir uma força perfeitamente definida.

Essa coisa — a bênção de Deus — é uma força absolutamente tão definida quanto a eletricidade, tão real quanto o vapor que move nossos trens, e ela flui através dos canais designados para ela, através do sacerdote ou do Bispo.

Quando ele estende a mão, uma força definida flui dela sobre as pessoas.

Há uma irradiação de força muito definida, que inunda toda a igreja, e é recebida e apropriada por aquelas pessoas que se prepararam para recebê-la. É verdade que alguns podem ali sentar-se e não serem influenciados, mas isso ocorre apenas porque não se prepararam de nenhuma maneira anteriormente.

711. Assim, quando as pessoas falam sobre o amor e a graça de Deus, geralmente estão pensando vagamente sobre coisas que, na realidade, são forças muito definidas.

Às vezes é difícil para nós nos livrarmos desse método frouxo de pensamento.

Não são apenas aqueles que vieram pela linha das igrejas que sofrem com isso, mas também aqueles que não vieram perderam algo.

Aqueles que passaram por essa linha adquiriram no processo certas atitudes e capacidades de compreensão que aqueles que foram livres-pensadores não têm tão facilmente à mão.

O treinamento ortodoxo da igreja é, no geral, um bom treinamento, exceto por seu fanatismo e estreiteza, e pela concepção de Deus que tantas vezes apresenta ao seu povo.

Quanto ao resto, as ideias de servir a Deus por meio da adoração e do louvor, e de reunir-se para assim adorá-Lo, e de empregar nessa adoração toda a beleza que se possa proporcionar, são belas e admiráveis, e penso que é perfeitamente possível que coexistam com a doutrina mais ampla e mais liberal.

Eles não têm coexistido assim por muitos séculos agora, infelizmente, exceto no caso de muito poucas pessoas, aqui e ali.

Há muito tempo acredito que uma igreja surgiria, mais cedo ou mais tarde, que combinaria essas coisas, e agora a temos na Igreja Católica Liberal.

Aqueles que amam a velha igreja e seus métodos, seu ritual e música, e toda a beleza e suavidade da santidade, agora podem ter tudo isso, e ao mesmo tempo ter com isso uma doutrina que é, para todos os efeitos, a Teosofia.

712. Portanto, quando na Teosofia usamos termos correspondentes àqueles que são comumente usados dessa maneira vaga, devemos entender que eles não são nebulosos ou indefinidos em nenhum sentido.

Se eu falo em dar a alguém a bênção do Mestre, quero dizer um derramamento definido de uma influência espiritual.

Ela usa como veículo matéria em um nível mais elevado do que o plano físico, na maioria dos casos, mas, no entanto, emprega matéria através da qual influencia a matéria do corpo causal, mental ou astral, conforme o caso; portanto, livremo-nos completamente de qualquer fragmento de pensamento de que isso seja uma vaga influência benéfica que não significa grande coisa.

713. Essa grande força que move todas as coisas tem outro aspecto, que é a lei do sacrifício.

Sacrifício é uma grande palavra, mas as pessoas geralmente a usam erroneamente.

Elas falam em fazer um sacrifício quando abrem mão de algo e isso lhes rasga o coração. Se os homens quiserem saber o que o sacrifício realmente significa na religião, terão de apagar essa ideia de suas mentes.

Devem adotar uma interpretação inteiramente nova de uma palavra que conheceram por toda a vida.

Às vezes podem pensar que agora possuem a interpretação verdadeira e deixaram a outra de lado, quando a sombra da antiga ideia ainda está sobre eles, e ela surge e obscurece a mente sem que percebam; somente gradualmente ela desaparecerá por completo.

714. A palavra "sacrifício" vem do latim *sacrificio* — "eu torno santo". Sacrificar uma coisa é oferecê-la a Deus, tornando-a assim santa.

A ideia de que, ao oferecê-la a Ele, você a afasta de si mesmo é um significado secundário que foi introduzido; se você quiser, como é tão frequentemente expresso nas Escrituras, fazer de si mesmo um sacrifício perfeito a Deus, não deve haver nisso nenhuma ideia de abrir mão de coisa alguma.

A verdade é, embora pareça paradoxal, que enquanto você sentir que algo é um sacrifício, ele não o é de fato; não é tornado santo de maneira alguma.

Você o dá, mas com mão relutante.

Quando você sente que não pode fazer outra coisa senão derramar-se, por assim dizer, aos pés de Deus ou de Cristo em perfeita devoção; quando você não tem absolutamente nenhum pensamento de abrir mão de algo, porque na própria natureza das coisas você não poderia agir de outra forma senão conforme sente; quando o que você tem dentro de si faz com que não haja nada mais no mundo inteiro que você possa fazer senão render-se totalmente a Ele; talvez então você seja um sacrifício perfeito.

É somente quando nos esquecemos por completo das ideias que são ordinariamente associadas à palavra que podemos fazer um verdadeiro sacrifício.

É uma palavra gloriosa, mas não significa abrir mão; significa tornar santo.

715. O próprio Logos faz o maior de todos os sacrifícios, pois Ele Se derrama na matéria.

Ele limita Seu poder e derrama Sua glória; verdadeiramente, "Por nós homens e para nossa salvação, Ele desceu dos Céus". São palavras belas, mas o significado que lhes é atribuído nos dias modernos está muitas vezes longe disso; é frequentemente uma total degradação da ideia real.

Quando compreendidas, essas ideias são vistas como belas e gloriosas e inteiramente dignas de louvor e admiração — mas devemos compreender primeiro.

Assim, o Cristo faz de todos os sacrifícios o maior, e nós, na medida em que nos dedicamos ao Seu serviço, participamos desse sacrifício e nos tornamos um com ele. Se alguém já viu a realidade por trás, não pode fazer outra coisa senão isso; mas então o mundo não mais o consideraria um sacrifício, porque pareceria estar seguindo a própria vontade.

Então o homem continua trabalhando com a força evolutiva, mas esqueceu o que deu.

Não é mais uma questão de abrir mão de algo, mas de ter alcançado a verdadeira realização de si mesmo e de saber para que se está aqui.

O pensamento do Logos é assim, e devemos ser como Ele se quisermos verdadeiramente sacrificar.

716. A Dra. Besant disse que o fato de não haver religião no mundo que não esteja repleta de ideias de sacrifício mostra que há alguma grande verdade esotérica subjacente a ele. A Lei do sacrifício ainda não foi totalmente estudada, embora um Mestre tenha dito certa vez que ela é tão importante quanto as da reencarnação e do karma.

717. Ver essa realidade por trás das coisas é ouvir o canto da vida.

O canto da vida é a força que está o tempo todo fluindo sob a vida.

Todos os diferentes movimentos na natureza têm o som e a cor como suas expressões e acompanhamentos — há outros dos quais nada sabemos, mas pelo menos o som e a cor estão dentro de nossa experiência.

É possível aprender a ouvir algo da harmonia da natureza e a ver algo de sua beleza, glória e ordem, e é por esse caminho, mais do que por qualquer outro, que se pode chegar a estar bastante certo de que todas as coisas cooperam para o bem, e que a ordem que subjaz a essa aparente desordem está fora de toda proporção e é, em todos os sentidos, maior, mais importante, mais eficaz.

A desordem não é nada além de uma leve perturbação, espuma na superfície; a verdadeira profundidade do mar jaz abaixo, e essa obedece perfeitamente à lei divina, ainda que na superfície essa lei possa parecer ser desrespeitada.

718. É importante para nós tentarmos, se pudermos, sentir a realidade que jaz por trás, sentir aquilo que é incapaz de ser desviado ou perturbado de qualquer maneira.

É um grande conforto, uma grande consolação, uma grande segurança, quando uma vez podemos entrar em contato com isso, e sentir absolutamente certo de que tudo está marchando firmemente em seu caminho, e que portanto não importa o que aconteça na superfície, porque é, na pior das hipóteses, um pequeno incômodo temporário, um leve frêmito.

Todo o tempo estamos avançando rumo à unidade com o Uno.

Somos o tempo todo parte disso; estamos avançando rumo à realização disso, e o Uno, através de nós, está desenvolvendo Sua manifestação de Si mesmo.

719. Há um canto, um grande acorde de harmonia, por assim dizer, sempre soando além dos mundos.

Nos dias clássicos falavam sobre a música das esferas, a ideia sendo que o sol, os planetas e as estrelas, movendo-se em seus cursos, produzem uma poderosa harmonia.

No Antigo Testamento, também lemos que "as estrelas da manhã cantavam juntas, e todos os filhos de Deus jubilavam".¹ (¹ Jó, 38, 7.) Muitas pessoas pensam nisso como uma bela expressão, mas meramente um simbolismo poético.

Um provérbio comum fala de coisas como "boas demais para serem verdadeiras"; mas tudo que é bom e belo deve ser verdadeiro, porque é bom e belo.

Onde quer que haja uma ideia elevada, há uma base para ela; não se poderia pensá-la a menos que houvesse algo correspondente a ela nos níveis superiores.

Todas as coisas mais altas, nobres e grandiosas são os pensamentos divinos; nossos pensamentos são elevados, puros, verdadeiros e nobres justamente na proporção em que alcançam rumo a isso.

Devemos procurar adquirir esta ideia — não como uma concepção poética com a qual brincar, mas como um fato básico real — de que acima de tudo e em tudo e no coração de tudo há sempre o belo e o verdadeiro.

As ideias comumente apresentadas diante de nós são os pensamentos do homem sobre as coisas; as realidades por trás das coisas são os pensamentos de Deus sobre elas; assim como Deus é maior que o homem, também os Seus pensamentos são mais elevados que os nossos pensamentos.

Mais elevado não significa mais austero, ou mais impraticável, ou mais distante da vida comum, mas maior, mais belo, mais glorioso.

720.   Estamos ouvindo a canção da vida sempre que procuramos encontrar em tudo aquilo que há de melhor e de mais belo.

Todos os estudantes de ocultismo devem necessariamente ser otimistas, porque sabem que os fatos justificam muito mais do que a visão mais otimista que possamos ter.

A verdade por trás é sempre grandiosa.

Nós a compreendemos mal e ficamos aquém dela; isso não é culpa da verdade, mas da nossa falta de compreensão.

Assim, de muitas maneiras — algumas delas pequenas — na vida diária podemos ouvir esta canção da vida, e uma vez que cheguemos a ouvi-la, não perderemos inteiramente o som novamente.

Ela pode ser ouvida em todos os diferentes planos; mesmo que pudéssemos ouvir a totalidade da canção em um plano, ainda teríamos apenas uma parte muito pequena, uma nota.

À medida que alcançamos plano após plano, encontraremos sempre mais e mais de sua beleza e glória.

Quanto mais se ouve dela, mais perfeita se torna a harmonia.

Se alguém tocasse todas as notas de uma oitava ao mesmo tempo, não obteria harmonia, mas discórdia; mas nos planos superiores há o que só posso descrever de uma maneira um tanto paradoxal — a possibilidade de que quanto mais notas você for capaz de tocar, mais perfeita é a harmonia, porque lá todas as coisas se encaixam umas nas outras de uma maneira que aqui embaixo não se pode sugerir nem de longe. Se parte de uma melodia está em um tom e parte em outro, obtemos um efeito de desarmonia.

Se pudéssemos imaginar algum tipo de projeção no espaço na qual cada uma dessas partes se desenrolasse em perfeita harmonia dentro de si mesma, e então um esquema em outra direção no qual essas partes se fundissem, no qual cada uma dessas harmonias fosse uma nota, isso poderia dar uma ideia disso; não é possível colocá-lo em palavras.

Mas o efeito disso é que você pode projetar um número de tons, que aqui seriam discordantes, de tal maneira que eles formam nos mundos superiores uma harmonia perfeita.

721.   Muita música moderna é menos harmoniosa do que a música mais antiga.

Ela mergulha em dissonâncias selvagens e busca, por meio disso, de alguma forma produzir uma harmonia mais refinada.

Não consegue fazê-lo; mas creio que as pessoas que estão trabalhando nisso estão obtendo vislumbres daquilo de que tenho falado e tentando expressá-lo. Elas buscam algum método pelo qual as dissonâncias produzirão harmonia.

Não creio que isso possa ser feito no plano físico; mas devo confessar que não gosto dessas curiosas manifestações posteriores e, portanto, provavelmente estou longe de compreendê-las.

As pessoas que compõem toda essa música estranha provavelmente visam a algo cujas contrapartes astral e mental não serão dissonâncias, mas harmonias; porém, neste nível, produzem um efeito que não é harmonioso.

Suponho que aqueles que passaram a apreciá-la aprenderam a produzir os efeitos em seus corpos superiores e, por isso, gostam desse som estranho e inarmônico.

722. Muitas das curiosas manifestações modernas da arte, não apenas na música, mas também na pintura, estão definitivamente lutando em direção ao futuro e produzindo efeitos além do que pode ser visto e ouvido.

O que pode ser visto e ouvido é muito feio em muitos casos, mas posso bem imaginar que eles visam a algo que será muito belo quando o resultado for alcançado.

Deseja-se que seja razoavelmente harmonioso em todos os planos, para que até aqui embaixo a coisa possa ser bela em si mesma para aqueles que não compreendem o lado superior!

723. Ouvi várias pessoas dizerem que uma peça musical soava para elas quase igual a outra.

Há muitos de nós que obtêm certo prazer vago da música, mas não a compreendem de modo algum. Há outros para quem uma peça musical não é apenas agradável ao ouvido, mas para quem é tão definida quanto a fala em uma palestra, para quem transmite uma forma clara, que podem ver e apreciar.

Ouvi grandes músicos falando entre si e, portanto, percebo que a forma-pensamento com a qual um compositor escreve certa peça musical pode ser definitivamente transmitida a outro homem.

Encontrei um caso assim quando estive na Itália há alguns anos.

Um homem escreveu uma peça musical que pretendia representar uma fonte em um jardim, e essa fonte tinha três bacias uma acima da outra.

Enquanto escrevia sua música descrevendo isso, ele tinha aquela forma-pensamento em mente.

Sei que a mesma forma-pensamento foi transmitida a outro músico que nunca vira a fonte ou o jardim, e não fazia ideia do que a música pretendia retratar; quando a tocou, ela evocou diante dele o quadro exato, de modo que ele soube quais partes se referiam às diferentes bacias da fonte e qual parte descrevia o jardim.

Eu podia ver certas correspondências, mas até ouvir o que aquilo significava, a música não me evocava o quadro. Esse é um desenvolvimento musical mais elevado; quando estivermos no nível em que pudermos sentir um significado como esse na música, ela transmitirá mais do que transmite atualmente para a maioria de nós. O mesmo se aplica a uma pintura.

Precisamente o que ela transmite a um difere do que é indicado a outro.

Alguns são como o homem no poema de Wordsworth:

724. Uma prímula à beira do rio

725. Uma prímula amarela era para ele,

726. E nada mais.

727. Mas para o poeta, a prímula sugeria uma infinidade de belas ideias.

Quando essa faculdade estiver definitivamente estabelecida, chegaremos a uma condição de pensar em símbolos.

O ego faz isso em seu corpo causal; ele pensa em símbolos, não em coisas concretas, e evidentemente uma das vias de desdobramento psíquico é nessa direção, embora seja muito diferente da forma mais comum de desenvolvimento.

728. Muitas das formas mais novas de arte, como as pinturas futuristas e cubistas — coisas que não se assemelham a nada no céu ou na terra, mas podem simbolizar algo em níveis superiores — estão atualmente em estágio de transição; é um trabalho pela metade.

Sempre se diz que não se deve permitir que crianças vejam trabalho inacabado.

Alguns de nós somos apenas crianças nesse aspecto, por isso não o apreciamos; mas quando estiver completo, poderá ser um grande sucesso.

A canção da vida não é uma única parte, mas uma orquestra inteira; é um vasto número de melodias entrelaçadas, e pode ser que os devotos da nova arte estejam se elevando em direção a outra manifestação que ainda não vemos.

729. Grandes mudanças podem ocorrer na arte e na música, bem como na religião, na reforma social e na política, quando o Mestre do Mundo vier.

Pensamos habitualmente Nele como guiando-nos apenas na religião.

Não sei por que deveríamos limitar nossas ideias a isso, pois certamente há uma grande evolução humana fora do ensino religioso propriamente dito.

Não quero dizer que o ensino religioso não deva permear toda a nossa vida; creio que deveria, mas essa própria religião pode se manifestar em muitas linhas diferentes.

Pode ser, portanto, que o Mestre nos mostre como essas coisas devem ser feitas, que Ele inspirará não apenas o sacerdote, mas também o poeta, o artista, o escultor, o músico e o cientista.

Quando tivermos uma apresentação mais moderna da religião, uma mais em harmonia com o estágio particular de evolução que a humanidade alcançou agora, pode bem ser que essa nova formulação nos dê um impulso maravilhoso ao longo de todas essas linhas.

Muito verdadeiramente, Sua mensagem nos aproximará da compreensão da canção da vida em todos os sentidos.

Ela nos mostrará mais da glória subjacente, e da beleza, e da harmonia e da ordem.

730. É importante compreender a ordem.

Estamos agora passando por uma fase democrática das coisas, em conexão com a qual parece inevitável que haja considerável manifestação de desordem; algumas pessoas, de fato, antes se gloriam na desordem, chamam-na de individualismo, e dizem que cada homem deve seguir seu próprio caminho, não importa o que aconteça com os demais.

É necessário que as pessoas aprendam a ser capazes de seguir seu próprio caminho; também é necessário que, tendo feito isso, aprendam a subordinar suas vontades à Vontade Divina.

Tendo desenvolvido o poder de permanecerem sós, e os poderes de agir e pensar, devem aprender a usá-los apenas na direção certa.

É preciso ter uma vontade para subordinar à Vontade Divina.

Quando um homem não tem vontade, a vida é bastante fácil, porque ele deixa tudo à deriva e confia na "Providência". As pessoas que desenvolveram uma vontade às vezes a afirmam contra a Vontade Divina, e realmente parece melhor para sua evolução que as pessoas sejam fortes o bastante para errar assim, a fim de que possam logo acertar, porque as pessoas que não têm vontade de fazer nem o bem nem o mal provavelmente não serão particularmente úteis, nem irão muito longe.

1 Ante, Vol.

II, p. 131.

731. Seguir a Vontade Divina é ouvir a canção da vida.

Quanto mais a buscamos, mais a descobriremos. À medida que alcançamos plano após plano, a ouviremos de forma mais grandiosa e mais plena.

Diz-se aqui que mesmo agora podemos formar uma vaga ideia, podemos ver algum reflexo obscuro do esplendor do todo, porque esta canção da vida está dentro de nós, e se olharmos bem fundo, a encontraremos. Temos o espírito divino, o sopro divino dentro de nós. Ele está incrustado pelo que chamamos de nossa natureza humana, e assim a melodia não atravessa prontamente — a centelha arde baixa.

Mas ela está lá, e essa centelha nunca está separada, como pensávamos. Ela é sempre parte da totalidade da chama divina, e nosso dever é tornar esses eus inferiores lâmpadas através das quais ela possa brilhar.

Há sempre dentro de nós uma manifestação do divino que não é maculada ou de qualquer forma obscurecida por sua associação com a matéria.

Se pudermos nos realizar como isso, a matéria não terá mais poder algum sobre nós; mas fazer isso plenamente significa um desenvolvimento muito elevado — talvez até mais do que o Adeptado.

Sempre existe essa manifestação, absolutamente imaculada, sem nuvens, intocada; se pudermos realizar mesmo um pouco de nossa unidade com ela, sentir que isso é "eu", ouviremos a canção da vida sempre.

Por mais que estejamos cercados pela luta e pelo choque dos mundos inferiores, essa canção será sempre entoada dentro de nós; faremos nosso trabalho no mundo exterior em paz e contentamento absolutos, porque sabemos que dentro está a única verdade real e todo o resto é meramente uma manifestação temporária.

Algum contato com nossa própria consciência superior ou com a do Mestre é frequentemente o início da audição dessa melodia; ela traz um senso dessa vida interior, de regozijo, de bem-aventurança, de conquista, um sentimento de que você foi vitorioso em uma grande luta.

732. A nota do Mestre continua:

733. Aquele que escolhe o mal recusa-se a olhar para dentro de si mesmo, fecha seus ouvidos à melodia de seu coração, assim como cega seus olhos à luz de sua alma.

Ele faz isso porque acha mais fácil viver nos desejos.

Mas sob toda a vida está a forte corrente que não pode ser contida; as grandes águas estão lá em realidade.

Encontre-as e perceberá que ninguém, nem a mais miserável das criaturas, deixa de ser parte disso, por mais que se cegue para o fato e construa para si uma forma externa fantasmagórica de horror.

734. Se um homem escolhe o mal, é porque recusa-se a olhar profundamente dentro de si mesmo.

Dificilmente é que ele escolhe o mal intencionalmente, mas como nunca mergulha fundo em si mesmo, confunde seu veículo astral consigo mesmo, e assim vive em seus desejos, seguindo o caminho inferior porque quer satisfazê-los.

É porque ele não quer enfrentar os fatos da vida que está trabalhando contra a corrente da evolução.

Muito depois de ter alcançado o ponto em que poderia mudar para a vida superior, ele geralmente desvia o rosto; é desconfortável demais para ele perceber que avançou muito pelo caminho errado, que terá de dar meia-volta e enfrentar uma grande quantidade de trabalho árduo, problemas e sofrimento, decorrentes do fato de ter criado um impulso na direção errada.

Pode não parecer uma questão muito séria que haja muitas pessoas nesse estado, mas se um homem com essas características alcança uma posição em que tem em seu poder fazer muito bem ou muito mal, ele corre grande perigo do ponto de vista do progresso oculto.

735. Quando se lê passagens como esta, pensa-se geralmente em um homem que se dedica à magia negra em grande escala, mas isso é igualmente verdadeiro no que diz respeito a questões menores.

O homem que não quer encarar os fatos é muito suscetível de ser desviado para o caminho mais fácil, porém mais perigoso.

Ele fará o que é fácil, em vez do que é certo.

Temos de nos ver francamente como somos.

O homem que se recusa deliberadamente a fazê-lo provavelmente tem razão para temer que, se se visse face a face, não gostasse da perspectiva.

Ainda assim, é possível errar na direção oposta; cair em uma condição de introspecção mórbida é realmente um sério problema e dificuldade, como vimos ao estudar *Aos Pés do Mestre*.

(¹ Ante, Vol. I, Parte II, Cap. 5: Altruísmo e a Vida Divina.) As pessoas que estão sempre se arrancando pelas raízes para ver como estão crescendo não progridem.

O importante é certificar-se de que você está direcionado para o caminho certo, de que está tentando trabalhar para o bem, e então seguir calma e firmemente, fazendo o melhor que puder.

Não se preocupe com o seu próprio progresso.

É necessário, verdadeiramente, que você progrida, mas o melhor progresso é feito quando você não está pensando nele, quando perdeu todo o pensamento de si mesmo ao fazer algum trabalho bom e útil para os outros.

(¹ Ante, pp. 55, 162.) Tal avanço que eu mesmo pude realizar no curso dos últimos quarenta e cinco anos veio absoluta e inteiramente de me lançar em qualquer trabalho que precisasse ser feito, deixando a questão do progresso cuidar de si mesma.

736. É verdade que o homem que se cega para o fato de que é divino constrói para si uma forma de horror.

Nossa dificuldade em lidar com ele é que o que encontramos aqui embaixo é a forma de horror, e não a alma por trás dela.

No entanto, temos de tentar compreender que essa alma está ali.

Creio já ter mencionado antes que tive certa experiência como auxiliar leigo na Igreja, em meus anos de juventude, em uma das piores regiões de Londres.

No decorrer dessa experiência, encontrei pessoas que eram talvez tão baixas e degradadas quanto qualquer um poderia encontrar no mundo.

Não tinham qualquer pensamento de obter um meio de vida honesto ou respeitável.

Sua única ideia de vida era roubar e cometer ultrajes de vários tipos.

Não sabiam absolutamente nada além disso.

Aqueles que vivem em condições melhores têm muito pouca noção da vida entre os verdadeiros pobres de Londres.

Conheci cinco famílias vivendo em um único cômodo — uma em cada canto e uma no meio.

Elas se davam razoavelmente bem, de uma curiosa maneira porcina, até que a família do meio aceitou um inquilino, e então houve uma briga.

Nos países mais novos, dificilmente existe algo que se assemelhe às favelas da Grã-Bretanha.

Em cada raça há homens mais e menos avançados, mas na Grã-Bretanha produzimos condições extremas, porque nem sempre vivemos à altura de nossos poderes e responsabilidades.

Em alguns casos, massacramos raças selvagens, as abatemos como bestas selvagens, saímos para atirar nelas como homens atiram em caça.

Em muitas instâncias, aqueles que foram assim tratados, por consequência, encarnaram em nossa própria raça e se tornaram habitantes das favelas.

Embora lhes seja dada a oportunidade de um corpo de uma raça superior, geralmente são incapazes de tirar muito proveito disso, especialmente enquanto seu ambiente é tão ruim.

737. Quando as pessoas vivem em condições como essas, não creio que possamos esperar algo muito elevado em termos de moralidade ou humanidade.

Essas pessoas, com um histórico de crime atrás de si, com uma hereditariedade de crime de seus pais e mães, e vivendo sob condições terríveis como as que descrevi, no entanto sempre tiveram alguma pequena centelha de algo melhor dentro de si — uma pequena bondade que demonstravam para com um vizinho doente, para com uma criança, para com um cão.

Lembro-me de um homem que era um caso muito grave de fato, e creio que o único lampejo de algo bom que vi nele foi que ele tinha uma forte afeição por um cão, e dividiria com ele seu último pedaço de comida.

A centelha divina existe em cada uma dessas pessoas, e se manifestará quando menos se espera. Você sabe que ela está sempre ali, e isso é algo sobre o qual se pode trabalhar.

Se alguma vez houver um caso em que você não consiga encontrar nenhum vestígio disso, fique certo, mesmo assim, de que está ali.

738. Embora devamos sempre tentar lembrar a glória que está por trás de um homem, e que ela se manifestará em alguma vida futura, temos ainda de enfrentar o fato de que a apresentação externa, no presente, é muitas vezes bastante deficiente.

Devemos tentar ajudar a centelha divina a se manifestar, embora encontremos casos em que dificilmente possamos tocá-la. Não é dado a todos encontrar o caminho.

Encontramos pessoas para as quais não podemos fazer muito.

Tentamos; fazemos o nosso melhor; pode não ser o carma do homem que sejamos capazes de ajudá-lo; pode não ser o nosso carma sermos fortes o bastante para encontrar o caminho naquele caso particular.

Nesses assuntos, devemos sempre lembrar a importância do senso comum, e não devemos nos permitir ser arrastados por ele para a impotência ou o desespero, de um lado, ou para qualquer tipo de sentimentalismo que nos cegue para fatos óbvios, de outro.

Costuma-se dizer que há apenas um passo entre o sublime e o ridículo, e pode-se, às vezes, tornar aquilo que é nobre e belo bastante ridículo ao persegui-lo demasiadamente, ou ao levá-lo a um comprimento exagerado.

Há muitas dessas instâncias e possibilidades em conexão com nosso ensino e trabalho teosóficos.

739. A vida divina está em todos, mas em muitos casos ela pode estar se mostrando de forma pobre e obscura.

Temos então de lidar com a questão como ela se apresenta.

No plano físico, para nossa vida como comunidade, devemos ter certas leis.

Aqueles que ofendem contra essas leis, que se tornam o que se chama de criminosos habituais, devem ser tratados de alguma maneira que ajude tanto a eles quanto à comunidade.

Sei que algumas pessoas levam a ideia da luz interior tão longe que dizem que o criminoso não deveria ser contido.

Isso me parece tolice, porque então estaríamos nos entregando nas mãos do criminoso, e a vida, a ordem e o progresso se tornariam impossíveis para milhares de pessoas cuja oportunidade de progresso é muito melhor, que são muito mais importantes para o progresso do mundo do que aquele criminoso.

740. Não devemos fazer nenhum mal ao nosso criminoso.

Devemos tratá-lo como um caso, como um homem doente, e não como um homem mau, porque o criminoso habitual é uma pessoa que é mentalmente deficiente.

Esperto ele pode ser em certas linhas, mas é certamente deficiente em outros aspectos.

Ele é incapaz de ver a necessidade do desapego, da unidade e da solidariedade; caso contrário, não poderia ser o criminoso habitual.

Aqueles que leram as obras do Prof. Lombroso lembrarão que, após uma longa série de experimentos, ele chegou à conclusão de que todos os criminosos habituais apresentavam deficiência cerebral e que, em todos os casos, por mais inteligentes que fossem, seus cérebros pesavam menos do que os cérebros de homens normais.

Ele afirmou que certas partes do cérebro ainda não estavam em atividade neles.

741. A ideia usual de vingar-se do criminoso é certamente a maneira errada de abordar a questão.

Parece-me indigna de um corpo civilizado de pessoas.

Devemos nos proteger contra os ataques das classes criminosas, mas, uma vez que eles também são homens e irmãos, ainda que irmãos muito mais jovens, deveríamos tentar, ao nos protegermos, ajudá-los e educá-los, e não nos vingarmos deles.

Há uma ideia de que outros crimes podem ser prevenidos fazendo-se um exemplo terrível de uma pessoa.

(1 Ante., Vol. I, Parte V, Cap. 4: Crueldade.) Isso é fazer o mal para que o bem venha; a história mostra que o bem não vem dessa maneira.

742. Todas essas formas de horror são fantasmagóricas.

Elas não têm existência na realidade divina.

Dizem na China que o mal é apenas uma sombra escura do bem.

Nós produzimos a maior parte do mal no mundo porque não trabalhamos em harmonia com as leis divinas nesta vida ou em vidas passadas.

Se fosse possível que todos trabalhassem em harmonia com elas, o mal seria eliminado.

Foi necessário que algum livre-arbítrio fosse conquistado para que pudéssemos aprender a usá-lo, mas, de forma bastante natural e sem culpa atribuída a ninguém, usamos nosso livre-arbítrio de maneira errada quase tão frequentemente quanto de maneira certa, e a consequência disso foi a introdução do que chamamos de mal no mundo.

Mas é sempre uma mera perturbação superficial; sempre, nas águas profundas por trás, estão as grandes correntes da vida divina e a evolução que o Logos traçou para nós. Essas são as realidades permanentes da vida.

A outra é apenas superficial, embora para nós muitas vezes pareça de tremenda importância e de muito grande poder.

Na realidade, em comparação com o resto, não é de modo algum uma coisa poderosa.

As grandes águas não são afetadas por nada que possamos ver.

De alguma maneira misteriosa, é verdade que "Cegamente os ímpios cumprem a justa vontade do céu", como disse Southey.

Nesse sentido, eu vos digo: todos esses seres entre os quais lutais são fragmentos do Divino.

E tão enganosa é a ilusão em que viveis que é difícil adivinhar onde primeiro detectareis a doce voz nos corações dos outros.

Mas sabei que ela está certamente dentro de vós mesmos.

Buscai-a ali, e uma vez tendo-a ouvido, mais prontamente a reconhecereis ao vosso redor.

743. Se pudermos olhar as coisas do ponto de vista do ego no corpo causal, ainda mais se pudermos penetrar no próximo plano, o búdico, veremos o verdadeiro significado de tudo isso.

Não é mais uma pequena parte do lado inferior de tudo isso que então vemos, mas a coisa toda; e podemos perceber qual é a proporção, e ver quão realmente pequena ela é, como "O mal é nulo, é nada, é silêncio que implica som." Isso é mais verdadeiro do que talvez Browning soubesse quando o escreveu. Atrás e além e acima de todo o mal, podemos estar muito certos de que a grande corrente flui constantemente, que a canção da vida pode ser ouvida, se descermos fundo o bastante para ouvi-la, pois a alma das coisas é doce, e o coração do ser é o descanso celestial, como o Senhor Buda nos disse há muito tempo.

744. Temos de encontrar o caminho para Deus pelo cultivo da centelha até que ela se torne uma chama.

Ela então queimará as paredes que a individualidade construiu, mas ao destruí-las não perderá a força e a definição que ganhou ao construí-las e usá-las.

Assim, o poder que ela assim ganha lhe permitirá eventualmente agir não como uma centelha, mas como um sol irradiando vida e luz através de um vasto sistema solar, e então, de fato, o homem terá se tornado como Deus.

745. Podemos agora considerar o comentário do Chohan sobre a Regra 5:

746. A própria vida tem fala e nunca se cala.

E sua expressão não é, como vós que sois surdos podeis supor, um grito: é uma canção.

Aprendei com ela que sois parte da harmonia; aprendei com ela a obedecer às leis da harmonia.

747. Aqui embaixo, na superfície, vê-se muita confusão, de choro e tristeza e miséria e apego e excesso e má vontade, e poder-se-ia muito bem pensar que, se alguém pudesse penetrar no coração da vida, encontraria um grito de socorro, um grito de miséria; mas não é — descobrir-se-á que não é um grito, mas uma canção.

O que quer que o spray na superfície faça, quaisquer que sejam as correntes e redemoinhos que aqui nossos olhos externos possam ver, a poderosa corrente segue constantemente, e é isso que conta, é isso que deixa a marca.

748. O clamor por descanso e paz é, muitas vezes, tudo o que podemos ouvir no mundo físico.

Quando ascendemos aos planos superiores, percebemos que toda a corrente da vida que flui de dentro não emite nenhum clamor por descanso, mas canta uma canção gloriosa de triunfo enquanto flui firmemente adiante no caminho que Deus lhe designou. Você pode aprender com essa canção, como aqui se diz — você faz parte da harmonia e pode aprender com ela a obedecer às leis da harmonia.

Todo este universo maravilhoso e glorioso é uma expressão da vontade de Deus; ele avança firmemente como Ele o faz avançar, e tudo o que temos de fazer, se tão somente o compreendêssemos, é tornar-nos uma parte inteligente desse movimento, ver o que Ele quer que façamos e então fazê-lo.

749. Não há dificuldade, e nunca houve qualquer dificuldade, em saber o que Ele quer que façamos, pois a religião no mundo, desde os tempos mais remotos dos quais temos registro, tem ensinado precisamente isso com relação às ações dos homens.

Eles tiveram tantas formas de crença, e tantos nomes diferentes para as coisas, quantas foram as religiões, mas todas concordam quanto ao que um homem deve fazer. Isso é o que importa, e é estranho que as pessoas não possam ser induzidas a ver essa ideia e a trabalhar com ela. Todas concordam que o homem bom é o homem de coração generoso, o homem altruísta, o homem bondoso que não oprime os outros, mas tenta de todas as maneiras ajudá-los em seu caminho — o homem que é caridoso para com os pobres, que dá alimento ao faminto e bebida ao sedento e roupas aos nus, e que visita os doentes e os encarcerados.

Essas são as coisas das quais se relata que Cristo falou como determinantes do destino dos homens.

(1 São Mateus, 25, 35-40.) No Budismo, a última das religiões fundada por Seu grande predecessor, o Senhor Gautama Buda, você encontrará exatamente as mesmas virtudes estabelecidas.

Quando o atual Mestre do Mundo veio até nós em Sua encarnação como Shri Krishna, Ele pregou a mesma doutrina.

Há uma variação em certas formas externas e nomes que não importam, mas o ensinamento em si sempre foi o mesmo.

Contudo, embora os homens sempre tenham sido informados, sempre tenham sabido qual era a vontade de Deus, é muito difícil fazê-los agir de acordo.

750. Lemos muito sobre a vida simples; as mais simples de todas, suponho, foram levadas pelos eremitas de outrora, e ainda hoje são levadas na Índia por pessoas que se retiram para a selva absolutamente sem nada, e se dedicam inteiramente a seguir a vida superior.

Estou bem ciente de que isso muitas vezes deteriora alguns deles, e aqueles que se supõe estarem se dedicando à vida superior às vezes, na realidade, ainda não são capazes de fazê-lo plenamente, ainda não estão no nível em que possam passar uma vida inteira em meditação.

Assim, há iogues que fizeram com que a ioga fosse criticada, e eremitas que trouxeram desonra à religião pela qual trabalham.

Ainda assim, o fato permanece: a vida mais elevada e mais simples de todas é, na realidade, a vida mais plena — a vida que é vivida inteiramente nos planos superiores.

751. Isso não é para todos; a maioria de nós está na linha do karma yoga, ou do serviço ativo; nossa tarefa é trabalhar em benefício do mundo no plano físico.

O homem que se retira do mundo deveria estar trabalhando por ele de forma muito mais decidida e forte, mas no nível superior.

Ele não se retira para meditar numa selva ou caverna meramente porque quer se afastar do resto do mundo e salvar sua própria alma mais facilmente dessa maneira.

Ele vai porque, sendo já uma alma salva, radiante, jubilosa, forte, um poder espiritual, sente que pode realizar um trabalho maior nos planos superiores do que poderia numa cidade, em meio às interferências do plano físico.

¹ Ante., Vol. I, Parte V, Cap. 2: Amor na Vida Diária; Cap. 6: Serviço; Vol. III, p. 74.

752. Às vezes, homens se retiraram para a selva meramente para evitar as responsabilidades e dificuldades do dever mundano; mas o homem que transcendeu o dever mundano descobrirá que ele se desvanecerá diante de si, e quando o caminho assim se abrir para ele, poderá permitir-se tentar a vida superior do sannyasi ou monge.

Contudo, mesmo então, neste período da história do mundo, essa vida monástica não parece ser o caminho geralmente indicado.

Há tanto a fazer no mundo que, pelo menos, devemos cumprir todos os nossos deveres nele antes de nos sentirmos à vontade para nos retirarmos dele e deixar esse trabalho para outros.

Pode ser que, quando o grande Mestre do Mundo vier, Ele escolha aqueles que deverão trabalhar nessas diferentes linhas.

Bem pode ser que, entre os jovens, alguns sejam escolhidos para levar a vida do monge.

Não sabemos; mas é bem certo que Ele precisará de ajudantes amorosos, ativos e dispostos no plano físico.

Por enquanto, façamos esse trabalho, porque ele está ao nosso alcance. Se, quando Ele vier, escolher afastar alguns de nós para realizar um trabalho mais elevado, então Ele nos dará o poder para fazê-lo, mas por enquanto façamos aquilo que é obviamente nosso dever, e façamo-lo com todas as nossas forças, como para o Senhor e não para os homens.

753. 6. Guardai em vossa memória a melodia que ouvis.

754. Apenas fragmentos da grande canção chegam aos vossos ouvidos enquanto ainda sois apenas homem.

Mas se a escutardes, lembrai-vos dela fielmente, para que nada do que vos alcançou se perca, e esforçai-vos por aprender dela o significado do mistério que vos cerca.

Com o tempo, não precisareis de mestre.

Pois assim como o indivíduo tem voz, também aquilo em que o indivíduo existe tem voz.

755. Se escutardes, ouvireis às vezes a grande canção; então lembrai-vos dela e nunca esqueçais o que ouvistes, para que nada do que vos alcançou se perca; dessa forma, reunindo os fragmentos da grande canção, podereis gradualmente aprender dela o significado do mistério que vos cerca.

756. A vida é um mistério para aqueles que não a veem como um todo, e nenhum de nós pode vê-la plenamente até nos tornarmos um com o Logos do sistema, o Logos de quem toda esta vida é a expressão.

Somente Ele pode vê-la plenamente.

Nós, como fragmentos minúsculos (sei que isso não é filosófico, mas creio que se aproxima mais do fato do que qualquer outra expressão), como pequeníssimas partes de Sua consciência, podemos identificar-nos em maior ou menor grau com essa grande consciência.

E exatamente na proporção em que assim fizermos, poderemos ver isto, senti-lo, conhecê-lo. Cada um de nós que tenta ouvir a canção da vida está tentando reunir os fragmentos que vê aqui e ali.

757. Provavelmente toda a natureza é a expressão de algo que é simples; pouquíssimas forças simples, sob diferentes condições, explicam tudo o que vemos ao nosso redor; mas ainda não estamos em posição de ver exatamente quais são essas forças e como as condições operam.

(1 Ante, p. 162-3.) Parece, portanto, à primeira vista, estranho que, quanto mais investigamos a natureza de modo científico, maior seja a complexidade que encontramos.

Colocais lentes de aumento cada vez mais potentes em vosso microscópio, por exemplo, e descobris que o que parecia apenas um simples pontinho é, na realidade, um organismo maravilhosamente complexo.

Até recentemente, os químicos costumavam pensar em um elemento, como ouro ou ferro, como algo simples, mas há anos, por meio da visão clarividente, que vai muito além do poder do microscópio, vimos que se trata de um objeto altamente complexo.

Vimos, por exemplo, que o que comumente se chama de átomo químico de ouro contém três mil quinhentos e quarenta e seis dos átomos físicos últimos, e que eles se movem em grupos ao redor de seu próprio centro de gravidade, imitando de perto o sistema solar.

758. Assim, parece que quanto mais profundamente investigamos, mais complexo encontramos tudo.

No entanto, em última análise, isso não é verdade, porque se formos cada vez mais longe, finalmente descobrimos que tudo é construído de bolhas em koilon — construído de nada — e todo o universo material é, de certa forma, uma ilusão.

De fato, os livros indianos nos disseram isso há muito tempo — que há uma simplicidade última por trás de toda essa complexidade.

Não podemos falar com certeza, porque ainda não a vimos, mas parece tão provável que podemos quase tomar como certeza que essa mesma regra se aplicará em toda parte: que, embora as complexidades sejam infinitamente maiores do que pensávamos, por trás de tudo isso reside a simplicidade absoluta.

759. 7. Aprenda com isso a lição da harmonia.

760. Você pode agora permanecer ereto, firme como uma rocha em meio à turbulência, obedecendo ao Guerreiro que é o teu próprio eu e o teu rei.

Indiferente na batalha, exceto para cumprir sua ordem, sem mais nenhuma preocupação quanto ao resultado da batalha, pois apenas uma coisa é importante: que o Guerreiro vença, e você sabe que ele é incapaz de derrota — permanecendo assim, calmo e desperto, use a audição que adquiriu pela dor e pela destruição da dor.

761. O grande Mestre Veneziano está descrevendo aqui o estado ao qual o homem deveria ter chegado quando o eu superior é o guerreiro, aquele que luta.

Quando o homem reconhece que ele é, na verdade, esse guerreiro, que ele é esse eu superior, e que este é divino e está dentro do Logos, então ele se torna indiferente quanto à batalha da vida, exceto para cumprir a ordem desse eu superior.

762. No início, em nossa luta no mundo, em nosso esforço para realizar nosso trabalho e cumprir nossos deveres, estamos muito preocupados com o resultado.

Sentimos que, a menos que sejamos capazes de trabalhar por isso, o certo não vencerá.

O certo sempre vencerá no final.

Seria triste que qualquer um de nós deixasse de fazer a sua parte para assegurar esse fim, mas podemos ter certeza de que, aconteça o que acontecer, o certo acabará triunfando, e enquanto fizermos a vontade do eu superior, enquanto estivermos fazendo o nosso máximo esforço, o fato de esse máximo esforço aparentemente falhar não deveria nos perturbar ou preocupar. Mas devemos estar muito certos de que estamos fazendo o máximo esforço e de que não estamos usando a certeza de que o certo vencerá como desculpa para a preguiça.

763. Milhares de pessoas disseram a respeito da grande guerra: "Bem, o certo vencerá; por que deveríamos fazer algo?" Sim, o certo venceu; mas foi uma coisa muito triste para aqueles que, tendo tido a oportunidade de ajudar, deliberadamente se recusaram.

Sobre eles recai o carma de uma grande oportunidade perdida, e também o carma de todo o mal adicional que aconteceu por causa da demora.

Se mais pessoas tivessem se apresentado corajosamente e estivessem dispostas a se sacrificar, o certo teria vencido muito mais cedo e muitas vidas teriam sido poupadas.

Aqueles que se retraíram foram responsáveis pelas vidas das pessoas adicionais que tiveram que morrer.

Suponho que haja muitas pessoas, embora pareça difícil acreditar, que prefeririam enviar outra pessoa para morrer por elas a morrer elas mesmas.

É um estágio baixo na evolução, mas há aqueles, aparentemente.

764. É absolutamente certo que na grande luta da vida o certo vencerá, e também que todos evoluirão para a perfeição algum dia, de alguma forma, talvez não nesta cadeia de mundos, mas em alguma outra.

Contudo, aqueles que tomam isso como desculpa para a preguiça e dizem: "Tudo sairá bem; não preciso me esforçar; o ego lutará em algum lugar em um nível superior; não importa o que eu, como personalidade, faça", estarão fazendo um carma muito triste para si mesmos, porque estão atrasando o triunfo final do bem neste ciclo de evolução.

765. Há uma grande diferença entre saber que o guerreiro dentro de você deve vencer, e o estágio anterior a isso, quando você não sabe com certeza.

Neste último caso, você sente apenas vagamente que ele deve vencer, e você fica muito preocupado com a sua parte na batalha; este é um estágio necessário, mesmo sendo um erro.

Mas aquele que certamente sabe alcança a calma perfeita mesmo em meio ao fracasso — não a calma da inatividade, mas da vontade divina no eu superior.

Do ponto de vista da grande consumação, o trabalho de ninguém é insignificante.

Todos os pequenos esforços reunidos formam o todo poderoso, mas, ainda assim, a parte de cada homem nesse todo é tão pequena que ele não deve se orgulhar indevidamente dela. O certo deve vencer, mas a questão é se faremos parte dessa hoste conquistadora agora ou se seremos um daqueles que serão deixados para trás.

Devemos estar entre os que elevam ou entre os elevados; cada homem deve ser um daqueles que trabalham para o mundo, ou um daqueles para quem o trabalho é feito.

766. O verdadeiro Eu vencerá; é incapaz de derrota.

Quando a personalidade é descartada e o guerreiro interior do homem luta, ele deve vencer; quando você se identifica plenamente com ele, permanece calmo e desperto, e observa o combate do qual participa exatamente como se não estivesse participando. Você tenta, através de tudo isso, ouvir aquela canção da vida; você usa aquela audição que adquiriu pela dor e pela destruição da dor.

Enquanto você tiver a dor e a sentir como tal, ainda está lutando, ainda está apenas no caminho; mas pela destruição dela você chega àquele estado em que possui outro sentido, por assim dizer, que lhe permite ouvir e ver o tempo todo o que está por trás.

Em meio a todo o tumulto e à contenda, você ouve a canção da vida; em meio à confusão selvagem, você vê a corrente poderosa.

Você chegou a saber que essa dor é apenas algo temporário; você a transcende, de modo que ela não é mais um pesar para você; não é mais sofrimento.

Você conhece seu significado, e seu poder de feri-lo está, portanto, morto.

CAPÍTULO REGRAS 9 A

767. C.W.L. — Chegamos agora ao grupo das Regras 9 a 12. Mais uma vez, podemos reunir cada uma das regras curtas com a porção do comentário do Chohan que a acompanha.

768. 9. Considera seriamente toda a vida que te rodeia.

769. Considera a vida em constante mudança e movimento que te rodeia, pois ela é formada pelos corações dos homens; e à medida que aprendes a compreender sua constituição e significado, gradualmente serás capaz de ler a palavra maior da vida.

770. A maioria das pessoas gasta seu tempo considerando não a vida, mas a forma que as rodeia.

Elas não se detêm de modo algum no pensamento da vida interior.

É por isso que podem ser tão rudes e descuidados com a vegetação, derrubando árvores belas e transformando uma paisagem encantadora num centro industrial terrível ou numa cidade feia, sem pensar em preservar o máximo possível da beleza natural ao mesmo tempo.

É também por isso que podem ser tão incrivelmente insensíveis em suas relações com nossos irmãos menores do reino animal, e até mesmo uns com os outros.

771. É também a razão pela qual o mal no mundo pesa tão fortemente sobre os sentimentos das pessoas melhores.

Se olhassem sob a superfície das coisas e vissem o que está acontecendo com a vida interior, e como até mesmo os eventos mais angustiantes são usados para auxiliar a vida em seu caminho para a felicidade divina, ficariam menos perturbados.

O discípulo deve voltar sua atenção para a vida em tudo.

A primeira coisa a reconhecer em toda vida é que ela é uma expressão do próprio Logos.

É verdade que em grande parte da vida ao nosso redor encontramos muitas coisas repugnantes, coisas que conhecemos como mal, e ainda assim elas também têm seu papel no progresso do mundo, e por causa disso podemos procurar em toda parte a manifestação da própria Divindade.

772. Há sempre algum bem humano em cada pessoa, exceto, talvez, no caso de uma personalidade que definitivamente se separou do eu superior.

Isso é algo que às vezes acontece, embora muito raramente.

Parece terrível, e é, mas tem sido enormemente exagerado.

A ideia do que costumava ser chamado de alma perdida foi muito explorada na literatura teosófica antiga, e duas ou três declarações referentes a condições bastante diferentes às vezes eram todas tomadas em conjunto, e a mistura enganou muitas pessoas, fazendo-as pensar que as almas perdidas eram bastante numerosas.

773. Há um certo grupo de pessoas no mundo que são intensamente atraídas por qualquer coisa horripilante; elas sempre querem fazer o pior de tudo e de qualquer coisa.

Isso é bastante acentuado nas classes baixas da Inglaterra.

Poder-se-ia julgar pela programação fornecida pelos jornais que isso também é comum em outros lugares.

Se têm más notícias para contar, parecem ter prazer em contá-las da forma mais vívida possível, acrescentando numerosos detalhes macabros à história.

Suponho que muitas pessoas possuem esse temperamento em graus variados, e não está confinado às classes baixas, embora nelas se manifeste de forma muito grosseira.

774. Creio que tivemos na Sociedade Teosófica algumas pessoas que eram um tanto desse temperamento, e elas selecionaram muito cuidadosamente todas as referências a assuntos dessa espécie, à oitava esfera e à possível perda da alma, e teceram a partir delas uma história terrível.

Depois confundiram isso com a observação de Madame Blavatsky de que estamos esbarrando em almas perdidas aos milhões todos os dias na rua.

Essa é uma afirmação que, em todo caso, exigiria certa dose de modificação.

Para esbarrar em um milhão de pessoas, seria necessário mais de um dia.

Não é uma ideia que possa ser tomada literalmente, mas é uma maneira pitoresca de falar dos dois quintos da humanidade que sairão de nossa evolução no meio da quinta ronda.

Eles podem ser descritos como almas perdidas apenas em distinção daqueles que passarão em segurança.

775. Eles estarão perdidos para esta cadeia particular de mundos, mas, como foi explicado, não há punição eterna para eles; eles descansarão em contentamento sonolento e serão bastante felizes porque não conhecem nada melhor.

Eles não devem ser compadecidos em absoluto, a menos que seja porque terão outro longo ciclo de vidas para viver na próxima cadeia de mundos, e isso é tedioso, como todos sabemos.

Para aqueles a quem isso ocorre, é a melhor coisa — muito melhor, mais fácil e mais agradável do que seria permanecerem em nossa evolução, quando não estão aptos para ela, e assim serem empurrados ao custo de uma tensão considerável, que provavelmente acabaria por arruiná-los por completo.

Eles não desperdiçaram seu tempo, porque tudo o que aprenderam e adquiriram nesta cadeia particular de mundos será creditado a eles, e há algum progresso para eles em seu devachan entre cadeias.

Portanto, eles ocuparão um lugar elevado na próxima cadeia de mundos, porque começarão adiantados em relação aos novos egos dessa cadeia.

776. Esses, então, são os milhões com quem esbarramos.

Isso não tem nada a ver com os casos isolados em que a personalidade se separa da individualidade.

Isso é uma coisa terrível, mas é muito melhor considerá-la não como uma catástrofe colossal, mas apenas como um caso exagerado de algo que acontece constantemente, pois, como expliquei, 1 ( 1 Ante., Vol. II, p. 284.) ao final de cada encarnação algo geralmente se perde, embora muito também possa ter sido ganho.

A perda de uma personalidade inteira implicaria uma vida de maldade mais terrível.

Mesmo então, o ego não pratica o mal intencionalmente, mas às vezes deixa sua personalidade sair do controle.

Ele é responsável por isso; não deveria ter permitido; embora aquilo pelo qual é responsável seja fraqueza, e não mal direto.

Ainda assim, o ego do homem prossegue. Ele recuou terrivelmente, mas recomeça; embora talvez não imediatamente, porque parece ficar atordoado a princípio.

Após tal experiência, um ego seria sempre peculiar.

Ele estaria sempre insatisfeito e teria recordações de algo mais elevado e maior que agora não poderia alcançar.

É uma condição temível, mas ainda assim o homem que se lança tão para trás assim tem de arcar com o karma disso e, por fim, perceber que ele mesmo o trouxe sobre si.

777. Não sei ao certo que outras possibilidades de perda pode ter havido nos dias primitivos da história do mundo.

Como as coisas estão agora, parece bastante certo que o pior que pode acontecer a qualquer ego é perder por completo uma personalidade inteira.

Isso é, de fato, um assunto sério, e poderia lançá-lo de volta de uma civilização bastante avançada a uma condição quase selvagem, mas não poderia agora lançá-lo de volta ao mundo animal.

Não estou pronto a afirmar que não possa ter havido um tempo em que isso pudesse ter feito até mesmo isso, mas não é possível agora, até onde podemos ver.

778. Não faz muito tempo, como os ocultistas consideram o tempo, desde que grande parte da nossa humanidade atual deixou o estado animal.

Quando se aproximava o tempo do fechamento da porta do reino animal para o reino humano, um grande esforço foi feito para fazer passar o maior número possível, para dar a última chance a todos.

Os Senhores da Chama desceram de Vênus expressamente para estimular as coisas justamente naquele período, ou um pouco antes, e todos os esforços que foram então empreendidos tinham principalmente esse objetivo em vista: dar a oportunidade ao maior número possível de fazer a transição do reino animal para o humano antes que a porta fosse finalmente fechada.

Assim como, em assuntos infinitamente menores, as pessoas fazem um esforço especial quando uma grande oportunidade se abre diante delas, seja para ir a uma liquidação em uma loja, seja para passar em um exame, parece ter havido algo do mesmo tipo em uma escala infinitamente mais vasta, na época da última oportunidade de deixar o reino animal e entrar no humano nesta particular encarnação da nossa cadeia de mundos.

779. Deve ter havido então muitos que não estavam tão acima do reino animal, que apenas mal conseguiram passar.

Várias centenas de encarnações de tais pessoas devem ter sido gastas no mais baixo tipo de condição selvagem, e com quase nenhum intervalo entre elas; estavam praticamente em vida física o tempo todo e apenas muito gradualmente desenvolveram quaisquer possibilidades astrais.

Pode ter havido alguns daqueles que quase poderiam não ter passado, e pelo menos tais como esses estarão praticamente certos de cair no meio da quinta ronda.

Ainda assim, terão tido uma considerável experiência de vida humana — do meio da quarta até o meio da quinta ronda — então, na próxima cadeia de mundos, entrarão não bem no começo.

Terão passado pelas classes primárias e poderão recomeçar como selvagens muito decentes.

Pessoas tão baixas como eles não poderiam fazer nada para se lançarem muito para trás na evolução.

Não têm o poder de fazer muito progresso, seu avanço deve necessariamente ser lento; mas, por outro lado, têm tão pouco poder cerebral que não poderiam se lançar muito para trás.

780.   Muito se diz em algumas escrituras antigas sobre pessoas afundando de volta ao reino animal.

Não temos evidência direta de nenhum caso.

Há outras maneiras pelas quais os homens podem entrar em contato com a consciência animal e sofrer terrivelmente por causa disso, como expliquei em *The Inner Life*, 1 (1   Op. cit.. Vol. II, Seção 1.) mas reencarnar como animal não é possível agora.

Estamos agora longe demais da linha divisória para podermos nos lançar de volta através dela, seja o que for que tenha sido possível no passado distante.

Nem mesmo os magos negros mais determinados podem fazê-lo. Vimos algo desses seres em atividade durante a grande guerra, porque alguns dos Senhores da Face Sombria da Atlântida voltaram à encarnação.

Isso explicou muitos dos horrores que ocorreram.

O karma que essas pessoas criaram para si mesmas foi inquestionavelmente medonho.

Uma ou duas vezes vi vislumbres do karma futuro de pessoas que eram muito menos culpadas do que alguns daqueles; é uma visão que não se esquece — um pesadelo hediondo.

Há pessoas muito aquém desses grandes meteoros do crime que ainda assim acumulam para si futuros de horror — aqueles que batem em crianças e aqueles que vivisseccionam animais.

No futuro delas, olha-se com um calafrio; mas estes são muito piores.

Estes fizeram a mesma coisa em escala colossal e, por insana egoísmo, sacrificaram meio mundo.

Contudo, não se tornam animais.

Nos raros casos em que uma personalidade se desligou, ela vive uma vida algo semelhante à de Margrave em *Uma História Estranha*, de Bulwer Lytton — o homem absolutamente egoísta, sem consciência, sem uma alma por trás para guiá-lo.

Ele será um homem terrivelmente mau e poderá levar sua maldade a uma segunda encarnação.

Foi declarado por Madame Blavatsky que tal personalidade pode, em alguns casos, assumir outra encarnação apoderando-se de um corpo de bebê; não há corpo provido para ele, mas ele pode apoderar-se do corpo de alguma criança que acabou de morrer, reavivá-lo e viver nele, ganhando assim uma segunda vida.

Ela falava muito pouco sobre esses assuntos, mas quando os mencionava, era com um horror vívido e impressionante de se ver.

Para nós que a ouvíamos, ficava claro que ela própria, em algum momento, havia tido contato com casos desse tipo, pois hesitava em falar deles.

781. Entendemos pelo que ela disse que uma segunda reencarnação humana para tal coisa não era possível, mas que poderia acontecer de essa personalidade em decomposição, que ainda possuía certa quantidade do ego arrancado e vivificando-a, descer então para o reino animal.

Ela nos contou uma vez uma história deveras horripilante sobre a maneira como tal coisa, ainda consciente, poderia derivar para trás no que ela chamava de devolução.

Lembro-me de que ela disse que algumas serpentes eram habitadas por tais entidades, e que algumas dessas coisas tinham consciência de que outrora haviam sido humanas.

É uma coisa horrível; soa como uma espécie de pesadelo, mas podemos ser consolados pelo fato de que é algo excepcionalmente raro, e que tal condição só poderia ser alcançada por uma devoção determinada, vida após vida, ao mal positivo.

782. Temos apenas uma pitada de pessoas verdadeiramente más no mundo, e mesmo essas, em sua maioria, se desculpam de alguma forma.

O ladrão que rouba sua prataria geralmente tem alguma teoria de que a propriedade é distribuída de maneira imprópria, e de que ele está apenas tomando a parte que o Governo ou alguém mais deveria ter lhe dado, que ele está tirando de alguém que está injustamente de posse de uma quantidade de riqueza que na verdade deveria ser distribuída a todos.

As pessoas muito raramente fazem algo errado sabendo que é errado.

Elas sempre se desculpam de alguma maneira.

Eles podem ver depois que a desculpa era bastante frágil, mas creio que, no momento em que um homem pratica a ação errada, ele praticamente sempre se justifica de alguma forma.

Muito mais do que isso é necessário para se atingir os horrores de ser uma alma perdida.

O homem deve dedicar-se de maneira bastante definida e intencional a praticar o mal, deve colocar-se contra a corrente da evolução.

783. Tais possibilidades hediondas estão se tornando mais raras; a humanidade está progredindo e ganhando cada vez mais conhecimento, e torna-se cada vez menos possível, com o passar do tempo, que as pessoas do lado sombrio obtenham recrutas.

Mesmo agora, elas são realmente relíquias do passado.

Ouvimos muito sobre vampiros e lobisomens; tais criaturas existiram e ainda são ocasionalmente encontradas.

Já vi exemplos de ambos, mas não espero ver mais nenhum.

Está se tornando menos possível que os homens consigam afundar nessas profundezas.

Em vez de se tornarem vampiros, as pessoas agora caem no mundo cinzento; essa é uma condição que aparentemente introduzimos em vez do vampirismo.

É melhor, certamente, embora seja ruim o bastante.

784. A vida no mundo cinzento após a morte deve-se ao entrelaçamento do corpo astral com o duplo etérico.

(1 Ante, p. 321.) Há pessoas que não têm crença clara na vida além da morte, mas que ainda assim anseiam pela existência continuada.

Elas diriam vagamente que acreditavam em um estado posterior, mas isso equivale na realidade a uma dúvida muito forte.

Como nenhuma vida além da física significa algo para elas, apegam-se desesperadamente ao corpo físico; tanto que, após a morte, a matéria etérica não pode ser totalmente afastada da matéria física densa, como ocorre em casos normais.

Então você tem uma pessoa, por bastante tempo após a morte, em uma condição que não é nem um mundo nem outro.

Ela retém uma quantidade de matéria etérica que a impede de usar plenamente seus sentidos astrais, de modo que não desliza, como deveria, para o mundo astral, e por outro lado não consegue manter contato com o mundo físico, porque perdeu o domínio sobre ele, embora ainda haja alguma matéria etérica restante ao seu redor.

Assim, ela fica suspensa no que às vezes é chamado de mundo cinzento.

Nessa condição, obtém apenas pequenos vislumbres, impressões ocasionais de cada mundo, mas está em um estado muito instável, lutando sempre para obter vida plena em algum lugar.

Tudo isso poderia cair dela em um único momento se ela o permitisse, mas muitas vezes leva muito tempo até que consiga fazê-lo.

785. O Chohan diz que a vida mutável ao nosso redor é formada pelos corações dos homens.

É verdade que nossas condições exteriores resultam de nossos pensamentos e sentimentos interiores.

Às vezes as pessoas se queixam do estado da sociedade, do governo, da política, da religião, do comércio e da educação, mas esses expressam muito bem a condição interior das pessoas que fervilham em nossas cidades.

Tudo isso é formado pelos corações dos homens.

E mesmo as condições humanas de sofrimento e alegria menos diretamente causadas, como as mudanças geológicas e climáticas, até mesmo como terremotos e inundações, tornam-se nosso ambiente por causa do carma devido ao nosso próprio sentir e pensar.

Assim, nos colocamos em nosso lugar na natureza, de acordo com nossa natureza interior, nossos corações, e então tendemos a compreender mal isso, porque olhamos para as formas em vez de para a vida.

786.   Muito do que parece à maioria dos homens ativamente mau pode, no entanto, ter seu lado bom.

Um exemplo no plano físico disso seria um terrível terremoto, como o que devastou grande parte da Sicília e da Calábria em 1908, e matou mais de cento e cinquenta mil pessoas, algumas subitamente, mas outras, receio, com muito sofrimento.

Muitas pessoas considerariam isso um mal.

Não é um mal para o mundo.

Ele revolve e muda o lugar de grande parte da crosta terrestre, e renova o solo, e nisso faz claramente o bem ao mundo.

Olhe para o Monte Vesúvio, na Itália, e verá como, após certo tempo, toda a matéria vulcânica que é expelida torna-se o solo fértil mais excelente.

Mas destrói a vida humana na ocasião.

Uma tempestade, um terremoto, uma grande inundação, não são males de forma alguma.

Eles podem libertar alguns homens de seus corpos físicos, mas certamente isso não lhes faz mal, em todo caso; tudo o que surge em tais catástrofes é uma questão de carma, e a longo prazo certamente se resolve para o seu bem.

787.   O Teosofista deve compreender claramente que a morte não é em si um mal, mas é muito frequentemente dada como uma recompensa.

Nossa atitude geral nessa questão se deve a um ensino religioso equivocado.

Está implantado em cada um de nós o desejo de autopreservação, o instinto de tentar salvar nosso corpo físico de dano ou destruição.

Esse é um instinto muito sábio e necessário.

Devemos proteger nossos corpos físicos, para fazê-los durar o máximo que pudermos; porque, se podemos ousar expressá-lo assim com toda reverência, o Logos se deu ao trabalho de nos colocar nesta encarnação, é claramente nosso dever tirar dela o máximo que pudermos.

1   Ante, p. 177.

788.   Mas às vezes surge uma oportunidade em que o uso mais nobre que podemos fazer de nossa encarnação é arriscá-la, até mesmo jogá-la fora, como acontece com um soldado que parte em uma missão desesperada, sabendo que será morto, e ainda assim que sua morte é parte necessária de um grande plano que terminará em vitória.

Tal homem dá à sua encarnação o uso mais nobre quando a depõe voluntariamente, quando a joga fora; mas para a maioria de nós e sob condições ordinárias, nosso dever é tomar todas as precauções razoáveis e tentar fazer nossos corpos durarem o máximo que pudermos; caso contrário, causamos muitos problemas ao encurtar nossas vidas.

789.   Algumas pessoas têm sido um pouco tolas em sua confiança na proteção que esperam que os Mestres lhes dêem.

Elas dizem: "Enquanto eu fizer o trabalho do Mestre, não preciso tomar precauções contra infecção quando visito pessoas doentes.

Tenho certeza de que Ele cuidará de mim. Vou mergulhar na água embora não saiba nadar; tenho certeza de que Ele me sustentará." Talvez Ele o faça, se achar que vale a pena; mas que direito alguém tem de dar-Lhe o trabalho de fazer aquilo que com um pouco de senso comum comum ele poderia ter feito por si mesmo? Se for nosso trabalho visitar os que sofrem de doenças infecciosas, penso que, em vez de confiar cegamente no Mestre para nos proteger, devemos poupar-Lhe trabalho tomando precauções ordinárias.

Devemos fazer tudo o que pudermos de nossa parte.

Se Ele escolher suplementar isso, é assunto Dele.

Seria muito errado de nossa parte contar com isso antecipadamente.

Tais intervenções acontecem, mas não temos o direito de esperá-las.

Eu mesmo vi coisas estranhas nesse sentido, mas nunca deveria voluntariamente dar ao Mestre o trabalho de ter que me proteger especialmente contra qualquer coisa, quando posso razoavelmente me guardar.

790.   O instinto de autopreservação é para a vantagem da raça.

É uma coisa certa, mas o homem corajoso está sempre pronto a arriscar a dor e o perigo e até a própria vida por objetivos mais elevados.

O homem que sabe que a morte não é o maior dos males estará muito disposto a arriscá-la para evitar um mal maior — exatamente o que centenas de milhares de nossos semelhantes fizeram na guerra.

Sabemos que a morte não é o fim de tudo, como tantas vezes as pessoas pensam, e para nós uma catástrofe como a de Messina não é terrível simplesmente porque um grande número de pessoas foi subitamente lançado para fora de seus corpos, para o plano astral.

Quando estive na América, houve um grande incêndio em um teatro em Chicago, no qual um grande número de mulheres e crianças morreu.

Alguns de nossos membros vieram a mim e perguntaram: “Como pode ser que a Providência realmente governe o mundo, quando todas essas mulheres e crianças inocentes foram mortas?” Eu lhes disse: “Vocês pensam que somente os homens merecem a recompensa de uma rápida libertação da terra?” Esse foi um novo ponto de vista para eles, que isso poderia realmente ser uma bondade, libertando-os de condições problemáticas de vários tipos, para que pudessem recomeçar em circunstâncias melhores.

Portanto, não deveríamos considerar aquele grande terremoto como um mal, meramente porque lançou subitamente um número de pessoas ao plano astral.

Os casos daqueles que foram aprisionados e morreram lentamente foram comparativamente poucos.

Houve alguns que foram queimados até a morte, e alguns que foram sepultados entre as ruínas.

Esses nos pareceriam casos de sofrimento muito terrível, mas mesmo assim devemos aplicar nossa Teosofia nos casos extremos, bem como nos casos comuns, e perceber que o grande sofrimento de um indivíduo ocasional provavelmente apagou de seu carma o que poderia ter levado vinte vidas comuns para cancelar.

Portanto, embora devamos sentir a maior piedade pelas pessoas que sofreram dessa maneira, e devamos fazer tudo ao nosso alcance para ajudá-las, ainda assim não devemos pranteá-las como se tudo aquilo fosse inútil.

É um modo curto, porém drástico, de livrar-se do resultado de uma grande quantidade de mal — verdadeiramente terrível, mas, ainda assim, quando termina, veja quanto foi ganho.

791. Comparamos experiências dolorosas aproximadamente — não é sábio levar uma analogia longe demais — à lenta cura natural de alguma doença grave em um caso, e à cura dela em outro caso por uma operação cirúrgica.

A operação cirúrgica é terrível de atravessar, mas quando termina, o problema deve estar resolvido.

Uma cura lenta poderia significar, no conjunto, ainda mais sofrimento, distribuído ao longo de muitos anos.

Suponho que devemos considerar terríveis pedaços de karma como operações cirúrgicas cármicas.

Não simpatizamos, no sentido comum da palavra, com os mortos, porque sabemos que eles estão muito melhor do que antes.

Com os parentes que lamentam sua perda, sim, simpatizamos.

Mas mesmo assim, corrijamos o erro que faz as pessoas sentirem horror a essas coisas, e pensarem que Deus não pode mais ser bom, já que as permite.

As experiências são terríveis de fato, mas o resultado de todo o processo é invariavelmente bom.

792. Devemos elevar-nos completamente acima dos pontos de vista pessoais para ver como tudo coopera para o bem, e como a vida nos outros está trilhando seu caminho através do labirinto do karma até os pés do Eterno.

O Chohan diz que devemos ler a palavra maior, adotar a visão mais ampla, da vida.

Fazendo isso, nunca classificaremos as pessoas de maneira mesquinha.

Não pensaremos, por exemplo, nos homens religiosos meramente como eclesiásticos e dissidentes, mas como homens devocionais.

Assim também pensaremos nos estadistas não meramente como conservadores ou radicais.

Adotaremos visões mais amplas, e consideraremos nossos semelhantes como homens de pensamento, ou de amor, ou de vontade, conforme o tipo de atividade consciente humana que domina suas vidas.

Qualificá-los-emos de acordo com seus raios; adotando essa classificação mais profunda, aproximamo-nos do coração da realidade e nos achamos mais aptos a compreender a vida.

793. É muito difícil compreender plenamente todos os diferentes tipos, mas devemos tentar fazê-lo. O Adepto compreende plenamente, e simpatiza com cada tipo possível; mas é preciso um Adepto para fazer isso.

Nosso dever é tentar; por mais impossível que o ponto de vista do outro homem possa parecer a princípio, deve-se tentar compreendê-lo. Isso não significa por um momento que se deva adotar sua perspectiva; temos tanto direito ao nosso próprio ponto de vista quanto esse outro homem tem ao dele, mas ele também tem tanto direito ao seu ponto de vista quanto nós temos ao nosso.

Um homem que consegue simpatizar com aqueles que diferem total e radicalmente dele já deu um passo considerável para compreender pelo menos uma seção do mundo em que vive.

794. É muito claro que o que o Mestre diz aqui é uma ordem definitiva para o discípulo — devemos aprender a compreender cada tipo de pessoa tão plenamente quanto possível; e sempre que pudermos usar influência de qualquer maneira para tirar as pessoas de seus hábitos arraigados, isso é uma coisa boa a se fazer. Deve-se sempre agir com compreensão, no entanto, pois às vezes podemos não conseguir tirar uma pessoa para o nosso lado do caminho; podemos, na verdade, lançá-la em uma condição menos desejável por aquilo que lhe ensinamos.

Já vi isso acontecer.

795. Aqueles cujas memórias remontam à literatura teosófica mais antiga talvez se lembrem de que ela não era muito simpática à Igreja.

A própria Madame Blavatsky era um tanto impaciente com a apresentação ortodoxa da religião.

Ela evidentemente vira uma grande quantidade do efeito da crença religiosa ignorante em tolher as mentes e as almas das pessoas, e às vezes fazia um ataque bastante severo contra as crenças religiosas estreitas que eram ensinadas.

Creio que ela nem sempre parava para dizer às pessoas que havia um outro lado, mais elevado, em tudo aquilo.

Ela era uma inimiga mortal da superstição em qualquer forma, e estava mais preocupada em sacudir as pessoas para fora de suas superstições do que em lhes oferecer qualquer outra coisa. Provavelmente aquelas pessoas precisavam exatamente desse abalo, e exigiam ser tratadas dessa maneira drástica.

Provavelmente não poderiam ter sido trazidas imediatamente à nossa visão da vida.

796. Conheci a Dra. Besant quando seus ataques ao cristianismo eram ainda mais contundentes que os de Madame Blavatsky. Ela se dirigia a um grande número de livres-pensadores no Hall of Science, em Londres, e quando havia um apologista cristão ou um clérigo defendendo a ortodoxia, era interessante ouvi-la, pois ela era provavelmente a maior debatedora da época.

Eu a ouvi debater antes e depois de ela entrar para a Teosofia.

O debate teosófico era muito mais caridoso que o tipo anterior, mas não era nem de longe tão interessante.

Ela apontava com muita gentileza e bondade os pontos fracos do outro lado, e deixava de lado as perguntas inconvenientes tanto quanto podia, por consideração aos sentimentos da outra parte.

Quando a ouvi debater pela primeira vez, ela levava sua vantagem ao máximo, e tornava o debate muito mais interessante, embora não agradavelmente para seu oponente.

797. Seu poder é igualmente grande hoje, mas ela o usa com muito mais misericórdia, de modo que não se percebe isso no debate em nada parecido com a mesma extensão.

Ela tem agora o que talvez não tivesse em seus dias de livre-pensamento: essa faculdade de compreender a todos.

Ela possui esse poder maravilhoso; mas o adquiriu por meio de trabalho definido.

Ela cresceu até isso fazendo-se compreender os outros e colocando-se no lugar deles.

Em seus dias de livre-pensamento, quando a ouvi debater pela primeira vez, certamente ela não se colocava no lugar de seu oponente, a quem às vezes reduzia a uma gaguejante imbecilidade pela lógica impecável e pela violência de seus ataques.

798. O homem que quer compreender tudo, que quer aprender plenamente essa visão mais ampla da vida, deve também identificar-se com os reinos inferiores, deve compreender a natureza como um todo, na medida do possível.

Ele deve entrar em uma atitude de simpatia para com os grandes Devas, os espíritos da natureza, os espíritos das árvores e do campo.

Parece que perdemos isso nessas civilizações modernas, embora aqui e ali encontremos um poeta, um autor ou um artista que o possua. Porque o possuíam, homens como Ruskin e Turner puderam escrever e pintar como o fizeram.

799. Na Grécia antiga, encarávamos as coisas de maneira muito diferente daquela como as pessoas as veem agora.

Tudo na natureza significava muito mais para nós então do que significa nestes dias, exceto para os poucos que são artísticos.

Pensávamos menos em dinheiro e negócios, e desfrutávamos mais da natureza.

É bom compreender um ponto de vista como esse.

No desenvolvimento da mente inferior, e ao afiá-la no lado prático e comercial da vida, nossas raças modernas perderam muito, embora inquestionavelmente também tenham ganhado muito — a faculdade de administrar muitas coisas ao mesmo tempo e também a de concentração sob circunstâncias extremamente difíceis, em meio ao terrível ruído, à agitação e ao turbilhão desta civilização.

Não tínhamos nada disso na Grécia; não podíamos viajar tão rapidamente, mas víamos muito mais quando viajávamos.

800. Creio que deveríamos tentar recuperar a perspectiva antiga até certo ponto, entrando na vida, na glória e na beleza do mundo que nos cerca. Os arredores que o homem cria nestes tempos raramente são belos, mas nos dias em que os homens compreendiam mais a natureza, eles não desfiguravam suas formas nem de longe tanto.

Os gregos podiam construir templos que não destoavam em meio aos mais belos cenários naturais.

Talvez também aprendamos a combinar beleza com utilidade; por exemplo, podemos aprender a erguer um edifício como uma catedral para ser usado como fábrica; mas, enquanto isso, é um dos pontos fracos desta civilização que ela não tem simpatia pela natureza em todos os seus aspectos mais profundos, de modo que precisamos de cultivo para adquirir o que era inato nos gregos — a simpatia pela natureza.

Quando se lê *A Rainha do Ar*, de Ruskin, começa-se a entender um pouco disso.

801. Tentemos fazer um progresso completo.

Todos nós vivemos em raças do passado que fizeram da beleza sua principal influência — que tiveram lazer e amplitude de vida.

Portanto, temos tudo isso no ego.

Nossa vida presente o suprime em grande medida, mas basta que se apele a ele, e ele romperá a barreira.

Isso pode ser feito, e vale a pena fazer, mesmo que apenas de um ponto de vista egoísta, pois então desfrutaríamos da vida muito mais plenamente.

802. Há algumas pessoas que sentem desarmonia com a natureza, que dizem que estamos cercados de "influências malignas" e que o mundo está cheio de escorpiões, cobras e tigres.

Não há maldade inerente em uma cobra, um escorpião ou uma vespa, mas todos são extremamente facilmente irritados e inteiramente — como diríamos se fossem humanos — inescrupulosos quanto aos métodos que empregam.

Eles simplesmente saem em fúria e picam ou mordem todos os que estão por perto, se por acaso estiverem um pouco incomodados; mas não se pode chamá-los de criaturas más, porque não fazem isso com malignidade.

Eles são muito cheios de vida, então se lançam e ferem qualquer um que por acaso cruze seu caminho.

803. É o mesmo nas regiões astral e etérica também.

Há muitos tipos inferiores de espíritos da natureza que não são maus, não buscam fazer o mal, mas são criaturas muito desagradáveis de se lidar — o tipo a ser evitado.

Felizmente, é mais fácil evitar essas coisas no plano astral do que no mundo físico, porque um forte desejo é suficiente ali para afastá-los de você.

Criaturas desse tipo tirarão vantagem de você se você se expuser à influência delas.

Muitas delas, como já expliquei antes, ficam encantadas em encontrar um homem em fúria real.

Elas não se importam nem um pouco com o motivo de ele estar zangado — não estou nada certo de que sabem que um homem está envolvido — mas quando encontram um vórtice de vibrações vívidas e grosseiras que por acaso lhes agrada, mergulham nele, aproveitam-no, estimulam-no e, de todas as maneiras possíveis, fazem cada vez mais disso.

804. Vibrações de crueldade são grandemente apreciadas por algumas dessas criaturas, e não há dúvida de que elas estão ansiosas por se apoderar daquele que possui esse vício, e incitá-lo a uma crueldade maior do que o próprio homem jamais teria imaginado. Se você permitir que a ira se apodere de você, poderá fazer e dizer todo tipo de coisas que de modo algum desejaria fazer.

O mesmo se aplica à crueldade: certamente também se aplica ao ciúme, à inveja e ao ódio.

Quando um homem se lança em qualquer uma dessas paixões, é como se o corpo astral subitamente se tornasse vivo e vingativo, porque é tomado por uma quantidade dessas criaturas.

É muito difícil para nós sentirmos qualquer bondade em relação a elas.

Naturalmente pensamos no mau efeito que produzem sobre nós. No entanto, a pobre criatura está apenas se divertindo à sua maneira.

Isso, contudo, não desculpa o fato de permitirmos que ela se aposse de nós; deveríamos ter nos elevado acima disso. Mas temos de lembrar que todo tipo de intensificações dessa espécie realmente ocorrem, e quando estudamos nossos semelhantes, devemos constantemente levar isso em consideração.

805. Há vastas forças movendo-se ao nosso redor das quais a maioria dos homens tem muito pouca ideia.

Todos sabemos disso de uma maneira geral.

Sabemos que forças como a opinião pública pressionam-nos sem que as sintamos, mas talvez não percebamos plenamente a tremenda força da lei da evolução e as muitas e diversas maneiras pelas quais ela atua ao nosso redor. Deus Se oculta na matéria, mas não está morto por Se ocultar nela; o tempo todo Suas atividades, Suas forças, atuam sobre todas as Suas criaturas.

Quando atuam fortemente sobre um homem, elas o agitam, e isso é algo semelhante à agitação de uma lagoa.

Toda a água é posta em movimento, e tudo o que há na lagoa é revolvido e trazido à superfície.

A lagoa pode tornar-se muito turva por algum tempo devido a esse processo, mas por meio dele aprende-se o que estava no fundo; é melhor que a água seja agitada, mesmo que haja lama, do que deixá-la estagnar e deteriorar-se irremediavelmente.

Assim, às vezes toda essa perturbação, que é parte de Sua vida divina, traz à tona nas pessoas qualidades indesejáveis.

806. Poder-se-ia sugerir que seria melhor para uma pessoa se ela não tivesse sido agitada, mas não é assim. Ela foi, por enquanto, tornada mais viva — desagradavelmente viva, mas é melhor que as qualidades desagradáveis venham à superfície.

Então ele terá conhecimento delas, e seus amigos, que também as veem, poderão ajudá-lo; ao passo que, de outro modo, elas poderiam permanecer despercebidas e produzir efeitos seriamente prejudiciais quando surgisse uma oportunidade para serem agitadas mais tarde. Assim, às vezes é a própria força divina que traz à tona atividades que parecem indesejáveis.

Podemos estar certos de que Aquele que faz todas as coisas, faz todas as coisas bem.

Ele sabe o que está fazendo, e quando agita matéria impura de algum tipo, é para que ela seja expelida, embora na ocasião nem sempre pareça promissor ou favorável para a evolução.

Temos de lembrar constantemente que cada homem que vemos está em um degrau diferente da escada da evolução, de modo que o que para um é muito bom, até mesmo necessário, é precisamente aquilo que seria prejudicial para outro.

Temos de observar e aprender a ser inteiramente imparciais e a não julgar apressadamente, aconteça o que acontecer.

Todas as vidas estão no Logos e são, de forma bastante definida, parte de Sua vida; portanto, segue-se que todas essas coisas são realmente Seus aspectos e expressões.

Dessa maneira, temos parentesco com todas essas manifestações e um dever para com elas.

Podemos ter oportunidades de ajudar a um e não a outro; devemos aproveitar o que vier ao nosso caminho para fazer.

807. 10. Aprende a olhar inteligentemente para o coração dos homens.

808. Estuda o coração dos homens para que saibas o que é esse mundo em que vives e do qual desejas fazer parte.

809. Nesta Regra, a palavra coração é usada simbolicamente; devemos olhar para toda a natureza do homem tanto quanto pudermos; não apenas para seus sentimentos, que geralmente são representados pelo coração, mas também para seus processos mentais.

Somos obrigados a tentar compreendê-lo profundamente, e para isso devemos buscar a manifestação do ego nele.

810. Quando vemos homens ao nosso redor agindo de maneiras diferentes das nossas, muitas vezes exclamamos: O que teria levado o homem a fazer uma coisa dessas? Não podemos conceber que nós mesmos faríamos aquela coisa específica em circunstância alguma, e não conseguimos ver por que nosso semelhante deveria fazê-la. A maioria de nós já abandonou muitos desses enigmas há muito tempo, porque parecem quase impossíveis de entender.

Não consigo entender, por exemplo, por que enormes multidões deveriam ir assistir a uma luta de boxe; não vejo qual é o interesse nisso, porque para mim a coisa toda é uma exibição brutal.

Se fosse uma questão de pagar, eu preferiria pagar para ir a algum lugar e não ver aquilo. Se eu pensar cuidadosamente e tentar raciocinar, descubro que talvez a atração seja uma exibição de habilidade — de um certo tipo brutal e degradado, mas, ainda assim, habilidade — e talvez haja também a ideia de coragem e resistência.

811. Da mesma forma, inúmeras pessoas ficam paradas nas esquinas das ruas, dando gargalhadas e falando com vozes grosseiras e roucas.

Que prazer elas obtêm com isso, eu não entendo de forma alguma; ainda assim, lá estão elas, e constituem uma grande parcela dos seres humanos, que devemos, mais ou menos, tentar compreender.

812. As pessoas fazem todo tipo de coisas estranhas.

Às vezes, caem em êxtases de ciúme por nada em particular.

Em outras ocasiões, vemos pessoas profundamente afetadas pelo que alguém diz a respeito delas.

Você aplica a razão e diz que não importa em absoluto o que os outros dizem, porque isso não lhes causa nenhum dano.

Mas o fato é que elas são muito forte e seriamente afetadas.

Devemos entender por que, até certo ponto, se pudermos.

Admito plenamente que em muitos casos isso é impossível; ainda assim, é evidentemente nosso dever tentar compreender nossos semelhantes.

813. Alguns poderiam dizer que não é um estudo interessante.

Não é interessante para nós pessoalmente, se estivermos pensando nisso; mas é interessante do ponto de vista mais amplo.

Uma vez que nos consideramos como tendo evoluído um pouco além dessas pessoas, é claramente nosso dever ajudá-las, mas sem compreensão nossa ajuda será inútil.

É bem verdade que as coisas pelas quais a maioria dessas pessoas se interessa não nos interessam, mas isso é apenas um sintoma de termos crescido um pouco além delas na idade da alma.

A alma cresce, e as pessoas se tornam mais racionais à medida que avançam.

Crianças pequenas fazem todo tipo de coisas que não conseguimos entender.

Meninos e meninas de treze ou catorze anos têm um conjunto de motivações um pouco mais próximas das nossas, mas ainda assim não sabemos por que fazem o que fazem. Temos de voltar à nossa própria juventude para perceber minimamente o que estão fazendo e como as coisas as afetarão.

É sempre difícil; sei bem disso, porque tive muito a ver, em vários momentos, com meninos e jovens.

Se você apresenta uma ideia a eles de certa maneira, na esperança de que talvez a aceitem como você a aceita, às vezes aceitam, mas frequentemente a abordam de um ponto de vista completamente diferente e decidem sobre ela por razões que jamais lhe ocorreriam.

Às vezes você consegue discernir o que eles almejam, mas outras vezes não.

Mestres-escolas e outras pessoas que lidam muito com meninos e meninas deveriam fazer parte de seu ofício tentar compreender suas linhas bizarras de pensamento e sentimento, porque assim terão mais probabilidade de evitar ofender os jovens.

814. Esse é um caso extremo, mas você tem de fazer o mesmo com as pessoas adultas ao seu redor.

Se você deseja ajudá-las, deve tentar colocar-se no lugar delas; é isso que aqui se entende por aprender a olhar inteligentemente para o coração dos homens.

Eles têm seus preconceitos e você tem os seus; é altamente provável que os preconceitos sejam diferentes em alguns aspectos, e assim você precisa descobrir o ponto de vista da outra pessoa e fazer concessões a ele. Esforce-se para descobrir como ele chega à sua posição e por que existe aquele preconceito específico, para que talvez você possa ajudá-lo a superá-lo.

815. O preconceito é, de fato, muito sutil.

É tão forte e geralmente tão arraigado que o homem não sabe que ele está ali; ele não acredita que necessita de qualquer ajuda, e por isso muitas vezes é difícil oferecê-la sem ofendê-lo.

Ainda assim, é uma grande vantagem para um homem se ele puder ser ajudado de alguma forma a livrar-se de seu preconceito.

Para ter êxito nesse trabalho e fazê-lo com habilidade, você deve descobrir exatamente por que o homem pensa isto ou aquilo, e como seu preconceito surgiu.

Seu próprio preconceito no assunto terá de ser resolutamente posto de lado; caso contrário, você estará arrastando-o de um falso ponto de vista para outro.

816. A maioria das causas dos estranhos interesses das pessoas surge em seus corpos astrais.

O corpo mental está apenas em processo de desenvolvimento.

Esse fato pode ser visto em todos os fenômenos que nos cercam no plano mental após a morte.

Quando o homem comum de classe superior passa para o mundo astral, ele é plenamente capaz de participar inteligentemente da vida desse plano, embora alguns o façam e outros não, e alguns logo reorganizam a matéria de seus corpos, tornando-se assim grandemente limitados em sua capacidade.

O corpo astral tem suas faculdades bem desenvolvidas; elas estão prontas para uso, embora muitas pessoas não saibam o que deveriam fazer e como deveriam usá-las.

Quando aqueles que fizeram algum estudo desses assuntos passam para o plano astral, encontram-se em um veículo que os expressa mais plenamente do que o corpo físico; mas quando alcançam o mundo celeste, geralmente não é assim.

817. Lá, geralmente os encontramos trabalhando dentro do corpo mental, e tão encerrados nele que ele é realmente mais uma casca para eles do que uma expressão de sua vida.

Isso é o que significa tudo o que está escrito tão enfaticamente nos livros mais antigos sobre o fato de que os homens no mundo celeste estão isolados de todo o resto.

Fala-se frequentemente disso como se fosse uma parte reservada do plano mental.

Não é isso, mas cada homem se encerrou em sua própria casca e, portanto, não participa de forma alguma da vida do plano mental; ele não se move livremente nem lida com as pessoas como faz no plano astral.

As únicas aberturas em sua casca através das quais a vida exterior pode alcançá-lo são aquelas janelas que ele mesmo fez ao desenvolver seu corpo mental em certas linhas.

O que quer que o homem tenha feito com seu corpo mental o expõe às influências mentais.

Seja o que for, ele colherá o resultado durante sua vida celeste, e pode, até certo ponto, comunicar-se com o mundo exterior através disso.

Mas os resultados que ele conseguirá produzir sobre os habitantes desse plano serão, no todo, muito menores do que os que eles produzirão sobre ele, porque muitas vezes é apenas através de canais muito estreitos que ele consegue se expressar nesse plano.

818. Esse fato, que por muito tempo nos primeiros dias de nosso estudo teosófico não compreendemos, mostra que o corpo mental do homem comum é apenas parcialmente desenvolvido.

Quando passamos a observar as manifestações aqui embaixo no mundo físico, descobrimos que o mesmo é verdadeiro.

Provavelmente todos já experimentaram essas limitações em outras pessoas; podemos encontrá-las em nós mesmos se quisermos, mas vemos essas coisas mais prontamente nos outros do que em nós mesmos.

Quando você fala com estranhos sobre Teosofia, por exemplo, verá que alguns a aceitam com grande entusiasmo, e outros não sabem do que você está falando.

Eles ouvem o que você diz e dizem: "Sim, sim", mas obviamente não estão interessados.

A razão usual para essa diferença entre as pessoas é que algumas delas encontraram ideias desse tipo em vidas anteriores e outras não.

Penso que seríamos justificados em considerar que todas as pessoas que foram civilizadas por alguns milhares de anos certamente já encontraram essas ideias em vidas anteriores.

Qualquer um que tenha tido um nascimento na Índia antiga ou no Egito antigo, ou que tenha sido suficientemente respeitável para entrar nos Mistérios na Grécia ou em Roma, já terá tido algum contato com essas ideias.

Alguns terão se aprofundado no assunto e, ao fazê-lo, terão desenvolvido aquela parte de seus corpos mentais que é capaz de pensar em ideias como estas.

Outros não conseguem entender e não se importam com isso. Tudo o que querem é se divertir, como dizem. Além desses desejos grosseiros e inferiores, seus cérebros não lhes servem para nada.

Se você conseguisse fazê-los ler uma página sobre Teosofia, eles não se lembrariam dela.

819. O cérebro deve ser educado na linha em que queremos que ele funcione, e é exatamente isso que fazemos na Teosofia.

Aquelas pessoas que a adotam pronta e avidamente o fazem em parte porque ela responde a muitas perguntas que elas mesmas têm feito, e em parte porque pensaram até certo ponto ao longo dessas linhas em outras vidas.

Seus cérebros já estão abertos no que diz respeito a essa parte; é um trabalho muito árduo para a pessoa cujo cérebro ainda não está nada aberto, no que se refere à parte filosófica, tentar compreender a Teosofia.

Você lhe dá uma explicação simples e ele provavelmente assimila apenas muito poucas das ideias gerais.

O fato é que os homens precisam de muita preparação.

O homem comum não consegue ver nada nisso. Não estou falando no momento sobre ele ser inteligente ou estúpido, mas simplesmente do fato de que ele não está familiarizado com essa linha de pensamento.

Ele requer uma boa dose de preparação.

Ele a adquire em sua maior parte por meio da religião, e na religião ele deveria ser gradualmente treinado.

Uma religião plenamente desenvolvida deveria ser capaz de atender a todas as classes de pessoas.

Todas as religiões no início fazem isso, mas com o passar do tempo algumas perdem uma parte e outras perdem outra, e às vezes elas se cristalizam ao longo de linhas indesejáveis.

820. Se vamos tentar compreender os homens, devemos lembrar a extensão em que eles são desenvolvidos ou subdesenvolvidos.

Devemos lembrar que o corpo mental ainda não está totalmente desenvolvido e, portanto, necessariamente o corpo causal, que é superior, está ainda menos desenvolvido, de modo que mal funciona nas classes mais baixas.

Às vezes, pessoas que estudaram Teosofia e, portanto, compreenderam muito sobre a vida e desenvolveram suas mentes nessa direção, tendem a descansar sobre os louros e a pensar que já fizeram tudo o que é necessário no desenvolvimento da mente.

Mas, frequentemente, não é esse o caso, e, mais cedo ou mais tarde, elas devem empreender alguma forma de trabalho intelectual ou treinamento mental.

821. O que gostaríamos de estudar em cada homem é o funcionamento da alma; no entanto, nem todos nos oferecem essa oportunidade, e, em nossos esforços para compreender, devemos ter isso em mente.

Por um lado, devemos sempre esperar o melhor de cada homem; devemos assumir com confiança que ele fará o que sentimos que deveria fazer, porque o fato de adotarmos essa atitude mental o ajudará muito a realizá-lo. Repetidamente, vê-se que, se um homem que talvez tenha se envolvido em transações duvidosas é tratado com honra e lhe é mostrado que se espera honra dele, ele se elevará a isso. Por outro lado, se o encontrarmos com suspeita, ele provavelmente logo merecerá essa suspeita.

Contudo, não se deve esperar demais das pessoas; devemos presumir que elas farão o mais elevado e tentar, por nosso pensamento, ajudá-las a fazê-lo, mas, quando falharem, não devemos ser impacientes ou irritados com elas, porque a evolução é um processo muito lento e um homem só pode manifestar aquilo que desenvolveu.

822. Nunca adianta sentir aborrecimento porque alguém fica aquém do nosso padrão; não devemos culpar um homem por ser o que é, por estar no estágio em que chegou na evolução.

Quando uma pessoa é desenvolvida a um alto padrão e então falha de alguma forma, pode-se sentir: "Que pena; porque ele sabe muito melhor do que isso", mas não há razão nem utilidade em ficar aborrecido.

Embora devamos pensar o melhor de nossos semelhantes e sempre tentar ajudá-los a se elevar ao melhor que há neles, devemos, no entanto, encarar filosoficamente se eles falharem em fazê-lo.

Não devemos demonstrar aborrecimento ou impaciência, mas apenas tentar ajudá-los onde estão.

Essa, creio eu, é a lição que devemos aprender quando nos é dito para olhar em suas vidas e corações e tentar compreendê-los.

823. Segue agora uma longa nota do Mestre Hilarião, que podemos aproveitar com vantagem, pouco a pouco.

Ele diz:

824. De um ponto de vista absolutamente impessoal, caso contrário a vossa visão é colorida.

Portanto, a impessoalidade deve primeiro ser compreendida.

825. Comumente falamos em ser impessoal quando queremos dizer ser justo ou equilibrado, quando não trazemos para a nossa decisão nada de nossas próprias simpatias ou antipatias, quando agimos como um juiz age no tribunal.

Mas o Mestre quer dizer mais do que isso.

Ele entende que impessoalidade significa a condição na qual a personalidade está, por ora, inteiramente transcendida, de modo que não apenas na vida pessoal consideramos tudo com perfeita imparcialidade, mas também olhamos para as coisas do ponto de vista do ego.

Essa é uma realização muito mais difícil; fazê-la plenamente significaria ter o corpo causal completamente desenvolvido.

A humanidade em geral ainda está desenvolvendo o corpo mental inferior.

Estudantes de ocultismo estão tentando fazer algo mais do que isso, mas ainda há comparativamente poucos entre eles que podem usar o corpo causal com qualquer tipo de certeza.

No início, o estudante deve, portanto, raciocinar por si mesmo qual seria a visão da alma, e então segui-la, eliminando todo o resto.

826. É difícil ser impessoal.

Se há uma disputa entre duas pessoas, uma das quais é um amigo pessoal que você conhece muito bem, enquanto a outra é um estranho, é quase humanamente impossível evitar um certo grau de parcialidade a favor do amigo.

A razão para essa parcialidade é bastante boa — você sabe mais sobre essa pessoa, e quanto mais você a conhece, melhor você a compreende e mais concessões você fará por ela.

827. Dificilmente podemos evitar ser um pouco preconceituosos a favor de um amigo.

Não creio que sempre percebamos o quanto somos criaturas das circunstâncias e do ambiente.

Acontece de nascermos em um certo subúrbio de uma certa grande cidade.

Crescemos conhecendo um certo círculo pequeno: desse pequeno círculo escolhemos alguns amigos.

Com o tempo, alguém pode se mudar e então adquirir novos amigos em outros lugares, mas no início as amizades que formamos são geralmente uma questão de onde acontecemos de estar. Se tivéssemos nascido em outro subúrbio, provavelmente teríamos um conjunto de amigos bastante diferente.

828. Às vezes, pessoas que foram reunidas se apaixonam e se casam.

Eles não conseguem compreender que, se tivessem nascido em outro lugar, provavelmente sentiriam o mesmo por outra pessoa.

Há muito na proximidade.

Sei que o carma também entra, em muitos casos, mas essas questões são com frequência resultado da proximidade.

Somos fortemente influenciados por nosso ambiente humano, bem como por nossos outros ambientes.

Portanto, é difícil fazer essa investigação nos corações de outros homens e, finalmente, em nossos próprios corações.

829. Temos o hábito de pensar em tudo conforme isso nos afeta. Muitas pessoas são incapazes de adotar a visão mais ampla e de ver como isso afeta a nação como um todo.

Temos muitos exemplos disso nestes dias em que quase todo mundo tem direito a voto.

Muitas pessoas só conseguem pensar em como o resultado da eleição provavelmente as afetará pessoalmente; parecem incapazes de compreender que existe um dever para com a comunidade.

Não é que elas coloquem deliberadamente o pensamento de si mesmas antes do pensamento da comunidade, mas que nunca lhes ocorre que existe um ponto de vista mais amplo.

830. Há três maneiras pelas quais a alma pode ser desenvolvida e pode influenciar nossas vidas, como expliquei anteriormente.

(1 Ante, Vol. II, pp. 332-3. Vol. III, p. 47.) Uma é a dos grandes cientistas e filósofos do mundo, que desenvolveram não apenas a mente inferior, mas também, em considerável medida, a superior, de modo que grande parte de seu pensamento mais abstrato, sua maravilhosa maneira abrangente de pensar, desce para aquilo que pensam, embora talvez não consigam expressá-lo em seus escritos.

Aqueles que têm atração por esse caminho terão de passar pela fase de serem o grande cientista ou filósofo; o desenvolvimento búdico virá muito mais tarde.

831. Em segundo lugar, através das emoções superiores, como forte afeição, devoção ou simpatia, é possível despertar o princípio búdico em grande medida, sem desenvolver especialmente o corpo causal intermediário, embora não sem afetá-lo, pois todo desenvolvimento búdico reage muito poderosamente sobre o causal.

O método de trabalho da maioria de nossos estudantes é usar as emoções superiores e trabalhar a partir delas sobre a vestimenta búdica.

Não quero dizer que eles estejam ainda desenvolvendo um veículo búdico no qual possam viver permanentemente.

Isso seria algo eminentemente desejável de se fazer, mas talvez esteja além do alcance da maioria ainda; porém, o uso das emoções superiores, sem dúvida, evoca vibrações na matéria búdica.

Isso agita o ainda não formado veículo búdico, de modo que muitas de suas vibrações descem e pairam sobre o corpo astral do homem; assim, pode-se obter uma considerável quantidade de influência desse plano antes que o veículo esteja plenamente desenvolvido.

832. Há também outro caminho, mais obscuro, no qual a vontade é posta em atividade; assim como o corpo astral reage sobre o búdico e o inferior sobre o veículo mental superior, assim também o físico, de algum modo, reage sobre o nirvânico.

Sei muito pouco, de fato, sobre como isso funciona.

Mas o caminho da maioria dos estudantes é através da devoção aos Mestres e da viva simpatia pelos seus semelhantes.

833. A inteligência é imparcial: nenhum homem é vosso inimigo: nenhum homem é vosso amigo.

Todos, igualmente, são vossos mestres.

Vosso inimigo torna-se um mistério que deve ser solucionado, ainda que leve eras: pois o homem deve ser compreendido.

834. Se tendes amigos, podeis certamente ser muito agradecido, mas, nesta questão particular, olhai para eles impessoalmente, como de cima, e dizei: "Estes são meus amigos; por que fomos nós, como almas, lançados juntos?" Então, provavelmente, descobrireis que ou há pontos de grande similaridade entre vós, ou sois complementares um ao outro — vós vibrais bem juntos e assim formais um todo satisfatório.

835. Da mesma forma, deste ponto de vista impessoal, nenhum homem é vosso inimigo.

Se alguém, tolamente, se coloca nessa posição, dizeis: "Por que estaria ele fazendo isso? Ele não poderia ter esses sentimentos para comigo, a menos que, em algum lugar do passado, eu mesmo lhe tenha dado causa para isso. Vejamos se posso descobrir a causa, e se há alguma maneira pela qual sua atitude possa ser mudada."

836. Vosso amigo torna-se uma parte de vós mesmos, uma extensão de vós mesmos, um enigma difícil de decifrar.

Apenas uma coisa é mais difícil de conhecer — vosso próprio coração.

Somente quando os laços da personalidade forem soltos é que esse profundo mistério do eu poderá começar a ser visto.

837. Por mais bem que se conheça uma pessoa, mesmo após muitos anos de amizade, ainda se toca, às vezes, uma camada de sua consciência que é estranha.

Foi dito, e creio com grande verdade, que nenhum ser humano jamais conhece perfeitamente outro, nem mesmo após uma longa vida em comum.

O Adepto deve conhecer.

Essa é uma das grandes consolações de estar associado aos Mestres; estamos tão absolutamente certos de que Eles sabem muito mais sobre nós do que nós sabemos sobre nós mesmos, que Eles realmente nos conhecem por completo.

Vemos em nós mesmos fraquezas e falhas, e tentamos, na medida do possível, lidar eficazmente com elas; mas podemos também ter outras falhas que não vimos, que podem surgir em grandes emergências ou momentos de tensão.

É então um conforto pensar que, se tais coisas existem, o Mestre as conhece, e Ele, mais cedo ou mais tarde, trará à superfície qualquer coisa que ainda não conhecemos, e assim nos ajudará a removê-la. Aqueles que Ele atrai mais para perto de Si na relação de discipulado têm, ao menos, esta consolação: não podem ser irremediavelmente maus, ainda que uma modéstia bem justificada os faça pensar mal o suficiente de si mesmos.

838.   Ante, Vol.

I, Parte V, Cap. 2: O Amor na Vida Diária.

839.   Em todas as etapas do progresso interior, o trabalho necessário deve ser feito por nós, e com a nossa própria vontade por trás dele. Nem o próprio Mestre pode fazê-lo por nós, embora Ele possa e de fato nos ajude com Seu magnetismo, afeição e simpatia, bem como pela influência indireta que Ele transmite através de vários de Seus pupilos.

Ele só pode nos ajudar ao longo do caminho se fizermos tal karma que Lhe permita fazê-lo. Devemos nos tornar aptos para a oportunidade e então, quando ela for dada, ao aproveitá-la plenamente, estaremos prontos para a próxima.

840.   Sem isso, o Mestre não tem o direito de ajudar, porque Ele também está sob a grande lei do karma, e por mais disposto que esteja a nos elevar diretamente ao nível de Adepto, Ele não pode fazê-lo. Mas que receberemos Sua inestimável ajuda no caminho assim que a merecermos é muito certo; pois mesmo Ele é um amigo na acepção comum do termo.

Ele não pode nos dar algo que não merecemos; Ele realmente só pode nos ajudar quando nos tornamos um com Ele.

841.   Somente quando você se afasta disso é que isso, de alguma forma, se revelará ao seu entendimento.

Então, e somente então, você poderá compreendê-lo e guiá-lo. Então, e somente então, você poderá usar todos os seus poderes e dedicá-los a um serviço digno.

842.   O Mestre está claramente pensando aqui no eu superior, o ego em seu corpo causal, compreendendo e guiando o eu inferior.

Como vimos antes, tudo isso deve ser entendido em diferentes níveis, conforme se lida com aqueles que são pupilos ou com o próprio Adepto.

Para alguns, a tarefa é que o ego, em seu corpo causal, aprenda a controlar e dirigir a personalidade aqui embaixo.

Para outros, é que a Mônada tome posse e dirija o ego.

E quando isso tiver sido alcançado, que é o caso do Adepto, mesmo assim Ele ainda terá que tomar o que quer que seja o próximo nível acima dessa Mônada e converter a Mônada em uma expressão perfeita disso.

843. Ante, p. 196.

844. 11. Considera com a maior seriedade o teu próprio coração.

845. Pois através do teu próprio coração vem a única luz que pode iluminar a vida e torná-la clara aos teus olhos.

846. A menos que reconheças Deus dentro de ti, nunca poderás encontrá-Lo fora.

Através do teu próprio coração vem a única luz que pode iluminar a vida e torná-la clara aos teus olhos.

Sua evocação pode ser muito auxiliada de fora.

O teu próprio Mestre não pode te dar essa luz, embora possa ajudar-te a despertá-la dentro de ti; ela deve vir de dentro, e está dentro, quer tu saibas ou não.

847. Certamente deveria ser uma grande bênção e encorajamento para nós quando encontramos tão fortemente enfatizado no ensinamento teosófico o fato de que o Divino está dentro de nós e somos essencialmente parte dele. Nós o esquecemos muitas vezes e nos permitimos cair da consciência disso, de modo que temporariamente temos visões limitadas e somos incapazes de apreender a largura, a profundidade e a glória do Seu plano.

As pessoas esquecem, ou talvez nunca souberam, que são uma com o Divino, e que é somente aproximando-se cada vez mais da expressão dessa Divindade que podem alcançar o verdadeiro desenvolvimento ou felicidade, ou de fato qualquer verdade que as coloque em harmonia com o resto do mundo.

Tem sido universalmente reconhecido por todos os místicos que é somente através do Deus interior que podemos entrar em contato verdadeiro com o Deus exterior.

O Mestre disse em outro lugar: “Se não podes vê-lo dentro de ti, então é inútil procurar em outro lugar.”

CAPÍTULO: REGRA

848. C.W.L. – Neste ponto da Parte II de Luz no Caminho, a numeração das regras sofre uma mudança.

Não temos mais conjuntos de três aforismos do antigo manuscrito, seguidos de um comentário do Chohan.

A Regra 13, à qual chegamos agora, é dada pelo Chohan.

849. 13. A fala vem somente com o conhecimento.

Alcança o conhecimento e alcançarás a fala.

850. A nota do Mestre Hilarião sobre isso diz:

851. É impossível ajudar os outros até que tenhas obtido alguma certeza própria.

852. Pode-se estudar minuciosamente o sistema teosófico, examiná-lo sob todos os pontos de vista, compará-lo com outras ideias que tentam explicar o estado de coisas que vemos no mundo, chegar à conclusão definitiva de que é, de longe, a melhor hipótese diante do mundo e, consequentemente, aceitá-lo como verdadeiro.

Suponho que não se possa chamar exatamente isso de conhecimento, mas é, no mínimo, uma convicção plena e razoável sobre a qual se pode agir com certeza.

853. Se examinarmos a declaração cristã ortodoxa, vemos de imediato que ela carece de estabilidade e é inconsistente; embora professe explicar tudo, dificilmente se pode dizer que oferece uma teoria satisfatória.

É por isso que muitos cristãos temem pensar.

Quando chegamos, porém, à explicação teosófica da vida, vemos que estamos em terreno firme.

Suponhamos que alguém venha de fora como investigador; ele pode sentir que algumas de nossas afirmações são fortes demais, diretas e positivas, e pode perguntar: "Que evidência vocês têm de que essas coisas são assim?" Ele pode duvidar da exatidão de algumas afirmações específicas.

Mas ninguém poderia negar, tomando a filosofia como um todo, que ela é, no mínimo, uma teoria coerente, e, se for verdadeira, ela de fato explica tudo.

Em muitos casos, isso é tudo o que se pode reivindicar para as teorias científicas.

Temos diante de nós um certo número de fatos; a hipótese tem de explicar esses fatos; aqui está uma que é claramente melhor que as outras, que explica melhor do que as demais tudo o que foi observado; portanto, aceitamo-la como provisoriamente verdadeira.

854. Quando cheguei ao conhecimento da Teosofia, eu já era sacerdote da Igreja Anglicana; no entanto, duvidava de grande parte dos dogmas apresentados pela Igreja e sempre evitei pregar qualquer dogma, mas ensinava a moral e a ilustrava. Aqui, na Teosofia, havia uma teoria razoável, e, por ser tão razoável, eu estava de fato muito disposto a aceitá-la. Tinha então pouca prova, mas, mesmo nessa fase, tinha tanta prova dela quanto temos para um vasto número de fatos em astronomia.

Tinha tanta evidência dela quanto temos, por exemplo, para muitas teorias amplamente aceitas em química ou física.

Certos experimentos são explicados por essas teorias, mas há muitas outras coisas que ainda não são explicadas.

855. Veio então, para mim, o passo seguinte de conhecer Madame Blavatsky, vendo, em relação a ela, certas coisas que comprovavam algumas de suas afirmações.

Naturalmente, isso não provava necessariamente a verdade de todo o resto, mas muito em breve, dentro de três anos após entrar na Sociedade, eu soube por conhecimento próprio da existência dos Grandes Mestres que ela havia descrito.

Descobrir que muito disso era verdade constituía uma excelente evidência para a veracidade das outras afirmações, especialmente porque todas se encaixavam tão harmoniosamente e formavam um sistema tão perfeito.

856. Mais tarde, tornei-me capaz de investigar por mim mesmo muitas dessas questões e, até onde já avancei, não encontrei erro em nenhuma das grandes verdades que ela nos apresentou. Em seus livros, ela transmitiu uma vasta massa de ensinamentos; quanto ao significado de parte deles, ainda não estou em posição de falar com base em conhecimento direto.

Há também algumas afirmações que ainda não consigo compreender; mas quanto mais aprendi por mim mesmo, mais percebi o quanto ela sabia.

Portanto, embora ela admitisse que havia muitos erros em seus livros, desisti de procurá-los.

No início, quando nos deparávamos com algo que não entendíamos, pensávamos que fosse um dos erros; mais tarde descobrimos que o erro estava em nós mesmos — não havíamos compreendido plenamente.

Erros existem, sem dúvida, e quando soubermos muito mais, provavelmente os encontraremos.

Suspeito que certas afirmações pertençam a essa categoria, mas não estou disposto a assumir que o sejam até saber que é assim — prefere-se receber suas afirmações com grande respeito.

857. Tendo nós mesmos conhecimento definido, é verdade que podemos falar com maior convicção.

( 1 Ante, pp. 309-10.) Isso já foi dito a meu respeito.

Pessoas disseram que acharam minha conversa convincente.

Outros, sem conhecimento direto, mas muito mais eloquentes do que eu, apresentaram essas questões do seu ponto de vista; e, no entanto, as pessoas diziam: "Sim, mas você sabe disso?" Eu respondia: "Sim, sei, mas como vocês sabem que sei, embora eu lhes diga que é assim?" "Não sabemos", respondiam eles, "mas de alguma forma sentimos quando um homem fala daquilo que ele próprio conhece, e quando fala daquilo que apenas leu e estudou." Há todo tipo de analogias para a ideia de que é impossível ajudar os outros até que se obtenha alguma certeza própria.

Se você quiser tirar uma pessoa de águas tempestuosas, seus próprios pés devem estar firmes na rocha.

858. Quando uma alma sabe, ela transmite sua certeza a outras almas, e elas reconhecem essa certeza; mesmo que no plano físico e com o cérebro físico provavelmente não pudessem dar razões, elas sentem quando um homem realmente sabe.

Seria impossível para um homem ajudar outros na linha do desenvolvimento superior, ou aproximar discípulos de seus Mestres, a menos que ele soubesse por si mesmo.

859. Essa diferença está claramente marcada nos Manuais Teosóficos, a maioria dos quais foi escrita pela Dra. Besant.

Os três primeiros — Os Sete Princípios do Homem, Reencarnação e A Morte e o Além — foram escritos antes que ela pudesse ver qualquer uma dessas coisas por si mesma.

Ela logo reconheceu que A Doutrina Secreta, por mais maravilhosa que seja, era muito difícil para o estudante médio, e que ele não extrairia dela um décimo do que estava lá, a menos que pudesse ter algum estudo preliminar para se preparar. Então ela se pôs a trabalhar com sua energia característica e preparou certos epítomes para seu povo, simplesmente escrevendo-os a partir de seu próprio estudo dos livros e das respostas a perguntas que ela havia feito a Madame Blavatsky.

Duvido que qualquer outra pessoa pudesse ter pegado A Doutrina Secreta sozinha e extraído dela o que ela fez.

Ela tem um poder maravilhoso de unir as coisas e torná-las claras.

No entanto, quando chegou ao quarto Manual, que era Carma, ela começava a ver o funcionamento dessas coisas por si mesma.

Então eu escrevi O Plano Astral e O Plano Devachânico, e ela escreveu o sétimo Manual, O Homem e seus Corpos.

Quando escreveu o último, ela já havia aprendido plenamente a ver por si mesma.

Há uma diferença distinta de estilo tanto em Carma quanto em O Homem e seus Corpos.

Ambos os Manuais mostram que ela sabia do que estava falando em primeira mão.

Nos outros livros ela estava citando, e embora tenha entrelaçado as diferentes citações com habilidade maravilhosa, os três primeiros Manuais contêm muito que não é totalmente claro e é difícil de entender.

Ela frequentemente disse que gostaria de reescrevê-los, mas está sempre escrevendo outros livros e nunca teve tempo.

Também teve a ideia de que são documentos históricos, para mostrar o que sabíamos e o que não sabíamos naquela fase.

860. Nos primeiros dias, a maioria de nós tinha uma ideia muito incompleta do esquema das coisas; havia muitas lacunas em nossas teorias.

O Budismo Esotérico do Sr. A.P. Sinnett foi o primeiro esforço para fazer uma declaração bastante completa e ordenada.

Aquele livro foi baseado inteiramente em um vasto número de cartas que foram recebidas pelo Sr. Sinnett através de discípulos do Mestre Kuthumi.

A princípio, atribuímos todas as respostas diretamente ao próprio Mestre, mas depois descobrimos que elas vinham, se assim se pode dizer, de Seu escritório, de Sua entourage.

Havia uma vasta quantidade de informações nas cartas, que eram em grande parte respostas a perguntas propostas pelo Sr. Sinnett.

Foi a partir delas que os primeiros livros do Sr. Sinnett foram escritos.

861. É a Dra. Besant quem fez a maior parte do trabalho de tabular o conhecimento teosófico para nós, quem organizou os fatos e os tornou de modo que aquele que corre possa ler.

Naqueles primeiros dias, tínhamos que estudar muito mais arduamente para compreender as verdades teosóficas.

Mas pode-se ver a diferença até mesmo em seu trabalho, esplêndido como era, numa época em que ela era guiada apenas pelos livros, e quando ela viu as coisas por si mesma.

Madame Blavatsky viu muitas coisas por si mesma, mas sua mente, até onde pudemos compreendê-la, pois era uma mente gigantesca, funcionava de maneira um tanto diferente da nossa.

Se se pode dizê-lo com respeito e reverência, era de um tipo atlante, pois aglomerava vastas acumulações de fatos, mas não fazia muito esforço para organizá-los.

Swami T. Subba Row disse que A Doutrina Secreta era um monte de pedras preciosas.

Não há dúvida de que são pedras preciosas, mas é preciso classificá-las por si mesmo; ela não tentou fazer isso por nós, pois não sentia necessidade alguma disso.

862. No curso de meu próprio estudo, repetidamente me deparei com ideias que eram bastante novas para mim, e as anotei, pensando nelas não exatamente como descobertas, mas como ideias que eram novas para mim; talvez meses depois, ou um ou dois anos mais tarde, olhei de volta para O Budismo Esotérico ou A Doutrina Secreta, e descobri que a ideia que eu pensava ser nova estava distintamente implícita naquele livro — talvez não declarada em tantas palavras, mas certamente implícita.

Certamente muitas ideias que recentemente pensamos serem novas deveriam ter sido deduzidas por nós. Posso ver como essas verdades decorrem das outras ideias, e agora me pergunto como pude ser tão estúpido a ponto de não ter feito a dedução.

A mesma experiência ocorre de maneira bastante marcante em cada Iniciação; a chave do conhecimento que então é comunicada é uma coisa absolutamente óbvia.

Dizemos a nós mesmos: "Bem, o que eu estive fazendo para não ter visto isso sozinho?" Mas nunca vemos; ninguém vê até que lhe seja dito.

Não precisamos de prova para a afirmação; ela fala por si mesma, é absolutamente evidente por si só.

O fato estava ali, diante dos nossos olhos durante toda a nossa vida, e nunca o vimos. Se alguém já teve algum orgulho em seu desenvolvimento intelectual, ele é muito rapidamente desfeito nessa linha de experiência.

863. Apenas os Mestres são capazes de dar ajuda plena a qualquer um.

Seu conhecimento é universal e se estende também a todos os mundos superiores.

Eles parecem não precisar de todo o conhecimento armazenado em seus cérebros como nós precisamos, mas são capazes de voltar uma certa faculdade para qualquer coisa que seja desejada e, pelo uso dessa faculdade, ali mesmo, saber tudo a respeito. Pode ser que haja alguma informação que o Mestre queira; Ele não precisaria lê-la como faríamos, mas voltaria Seu olho que tudo vê sobre esse assunto e, assim, absorveria o conhecimento de alguma forma.

Creio que é isso que deve significar livrar-se da ignorância.

É óbvio que alguém jamais poderia obter todo o conhecimento pelas linhas pelas quais adquirimos conhecimento.

Está claramente afirmado que o último grilhão que o Arhat deve lançar fora é a avidya — a ignorância.

(¹ Ante, Vol. II, p. 364.) Quando perguntamos: "O que isso significa? Sobre o que ele deve saber?" foi-nos dito: "Sobre tudo no sistema solar." A gente recua apavorado, porque se tem alguma pequena experiência dos planos inferiores deste mundo, e também se estabeleceu consciência em vários níveis superiores.

Posso afirmar definitivamente que, embora este seja o Caminho pelo qual o conhecimento universal é adquirido, à medida que se avança, mais e mais oprimido se fica pelo senso da ignorância universal; cada vez que se ascende a níveis mais elevados, embora se compreendam as coisas que se tentava compreender, ao mesmo tempo se veem surgir e se estender diante de si campos cada vez mais amplos dos quais se é ignorante.

Quanto mais um estudante ganha, mais ele percebe quanto há ainda para aprender, e quão pouco, diante disso, é tudo o que ele pensa ter ganho.

Mesmo isso é apenas metade da dificuldade, pois cada elevação adicional dá um novo ponto de visão com relação a todas as coisas que já se conhecia, e assim é preciso aprendê-las todas novamente sob esse novo ponto de vista.

864. A tentativa não é promissora por nenhuma linha que até agora tenhamos aprendido a seguir.

Se quisermos ter o conhecimento divino universal, deve haver alguma maneira totalmente diferente de apreendê-lo, que se abrirá diante de nós à medida que avançarmos. Considero agora toda a questão filosoficamente, porque não há mais nada a fazer.

Aprendo tudo o que posso ao longo de nossas linhas atuais e, à medida que adquiro novos métodos, utilizo-os, mas vejo que jamais alcançarei realmente a meta superior por essas linhas.

Deve haver algum método inteiramente novo de adquirir conhecimento, e penso que obtemos uma pequena orientação sobre o que isso possa ser a partir da consciência búdica da qual já falei; nela não é mais preciso coletar fatos de fora, mas mergulha-se na consciência de todas essas coisas, sejam minerais, plantas ou devas, e compreende-se a partir de dentro.

Então se descobre que tudo isso é, de algum modo, parte da própria consciência.

Ao longo dessa linha, talvez seja possível resolver a questão.

865. Quando você tiver aprendido as primeiras vinte e uma regras e tiver entrado no Salão do Aprendizado com seus poderes desenvolvidos e seus sentidos desacorrentados, então descobrirá que há uma fonte dentro de você da qual a fala surgirá.

866. O Salão do Aprendizado refere-se, no início, ao mundo astral; em um estágio posterior, o Mestre provavelmente quer dizer algo muito mais elevado do que isso pela mesma expressão.

Em primeiro lugar, quando apenas experiências astrais estão disponíveis ao aspirante, há muito que ele pode aprender no mundo astral.

É algo inteiramente novo para ele; novas faculdades se desdobram e ele encontra perspectivas que se abrem diante de si em diferentes direções, permitindo-lhe abordar tudo a partir desse novo ponto de vista.

Para começar, há a dimensão extra.

Além disso, há o poder de ver através de toda coisa material.

Ademais, o observador traduz tudo através de seu veículo emocional, e isso é muito diferente de tentar sentir as coisas através de um corpo físico.

Assim, há muito a aprender e a fazer nesse mundo superior, porque é lá que as pessoas mais precisam de ajuda; é lá que temos todos os recém-falecidos em suas muitas condições e estágios de desenvolvimento diferentes, de modo que é principalmente lá que o trabalho em favor daqueles que estão em dificuldade pode ser realizado fora do corpo físico.

867. Ante, Vol. II, pp. 89-91.

868. Chega um estágio posterior em que o homem se torna livre no plano mental, da mesma maneira que a maioria de nós é livre no astral quando estamos longe do corpo físico.

Discípulos dos Mestres são ensinados especialmente a desenvolver o corpo mental até que sejam capazes de usá-lo tão facilmente quanto o corpo astral; então são ensinados a fazer o mayavi-rupa, isto é, um corpo astral temporário, não o corpo astral naturalmente ligado ao homem, mas uma materialização temporária no plano astral que somente aqueles que aprenderam a viajar em seus veículos mentais podem fazer.

1 Ante, Vol. II, pp. 121, 274. Vol. III, p. 264.

869. A próxima etapa é aprender a usar o corpo causal livremente. Então, quaisquer que sejam os veículos inferiores que o homem esteja usando, ele retém essa nova consciência até certo ponto. Ele não pode usar a faculdade plena do corpo causal através do astral ou do mental, porque eles formam um véu, uma limitação; mas ainda assim terá consigo a memória de sua experiência causal. Se ele também rompeu aquilo que atua como um véu entre os corpos astral e físico, lembrará fisicamente de tudo o que faz nos mundos superiores, de modo que sua existência será contínua. No próprio corpo causal, sua consciência será ininterrupta, não apenas através do sono e da vigília, mas através da vida e da morte, porque essa é uma consciência permanente. Quando um homem entra no próximo salão superior de aprendizado, o plano búdico, ele terá conhecimento direto de tudo o que se apresenta diante dele. Ele poderá entrar dentro dos outros e, de outra maneira, atraí-los para dentro de si mesmo, e assim os compreenderá plenamente.

870. Quando um homem tem seus poderes desenvolvidos e seus sentidos desacorrentados nesses níveis elevados, certamente terá muita coisa que pode dizer. Ao mesmo tempo, sempre se verá limitado por uma séria dificuldade de expressão. Ele vê e conhece; e por causa disso pode dizer muito mais do que aquele que não conhece por si mesmo, e pode apresentá-lo de forma muito convincente; e ainda assim, com todo o seu esforço, e mesmo com todo o seu sucesso no que diz respeito a certas pessoas, nunca estará livre da consciência de que não está expressando nem metade do que viu. Nenhuma palavra transmitirá a outro o que foi experimentado em um reino além das palavras.

871. Pessoas cheias de devoção, de vez em quando, elevam-se a uma condição de êxtase na qual vislumbram os planos superiores. Quando alguém já tocou essa condição, imediatamente a reconhecerá nas descrições tentadas por alguns dos santos cristãos e também por iogues hindus.

Santa Teresa fala de tais experiências; São João da Cruz, São Francisco de Assis e outros também as mencionam uma ou duas vezes.

Esses cristãos alcançaram uma condição que descreveram em termos cristãos, enquanto um Teosofista a descreveria em termos mais teosóficos.

Ele falaria dela em referência aos Mestres; eles falavam em referência ao Cristo.

872. É uma grande coisa obter esse toque da realidade por trás dos fenômenos, ou melhor, essa aproximação mais íntima da realidade além das formas, porque um fragmento de experiência pessoal vale muito mais do que uma grande quantidade de instrução por ouvir dizer; quando temos algum toque de experiência pessoal, descobrimos que há uma fonte de fala que surge dentro de nós. Sentimos que temos algo diferente a dizer, algo que devemos dizer, que nos é imposto como um encargo de que daremos ao mundo — que testemunharemos essas esplêndidas realidades.

O Mestre diz que quando você chegar a conhecer essas coisas por si mesmo, encontrará essa fonte dentro de você, da qual a fala surgirá.

Você sentirá que deve e precisa contar as grandes coisas que o Senhor fez por você, para colocá-lo na forma cristã.

873. Não se deseja impor indiscriminadamente as próprias experiências às pessoas, mas tem-se o sentimento de que aqueles que possuem conhecimento de primeira mão realmente definido de qualquer tipo devem estar sempre dispostos a dar testemunho dele. Aqueles que pessoalmente viram, encontraram e se lembraram de alguns dos grandes Mestres deveriam, penso eu, estar sempre dispostos a testemunhar esse fato, porque o mundo exterior está constantemente na atitude de dizer, quando ouve falar de tais acontecimentos: "Bem, há alguém que tenha visto esses grandes Seres?" Não desejo rebaixar a ideia de um Mestre trazendo-a diante daqueles que não podem compreendê-la, mas se tais pessoas, mesmo em uma reunião pública, perguntarem: "Você viu algum desses grandes Mestres?" Eu respondo: "Sim, vi, mas não é um assunto que eu me importe em discutir em uma reunião pública." É bem provável que em tal reunião possa haver alguns que zombariam da ideia; mesmo que não dissessem nada, poderiam estar em uma condição de descrença.

Embora tudo isso não faça a menor diferença para os Mestres, é apenas justo que nos lembremos de que faz uma grande diferença para o blasfemador.

O homem que zomba de grandes pessoas como Essas cria para si uma forma especialmente maligna de karma; isso eu vi repetidas vezes.

Então, se às vezes parece que retemos essas coisas, nossa razão real para fazê-lo não é apenas a repugnância natural que sentimos em submeter nomes que nos são sagrados ao ridículo dos ignorantes e tolos, mas é também por consideração aos próprios ignorantes e tolos, para que não acumulem para si experiências muito desagradáveis no futuro.

Não posso explicar isso completamente, mas sei que é assim. Tenho visto isso repetidamente, com frequência demasiada para ser mera coincidência, ou resultado de qualquer tipo de acaso.

874. Nenhum homem tem o direito de ridicularizar qualquer mestre religioso; ele pode não acreditar nele ou sentir que é seu dever segui-lo, mas pelo menos nenhum homem de sentimentos refinados ridicularizaria jamais a crença religiosa de outro.

Aquele que o faz está agindo de modo errado segundo princípios gerais, independentemente da natureza dos ensinamentos dados.

875. É bom, talvez, que uma advertência geral seja feita em todas as direções: não se deve adotar uma atitude de desdém em relação a qualquer coisa, porque pode sempre haver algum fragmento de verdade mesmo naquilo que nos parece incrível e incompreensível.

Todo efeito — mesmo uma superstição — tem uma causa, e embora na forma em que agora se nos apresenta possa ser ridículo, descobriremos, se o rastrearmos até sua origem, que havia algo de verdade nele no princípio, e ainda há algo por trás dele.

876. Após a décima terceira regra, não posso acrescentar mais palavras ao que já está escrito.

877. O Mestre Hilarião quer dizer que as notas feitas pelo Chohan veneziano compreendem tudo o que Ele sente ser seguro dizer.

Ele então conclui Suas notas com as palavras:

878. A Minha paz vos dou.

879. Estas notas são escritas apenas para aqueles a quem dou a Minha paz; aqueles que podem ler o que escrevi com o sentido interno, bem como com o externo.

880. "A Minha paz vos dou", vimos na Parte I, só pode ser dita pelo Mestre aos discípulos que são como Ele mesmo, ou a outros que alcançaram o nível búdico e são um com Ele em virtude de alcançarem essa consciência.

1 Ante, pp. 286-9.

881. Suponhamos que pessoas troquem entre si uma saudação desse tipo: "A paz esteja convosco", e a resposta: "E sobre vós a paz." O que dão umas às outras? Podemos imaginá-las de pé no mesmo nível, e de cada uma delas parte um forte desejo ou pensamento de paz para a outra.

Isso seria um dom real, uma coisa material bastante definida.

Mas isso também acontece sempre que se envia um pensamento de afeto para alguém que se ama.

Transfere-se, com toda a certeza, uma pequena parte do próprio corpo astral para essa pessoa, como veículo da forma-pensamento; pode-se também transferir matéria mais elevada, até o plano búdico, se já se desenvolveu até esse nível.

882. É bom perceber que, nesses casos, se está realmente dando algo material.

Muitas vezes as pessoas não pensam que o desejo seja algo.

Quando enviam um bom desejo, ele é um presente tão material quanto um livro ou uma joia seria, apenas composto de matéria mental e astral.

É um presente que o mais pobre pode dar tão bem quanto o mais rico.

883. Suponha que alguém receba a bênção de um padre: "A paz de Deus, que excede todo o entendimento, esteja sobre vós." Isso também é um fenômeno bastante definido.

O bom desejo do padre, que se pode receber igualmente, seria apenas um fragmento infinitesimal do que dele provém.

Quando um padre dá uma bênção solene em nome de Deus, ele está exercendo sua função como padre; está extraindo poder espiritual daquele reservatório que o Cristo separou precisamente para esse fim.

É do mesmo reservatório que se extrai quando a Eucaristia é celebrada, apenas que se extrai de uma camada diferente, e dá um tipo diferente de força.

Houve Grandes Seres que escolheram fundar uma seção especial do reservatório, preenchida em primeiro lugar por Eles Mesmos, e depois mantida cheia por Seus seguidores particulares.

Isso o próprio Cristo fez em Sua descida na Palestina.

Portanto, paz e bênção de uma ordem muito mais elevada do que um homem pode dar a outro fluem sobre a congregação através da vontade do padre.

Não é dele próprio, mas vem daquela fonte superior.

884. Se alguém recebe a bênção do Bispo, tem um estágio mais elevado da mesma coisa, uma efusão mais plena.

O Bispo, quando dá sua bênção como tal, faz três cruzes em vez de apenas a única que o padre faz.

Ele faz isso para expressar a força tríplice que envia.

Não quero dizer que, sendo Bispo, ele não daria essa força se fizesse apenas uma cruz, mas a razão de fazer os três sinais é que ele tem à sua disposição uma variedade tríplice da mesma força em um nível mais elevado do que a dada pelo padre.

Se um de nossos grandes Mestres dissesse a uma pessoa "A paz esteja convosco", Ele lançaria sobre ela uma paz ainda mais ampla e elevada.

885. A bênção do próprio Cristo é a mais elevada que esta terra pode dar.

O Senhor do Mundo verdadeiramente está ainda acima, mas não é tanto de Sua natureza dar bênção quanto dar força.

Creio que podemos dizer que a bênção do Bodhisattva é a mais elevada daquele tipo religioso que este mundo pode nos dar. O quanto cada um é capaz de receber dessa paz e dessa bênção não depende nem um pouco do Bodhisattva, mas inteiramente do indivíduo.

Seu poder se derrama como a luz do sol; nuvens nascidas da terra podem interpor-se no caminho da luz solar, podem obscurecer a ação dessa força divina, mas ela está ali, não obstante — um poder glorioso e maravilhoso.

886. A maioria das pessoas é, de um modo, materialista demais e, de outro, não suficientemente materialista, em seu sentimento acerca desses fatos superiores.

Temos tanto materialismo apegado a nós que, a menos que possamos ver definitivamente ou ao menos sentir uma coisa por nós mesmos, dificilmente podemos crer em sua existência.

Contudo, por outro lado, não somos suficientemente materiais em nossas ideias.

As pessoas deveriam compreender que, quando falamos da bênção derramada pelos Grandes Seres, mesmo a do próprio Cristo, queremos dizer algo tão definido quanto a eletricidade ou um jato de água.

É através da matéria que a força espiritual se manifesta para nós; assim, quando recebemos uma bênção, ela é um poder real e definido, que pode nos aproximar da Divindade.

887. 1 Ante, pp. 349-50.

CAPÍTULO REGRAS 14 A

888. C.W.L. — A Regra 14 é mais uma vez um comentário do Chohan, não tanto sobre o que veio antes, mas como preparação para outro conjunto de três aforismos, numerados 15, 16 e 17.

889. 14. Tendo obtido o uso dos sentidos internos, tendo conquistado os desejos dos sentidos externos, tendo conquistado os desejos da alma individual e tendo obtido conhecimento, prepara-te agora, ó discípulo, para entrar na Senda em realidade.

A Senda está encontrada: faze-te pronto para trilhá-la.

890. Parece estranho que, estando já no meio da segunda parte deste livro, nos seja dito que somente agora estamos entrando na Senda em realidade.

É, naturalmente, um estágio mais elevado da Senda a que se faz referência. Assim como falamos primeiro da senda probatória e depois da Senda propriamente dita, após a primeira Iniciação ter sido ultrapassada, aqui o Chohan fala de entrar na Senda em realidade.

A mesma ideia é aplicável em diferentes níveis.

O Arhat entra em um novo caminho, o do plano nirvânico, uma realidade maior do que a do plano búdico, e o Asekha, ou Adepto pleno, entra em um caminho ainda mais elevado, uma realidade ainda mais plena.

891. Parece não haver fim para este Caminho.

Não podemos falar com certeza sobre qualquer coisa final.

Podemos dizer que a escada se estende diante de nós até se perder em glória muito além do nosso entendimento, e sabemos com toda a certeza que há evolução diante de nós por milhões de anos ainda.

Qual é o fim final, quem poderá dizer? Mas que alcançaremos a consciência do nosso Logos solar, sabemos.

Para nós, isso poderia bem parecer um fim, mas não tenho dúvida de que além disso se estendem outras glórias; mas quanto à finalidade, nada podemos dizer.

Mesmo que tais coisas pudessem ser apresentadas diante de nós em nosso atual estágio de desenvolvimento, é bem certo que não as compreenderíamos.

892. Quando o Chohan fala de ter conquistado os desejos da alma individual, Ele se refere aos desejos que o próprio ego possa ter.

Eles não são tais como os que chamamos de desejos aqui embaixo.

Em um estágio elevado do Caminho, dois grilhões devem ser lançados fora, chamados *ruparaga* e *aruparaga*, e são interpretados como "desejo por vida em uma forma" e "desejo por vida sem forma". Quando se alcança a consciência do ego, descobre-se que se tem diante de si duas variedades de vida – a do corpo causal, que é vida em uma forma, e a vida búdica, que é vida sem forma em qualquer sentido comum dessa palavra.

893. O ego tem, assim, experiências de uma consciência em forma e uma consciência sem forma, e ambas são maravilhosas além de todas as palavras, porque a vida do ego em forma é vida entre seus pares, entre outros egos, e quando ele está consciente nesse nível, desfruta da companhia de todos os intelectos mais brilhantes que o mundo já produziu, incluindo o grande reino angélico, bem como o reino humano.

A vida do ego em seu próprio plano é gloriosa além de qualquer concepção possível à personalidade.

Se alguém pudesse imaginar uma existência na companhia dos grandes homens do mundo – artistas, poetas, cientistas, e até mesmo nossos próprios Mestres – e acrescentar a tudo isso um entendimento deles inatingível aqui embaixo – então apenas se começaria a ter alguma ideia da vida do ego.

894. Quando se avança até esse ponto no desenvolvimento, pode-se perceber que é uma vida de intensa atração, e para um homem que tem essa possibilidade diante de si, deixar tudo de lado e dizer: "Não tenho mais o menor desejo por isso" seria um sacrifício estupendo.

895. Seria uma renúncia ainda maior se, além e acima disso, ele tivesse à sua disposição a vida sem forma — a vida no plano búdico — que não apenas possui aquela companhia, mas na verdade torna-se uno com tudo aquilo, e com muito mais ainda.

Então ele diria: "Não tenho desejo nem mesmo por essa vida; estou absolutamente livre do desejo.

Se o Logos me enviar, por meio de nossos Mestres, para uma dessas linhas — vida na forma ou vida além da forma —, com a maior alegria e gratidão aceitarei o trabalho e farei o meu melhor, mas não tenho desejo por uma nem pela outra, e estou igualmente disposto a ser enviado para o trabalho no plano físico." Suponho que poucas pessoas tenham a menor ideia de que mergulho terrível é a vida no plano físico após tal experiência.

Descer a este nível inferior, mesmo sob as condições mais desejáveis, os arredores mais belos, é recair novamente na escuridão, vinda de uma luz maravilhosa; é ser confinado, estar amarrado e indefeso, porque todas as faculdades dos mundos superiores são tão sutis que não podem ser utilizadas aqui embaixo.

896. Foi dito em uma das cartas anteriores dos Mestres, a respeito daqueles que haviam tocado o nível nirvânico, que ao saírem dele ficavam em condição de profunda depressão por muitas semanas.

Posso imaginar que isso seja verdade para alguns de nossos irmãos indianos que, em elevado êxtase — em samadhi —, haviam experimentado aquilo e, ao descerem novamente à vida física, a encontravam em condição profundamente deprimente.

Aqueles que são discípulos dos Mestres e tiveram experiência dos níveis superiores foram ensinados a não se permitirem ser deprimidos pela descida a qualquer limitação ou ambiente.

897. Aquele que se sacrificou pelo serviço deve estar disposto a renunciar a tudo completamente, quando necessário.

Ele deve estar pronto para ser enviado a qualquer tipo de ambiente, a abandonar inteiramente, por um tempo, aquela vida nas formas superiores e aquela vida sem forma que é ainda mais elevada.

Somente assim poderá despojar-se inteiramente desses dois grilhões.

É o Arhat quem precisa fazer isso.

Pode-se obter a Quarta Iniciação e ainda assim ter toques de desejo por esses reinos superiores, portanto não precisamos desesperar desnecessariamente.

Mas isso implica um alto desenvolvimento, um forte senso da necessidade de serviço, para ser inteiramente desapegado de tal bem-aventurança.

A tentação está muito além de qualquer coisa que alguém possa imaginar.

898.   15. Interrogai a terra, o ar e a água, sobre os segredos que eles guardam para vós.

O desenvolvimento dos vossos sentidos internos vos capacitará a fazer isso.

899.   Nesta regra temos o aforismo original na primeira frase e o comentário do Chohan na segunda.

Já falei a respeito do que aqui se indica — que temos de entrar em comunhão mais íntima com a natureza, se quisermos realmente compreendê-la.

Todas as religiões, até onde sabemos, mesmo incluindo muitos dos ritos de tribos selvagens que dificilmente podem ser considerados religiões, têm uma teoria de cosmogonia, do modo como o mundo ou o sistema solar veio a existir.

Há uma razão para isso.

Foi fortemente impresso pelo Instrutor do Mundo nas sub-raças de povos a quem Ele veio em diferentes épocas que eles deveriam tentar compreender o universo do qual fazem parte.

900.   Quanto mais compreendemos todo o plano da evolução, mais podemos viver em harmonia com ele e nos tornar capazes de trabalhar com ele, mesmo nos mínimos detalhes.

Receio que seja impossível para pessoas que não tiveram a experiência compreender plenamente tudo o que aqui se quer dizer com entrar em contato mais íntimo com a natureza.

O escritor não está falando vagamente, mas com conhecimento muito perfeito e íntimo, quando diz: "Interrogai a terra, o ar e a água, sobre os segredos que eles guardam para vós." Esses segredos ajudariam os homens a compreender esta grande e maravilhosa evolução.

Mesmo um pouco de conhecimento deles, ao menos, salvaria as pessoas do perigo de serem egocêntricas.

Muitas pessoas têm sido distintamente egocêntricas, porque têm a ideia absurda de que todos esses reinos foram criados especialmente para a humanidade.

Se há vegetais, bem, está declarado na Bíblia que Deus os deu ao homem para alimento; se há animais, eles presumem (embora eu não pense que esteja distintamente declarado) que Deus os destinou a serem servos do homem, que eles existem apenas para servi-lo e, aparentemente, muitos deles, apenas para serem comidos por ele.

Não é isso o que está declarado na Bíblia; são as ervas e os frutos das árvores que ali se diz terem sido dados ao homem para seu sustento.

Tem havido fortemente essa ideia de que tudo existia para o bem do homem — que o ar foi feito para que ele pudesse respirá-lo, que a água existia para que ele pudesse usá-la para beber ou lavar-se, e que tudo girava em torno do homem como centro.

Mas isso não é assim de forma alguma.

901. As mesmas pessoas pensam na lua como inútil, exceto para iluminar seu caminho à noite.

Se essa fosse a intenção, ela teria sido executada de forma muito ineficiente, porque metade do tempo ela não faz isso de modo algum; mas ainda assim insistem em dizer que o sol existe para iluminá-los de dia e a lua para iluminá-los à noite.

Os homens sempre falaram assim, e quando conhecemos os fatos, certamente nos parece curioso.

Somos o ápice da evolução animal.

Consideramo-nos um reino à parte dos animais, mas o fato permanece de que somos os mais elevados dessas criaturas que possuem corpos físicos densos.

Há vastas quantidades de entidades superiores a nós que possuem veículos mentais e astrais, e outras que usam corpos físicos até a extensão da matéria etérica, embora apenas durante a materialização temporária.

902. Se fôssemos escolher uma evolução à parte das demais e dizer que o sistema solar existe para essa especial, ou mesmo dizer que a nossa Terra existe apenas para essa, então teríamos de considerar a grande evolução dévica em vez da humana, porque ela certamente alcança muito mais alto e é, no todo, muito mais esplêndida do que a nossa.

Há muitas outras linhas que terminaram sua experiência física em outras cadeias de mundos e agora estão utilizando os planos superiores deste mundo.

Aquelas evoluções que estão no estágio do plano búdico, por exemplo, não interferem de modo algum nos três mundos inferiores nos quais estamos evoluindo.

Uma vez que já estão naquela altura onde seu nível mais baixo é o plano mental, que para nós é tão elevado, bem pode ser que sejam muito mais importantes do que nós.

903. Até onde pudemos testar, ou ver, nenhum espaço em lugar algum está sendo desperdiçado, ou está desocupado.

Lembro-me de uma declaração feita certa vez em uma reunião espírita da qual participei, antes de eu conhecer a Teosofia.

A entidade comunicante disse que, à sua visão, a sala estava densamente repleta do que ele chamava de espíritos, e além disso, para além daquela sala, estendia-se pelo céu uma massa densa de entidades superiores — que ele chamava de anjos — de vários tipos, derramando-se para baixo e subindo novamente.

Ele disse: "Todo o ar, até onde posso ver, está densamente repleto desses seres superiores." Ele os representou como todos focados no círculo específico em que estávamos sentados, e não tenho dúvida de que um certo conjunto de entidades possa ter estado atento a isso, mas, além disso, e sempre, todo o espaço está sendo utilizado para evoluções que não têm nada a ver conosco nem com nosso conjunto de esquemas paralelos.

904. Todo o espaço está absolutamente repleto de vida.

Mais de três quartos da Terra estão cobertos por água; os homens não podem viver nela, mas esse vasto espaço está, no entanto, muito plenamente ocupado por vida.

A terra sólida também está cheia de um tipo de vida que se move através dela como nós nos movemos pelo ar, sem ter consciência de obstrução.

Isso está em um nível inferior ao da humanidade; é mais inteligente em alguns aspectos, mas no todo inferior, e tão completamente diferente do nosso que o que é a sua evolução normal seria maligno para nós. Grande parte dessa vida não poderia ser explicada em linguagem comum de forma alguma, mas pode-se senti-la afastando-se do próprio corpo e indo em meio a ela e observando-a. Não aconselharia as pessoas a fazerem isso, no entanto, até que tenham as faculdades superiores e as outras qualidades que foram mencionadas, porque poderiam se colocar em sério perigo, especialmente entre essas forças inferiores que são tremendamente fortes, mas não são guiadas por nenhuma consideração que compreendamos — o que chamaríamos de considerações morais não existem de forma alguma entre algumas dessas evoluções.

Tudo isso é bastante diferente de qualquer coisa de que tenhamos conhecimento, mas tudo isso devemos conhecer antes que nós mesmos possamos alcançar o nível do Divino e nos tornar um com Ele, porque tudo isso é a vida do Logos tanto quanto é a vida dentro de nós mesmos, e para compreendê-Lo devemos compreender tudo isso.

905. 16. Indagai dos Santos da terra os segredos que eles guardam para vós.

906. O comentário sobre isso é:

907. A conquista dos desejos dos sentidos externos vos dará o direito de fazer isso.

908. Os Santos da terra são certamente, entre outros, os nossos Mestres.

Penso que aqui Ele se refere também aos grandes Anjos.

Podemos entrar em contato com eles e aprender muito com eles, mas também podemos aprender — e aprendemos — muito com os nossos próprios Mestres, pois Eles, através de Seus discípulos, nos ensinaram muito conhecimento que, de outra forma, levaríamos muito tempo para alcançar por nós mesmos.

Eles nos disseram desde o início que era nosso dever verificar por nós mesmos as coisas que Eles nos ensinavam. É isso que temos feito, e é dessa maneira que, em muitos dos livros teosóficos posteriores, temos muito mais detalhes do que nos livros anteriores, que dependiam em grande parte do que nos fora dito.

909. Indagar de um Mestre nem sempre significa ir e fazer uma pergunta.

Há outras maneiras além dessa.

Há casos em que fizemos exatamente essa coisa.

Formulamos perguntas definidas e, quando a oportunidade ocorreu, fizemos essas perguntas, pode-se dizer, por palavra falada, exceto que nos planos superiores não há palavra falada no sentido comum; às vezes fizemos essas perguntas a um Mestre em um momento de Seu lazer e recebemos respostas definidas para elas.

Há muitas coisas no trabalho cotidiano sobre as quais gostaríamos de nos beneficiar de Sua visão mais ampla, mas não poderíamos pensar por um momento em incomodá-Lo para dar uma resposta.

Como foi explicado antes, é possível a um pupilo colocar seu pensamento ao lado do do Mestre e assim, sem apelar para a consciência do Mestre, ver o que Ele pensa sobre qualquer assunto dado.

(¹ Ver Vol. I, Parte I, Cap. 1: O Caminho Oculto; Parte II, Cap. 4: Sê Verdadeiro em tudo.)

Isso não Lhe exige absolutamente nada.

É simplesmente que, recuando pela linha de comunicação, podemos colocar nosso pensamento ao lado do Dele.

Isso significa que a pessoa primeiro pensou por si mesma na questão e chegou a alguma conclusão que parece ser a melhor; então coloca essa conclusão ao lado do pensamento do Mestre sobre o assunto, para ver se há alguma diferença.

Se houver, a pessoa prontamente altera seu próprio pensamento, sabendo que Ele é muito mais sábio e que Seu pensamento é exato.

910. Assim, há maneiras de consultar o Mestre, sem incomodá-Lo de forma alguma.

Ainda assim, há outros casos em que esse não é um método adequado de comunicação, em que temos absolutamente que esperar por uma oportunidade para fazer uma pergunta e obter uma resposta; mas certamente, para que alguém possa indagar Deles, deve primeiro levar-se ao ponto em que não causará perturbação ao aproximar-se Deles.

911. É dever de alguns de nós ir todas as noites, quando adormecemos, às casas de nossos respectivos Mestres para receber ordens, para ver se há alguma instrução especial para nós. Às vezes há.

Mas às vezes encontramos o Mestre visivelmente ocupado, profundamente envolvido; então não nos impomos à Sua atenção, mas nos retiramos silenciosamente e seguimos com nosso trabalho regular ordinário.

Qualquer discípulo, naturalmente, faria isso.

Ele estudaria primeiro a conveniência do Mestre, e quando considerasse que tinha algo importante a relatar, não pensaria em si mesmo, mas no Mestre.

Mas às vezes recém-chegados estão muito cheios da importância de algo que têm feito, ou que querem perguntar, e ficam por perto e se impõem à atenção do Mestre, de modo que Ele se desvia por um momento do que está fazendo.

912. O discípulo mais antigo é sempre extremamente cuidadoso quanto ao tipo de pensamento e sentimento que envia ao longo das linhas de comunicação entre si e o Mestre, para que não haja a menor perturbação.

Isso exige certo cuidado por parte do discípulo, porque muitas vezes há perturbações que os discípulos não podem evitar.

Numa grande cidade, por exemplo, deve haver frequentemente ambientes muito desagradáveis; numa multidão durante a hora de maior movimento do dia, em meio a um verdadeiro pandemônio de ruído, todo tipo de vibrações conflitantes e estrondosas impacta uma pessoa até certo ponto.

Pode-se proteger até certo grau, e deve-se de fato ter muito cuidado para que tais vibrações, se afetarem alguém, não sejam transmitidas ao Mestre.

(1 Ante, pp. 187-8.) Não é que o Mestre não pudesse lidar com tudo isso com um único pensamento, mas não se quer causar-Lhe um único pensamento; Seu tempo é tão precioso, a efusão de Sua força tão valiosa, que o discípulo não quer que a menor quantidade dela seja desperdiçada.

Ele vive para o trabalho, como o Mestre faz, e é parte de seu dever zelar para que a grandíssima beneficência que seu Guru estendeu a ele ao torná-lo uma parte externa de Si mesmo não cause o menor incômodo.

É fácil evitar que essas perturbações O alcancem, quando se chegou ao estágio de saber como fazê-lo. Enquanto isso, é a conquista dos desejos dos sentidos externos que dá a alguém o direito de entrar em tal contato com os Mestres que possa indagar d'Eles.

913. 17. Indaga do Íntimo, o Uno, seu segredo final que ele guarda para ti através das eras.

914. O Íntimo, o Uno, para a personalidade, é sem dúvida o ego, mas para o ego é a Mônada.

O que é para a Mônada não sei com certeza, porque ainda não posso ver a Mônada.

Pode-se ver o atma tríplice, que é a manifestação tríplice de uma Mônada, e disso muito pode ser deduzido; mas face a face não o vi. Nossos Mestres o veem, mas o que Eles veem e o que Eles sabem não podem nos contar plenamente; isso é bastante claro.

Diz-se que a Mônada é uma centelha do Fogo Divino, mas também acreditamos que na manifestação primal do sistema o Logos derramou a Si mesmo através de Seus sete Ministros — "os sete espíritos diante do trono de Deus". Não sei, mas imagino que, para a Mônada, que deve ter saído através de uma dessas cores flamejantes em seu caminho desde o Fogo Divino, aquele grande Ministro ou Espírito Planetário através do qual ela veio bem poderia ser o Íntimo — e assim raciocinamos até seres ainda mais elevados.

Essas coisas não são compreensíveis para nós, e não podem ser expressas em palavras.

De alguma maneira que significa muito pouco para nós e, no entanto, na meditação pode significar muito, Deus coloca parte de Si mesmo na matéria, e divide essa parte de modo que ela se torna espírito e matéria — duas manifestações da mesma coisa — e, ainda assim, tendo feito isso, Ele permanece por trás de tudo isso, ilimitado, onipresente, não afetado.

O Íntimo, o Uno, guardou segredos para nós através dos tempos, porque sempre, desde o princípio, o eu interior, a Mônada, conheceu certas coisas.

Não sabemos que coisas a Mônada conhece desde o princípio.

A Mônada é uma centelha do Fogo Divino, e o Logos, que é o Fogo Divino, conhece tudo.

915. O comentário sobre a décima sétima regra diz:

916. A grande e difícil vitória, a conquista dos desejos da alma individual, é uma obra de eras; portanto, não esperes obter suas recompensas até que eras de experiência tenham sido acumuladas.

Quando o tempo de aprender esta décima sétima regra é alcançado, o homem está no limiar de se tornar mais que homem.

917. Isso soa um tanto exagerado, mas devemos presumir que Aquele que escreve sabe do que escreve.

Devemos lembrar que tudo isso deve ser considerado em dois níveis.

Quando se trata dos desejos da personalidade e de serem deixados de lado em favor das aspirações da alma, certamente não é uma questão tão difícil.

Deixando de lado os desejos da alma individual pelos da Mônada subjacente é algo muito mais elevado, e quando se diz que isso pode levar eras, estamos preparados para admitir que bem poderia ser verdade; e, no entanto, uma vez que você tenha realizado isso em um estágio, fazê-lo novamente em outro estágio mais elevado não deveria apresentar dificuldade intransponível, porque o que precisa ser feito é a mesma coisa, embora de um ponto de vista inteiramente diferente.

Levará, sem dúvida, eras para aqueles que trilham lentamente a ampla estrada principal do progresso humano, mas geralmente apenas algumas vidas, como vimos, para aqueles que agora entram no Sendero e enfrentam a encosta da montanha.

918. Quando se vislumbra por trás do véu os planos da Hierarquia, descobre-se que Eles habitualmente falam em grandes números.

Eles traçam Seus planos com uma certeza maravilhosa, quase fatal, e pareceria que nada pode interferir com eles.

Eles distribuem Seu futuro em blocos de cerca de dez mil anos, e dizem: "Nestes dez mil anos realizaremos tal e tal trabalho." E o realizam. No entanto, esse trabalho não se distribui necessariamente de maneira uniforme ao longo desse bloco.

Parece-me, pelo que observei, que poderia haver um plano traçado no qual uma certa quantidade deveria ser feita nos primeiros duzentos anos, tanto no seguinte, e assim por diante, de modo que ao final de mil anos uma meta definida fosse alcançada.

Pareceria que nessas divisões menores de duzentos anos a proporção prescrita de trabalho nem sempre é alcançada; contudo, o que Eles calcularam realizar no curso do bloco maior de mil anos é sempre feito.

Quando o trabalho avança lentamente no início, ele se apressa no final.

919. As pessoas ou nações a quem a oportunidade de realizar o trabalho é primeiramente oferecida nem sempre a aceitam, mas há sempre um substituto sendo preparado.

Se um homem ou uma nação falha, a próxima linha é trazida e o trabalho é feito, embora possa ser um pouco atrasado.

O Império Britânico teve uma prova dessa natureza em conexão com a grande guerra.

Como um todo, ele se elevou à emergência e provou ser digno.

Se não o tivesse feito, outra grande nação estava sendo preparada para tomar seu lugar, mas teria realizado o trabalho um século ou dois depois, porque está muito atrás.

Agora, porque até agora temos correspondido à nossa oportunidade (e espero que continuemos a fazê-lo até o fim), aquela outra nação terá mais tempo para se desenvolver e, portanto, progredirá de forma mais sólida e mais fácil, e não sofrerá tamanha tensão em seu desenvolvimento quanto teria sofrido se tivéssemos falhado.

920. A Sociedade Teosófica, e também cada membro dela, encontra-se em posição um tanto semelhante.

Qualquer membro que se mostre bom no trabalho geral, ou dê sinais de que o será num futuro próximo, será provado com alguns dos esforços que estão sendo feitos em conexão com a fundação da sexta sub-raça de nossa raça ariana.

Em tudo isso, naturalmente, não há recrutamento nem compulsão; todos evoluirão para a perfeição mais cedo ou mais tarde, e podemos levar todo o tempo que quisermos.

A política mais sábia é fazer o melhor que pudermos de maneira constante, sem nos colocarmos sob uma tensão que não possamos suportar permanentemente.

É uma vantagem considerável, ao fazer qualquer parte desse trabalho, saber a qual dos raios se pertence.

A maioria de nós na Sociedade Teosófica está em um dos cinco raios, numerados de três a sete, mas muitos estão em processo de transferência para o primeiro e o segundo raios, a fim de trabalhar sob os dois grandes Mestres que fundaram a Sociedade, e que serão o Manu e o Bodhisattva da sexta raça-raiz, que será estabelecida daqui a cerca de setecentos anos.

Muitos dos nossos nascerão nessa raça, mas há outros que preferirão continuar trabalhando na quinta raça e ajudar a conduzi-la à perfeição que ainda lhe está reservada. Outros preferirão acompanhar os grandes gênios que certamente virão à quinta raça-raiz em seu ponto mais elevado, em vez de seguir os dois Mestres no trabalho pioneiro da nova raça.

921. Na Austrália e na América, e em alguns outros lugares, há agora uma oportunidade especial para aqueles que desejam ajudar no desenvolvimento da sexta sub-raça, porque ela está rapidamente surgindo ali, enquanto nos países mais antigos há apenas membros isolados dela.

Muitos dos que foram mortos na grande guerra já renasceram, embora nada até agora indique que estejam abandonando seus antigos países para vir às terras mais novas.

Aqueles do novo tipo racial que permanecem nos países antigos provavelmente terão mais dificuldades a enfrentar do que os outros, devido à pressão de ideias antigas e costumes conservadores.

922. Em todos esses empreendimentos, ninguém é jamais indispensável.

Quanto ao nosso próprio movimento teosófico, podemos estar bem certos de que os Grandes Seres por trás dele cuidarão do conjunto.

Somente ultimamente, desde que tive que retomar boa parte do trabalho eclesiástico, descobri quão de perto essa organização está sendo dirigida, quão íntima pode ser a relação entre aqueles que guiam a Igreja aqui embaixo e a verdadeira Cabeça da Igreja por trás, se aqueles que trabalham aqui embaixo se tornarem canais como deveriam ser. Que em muitos casos não o fizeram, mas trabalharam para seu próprio poder e interesse egoístas é lamentavelmente verdadeiro, e aqueles que assim agiram cortaram de si mesmos um vasto campo de poder espiritual, utilidade e eficiência que poderiam ter tido.

Mas foi somente bem recentemente que descobri quão tremendas são as possibilidades e quão ignorantes a maioria das pessoas é delas, e estou bastante certo, pelo que já vi, de que o mesmo deve ser verdadeiro em muitas outras direções inteiramente insuspeitas.

923. Nunca mais me surpreenderei ao encontrar vestígios do trabalho da Grande Loja Branca em qualquer coisa que seja boa em qualquer lugar, seja ela pequena ou grande, pois Eles não perdem oportunidades, nem mesmo as menores; onde quer que haja algo de bom em qualquer movimento, exatamente na medida desse bem ele está sendo utilizado.

Pode haver muito no movimento que não seja bom; isso é lamentável, e tem de ser posto de lado, mas isso não parece interferir no emprego que Eles fazem de cada parcela de bem que de fato existe nele. Pode haver intolerância, perseguição, orgulho, egoísmo e muitas outras qualidades indesejáveis em algum movimento ou pessoa.

Há trinta anos eu poderia ter pensado que essas qualidades provavelmente impediriam que seu possuidor fosse utilizado de todo.

Elas de fato se colocam seriamente em seu caminho e o impedem de fazer qualquer progresso real, mas se há alguma boa qualidade nessa pessoa, na medida dessa boa qualidade ela está sendo usada.

924. Este método da Fraternidade é dos mais encorajadores.

Todos nós estamos bem conscientes de estarmos tão longe da perfeição que talvez pudéssemos pensar: "Como pode um Mestre fazer uso de algo em mim, quando eu erro tantas vezes?" Mas é nosso dever fazer o nosso melhor, e então, o que quer que haja de bom em nós, Ele usará.

Ao mesmo tempo, isso nos impõe um dever ainda maior: livrar-nos daquilo que dificulta que Ele nos use. Ele nos usará tanto quanto puder; facilitemos-Lhe a tarefa, tornando-nos canais perfeitos.

925. Há muitas linhas de desenvolvimento para os seres humanos, e são necessárias muitas vidas para desenvolver perfeitamente as características de qualquer linha.

Passei a maior parte desta vida desenvolvendo o lado psíquico da minha natureza, aprendendo a ver clarividentemente e escrevendo sobre isso. Encontrei em nossa Sociedade, e trabalhei com, Sir William Crookes; esse homem passou a vida no estudo da química, e a conhecia perfeitamente.

Repetidas vezes senti: "Se ao menos eu tivesse o seu conhecimento, ou se você tivesse a minha clarividência, que trabalho poderíamos fazer!" Parece uma pena que não se possa ter em uma única vida ambas essas formas de desenvolvimento.

Leva-se uma vida inteira para dedicar-se a cada uma.

Ele passou a vida estudando química; e retornará em sua próxima encarnação não com o conhecimento detalhado, mas com a faculdade que absorverá tudo isso quase automaticamente.

Passei esta vida desenvolvendo o lado psíquico.

Não sei o quanto conseguirei transmitir ao meu próximo corpo, mas levarei comigo o máximo que puder.

Então começarei por uma dessas outras linhas, se o trabalho o permitir; mas, enquanto isso, aqueles que estão dispostos a fazer nosso trabalho especial são designados para fazê-lo, e não temos muito tempo para outras coisas.

Devemos alcançar todas as coisas uma a uma; elas virão, pois não perdemos uma quando a deixamos de lado e assumimos outra.

Assim, se nesta vida tivermos o desenvolvimento teosófico, então na próxima vida a abertura do intelecto e da devoção elevada poderá vir muito mais facilmente, porque nesta vida tivemos esse treinamento, e haverá a grande vantagem adicional de que estaremos praticamente certos de não fazer mau uso deles quando os obtivermos.

926. Devemos avançar rapidamente.

Podemos estar muito mais próximos do que imaginamos do desenvolvimento superior.

Se tivermos de passar uma vida ou duas adquirindo essas capacidades, o que é isso? Há muito tempo diante de nós, então elevemos nosso objetivo, e tentemos desenvolver tudo o que pudermos em termos de espiritualidade, intelecto e conhecimento interior.

Estamos cavando através de um muro de ignorância e preconceito que construímos ao nosso redor no curso de muitas vidas; somos como um homem tentando escapar de uma prisão.

Ele continua cavando; não sabe em que momento a picareta atravessará a parede; quando a recompensa for devida, ela virá subitamente.

Temos muitas coisas ainda a alcançar, mas talvez o desenvolvimento venha rapidamente; para isso, devemos seguir os Seus passos e aprender o que Eles desejam que aprendamos.

927. A Regra 18 é mais uma vez um comentário do Chohan.

Ela adverte o aspirante a nunca perder sua cautela e vigilância, mas sempre a temer a si mesmo, como disse um filósofo romano, mesmo que tenha deixado de temer qualquer outra coisa.

928. 18. O conhecimento que agora é seu só é seu porque sua alma se tornou una com todas as almas puras e com o íntimo.

É uma confiança depositada em você pelo Altíssimo.

Traia-o, use mal o seu conhecimento ou negligencie-o, e ainda agora é possível cair do elevado estado que você alcançou.

Grandes seres caem para trás, mesmo do limiar, incapazes de sustentar o peso de sua responsabilidade, incapazes de seguir adiante. Portanto, olhe sempre adiante com temor e tremor para este momento, e esteja preparado para a batalha.

929. Que grandes seres caiam para trás mesmo do limiar parece impossível; quanto mais perto você se aproxima do nível deles, mais incrível isso parece, porque qualquer coisa como egoísmo pareceria totalmente impossível ao homem nesse estágio.

No entanto, deve ser assim, porque é dito por alguém que sabe do que fala.

O pensamento do eu é muito sutil e surge em formas inesperadas em níveis onde não deveria existir tal coisa.

Portanto, faremos bem em atender ao aviso, e não pensar cedo demais que estamos a salvo dos ataques do egoísmo.

Esse é o único grilhão que pode nos segurar, mas tem muitas formas, e é muito sutil de fato.

930. Os três últimos aforismos formam mais uma vez uma série; no número 19 há um comentário preparatório do Chohan:

931. 19. Está escrito que para aquele que está no limiar da divindade nenhuma lei pode ser formulada, nenhum guia pode existir.

932. O discípulo neste estágio está totalmente além da necessidade de ensinamento externo.

Ele leu o livro da natureza em todos os cinco planos da evolução humana.

Ele está no ponto de conquista do último grilhão — avidya.

De agora em diante, a lei de sua vida vem totalmente de dentro de si mesmo.

Portanto, nenhum comentário é possível.

Diz o Chohan:

933. Ainda assim, para esclarecer o discípulo, a luta final pode ser assim expressa:

934. Então vêm as três regras:

935. Apega-te firmemente àquilo que não tem substância nem existência.

936. 20. Ouça apenas a voz que é silenciosa.

937. 21. Olhe apenas para aquilo que é invisível tanto para o sentido interno quanto para o externo.

A PAZ ESTEJA COM VOCÊ